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domingo, 8 de março de 2015

Os escândalos do PT e as mazelas da Nação


Já fui petista e defendi a bandeira da Ética, da Justiça e Igualdade Social, e da Solidariedade, pautado nas propostas desse partido.
A História, porém, me fez ver que estava errado e, depois de votar em Lula pela última vez, em 2002, jamais voltei a votar nesse partido. A frustração foi enorme! Participei do governo Palocci, em seu primeiro mandato em Ribeirão Preto, mesmo depois de ter sido demitido de meu cargo em favor de outro petista, demitido da PRODAM. Não votei em nenhum candidato do PT desde então, ou seja, desde que o Mensalão expôs as mazelas e os crimes desse partido.
Então, dou meu depoimento sobre os erros do lulopetismo (como diz o Estadão), com base em uma resposta que dei a um petista cego e fanático, como todos aqueles que não acreditam nos fatos, ou que ainda não se conformaram com a decepção que o PT nos causou:

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"Encarnação do demônio" é a situação que enfrentamos hoje! O que funciona neste governo do PT? A Economia está em frangalhos: dívida externa aumentando, balança comercial em déficit, PIB negativo, empregos desaparecendo, indústria em pleno sucateamento, Petrobras mergulhada em endividamento, perda de ativos e desqualificada pelas agências de risco, e o agronegócio correndo o risco de um processo de queda de produtividade em decorrência de uma política irresponsável de devastação do Meio Ambiente e expansão de fronteiras agrícolas.
Aliás, o Meio Ambiente vem sendo desprezado pelas políticas petistas desde o primeiro governo Lula, que preferiu investir no agronