terça-feira, 13 de setembro de 2011

O fim de uma curta jornada

Amanhã, 14 de setembro, vou-me embora para Brasília, depois de exatos 12 meses trabalhando em São Gabriel da Cachoeira. Não foi fácil... não foi justo... não houve lealdade... foram dias, meses complicados, repletos de contradições e enganos... mudei alguns conceitos, fortaleci outros, aprendi muito e me dediquei completamente ao propósito de ser útil a essa população.

Não deu certo e fui vencido pela burocracia, pelas traições, pelas ambições pessoais... era um jogo de cartas marcadas e eu não percebi as artimanhas do "poder" aqui e em Brasília; não tive tempo para me defender, ocupado que estava em realizar um trabalho sério e comprometido com a causa indígena. Depois, percebi que esta causa era inglória, para mim e para os indígenas, manipulados por suas lideranças incompetentes e desonestas.

Mas agora já não importa mais, pois estou de volta para minha família. Deixo poucas lembranças e pouquíssimos amigos. Mas saio com a certeza do dever cumprido, e isso é o que me importa. Àqueles que tramaram contra mim, fica meu desprezo. Lambuzem-se com esse falso poder conquistado por vias tão medíocres! Eles se merecem, infelizmente...

Não poderia ir embora sem manifestar, mais uma vez, minhas profundas mágoas, não pela oportunidade perdida de realizar um excelente trabalho, mas pela vileza desse povo que hoje domina essa instituição federal. Quanto dinheiro desperdiçado só para satisfazer os donos do poder! Quanta mentira existe por detrás de discursos políticos e promessas quase eleitoreiras! Perdi até mesmo minha crença nos destinos desse nosso país, dominado por um grupo que não sabe o que é liberdade e democracia! Cessam em mim as intenções políticas, o entusiasmo ideológico, a luta pela Justiça, pela Natureza, pelas causas sociais...

Muito tempo passará até que eu possa me recuperar dessa que foi minha pior decepção. Talvez nunca mais eu tenha vontade de abraçar novas causas; talvez eu me decida por abandonar meus monólogos neste blog, meu confessionário de idéias, meu cadinho de reflexões acerca do pensamento contemporâneo nesse país devastado pela corrupção.

Fica, para mim, a grata sensação do retorno, do reencontro com minha família tão querida, a quem sacrifiquei em defesa de um ideal que não deu certo, que já não existe mais... adeus São Gabriel da Cachoeira! Adeus meus raríssimos amigos! Adeus à população indígena que é enganada pelas "políticas públicas" do falso indigenismo desta FUNAI que eu não gostaria de preservar como meus "patrões". Servidor Público? "BLAGH!"

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Núcleo de Cultura Política do Amazonas - NCPAM: A FUNAI SOB O TACAPE DOS TUKANOS

Núcleo de Cultura Política do Amazonas - NCPAM: A FUNAI SOB O TACAPE DOS TUKANOS: Leiam o artigo preconceituoso e beligerante do Núcleo de Cultura Política do Amazonas, com a participação de falsos líderes indígenas, cujo objetivo foi destituir a estrutura de comando da FUNAI em São Gabriel da Cachoeira, com a omissão de Brasília. Leiam, na íntegra, minhas considerações sobre esse golpe da FOIRN sobre uma Instituição Federal. Pasmem com a falta de respeito, seja das autoridades omissas, seja dessa "ong" irresponsável! Acesse o link: http://www.ncpam.com.br/2011/05/funai-sob-o-tacape-dos-tukanos.html

sábado, 27 de agosto de 2011

SÓRDIDO!

É triste este mundo... comecei a trabalhar em 1.972, há 40 anos... pensei conhecer um pouco da alma humana, mas depois desses quase 12 poucos meses nesta terra, percebi que nada sei, que não estou preparado para a sordidez humana, que não tenho os atributos e as armas necessárias para enfrentar esse tipo de inimigos... estou pasmo! Em tão pouco tempo, sepultei minhas crenças, minha ideologia, meus mais profundos ideais de contribuir para a redenção de um povo sofrido, ultrajado, humilhado e desencantado por tantos anos de dominação... pensei até que eram os brancos os responsáveis por essa tirania... mentira! Os homens são iguais em qualquer arena, sob qualquer bandeira política, por debaixo de qualquer interesse!

Meus companheiros de trabalho me traíram... os líderes dessa população interétnica traíram seus próprios companheiros! As autoridades máximas do movimento indígena traíram, descaradamente, esses povos! O que nos resta? A que viemos, se não temos, entre nós, as pessoas, os profissionais capazes de romper com a exploração dos povos indígenas? A ambição humana não tem limites e é capaz de qualquer coisa para obter insignificantes benefícios pessoais em troca da deslealdade, da entrega de si mesmos por cargos!

Ao me candidatar ao serviço público acreditei que existia uma ética, princípios que norteavam as decisões, que conduziam as pessoas a pensar acima de seus interesses individuais, a buscar valores que a sociedade capitalista havia deixado no passado... mas não! São todos iguais... não, são todos piores, mesquinhos, medíocres, primatas! Sua ambição não tem limites, pois buscam interesses menores em suas ações!

O pior de tudo é que me entreguei de corpo e alma a esse propósito, desafiei autoridades, manifestei publicamente minha fé nos seres humanos, declarei minha opção pelos pobres e até abri mão de minha família para lutar em defesa de ideais maiores, duradouros, perenes, incorruptíveis... para concluir, no final, que são todos desleais, movidos por interesses mesquinhos e imediatistas, por cargos, por posições sociais!

Agora só me resta voltar, renunciar, esquecer esse triste passado que enterrarei nas areias do Rio Negro... que me perdoem as populações indígenas, não suas lideranças corruptas, mas os povos humildes e traídos por pessoas incompetentes e desonestas, mas não tenho alternativas. Volto à minha vida passada na esperança de encontrar outras razões para perseverar, para enterrar esse curto período de equívocos...

Não sei mentir, não sei enganar, não sei trair... por isso, vou-me embora, com muitas mágoas e um imenso sentimento de frustração perante essa realidade perversa que conheci aqui. Não levarei lembranças, não deixarei memórias de minha passagem por aqui, pela simples razão de que não existem pessoas dignas, no meio em que atuei, de guardarem, de mim, recordações relevantes... fiquem eles com suas ambições menores... eu buscarei outros caminhos pois, se não os encontrar, não terei razões para existir!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Novamente, as eleições!

Ainda faltam meses... um ano, na verdade! Mas já nos sentimos ofendidos pelas propagandas estúpidas e mentirosas dos políticos e dos partidos que temos, e que nos envergonham nos noticiários.
Partidos que nem sequer sabemos que existem, por que existem e o que defendem em suas "doutrinas ideológicas"! Creio que seus dirigentes nem sabem o que isto significa. A Presidência fala de progressos que não percebemos: milhões de empregos, sociedade igualitária, obras magníficas, solução para todos os problemas desse povo sofrido e ignorante... sim, ignorante, que não sabe votar, que é manipulado descaradamente, que é levado a pensar que existe solução para tudo, que o petróleo do fundo do mar mudará suas vidas para sempre, que haverá moradia decente e digna para suas famílias, e que a primavera florescerá para todos!

Mentira! Continuamos fingindo para nós e para o mundo! Os pobres serão sempre as vítimas, nem tão inocentes quanto deveriam, dos poderosos, exibidos às claras nas novelas globais que, no entanto, falam de reinos maravilhosos, da nobreza que ainda existe no imaginário de toda gente que vota nos "bacanas" ou nos "babacas", que aposta na megassena, que vislumbra o paraíso nas crendices de suas religiões simplórias! Continuamos acreditando nas promessas dos candidatos e votando no lixo intelectual dos "tiriricas da vida"!

Enquanto isso, nossa educação pública se vangloria dos péssimos índices de qualidade que, sendo genéricos e nacionais, não refletem a verdadeira situação dos guetos de pobreza que se dispersam nos sertões do Brasil. Nossa política ambiental decreta o fim de nossas reservas naturais, que continuam sendo dizimadas às claras, à luz do dia, por políticos latifundiários, capitaneados pela famigerada e poderosa "bancada ruralista", amparada por políticas exportadoras de produtos primários e importadora de alta tecnologia. Enquanto isso, ouvimos diariamente as promessas de uma Copa do Mundo salvadora, de uma Olimpíada que resgatará a imagem perversa que têm os povos cultos do mundo com relação à nossa gente.

E as eleições virão para confirmar nossa incompetência em escolher gente digna e honesta e que comprovará que esse modelo de "democracia" está falido e podre, servindo apenas para perpetuar no poder aqueles que compactuam da safadeza e usufruem das benesses da corrupção, do empreguismo e do vandalismo de nossos valores culturais. O que sobra desse país, senão um povo ludibriado e passivo? O que restou da juventude dos "anos de chumbo", daqueles que deram suas vidas pela liberdade de expressão, pela dignidade humana? Se éramos minoria diante dos terrores da ditadura, ao menos tínhamos ideais e lutávamos pela ética na política e pela justiça social. Agora, os partidos que ajudamos a criar nos traem descaradamente, buscam parcerias com o inominável poder daqueles que no passado nos torturaram nas celas das prisões ilegais e desumanas! Eles estão por toda parte, galgando cargos e pisando nas cabeças daqueles que deram seu sangue para o bem do país...

Agora virão novas eleições para vereadores, prefeitos, deputados, senadores... e veremos, mesmo que contra nossa vontade, perfilarem diante de nós, nas telinhas da tv, qual bandidos sendo expostos à identificação pública, os mesmos, os novos, os sempre políticos imorais que combatemos no passado. Se me perguntarem de novo, direi que não valeu a pena nossa geração se perder na luta inglória, assim como não vale a pela defender princípios éticos, ideologias que já não servem para nada, pois o futuro dessa geração de agora está sendo desenhado em um rascunho indecente e imoral... tenho pena dos que virão depois de mim...

sábado, 16 de julho de 2011

AS LEIS DOS HOMENS E AS LEIS DOS ÍNDIOS


Muitos podem estranhar a dicotomia “homens – índios”, mas ela foi proposital, para evidenciar o imenso abismo que separa as civilizações ocidentais pós-colonialismo das populações ameríndias que ainda habitam nosso continente. Talvez também estranhem o advérbio “ainda” nesta declaração, e também ele foi deliberadamente escolhido para expressar minha convicção de que essas populações deverão, inevitavelmente, ser absorvidas por nossa sociedade civilizada, e isto já está acontecendo, porém da pior forma possível, dada a resistência de suas lideranças em compreender as nossas regras.

E aqui começa nossa dissertação.
Se um povo depende de outro para sobreviver, sua identidade cultural está seriamente ameaçada. Se dessa dependência decorre a aplicação de políticas diferenciadas que ignoram a autodeterminação desses povos, percebemos o equívoco histórico que estamos vivendo. Essa política se modificou ao longo dos séculos, mas não perdeu sua principal característica de assistencialismo, de diferenciação étnica e de preconceitos. E isso é fácil de explicar: quando Adolf Hitler estimulou o conceito de povos Arianos para demonstrar a supremacia étnica dos alemães, estava criando um dos piores precedentes de nossa história, o que nos levou a um dos piores conflitos étnicos desde a Idade Média.
Hoje, com os indígenas, estamos fazendo o mesmo ao admitir que eles professem a doutrina da superioridade étnica de seus povos. Existem mais de cem etnias indígenas no Brasil, cada qual em diferentes estágios de “aculturação”. Esta palavra pode também supor um preconceito, fazendo-nos crer que nossa sociedade nacional é superior à dos indígenas. Mas não é suposição, pois em muitos aspectos evoluímos, com muito esforço, muitas guerras, muitas tragédias, criando conhecimentos altamente avançados e que determinam nossa existência neste mundo contemporâneo. Os índios não.
Vamos aos fatos. Se fôssemos sentir remorsos pelas barbáries perpetradas por nossos antepassados ao longo dos últimos mil, cinco mil, dez mil anos, passaríamos nossas vidas tentando compensar povos que foram vítimas das atrocidades humanas. Porém, não fomos nós que matamos Jesus Cristo, não fomos nós que assassinamos milhares de homens e mulheres na Idade Média em nome de um poder sagrado e corrupto, não fomos nós que assassinamos seis milhões de judeus, não fomos nós que fizemos uma “limpeza étnica” na guerra do Paraguai, não fomos nós que escravizamos negros para nos servir na agricultura e nas casas dos senhores feudais e dos barões do café.
Não fomos nós que torturamos estudantes em toda América Latina pela simples razão de que esses jovens queriam uma sociedade justa e igualitária! Não seremos nós que redimiremos a sociedade de seus crimes hediondos! Não há como fazê-lo! Mas vivemos hoje, devastamos as florestas, matamos animais selvagens, provocamos desastres naturais cada vez mais ameaçadores através do aquecimento global, e discriminamos os índios sim, assim como os índios discriminam os “brancos”! Por que isso acontece?
Pela simples razão de que os antropólogos que manejam as políticas públicas indígenas se sentem na obrigação de compensar os crimes do passado com uma tolerância inaceitável e injustificável, capaz de romper o tênue equilíbrio que poderia existir na transição dessas populações, de seu estágio de selvageria para a integração com a sociedade ocidental, caucasiana, branca, capitalista, ambiciosa e devastadora!
Não existe a possibilidade dessas sociedades primitivas conservarem suas tradições. Isso é pura fantasia de uma parcela minoritária de nossa sociedade que, infelizmente, controla as políticas indigenistas desse imenso país. Se hoje existem cerca de 700 mil índios espalhados por todo território nacional (0,35% de nossa população), a maior parte desse povo está integrado à população urbana e rural, sendo discriminado justamente porque ainda preserva traços de seus antepassados, compondo assim o mosaico de minorias negras, indígenas, pardas, que não encontram meios de superar seu desnível social.
Para os índios que ainda vivem de forma primitiva, mesmo falando nossa língua e tendo absorvido boa parte de nossos vícios perversos, como a bebida, as drogas, a prostituição, o consumo de produtos industrializados de baixa qualidade e discutível procedência, para esses povos, ainda existe um preconceito reverso: as Leis dos Brancos não se aplicam aos Índios! Essa inversão de valores produzida por falsos líderes não diz que eles ainda são índios porque algumas dessas “leis brancas” concedem privilégios absurdos às populações indígenas, garantindo-lhes, inclusive, a impunidade de seus atos mais hediondos, como matar recém-nascidos apenas porque são deficientes, ou são mulheres quando se esperava um menino, ou simplesmente porque são nascidas fora do casal.
A “Lei dos Brancos” é generosa: garante verbas federais, estaduais e municipais para que essas populações continuem a fingir que são tradicionais e que preservam sua “cultura milenar”! Ano após ano o Governo investe em projetos destinados a reverter a situação de miséria dessas populações, mesmo sabendo que o modo de vida indígena não pode ser comparado à miséria, mas é devido a seus hábitos alimentares e seu modo de produção.
E continuamos fingindo que tratamos diferenciadamente esses povos e que cuidamos de suas “tradições milenares”, que não passam de parcos conhecimentos de agricultura, noções equivocadas de astronomia e dos ciclos da Natureza, danças e cantos singulares. Matéria para os antropólogos, que se deleitam em conservar esses conhecimentos, muitas vezes à revelia dos próprios índios, ou tentam resgatar um modo de vida que já não existe mais. Nas antigas aldeias, hoje “comunidades”, a cachaça substituiu o caxiri e as ervas alucinógenas dos ritos sagrados; estes, por sua vez, foram substituídos pelas crenças cristiânicas; as danças são realizadas como se fossem um padrão nacional, com sua marcação métrica simples, batendo o pé direito no chão, tocando um acorde primário na flauta PAN trazida dos Andes, usando roupas ocidentais e algumas plumas de extremo mau gosto. Raríssimas são as “tribos” (esse nome foi banido pelos padres) em que ainda existem rituais tradicionais; mesmo esses, no entanto, tendem a se tornar apenas ritos para turistas apreciarem, como acontece hoje com as tribos norte-americanas.
Aqui na bacia do Rio Negro, os únicos indígenas que ainda preservam suas tradições são os Yanomami e, mesmo estes, somente nas comunidades mais isoladas, de difícil acesso, onde os hábitos nômades e a nudez explícita nos remetem aos antigos paradigmas dos índios que ilustram as pinturas da época do Descobrimento. Nesses pequenos grupos de indivíduos, vivendo em comunidades (“Xaponos”), a desnutrição é a marca registrada e o preconceito não é dos brancos, mas das outras etnias, que os consideram primitivos!
Já a “Lei dos Índios” é oportunista e manipulada apenas pelos falsos líderes que usufruem do poder delegado pelos brancos, que querem ver neles os profetas que salvarão seus povos das desgraças causadas pela sociedade nacional à qual pertencem, mas se recusam a reconhecer. Essa lei é seletiva: extraem dela o que é conveniente ao uso que fazem do poder, mentindo ao seu povo em benefício de si mesmos, convencendo os políticos e antropólogos que o poder se transmite pela vontade humana; não é conquistado pela competência, pela honestidade, pelos princípios éticos que deveriam nortear a vida de todos os brasileiros, índios, negros, brancos, mulatos, mamelucos...
Não há futuro para as “nações indígenas” no Brasil e no mundo. Nosso processo civilizatório os levará, inexoravelmente, ao desaparecimento, assim como a todas as minorias étnicas, e talvez isso não seja tão ruim quanto parece. Pelo menos, teremos extirpado o preconceito racial e, ao mesmo tempo, teremos mitigado nossa “culpa”, nosso “pecado original” de ter exterminado tantos seres humanos ao longo de nossa história!

sábado, 2 de julho de 2011

Antropologia, Administração Pública e Hipocrisia

Existe uma visão romântica, por parte dos antropólogos, de que é possível o desenvolvimento das populações indígenas, preservando suas tradições e, ao mesmo tempo, dando-lhes condições para o desenvolvimento econômico e social nos moldes ocidentais capitalistas. Acreditam eles na capacidade das lideranças indígenas de gerir seu próprio destino, mantendo, contudo, sua visão de mundo, sua cosmogonia, e sendo "empoderados" (empowerment" não tem tradução em português, mas é assim que eles caracterizam a transmissão do poder branco para os índios) pelas instituições que cuidam dos interesses dessas populações, como a FUNAI, o ISA, a igreja católica, as seitas evangélicas...

É um grave equívoco pois, na sua simplicidade de entendimento do Universo, os indígenas ainda se mantêm fiéis a seus xamãs, mas assistem novelas, participam das redes sociais e ouvem músicas populares, fazendo suas escolhas conforme seu estágio intelectual permite. É essa contradição que coloca em risco essas populações pois, incapazes de selecionar o bem e o mal de nossas sociedades, escolhem o primitivo mau gosto que permeia esses canais de comunicação contemporâneos. Da mesma forma, incapazes de compreender a complexidade de nossos mundos políticos e sociais, tentam adaptar suas formas primitivas de associação à sua atuação como líderes, tornando toscas e ridículas (em nossa visão complexa) suas iniciativas primárias.

Não existe atalho para o desenvolvimento intelectual.

A FUNAI, hoje administrada por um intelectual, um antropólogo, profundo conhecedor dos saberes indígenas, segundo sua própria interpretação desses saberes traduzidos para os trabalhos acadêmicos e para o entendimento ocidental, essa instituição regida por esse maestro não percebe o estrago que produz nas sociedades primitivas desses indígenas travestidos de povos civilizados. Não há preconceito no que afirmo; apenas a constatação de nossa incapacidade de transportar essas visões de mundo para a realidade intensamente urbana de nossas próprias populações.

Disse-me um dirigente de uma ONG que atua no Rio Negro que esse "empowerment" das lideranças indígenas terá que ser feito, ainda que à custa de enormes quantias desperdiçadas de recursos públicos e de anos de investimento em lideranças, hoje incapazes de entender o arcabouço da Administração Pública. Prova disso é o fracasso da gestão pública municipal em São Gabriel da Cachoeira e a própria gestão pública da FUNAI Rio Negro por um indígena. Essas populações foram enganadas pelos acadêmicos, que incutiram neles a necessidade de gerir seus próprios destinos, e ao mesmo tempo preservar suas culturas tradicionais.

Em primeiro lugar, há que se perguntar "a que culturas e a que tradições" eles se referem pois, salvo raríssimas exceções, a maior parte dessas populações foram, ao longo de cinco séculos, adaptadas a crenças impostas pela igreja católica, que os privou de seus saberes ancestrais, considerados profanos, equivocados e satânicos pelos religiosos. Hoje, as seitas evangélicas concorrem nesse mister de acabar com as tradições xamânicas dos povos indígenas. Essas populações que viviam em pequenas aldeias, em um único teto (as malocas das "tribos" do Alto Rio Negro e os xaponos dos Yanomami), obtendo seu sustento das águas dos rios, das matas da floresta e das roças de mandioca, hoje vivem na dependência dos produtos industrializados, da caça com rifles, da pesca com tarrafas e redes, da exploração sem controle dos recursos naturais, inclusive do garimpo, da extração de madeira, da venda de peixes ornamentais e do "aviamento", mecanismo perverso de comercialização de cipós e palhas extraídas da Natureza.

Não são mais autônomos: dependem dos brancos para sobreviver! E pior do que isso, recebem como pagamento as migalhas da civilização ocidental e, o que era um modo simples de viver, hoje é miséria! Para deleite dos antropólogos, essas populações pensam que preservam suas tradições, tomando caxiri com cachaça, vestindo calças jeans e tocando flutas PAN. No entanto, os antigos Tuchauas agora são Capitães, escolhidos nos moldes das eleições sindicalistas, em assembléia, que eles assimilaram como se fossem as tradicionais reuniões dos idosos, dos anciões das aldeias que já não existem mais. Se viviam em pequenos grupos de cinco a dez famílias, hoje possuem pequenas cidades de até três mil indivíduos, e as brigas, a bebedeira, e as "virtudes" de nossa civilização tomam conta de seus costumes: o Caxiri foi transformado pela Cachaça; as drogas, a prostituição, a violência passaram a fazer parte de seu cotidiano, mas esses mesmos intelectuais debitam isso aos comerciantes brancos e sem caráter. Não é verdade, são eles, esses mesmos intelectuais que pactuaram com a preservação do que já não existe e cobram dos indígenas posturas e crenças que ficaram no passado. Hoje eles estão em toda parte: na política, na corrupção e nos descaminhos da vida.

Se acreditamos que esse é o modelo de civilização que os indígenas querem para seu povo, nós é que estaremos sendo hipócritas, surrupiando-lhes aquilo que é mais sagrado: o seu direito à autodeterminação, que não se constrói com políticas públicas corruptas, nem com conselhos intelectualóides e traiçoeiros de quem nada tem a perder com o destino cruel que está sendo construído para esses povos. Agora querem abandoná-los à própria sorte, colocando um ser despreparado intelectualmente para gerir a máquina pública, sob a batuta de um TUTOR constituído pelos conselhos das ONG´s ou pelos dirigentes supremos da FUNAI, que se julgam melhores do que seu próprio corpo de profissionais.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Minha exoneração

Para: Marcio Augusto Freitas de Meira
MD Presidente da FUNAI - Fundação Nacional do Índio
Assunto: Minha exoneração

Senhor Presidente,

Quando fui convidado a assumir a Coordenação Regional do Rio Negro sabíamos das dificuldades que iríamos enfrentar, depois de anos de má administração e de péssimo desempenho. Mesmo assim, aceitei o desafio, certo de poder contar com seu apoio e de toda Diretoria. Desde então já se passaram quatro meses, e poucas respostas tivemos às nossas reivindicações. Mesmo assim, com o apoio de alguns dos novos servidores, conseguimos superar muitas dificuldades e apresentar planos para a reestruturação da FUNAI em São Gabriel da Cachoeira e nas nove CTL´s hoje desativadas.

Porém, agora percebo a inutilidade de nossos esforços, uma vez que não interessa ao Movimento Indígena ter um trabalho sério, honesto e digno, pois isso vai de encontro aos interesses particulares dos diretores da FOIRN, acostumados com as benesses da parceria com o poder econômico desta instituição, e beneficiados pelo constante pagamento de diárias em eventos sem nenhum resultado concreto.

Como já lhe disse anteriormente, estou acostumado a apresentar resultados sem favoritismos, já que trabalhei durante 35 anos para a iniciativa privada, onde essas práticas abomináveis costumam ser punidas com a demissão sumária de gerentes. Tive uma carreira da qual me orgulho, pela sucessão de excelentes resultados que gerei nas grandes organizações para as quais trabalhei. E não quero macular meu nome.

Sendo assim, e diante das evidências de que nada se muda na Fundação Nacional do Índio, decidi por minha exclusiva vontade solicitar a exoneração dos cargos de Substituto do Coordenador Regional, de Chefe de Divisão e de Ordenador de Despesas, retornando ao cargo para o qual fui conduzido em concurso público: Agente em Indigenismo.

Considerando-se que, depois dessa decisão, pouco haverá que eu possa contribuir para a instituição, em São Gabriel da Cachoeira, e diante das frequentes ameaças a que venho sendo submetido, sem reclamar a ninguém, tendo assumido por minha própria vontade os riscos a que estava exposto, solicito também minha remoção para a Sede em Brasília, onde poderei contribuir nas áreas de Informática, de Etnodesenvolvimento ou de Geoprocessamento, com as quais tenho grande familiaridade e competência.

Justifica-se, também, esta solicitação pelo fato de que minha família (esposa, filha e neto) residirem em Brasília, local onde minha esposa é servidora pública, vinculada ao Governo do Distrito Federal, na área de Saúde Pública. Dessa forma, permanecerei como servidor público em São Gabriel da Cachoeira até que esta situação seja definitivamente resolvida.

Peço-lhe que seja designado imediatamente um substituto para os cargos que eu ocupava, pois não tenho nenhum interesse em continuar com essas obrigações.

Sendo esta a declaração de minha vontade, e sendo este um pedido em caráter irrevogável, agradeço sua atenção e providências, reiterando meus mais elevados protestos de estima e consideração.

Atenciosamente,

João Carlos Figueiredo
ex-Coordenador Regional do Rio Negro, AM
Portaria FUNAI Nº 204/PRES, de 07/02/2011

domingo, 19 de junho de 2011

O Dilema da Emancipação Étnica

 Este é o tempo em que minorias assumem o protagonismo de suas vidas e, no entanto, mesmo entre essas populações marginalizadas há um tratamento desigual e injusto. Senão, vejamos: enquanto os descendentes das tribos africanas são, no máximo, considerados “quilombolas” e confinados em territórios onde, na maioria das vezes, mal é possível a sobrevivência, os descendentes dos povos tradicionais da América do Sul são tratados como nações independentes, com imensos territórios preservados, legislação específica e generosa e grandes volumes de recursos para estimular sua transição para a sociedade capitalista. Já os afro-descendentes levam anos para conseguir receber seu título de quilombola, e isso é apenas o começo: às vezes são necessários outros tantos anos para que sejam reconhecidos como seres humanos pelos seus algozes, geralmente latifundiários que cercam suas pobres terras confinadas às margens de um rio ou no sertão mais perverso, pela escassez de chuvas. Se os indígenas têm dezenas de ONG´s repletas de recursos estrangeiros para investir em suas tradições seculares, já os quilombolas, deixados à margem de nossa história, sequer sabem o que é uma ONG!
Mas falo aqui dos dilemas da emancipação étnica, e esse dilema não existe em nenhum dos dois casos citados. Quilombolas serão segregados enquanto a cor de sua pele não se dissolver na miscigenação racial, ainda que nas novelas globais os personagens digam o contrário. Já os indígenas, dificilmente aceitariam essa emancipação, pois perderiam as imensas vantagens conquistadas nos processos de demarcação de suas terras. Alegam que precisam dessas terras para pescar e caçar, para mover sua roça pelas campinas ou baixios, ou mesmo pelos terrenos desmatados; ocorre que a cada dia esses indígenas abandonam suas tradições em troca das modernidades, sejam elas boas ou não.
Falo da bacia do Rio Negro, na região conhecida como “Cabeça de Cachorro”. Aqui, as zarabatanas foram substituídas pelas espingardas; a pesca com timbó ou flecha deu lugar às tarrafas, redes, anzóis ou mesmo aos tanques de piscicultura. Nas comunidades, cada vez mais urbanas, as “vantagens” do capitalismo “solidário”: luz elétrica, internet, celular, antenas parabólicas, televisão, novelas que destroem os valores tradicionais desses povos... cachaça, drogas, prostituição, contrabando, crimes hediondos...
Para algumas etnias, a língua escrita ou falada já desapareceu, e eles assimilam uma farsa trazida pelos religiosos salesianos: o nheengatu, uma língua híbrida e simplificada, traduzida dos Tupinambás e imposta aos alunos dos internatos onde sabe-se lá o que se ensinava, além das letras e números... e os filhos da floresta já não acompanham seus pais e se apegam a outras fantasias do consumismo: as roupas e penteados exóticos, a música tecnobrega importada do Pará, as boates onde rolam sexo e drogas...
Nesse “paraíso” no meio da selva amazônica os esgotos correm pelas sarjetas até encontrar um igarapé, deixando seu cheiro fétido pelo caminho; o lixo se acumula a céu aberto a menos de 10 km do centro da cidade; no final da noite, as sarjetas abrigam os embriagados pelo “caxiri” moderno, temperado a cachaça e emborcado sem parcimônia.
Diante desse cenário sem retoques, o que pensar dos líderes que defendem seus interesses acima das sociedades que representam? Aqueles que querem as benesses do capitalismo sem abrir mão das vantagens quase monárquicas de preservar metade da Amazônia para seu deleite, exploração de minérios, extração de madeira, tráfico de drogas, só para citar alguns poucos vícios adquiridos e defendidos à exaustão...
Dilema? Que dilema existiria no (des) conforto dessa (in) decisão?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Carta dos povos do Xingu para a presidente Dilma Rousseff

Excelentíssima Senhora Dilma Rousseff
Presidente da República Federativa do Brasil

Brasília, 08 de fevereiro de 2011

Senhora Presidente,

Em primeiro lugar, parabenizamos Vossa Excelência pela sua eleição como a primeira mulher presidente do Brasil, um fato de enorme importância histórica. Ao mesmo tempo, nós, movimentos de povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, agricultores familiares e de outras populações que habitam ao longo dos rios amazônicos, integrantes da Aliança em Defesa dos Rios Amazônicos, em conjunto com outras entidades parceiras da sociedade civil, vimos denunciar a existência de graves equívocos nos processos de planejamento e construção de grandes hidrelétricas na Amazônia, assim como apresentar propostas de encaminhamento para superar os problemas identificados.

Em janeiro de 2011, a Comissão Especial "Atingidos por Barragens" do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), lançou um importante relatório que concluiu, após análise de diversos estudos de caso, inclusive da Hidrelétrica de Tucuruvi, que "o padrão vigente de implantação de barragens tem propiciado de maneira recorrente graves violações de Direitos Humanos, cujas conseqüências acabam por acentuar as já graves desigualdades sociais, traduzindo-se em situações de miséria e desestruturação social, familiar e individual."

Senhora Presidente, nossas experiências recentes com o planejamento e a construção de mega-hidrelétricas na Amazônia – como a usina do Estreito no rio Tocantins, as usinas de Santo Antônio e Jirau no Rio Madeira, o Complexo Belo Monte no rio Xingu e as hidrelétricas propostas para os rios Tapajós, Jamanxim e Teles Pires – respaldam plenamente esta e outras conclusões da Comissão Especial "Atingidos por Barragens" do CDDPH. Nesse sentido, registramos as seguintes constatações:

1. Sem desconsiderar as relevantes contribuições da hidroeletricidade para a matriz energética brasileira, é motivo de grande espanto e preocupação a verdadeira corrida para construir uma quantidade enorme e sem precedentes de novas hidrelétricas na Amazônia nos próximos anos: em torno de 70 grandes barragens (UHEs) e 177 PCHs, inclusive 11 grandes hidrelétricas somente na bacia do Tapajós/Teles Pires, segundo dados do PNE e do PDE. O peso descomunal nesses planos para a construção de novas hidrelétricas na região amazônica reflete, entre outras causas, o fato de que o planejamento do setor elétrico é realizado sem participação democrática – como demonstra a falta de nomeação de representantes da sociedade civil e da universidade brasileira no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), contrariando o Decreto no. 5.793 de 29 de maio de 2006. Alem disso, reflete a proximidade, ou como dizem algumas “relações promíscuas", entre o setor elétrico do governo (MME/EPE/Eletrobrás) comandado atualmente pelo grupo Sarney do PMDB, e grandes empreiteiras como Odebrecht, Camargo Correia, Andrade Gutierrez, que, vale lembrar, se classificam entre os primeiros lugares do "ranking" de grandes doadores para campanhas eleitorais, inclusive as do PT e do PMDB. O resultado desse quadro político-institucional é que decisões no planejamento do setor elétrico são tipicamente orientados mais por uma lógica privada do que critérios de eficiência econômica, justiça social e sustentabilidade ambiental, ou seja, interesses públicos estratégicos, consagrados no arcabouço legal a partir da Constituição Federal de 1988.

2. Senhora Presidente, os processos recentes de planejamento e construção de grandes hidrelétricas na Amazônia (Estreito, Santo Antônio, Jirau, Belo Monte, Tapajós/Teles Pires e outras) comandados pelo grupo Eletrobrás e grandes empreiteiras, têm se caracterizado como um verdadeiro rolo compressor em cima das populações locais e de seus territórios, violando sistematicamente direitos humanos, individuais e coletivos, e a legislação ambiental. Uma das características desse rolo compressor é a predominância de uma lógica privada entre a Eletrobras e seus sócios privados de sempre buscar a minimização de custos financeiros relacionados à mitigação e compensação dos impactos sociais e ambientais de seus empreendimentos.

3. Assim, uma das falhas crônicas no planejamento de hidrelétricas é a subestimação de impactos sociais e ambientais nos estudos de inventário de bacia, de viabilidade e de impacto ambiental, elaborados pelo grupo Eletrobrás e seus parceiros do setor privado. Isso acontece de várias formas, destacando-se:

a) adoção de conceitos de "atingidos" que desconsideram as relações específicas de populações tradicionais com as florestas, várzeas, igapós e rios da Amazônia que envolvem a agricultura, o extrativismo, a pesca artesanal e outras atividades produtivas, assim como o transporte fluvial e outros elementos que fazem parte do universo que garante a sustentação social, econômica e cultural das comunidades. No extremo, chega-se a tornar "invisíveis" grupos inteiros da população (extrativistas, pescadores, barqueiros, garimpeiros, etc.) negando a existência de impactos negativos e riscos associados, inclusive violações de direitos, como forma de reduzir custos. Essa prática é especialmente repugnante no caso de grupos indígenas em isolamento voluntário que vivem nas áreas de avanço desenfreado de hidrelétricas como Jirau e Belo Monte.

b) sub-dimensionamento de problemas associados à chegada de milhares de migrantes na busca de empregos nos canteiros de obras, como o agravamento da violência urbana, trafico de drogas e uso de entorpecentes, prostituição infantil e a sobrecarga de serviços públicos em vilarejos e cidades, a exemplo do atual estado de calamidade da saúde pública e do sistema penitenciário em Porto Velho. Conforme demonstrado em casos como Tucuruvi, um importante impacto ambiental das hidrelétricas, relacionado ao fluxo migratório é o aumento do desmatamento - antes, durante e depois da fase das obras.

c) redução artificial das áreas geográficas impactadas pelas hidrelétricas nos estudos de impacto ambiental (EIA). Para possibilitar isso, desconsidera-se a dinâmica ambiental e social dos territórios (como os peixes migratórios e sua importância para a base econômica e de subsistência das populações ribeirinhas). Alem disso, deixa-se de lado a legislação ambiental, como a Resolução 01/86 do CONAMA, que requer a análise de impactos em nível de bacia hidrográfica, o que simplesmente não aconteceu em casos como as hidrelétricas do Madeira e Belo Monte. Essa pratica é facilitada pelo uso indevido nos EIAs de conceitos como "área de influência direta - AID", "área diretamente afetada – ADA" e "área de influência indireta – AII" que vêm de estudos do setor elétrico e que não fazem parte da legislação ambiental.

d) subestimação e negação de impactos sociais e ambientais, e riscos associados, desconsiderando informações científicas, a exemplo das conseqüências do barramento do Rio Xingu no sitio Pimental com o desvio de até 80% do fluxo do rio para um reservatório artificial a partir de um canal de derivação. Nesse caso, o EIA menosprezou os impactos socioambientais num trecho de cerca de 100 km da Volta Grande do Xingu que ficaria quase sem água, peixe e meios de transporte, com elevada probabilidade de provocar a remoção forçada da população indígena das TIs Paquiçamba e Arara, vetada pela Constituição Federal. Outros impactos ambientais tipicamente sub-dimensionados ou mesmo ignorados no planejamento de hidrelétricas incluem, entre outros, ameaças à biodiversidade e emissões de metano, um poderoso gás de efeito estufa que é pelo menos 23 vezes mais potente que o CO2 [1]

e) falta de abordagem nos EIAs de impactos cumulativos com outros empreendimentos, tais como outras hidrelétricas na mesma bacia hidrográfica, linhas de transmissão, hidrovias, rodovias e a expansão associada de fronteiras de produção de commodities agropecuários, florestais e minerais, desconsiderando a Resolução 01/86 do CONAMA.

f) mudanças nos projetos de engenharia e localização de projetos, a exemplo das hidrelétricas do Madeira e Belo Monte, no intuito de baratear custos de construção para os empreendedores, apos a concessão da Licença Prévia e leilão, sem a realização de estudos complementares sobre impactos e riscos socioambientais decorrentes, inclusive em termos de segurança das barragens e reservatórios.

4. Uma outra característica alarmante do planejamento de hidrelétricas na Amazônia tem sido a falta de transparência, de acesso a informação, e de participação informada das populações locais e a ausência de dialogo entre o governo e a sociedade civil. Destacam-se, nesse sentido, as audiências públicas nos processos de licenciamento ambiental de grandes hidrelétricas, que têm demonstrado os seguintes problemas crônicos, em descumprimento da legislação vigente:

a) autorização pelo IBAMA de Estudos de Impacto Ambiental (EIA) incompletos e distorcidos da realidade como base para a realização de audiências públicas;

b) falta de divulgação adequada dos EIA/RIMA em linguagem acessível, com copias disponibilizadas nas comunidades, em tempo hábil para análise e discussão antes da realização das audiências publicas;

c) um número insuficiente de audiências realizadas em locais nos quais uma parte significativa da população mais ameaçada pelos empreendimentos não tem oportunidade de participar;

d) utilização de um forte aparato policial repressivo nas audiências que acaba inibindo a participação efetiva da sociedade local.

e) resultados das audiências públicas desconsideradas na tomada de decisões sobre a viabilidade ambiental de hidrelétricas, tornando-as apenas ritos burocráticos para legitimar decisões já tomadas sobre empreendimentos mal-planejados.

No que se refere à ausência de dialogo sobre a construção de novas hidrelétricas na Amazônia, existe uma ampla documentação das inúmeras ocasiões em que denúncias, apelos, demandas e preocupações dos povos indígenas e dos movimentos sociais têm sido simplesmente ignorados pelo governo, enquanto convites procedentes de organizações da sociedade civil, de instituições acadêmicas e do Ministério Público para participar em debates públicos são recusados. Alem disso, análises e recomendações de renomados especialistas, que poderiam subsidiar de forma muito significativa os debates sobre o planejamento e licenciamento ambiental de hidrelétricas, são menosprezadas e desconsideradas. [2]

5. Senhora Presidente, um dos exemplos mais graves da falta de transparência e diálogo entre governo e sociedade no planejamento de hidrelétricas refere-se ao descumprimento do artigo 231 da Constituição Federal e da Convenção 169 da OIT, que asseguram aos povos indígenas o direito à consulta e ao consentimento livre, prévio e esclarecido sobre grandes empreendimentos que afetam seus territórios e suas vidas. Ao invés de cumprir com esses preceitos legais, os proponentes de hidrelétricas têm buscado formas de burlá-los. Veja, por exemplo, o caso de Belo Monte, onde já se tentou argumentar que não se aplicaria o inciso 3º do artigo 231 da Constituição Federal, como se o desvio de 80% da água do rio Xingu da Volta Grande, onde localizam-se as Tis Paquiçamba e Arara da Volta Grande, não fosse uma forma de aproveitamento dos recursos hídricos das terras indígenas!

6. Enquanto as populações locais ficam sem acesso a informações confiáveis sobre os potenciais impactos e riscos das grandes hidrelétricas, e sem canais efetivos de consulta e dialogo com o governo, a propaganda oficial do governo nos meios de comunicação dissemina informações distorcidas e enganosas sobre os empreendimentos, caracterizando-se como uma espécie de panacéia para os problemas de desenvolvimento regional, como se, num passe de mágica, os empreendedores fossem capazes de zerar um déficit histórico de políticas públicas na Amazônia.

7. Quando os problemas citados acima na fase de planejamento de hidrelétricas têm sido detectados, a resposta típica do governo não tem sido de corrigir erros, mas intensificar pressões políticas sobre órgãos como o Ibama para acelerar a concessão de licenças ambientais. A politicização de processos de licenciamento ambiental tem se caracterizado pela desconsideração de pareceres de equipes técnicas do Ibama por seu presidente, que comete equívocos na concessão de Licenças Prévias para empreendimentos sem viabilidade ambiental[3], e Licenças de Instalação (inclusive "parciais", algo inexistente na legislação ambiental brasileira) sem o devido cumprimento de condicionantes da LP.

Nesse sentido, repudiamos veementemente a concessão de uma Licença de Instalação "parcial" para as instalações iniciais do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte em 26/01/11, sem o devido cumprimento de condicionantes da Licença Prévia, por sua vez concedida sob forte pressão política, contrariando pareceres da equipe técnica do Ibama e de outros especialistas.

8. Conforme demonstrado no caso de Belo Monte, há graves deficiências nos procedimentos de aprovação da viabilidade econômica de grandes hidrelétricas.[4] Em primeiro lugar, existe o problema já mencionado da subestimação dos custos de mitigação e compensação de impactos socioambientais e seus riscos. Na realidade, muitas hidrelétricas nunca seriam consideradas economicamente viáveis se fossem considerados seus verdadeiros custos socioambientais, que são sistematicamente 'externalizados'. No caso de Belo Monte, têm persistido enormes incertezas sobre os custos de construção do empreendimento (que subiram de 20 para 26 bilhões de reais desde o leilão), que nunca foram resolvidos pelo Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE). Outro problema grave, referente à viabilidade econômica de Belo Monte, é a sua reduzida capacidade de geração de energia (media de 4.420 MW) em relação a capacidade instalada de 11.233 MW (ou seja, 39%) como reflexo da elevada sazonalidade do rio Xingu que tende a se agravar no atual cenário de mudanças climáticas. [5]

Apesar da identificação de uma série de falhas por sua equipe técnica, com indícios de que o Complexo Belo Monte seria um péssimo negocio para o país, os conselheiros do Tribunal de Contas da União – TCU resolveram aprovar "politicamente" os estudos de viabilidade (EVTE) e impacto ambiental (EIA) do empreendimento, com pequenas ressalvas sobre a necessidade de correções em futuros projetos.

Vale lembrar que os fortes indícios da inviabilidade econômica de Belo Monte levaram ao afastamento de grandes investidores privados, na época do leilão. Em resposta, ao invés de rever as contas de Belo Monte e reconsiderar a sua viabilidade econômica, o governo lançou um pacote inédito de incentivos creditícios e fiscais, bancados pelo contribuinte brasileiro, que mesmo assim não conseguiram atrair a grande maioria dos investidores privados. No final das contas, foi criada uma situação bastante confortável para grandes empreiteiras, contratadas sem licitação pública e sem correr riscos como investidores, enquanto os riscos financeiros (inclusive de um mega-empréstimo do BNDES) são repassados para o contribuinte brasileiro e os fundos de pensão como a Petros, Funcef, e Previ.

9. A fase de implantação de grandes hidrelétricas na Amazônia tem sido acompanhada por outros graves problemas recorrentes, em parte relacionados àqueles descritos da fase de planejamento, destacando-se:

a) procedimentos de indenização e reassentamento de atingidos que ignoram as especificidades dos meios de vida das populações amazônicas, conduzidos por empreendedores de forma individualizada e em desconsideração às organizações representativas das populações locais, contribuindo para a desestruturação social, econômica e cultural de famílias e comunidades;

b) vinculação de condicionantes ambientais a programas que compõem um "Plano Básico Ambiental – PBA", alem do "Plano de Compensação Ambiental – PCA" que se caracterizam pela falta de transparência e participação na sua elaboração e execução, por conteúdos genéricos e sem perfil operacional, e por graves problemas de inadequação para mitigar impactos e riscos sub-dimensionados na fase do EIA;

c) falta de correlação entre o cronograma de implementação de condicionantes socioambientais e o cronograma da obra (Por exemplo, as primeiras medidas de reconhecimento e proteção de grupos indígenas isolados nas proximidades da UHE Jirau do Rio Madeira só foram tomadas após a hidrelétrica chegar num estágio avançado de construção);

d) falta de monitoramento efetivo de impactos socioambientais dos empreendimentos, e de fiscalização rigorosa do cumprimento de condicionantes das licenças ambientais por parte do IBAMA, que carece de estrutura institucional adequada nos estados.

10. Senhora Presidente, as diversas ilegalidades constatadas nos processos de licenciamento e implantação de grandes hidrelétricas na Amazônia têm provocado o ajuizamento de Ações Civis Públicas por parte do Ministério Público, em cumprimento de sua função de defesa do Estado de Direito e do interesse público. Somente no caso de Belo Monte, já são dez ações ajuizadas pelo Ministério Público Federal no Estado do Pará! Ao invés de reconhecer erros cometidos e buscar corrigi-los, o governo federal, representado pela Advocacia Geral da União (AGU), tem pressionando presidentes do Tribunal Regional Federal (TRF1) a aplicar indevidamente o instrumento de "suspensão de segurança", com argumentos infundados sobre a iminência de um apagão no setor elétrico, para justificar a derrubada de liminares a favor de ações movidas pelo Ministério Público. O resultado dessa prática tem sido a sanção de violações dos direitos individuais e coletivos de populações ameaçadas por grandes hidrelétricas na Amazônia.

11. Como se isso não fosse suficiente, a AGU tem adotado práticas de intimidação de procuradores da República e juízes federais que têm questionado violações de direitos humanos e outras ilegalidades na construção de hidrelétricas, justamente por terem cumprido com seus papeis constitucionais. De forma semelhante, representantes do governo, como o Ministro Edison Lobão, têm adotado práticas de intimidação e até "demonização" de povos indígenas, movimentos sociais e outras entidades sociais que se opõem ao atual rolo compressor de implantação mega-barragens ilegais e destrutivas na Amazônia, lembrando dos tempos sombrios da ditadura militar. [6]

Senhora Presidente, o governo tem afirmado que a construção de uma quantidade sem precedentes de hidrelétricas na Amazônia vai garantir uma fonte de energia limpa e barata para que o país continue crescendo em ritmo acelerado, evitando o apagão do setor elétrico e atendendo as necessidades dos consumidores brasileiros, sobretudo dos mais pobres que têm aumentado o seu poder aquisitivo nos últimos anos. Sobre essas afirmações, gostaríamos de dizer o seguinte:

* as grandes hidrelétricas na Amazônia, a exemplo de Belo Monte, não são uma fonte de energia "limpa". Pelo contrario, trazem em seu rastro a expulsão de populações indígenas, ribeirinhos, extrativistas, quilombolas, pescadores e agricultores familiares de suas casas, malocas, roças, florestas e rios; significam a desestruturação de famílias e comunidades, com rios mortos e florestas devastadas; trazem para nossas cidades o aumento da violência, da prostituição, do trafico de drogas, do desemprego, da fome e da miséria; e para completar, são acompanhadas por intimidações e até ameaças de morte contra defensoras e defensores dos direitos humanos, além da criminalização de movimentos sociais. Como esses projetos de morte podem ser chamados de "limpos"?

* o preço da energia das grandes hidrelétricas na Amazônia não considera seus verdadeiros custos em termos de impactos sociais e ambientais, inclusive violações de direitos humanos, que nunca são contabilizados; além disso, reflete generosos subsídios de crédito e incentivos fiscais que beneficiam a indústria das barragens, que são pagos pelo contribuinte;

* grande parte da energia de novas hidrelétricas previstas na Amazônia seria destinada a grandes indústrias eletro-intensivas que exportam alumínio e minério de ferro com baixo valor agregado, gerando pouquíssimos empregos na região, e não para atender as populações mais pobres, como afirma o discurso oficial do governo.

* A obsessão do setor elétrico do governo em construir uma quantidade sem precedentes de hidrelétricas na Amazônia prejudica o aproveitamento de oportunidades para colocar em prática uma política energética e estratégias de desenvolvimento voltadas para os desafios do século 21, pautadas na eficiência energética, diversificação da matriz energética, inovação tecnológica e ampliação de escala de fontes verdadeiramente limpas, como eólica e solar.

Para concluir, a grande ênfase no PAC para hidrelétricas e outras grandes obras de infra-estrutura na Amazônia tem desconsiderado oportunidades para promover um outro desenvolvimento possível na Amazônia do século 21, partindo dos anseios das populações locais e pautado em princípios de justiça social, sustentabilidade ambiental e inovação econômica, com valorização da biodiversidade e dos serviços ambientais. Assim, experiências inovadoras como o Plano BR-163 Sustentável, construídas com forte protagonismo da sociedade civil, são abandonadas em favor do desenvolvimentismo convencional das mega-obras do PAC.
Propostas de encaminhamento

Senhora Presidente, as experiências relatadas nesta carta, referendadas nas conclusões da Comissão Especial "Atingidos por Barragens" do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), revelam um quadro extremamente grave, incompatível com compromissos assumidos em seu discurso de posse, que requer soluções efetivas, urgentes e duradouras. Nesse sentido, apresentamos para a apreciação de Vossa Excelência as seguintes propostas de encaminhamento:

1. Democratizar o planejamento energético, tornando-o transparente e participativo, com a efetivação de espaços de debate e dialogo entre governo e sociedade na tomada de decisões, facilitando a participação de movimentos sociais, ONGs e comunidade acadêmica. Um passo nessa direção deve ser a nomeação dos representantes da sociedade civil e da universidade brasileira no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), conforme o Decreto no. 5.793 de 29 de maio de 2006, em consulta com suas redes representativas;

2. Garantir a adoção de uma perspectiva ampla de planejamento da matriz elétrica, implantando metodologias de avaliação de impactos que captem e internalizem os custos socioambientais hoje externalizados, com parâmetros de análise do custo-benefício social, econômica e ambiental que permitam a identificação de alternativas com maior benefício social e econômico e menor custo social e ambiental. Assim, as orientações estratégicas de uma política energética brasileira no século 21 devem incluir, entre outras:

a) prioridade para maximizar a eficiência energética nos sistemas de geração (inclusive no aumento da potência de hidrelétricas existentes), transmissão e consumo (industrial, comercial, residencial); Vale lembrar que só o desperdício de energia nos sistemas de transmissão no Brasil, de cerca de 20 gigawatts, é equivalente a cinco usinas de Belo Monte!

b) apoio ao desenvolvimento tecnológico e ampliação de escala de fontes alternativas renováveis: solar, eólica e biomassa;

c) garantia do pleno respeito dos direitos humanos, inclusive os direitos de povos indígenas e outras populações tradicionais a seus territórios, e o reconhecimento da dinâmica dos sistemas ecológicos, no planejamento dos empreendimentos;

d) plena articulação da política energética, inclusive o Plano Nacional de Energia (PNE) com outras políticas públicas estratégicas, referentes à gestão de bacias hidrográficas, áreas protegidas, desenvolvimento territorial, conservação da biodiversidade, mudanças climáticas e direitos das populações tradicionais.

3. Implementar, em regime de urgência, as recomendações da Comissão Especial "Atingidos por Barragens" do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) nas seguintes direções de ação, tanto na Amazônia como em outras regiões do país:

a) Imediata suspensão de situações, processos e ações, de responsabilidade direta ou indireta de agentes públicos ou privados, que configurem violação de direitos humanos;

 b) Reparação e compensação de violações de direitos humanos constatadas, de modo a resgatar, ainda que progressivamente, a dívida social e ambiental acumulada ao longo das últimas décadas;

c) Prevenção de novas violações no futuro, através de políticas, programas e instrumentos legais que assegurem o pleno gozo dos direitos por parte das populações, grupos sociais, comunidades, famílias e indivíduos atingidos por barragens.

4. Garantir o pleno respeito aos direitos humanos e à legislação ambiental nos processos de planejamento e licenciamento de planejamento de hidrelétricas, inclusive o direito das populações indígenas a consulta e consentimento livre, prévio, informado e esclarecido, conforme o artigo 231 da Constituição Federal e a Convenção 169 da OIT;

5. Cancelar definitivamente o Complexo Belo Monte, considerando a inviabilidade social, ambiental e econômica do empreendimento, com a imediata suspensão das licenças ambientais (LP, LI parcial) concedidas ilegalmente pelo Presidente IBAMA, num contexto de forte pressão política. Estas medidas precisam ser tomadas com a máxima urgência, considerando os riscos de uma situação social explosiva com o inicio iminente das obras, e outras conseqüências ecológicas, sociais, culturais e econômicas nefastas e irreversíveis.

Caso o governo insista em continuar atropelando as leis para enfiar Belo Monte goela abaixo dos povos indígenas, agricultores, ribeirinhos e demais outros grupos sociais do campo e da cidade, [7] reafirmamos que vamos continuar enfrentando este projeto de morte com todas as nossas forças. Temos a lei do nosso lado, e cresce de maneira vertiginosa o apoio de milhares de brasileiros e cidadãos conscientes do mundo todo à nossa causa. E responsabilizamos desde já o governo brasileiro por qualquer gota de sangue que venha a ser derramada nesta luta.

6. Revisar conceitos, metodologias, e instrumentos de orientação do planejamento de novas barragens (UHEs, PCHs), com vistas à superação das deficiências identificadas nesta carta, com atenção especial para conceitos de atingidos, ferramentas de análise de impactos socioambientais, análise comparativa de alternativas, transparência e participação social.

7. Viabilizar, de forma transparente e participativa, a definição e implementação pelo BNDES e outros bancos públicos de um conjunto de orientações estratégicas para investimentos no setor elétrico, associado a uma nova política de salvaguardas socioambientais pautada no pleno respeito à legislação sobre direitos humanos e o meio ambiente.

8. Orientar a AGU a cessar imediatamente práticas que visem unicamente acelerar o licenciamento de grandes hidrelétricas, garantindo o pleno reconhecimento da legislação brasileira e dos acordos internacionais sobre os direitos humanos e a proteção do meio ambiente, e das atribuições legais do Ministério Público Federal e do judiciário (varas federais, TRF1).

9. Determinar ao grupo Eletrobras que, na sua atuação institucional, inclusive como membro de consórcios e Sociedades de Propósito Específico (SPE), não permita, em qualquer hipótese, práticas de intimidação e coerção de lideranças e outros membros de comunidades e movimentos sociais, no intuito de conseguir o aval para empreendimentos hidroelétricos.

10. Viabilizar sistemas independentes de monitoramento de impactos sociais e ambientais das hidrelétricas e de outras grandes obras de infra-estrutura, custeados pelos empreendedores, que dêem às populações locais condições de fiscalizar, com autonomia, o fiel cumprimento das obrigações assumidas pelos empreendedores nas diferentes fases do licenciamento das obras (LP, LI, LO);

11. Promover medidas necessárias de fortalecimento da capacidade institucional do Ibama, inclusive seus escritórios regionais, para cumprir com suas obrigações legais de fiscalizar efetivamente as condicionantes de licenças ambientais de hidrelétricas e outros grandes empreendimentos;

12. Garantir o apoio efetivo para iniciativas participativas de desenvolvimento local e regional na Amazônia, voltadas para assegurar a qualidade de vida dos povos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores, quilombolas e outros grupos do campo e da cidade, com geração de emprego e renda, respeitando a diversidade cultural e ambiental.

Senhora Presidente, agradecemos a atenção e ficamos no aguardo de um retorno de Vossa Excelência com a brevidade possível, para que possamos avançar juntos na discussão e implementação das propostas de encaminhamento aqui apresentadas, inclusive aquelas que se referem a assuntos de urgência máxima.

Cordialmente,

Aliança dos Rios da Amazônia
Movimento Xingu Vivo para Sempre – MXVPS
Aliança Tapajós Vivo
Movimento Teles Pires Vivo
Campanha Popular Viva o Rio Madeira Vivo
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB
Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A solidão do poder

por João Carlos Figueiredo, terça, 8 de fevereiro de 2011 às 00:59

Não importa o regime político ou o modelo de governo: as decisões dos governantes são sempre solitárias e unilaterais. Já vivi tempo suficiente para não acreditar na democracia. Quando era um estudante secundarista e, depois, como estudante universitário, lutava por direitos que não eram meus: justiça, igualdade, liberdade eram palavras de ordem que comandavam as massas... ah... sim, as massas!

Massas, proletariado, classes menos favorecidas... os termos mudaram, mas a realidade não foi informada dessas transformações! Poder não se delega: se toma! E, dentro dessa constatação, cedemos às evidências: Democracia é Utopia, assim como socialismo e outras doutrinas de compartilhamento do poder.

Fui membro do DCE da USP (Diretório Central dos Estudantes - Universidade de Sâo Paulo). Em nossas assembléias compareciam cerca de 100 a duzentos estudantes, em um universo de 20.000 alunos dos diversos cursos e carreiras. Nós nunca representamos os estudantes: fomos sim os manipuladores de uma corrente de pensamento que visava um mundo perfeito, onde não houvessem discriminações e onde todos tivessem voz.

Porém, o povo não quer ter voz! A maioria absoluta da população sonha com os caudilhos, com os líderes que transformam suas expectativas em bandeiras em busca de soluções... muito poucos são os que aspiram atingir o poder, pois é muito mais fácil apoiar aqueles que doam suas vidas em defesa desses ideais!

Durante muito tempo acrreditei que o povo queria tomar o poder, mas a história contesta essa afirmação. A maioria quer ser conduzida! Alguém precisa transformar a inércia e a preguiça intelectual do povo em aspirações políticas, em projetos de governo, em defesas intransigentes de liberdades de expressão, de justiça social...

Quem se expõe à defesa desses ideais? Uma insignificante minoria!

Pois é assim que o mundo percorre sua trajetória histórica e preserva valores que não são de muitos, mas apenas de uma minoria intelectual que prefere entregar suas vidas em defesa de causas insustentáveis! O poder pode corromper; o poder pode inebriar uma "elite" que habita os congressos, as assembléias, os palanques em forma de "democracia"; mas quem toma as rédeas e o timão são uns poucos abnegados, que mal sabem por que fazem isso!

Sou um desses tolos e crédulos! Acredito que vale a pena lutar pelos direitos sociais, mesmo que, no fim das contas, eu acabe sendo mais uma vítima de minhas próprias ideologias... e assim, sigo caminhando, sem rumo definido, baseando-me apenas pelas manifestações de minha intuição e pela ideologia, da qual jamais abdiquei...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Inspiração e arte

Perdi a minha Arte... já disse, um dia, em um poema, que "Arte é Inspiração". Pelo menos, assim penso que seja quando se trata de poesia. A poesia não depende do talento; ela brota de dentro do ser e irrompe avassaladoramente, obrigando o poeta a manifestá-la perante o mundo, ainda que contra a sua vontade! Foi assim comigo; durante dois anos esse fluxo de mensagens fluía naturalmente, sem que eu precisasse sequer retocar o que escrevia com tanta facilidade.

Se minha arte era rica, não importa. Sei que tinha seu valor e expressava meus pensamentos de forma clara, concisa e lírica como eu nunca mais o faria, pois essa erupção poética se extinguiu assim como chegou. Não lamento, pois creio ter dito tudo o que desejava nesses poucos meses em que fui visitado pela Poesia.

Meus textos são duros, difíceis de encontrar adeptos porque eu falo aquilo que todos se recusam a admitir: que o mundo dos homens não é belo, que a brutalidade das relações se esconde sob as máscaras de cada um, enquanto nossos pensamentos refletem nossa verdadeira personalidade, que ocultamos até de nós mesmos.


Escrevi por mais dois anos sobre o rio... não um rio qualquer, mas o Meu Velho Chico, companheiro de viagem, confidente e amigo, que me acolheu por tanto e longo tempo, compreendendo minhas razões e expondo seu sofrimento devido à ação cruel dos homens. O Velho Chico está lá, percorrendo incessantemente os mesmos caminhos, definhando amarguradamente enquanto dilaceram sua artérias, inexoravelmente...

Eu, por meu turno, segui outros caminhos, não para enriquecer-me de belezas, mas para sentir a dor ainda maior de conviver com inimigos, percebê-los tramando contra mim, que continuo passivo, apenas aguardando o fim que se aproxima. Não da vida, que dela nada sei; nem da morte, que essa seria definitiva e expiaria todo sofrimento... mas da existência por si mesma, aquela dádiva não desejada, concedida ao nascer e confiscada em cada instante do viver. Para ela não há salvação possível, apenas esperar.

No entanto, esses caminhos cruéis que tomei para mim não têm compensações, como aquele por-do-sol que está no ocaso de cada novo dia. Apenas mágoas e revoltas inúteis, pois sou eu quem está na trilha errada; todos os demais encontram-se em seu ambiente natural, e nem percebem que ele é escuro, perverso, sem vida, sem cores, sem sonhos...

Cá estou, no âmago do monstro que me devora vivo, arrastando-me pelas estradas que levam ao meu destino final: a expiação de meu pecado original de pensar em um mundo melhor, justo, digno, ético, igualitário e feliz. Não devemos sonhar: é proibido, perigoso e inútil!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O que representa Belo Monte?

Quando Dilma Rousseff venceu as eleições para presidente da república afirmamos que quem vencia, na verdade, era o Capital,  os Ruralistas e o Desenvolvimentismo. Existem dois Brasis em nosso país: um moderno, capitaneado por São Paulo e os estados do sul, consumistas, ávidos por energia. sofisticados e detentores dos melhores indicadores de qualidade de vida; outro esquecido por todos nos mais remotos rincões, vivendo em condições que o "sul maravilha" já se esqueceu que existiam há mais de cinquenta anos.

Este Brasil abandonado é habitado por quilombolas, indígenas, sertanejos, pescadores, pequenos grupos familiares que vivem uma economia de subsistência e não conhecem as "maravilhas" da civilização: televisão, cinema, teatro, internet, geladeira, ar condicionado, restaurantes, espetáculos... também não conhecem os preservativos e suas famílias tem dez ou mais filhos, que ajudam na economia familiar desde tenra idade.

A opção de Lula - e agora de Dilma - foi de gerar energia na região norte (onde a pobreza e essas condições que relatamos prevalecem) para ser consumida nos grandes centros urbanos e industriais do país. Ou seja, essas populações esquecidas serão penalizadas para que nós, os bem-aventurados, possamos continuar desperdiçando dinheiro público, sucateando produtos de última geração, consumindo artigos supérfluos, produzindo lixo e semeando a desgraça na Natureza: desmatamento, monóxido e dióxido de carbono, gás metano, assoreamento de rios, desabamento de morros, descaracterização do meio ambiente.

Belo Monte é uma dessas hidrelétricas que será instalada na região norte, no rio Xingu, causando a inundação de imensas áreas de floresta nativa e terras indígenas, não levando nenhuma riqueza para essa região, mas levando desgraça à população pobre e desamparada que lá sobrevive à míngua. Não bastasse isso, Belo Monte produzirá onze milhões de KWA no período das cheias e uma insignificância na época do estio; causará o assoreamento do Xingu depois da barragem e impedirá a piracema das espécies migratórias; exigirá imenso investimento na transmissão de energia aos centros consumidores; e criará um câncer que, aos poucos, irá produzir o desaparecimento de toda floresta e seus habitantes, animais e humanos.

A humanidade é insaciável em sua ânsia pelo "progresso": nossa população ainda cresce em ritmo acelerado, exigindo cada vez mais produção de alimentos que, por sua vez, consomem mais terras das florestas, dos rios, das montanhas, aumentando a poluição ambiental, em um processo destruidor sem precedentes na História. Muitos dizem que o homem sempre encontrou a solução para todas as catástrofes antevistas pelos futurólogos. No entanto, o que mudou foi a velocidade do processo: as geleiras deixaram de ser eternas e estão se acabando rapidamente; as espécies vivas são extintas em ritmo acelerado; as fontes de água doce ou  secam, ou são contaminadas inexoravelmente; a produção de lixo bate recordes sucessivos; a temperatura do planeta sobe acelerada e perigosamente, ameaçando expandir os limites dos oceanos para dentro dos continentes e levando consigo grande parcela da população que vive nas orlas marítimas.

E quais seriam, então, as alternativas para a produção de energia? As fontes renováveis são uma mentira, pois causam maior destruição que as hidrelétricas; exemplo disso são as imensas áreas destinadas à plantação de cana de açúcar, trigo, soja e outros produtos destinados à geração de energia "renovável". O petróleo tem seus dias contados, e seus desastres ecológicos causaram as maiores destruições da história recente, contaminando verdadeiros refúgios ecológicos marinhos. Parece não haver saída...

Mas a solução existe e está diante de nossos olhos: passa, primeiro pela conscientização em massa da humanidade das essenciais transformações necessárias nos hábitos de consumo, na redução dos desperdícios, no entendimento desse complexo sistema ecológico que nos sustenta no Planeta Terra. Também passa pelo controle da natalidade de forma radical: não é possível sustentar indefinidamente uma população em constante crescimento, que já passa dos seis bilhões de indivíduos. Mesmo destruindo todas as florestas - e isso seria suicídio coletivo - as terras cultiváveis e o aumento da produtividade não bastarão para alimentar esse mundo descontrolado, e um dia, em futuro não muito distante, os homens se digladiarão pela posse de água e de alimentos, matando-se uns aos outros, em uma guerra não declarada e cruel.

O que representa Belo Monte? Simboliza essa fúria consumidora que, se não contida, extinguirá a raça humana... representa o desrespeito à Natureza e a prevalência de um sistema perverso de distribuição de riquezas, que privilegia uma pequena parcela da Nação em detrimento da maioria da população.

Mais uma vela para o passado

GREENPEACE: Notícia - 28 - jan - 2011

No dia 1º de janeiro Dilma defendeu o uso de energias renováveis. Menos de um mês depois apóia publicamente a inauguração de uma usina movida a carvão. Afinal, qual é a posição da presidente?
Usina Presidente Médici, em Candiota, RS. Greenpeace / Lunaé Parracho

A política energética brasileira, uma das meninas dos olhos da presidente Dilma Roussef, deu, menos de um mês depois de ela prometer no discurso de posse o incentivo a investimentos em usinas à base de biomassa, eólica e solar, mais um passo para trás. O Brasil, oficialmente, coloca hoje mais uma termoelétrica movida à combustível fóssil em funcionamento em Candiota, Rio Grande do Sul. Trata-se da usina Presidente Médici, ou Candiota III como prefere, por óbvias razões, o atual governo. A usina, parte de um complexo de seis térmicas semelhantes, funciona a carvão, considerado uma das fontes mais poluentes de energia.

Candiota III é o terceiro tropeço do recém-empossado governo na área de energia em menos de um mês de vida. O primeiro foi o anúncio de um plano para construir 11 megahidrelétricas na Amazônia. O segundo, mais recente, a brutal forçada de barra para que o Ibama desse algum tipo, aliás qualquer tipo, de selo de aprovação à construção da usina de Belo Monte. E agora, Candiota III. Juntando os fatos, pode-se muito bem supor que o discurso de Dilma na sua posse, com declarações fortes em favor das energias renováveis, foi apenas papo. “Candiota III é um monumento à geração energética do passado”, diz Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de Energias Renováveis do Greenpeace.

Movida a carvão – o menos nobre e mais poluente dos combustíveis fósseis – Candiota III promete gerar 350 MW de energia deixando um rastro de emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa que ameaçam a saúde humana e a estabilidade do clima do planeta. A usina deve garantir uma energia firme de 315 MW e a produção de 2,76 milhões de MWh por ano. Considerando a emissão média de 1 tonelada de CO2 por MWh típica de térmicas a carvão, obtém-se o espantoso montante de 2,76 milhões de toneladas de CO2 emitidos por ano. Na prática, toda essa numerália significa que uma única usina – responsável por pouco mais de 0,5% da energia gerada atualmente no Brasil - contribuirá com o aumento de 10% das emissões atuais do setor elétrico.

Área do Rio Xingu, no Pará, que será alagada pela construção da usina de Belo Monte. ©Greenpeace/Marizilda Cruppe

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cheirando mal

Fonte: Greenpeace Brasil - 27 - jan - 2011
Decisão do Ibama autoriza desmatamento de 238 hectares para construção de canteiro de obras da usina de Belo Monte
Em mais uma trapalhada governamental, o Ibama concedeu ontem a licença de instalação parcial para o início do projeto de construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará. O órgão, que deveria proteger o meio ambiente, jogou contra a natureza e a favor da usina ao autorizar o desmatamento de 238 hectares necessários para a montagem dos canteiros de obra e dos acampamentos nas localidades de Belo Monte e Pimental.

O amplo parque hidrelétrico brasileiro contribui para que o país tenha uma “poupança de água”, ou seja, um reservatório de energia controlável. Não é o caso de Belo Monte. Segundo o responsável pela campanha de energia do Greenpeace Brasil, Ricardo Baitelo, a previsão é que a geração da usina ficará a dever no período da seca, o que fará com que a hidrelétrica tenha um aproveitamento muito abaixo da média das usinas no Brasil.

De acordo com o relatório Revolução Energética, lançado ano passado pelo Greenpeace, o que garantirá a segurança energética no país é o complemento da energia hidrelétrica com outras gerações, como a biomassa e a eólica, que têm capacidade de garantir fornecimento ao logo do ano, independente das chuvas. “Não precisamos de Belo Monte. Ela causará mais impacto ambiental do que benefícios”, diz Baitelo.

Além das questões técnicas e do prejuízo social e ambiental que a obra causará, o documento emitido pelo Ibama, chamado "licença de instalação específica", não é reconhecido pelo Ministério Público Federal (MPF) como válido dentro do direito ambiental brasileiro, o que significa que ele pode ser questionado a qualquer momento na Justiça.

Contra a decisão do órgão ambiental, várias ONGs, entre elas o Greenpeace, aderiram ao abaixo-assinado produzido pelo Movimento Xingu Vivo Para Sempre contra a obra.

Ibama libera canteiro de obras da usina de Belo Monte

Edna Simão, da Agência Estado
Autorização vale por 360 dias e estabelece uma série de condições que deverão ser observadas pelos empreendedores, sob o risco de cancelamento da licença
SÃO PAULO - O Ibama autorizou nesta quarta-feira, 26, ao consórcio Norte Energia, responsável pela obra da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), a implantar a infraestrutura necessária para a instalação do canteiro de obras do empreendimento. A licença, chamada de "autorização de supressão de vegetação", foi assinada nesta quarta pelo presidente substituto do Ibama, Américo Ribeiro Tunes, e está disponível no site da instituição. Com ela, o consórcio poderá fazer todo o procedimento de acampamento, canteiro industrial e área de estoque de solo e madeira.

A licença permite a supressão de 238,1 hectares de vegetação. Deste total, 64,5 hectares estão em Área de Preservação Permanente (APP). A autorização vale por 360 dias, a partir de hoje, e estabelece uma série de condições que deverão ser observadas pelos empreendedores, sob o risco de cancelamento da licença.

Dentre as condicionantes, o Ibama proíbe o uso de fogo e produtos químicos de qualquer espécie para eliminação da vegetação, além de depósito do material oriundo da supressão de vegetação em aterros e em mananciais hídricos.

Outra condição é que o consórcio somente poderá executar a intervenção nas áreas adquiridas ou com permissão do proprietário. Ainda como medida compensatória pelo desmatamento em APP, o consórcio terá de recuperar 64,5 de hectares na área de influência do empreendimento dentro dos 360 dias, prazo de validade da autorização.

A licença foi emitida antes do prazo limite previsto pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, que contava com essa liberação até o final da primeira quinzena de fevereiro.

Leiloada em abril do ano passado, a usina que será construída no Rio Xingu terá capacidade máxima de produção de 11.233 megawatts (MW) de energia. A produção média, entretanto, será bem mais baixa, de 4.571 MW. A hidrelétrica deverá começar a funcionar em 2015.

MPF entra com ação contra licença para Belo Monte

Fonte: Wellington Bahnemann, da Agência Estado
Procuradores alegam que a Norte Energia, concessionária que irá construir e operar a usina, não cumpriu boa parte das condicionantes previstas na licença prévia
SÃO PAULO - O Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA) ajuizou nesta quinta-feira, 27, ação civil pública contra a licença para instalação do canteiro de obras da hidrelétrica Belo Monte, emitida na quarta-feira pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Na ação, apresentada na 9ª Vara da Seção Judiciária do Estado do Pará, os procuradores da República pedem uma liminar para suspender os efeitos da licença do canteiro e a autorização para supressão vegetal até que o mérito dessa ação seja apreciado pela Justiça.

Os procuradores do MPF-PA alegam que a Norte Energia, concessionária que irá construir e operar Belo Monte, não cumpriu boa parte das condicionantes previstas na licença prévia, que foi emitida no ano passado pelo Ibama. O entendimento do MPF é de que o órgão ambiental não deveria emitir a licença para instalação do canteiro de obras aos investidores. A hidrelétrica Belo Monte terá 11 mil megawatts de capacidade instalada e está localizada no Rio Xingu, no Pará.

Nesse contexto, consta no pedido de liminar do MPF-PA que a Justiça também proíba que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) repasse recursos para a Norte Energia enquanto as ações contra o empreendimento tramitarem na Justiça ou até que o consórcio cumpra todas as condicionantes da licença prévia.

Os procuradores também solicitam que a empresa seja obrigada a cumprir todas as condicionantes antes de solicitar a licença de instalação (LI) e que o Ibama só a conceda após a Norte Energia ter cumprido todas as exigências da LP. A ação civil pública é assinada pelos procuradores Bruno Araújo Soares valente, Bruno Alexandre Gütschow, Felício Pontes Jr, Daniel Cesar Azeredo Avelino e Ubiratan Cazetta.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O serviço público e a imoralidade

Trabalhei 35 anos em empresas privadas. Foram anos de luta e muita dedicação para encontrar meu espaço no competitivo mercado do Capital. Sempre achei que as empresas tinham um elevado grau de incompetência e ociosidade, causados pelo despreparo da maioria dos profissionais. São poucas as pessoas competentes e que fazem a diferença.

No entanto, o serviço público leva essa incompetência ao nível extremo! E para agravar ainda mais a situação, uma parcela muito expressiva de servidores públicos não tem nenhum compromisso com a Ética, a Moralidade, a Dignidade e a Justiça! É uma relação doentia, egoísta e indecente, que sempre alimentou os noticiários da imprensa nacional, mas que relutamos a aceitar como um comportamento doentio e predominante. Infelizmente, é verdade.

Estou enojado, decepcionado e arrependido de ter prestado um concurso público e ter assumido um cargo executivo em uma organização pública. Não vejo possibilidade de reversão desse processo nefasto e indecente que predomina nas relações sociais dentro das organizações governamentais. É um câncer que se alastra pelo tecido orgânico da administração pública! Um câncer que, não sendo terminal, mantém esse organismo vivo, sugando a seiva da Nação, promovendo o desperdício dos recursos públicos e humilhando a população que, com extremo esforço, doa parcela expressiva de seus salários para manter essa máquina emperrada em funcionamento.

Não tenho orgulho de meu trabalho porque sei que a maioria dos servidores não é digna do respeito da Nação Brasileira. Em meus sessenta anos nunca experimentei essa sensação de impotência e inutilidade; de que todo trabalho é inútil e todo esforço um desperdício. Jamais convivi com pessoas tão mesquinhas e desprovidas de qualquer sentimento patriótico!

Quanto tempo suportarei essa situação? Não sei... meu instinto me compele a abandonar esse trabalho indigno, mas meu compromisso com a Ética e a Decência me obriga a perseverar. Sinto que essa permanência me consome internamente, mas ainda tenho uma tênue esperança de superar essa força do mal que contamina o Poder. Devo estar errado.

Não há, racionalmente, nenhuma possibilidade de vencer a podridão do poder público. Sou um ser em extinção, remando contra a correnteza, enquanto passam por mim as embarcações dos corruptos e dos comprometidos com suas próprias causas e interesses mesquinhos.

Que pena... este jogo eu já perdi...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Tragédia no Rio deve ser levada em consideração no debate da ‘revisão’ do Código Florestal

Publicado em janeiro 18, 2011 no Ecodebate
A destruição causada pelas fortes chuvas na região serrana do Rio de Janeiro, com mais de 600 mortes contabilizadas até agora, forçosamente será levada em consideração pelos deputados federais no debate sobre o "novo" Código Florestal Brasileiro, cujo relator é o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Para o professor de engenharia florestal da Universidade de Brasília (UnB), Eleazar Volpato, as flexibilizações propostas no relatório do deputado Aldo Rebelo agravam “de forma absoluta” a situação das ocupações de morros e encostas em toda a região da Mata Atlântica.

Ele destacou que, pelo relatório, as chamadas áreas ocupadas, mesmo que estejam em Áreas de Proteção Permanente (APP) ou reservas legais, poderão continuar sendo usadas por moradores ou para fins de exploração comercial. “O que aconteceu no Rio de Janeiro é de uma irresponsabilidade, eu diria até mesmo um sacrilégio. Praticamente ‘liberou geral’ naquelas cidades”, disse Volpato sobre as construções em áreas de encostas nas cidades serranas do estado do Rio.

Caso o código seja aprovado pelo Congresso da forma como está, o acadêmico destacou que todas as pessoas atingidas pelas enchentes, mesmo quem perdeu parentes e bens materiais, poderão permanecer nos mesmos locais condenados, pois o projeto os considera “áreas consolidadas”.

Especialista no código florestal, o professor Volpato disse que, diante das agressões ao meio ambiente, “a natureza vai responder, e é o que está acontecendo nesses casos de desmoronamentos e enchentes [decorrentes das fortes chuvas que caem na região serrana do Rio]. Tem que se limitar o uso humano [ocupação irregular da terra] porque o coice da natureza está aí”.

Já o professor de geociências da Universidade de Brasilia, João Willy Rosa, o problema passa também pela legalidade das ocupações. Para ele, é comum, nas cidades, a falta de zoneamento para definir o tipo de ocupação, urbana ou rural, que é possível. Três critérios são fundamentais e devem obrigatoriamente, segundo o professor, ser levados em consideração nessa análise: o clima da região, a inclinação das encostas e os tipos de solo e de rocha.

Willy Rosa ressaltou que, independentemente do clima da região, qualquer vegetação que seja retirada de encostas de morros para exploração agropecuária ou ocupação humana, deixará o solo mais exposto a deslizamentos.

O professor de geociência da UnB criticou a falta de políticas municipais de ocupação de solo e disse que a presidenta Dilma Rousseff tem razão quando afirma que as tragédias de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo ocorreram porque as pessoas construíram casas nas áreas de risco por falta de alternativa.

Ele destacou que programas habitacionais, como o Minha Casa, Minha Vida, precisam de licença das prefeituras na hora da escolha dos terrenos. Willy Rosa disse que, se essa escolha seguiir critérios técnicos, ajuda a minimizar o problema. “Não pode é querer trocar as residências por votos e dizer que não tem problema [construir em áreas de risco]“.

Para Andre Lima, ambientalista e consultor jurídico da Fundação SOS Mata Atlântica, a liberação de atividades econômicas em áreas de encosta, prevista na proposta em discussão na Câmara, agravará o problema vivido hoje por muitos municípios brasileiros. “Isso está diretamente ligado a área de risco. Não adianta querer jogar o problema para os prefeitos. Diante das pressões [econômicas e políticas], ele vai se embasar na lei”, afirmou.

As mudanças propostas, segundo André Lima, consolidam o uso e a exploração econômica e também de ocupação urbana de áreas de proteção permanentes. “Existe um total conexão. As áreas de consolidações rurais flexibilizam para a ocupação urbana”, disse ele.

Reportagem de Marcos Chagas, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 18/01/2011

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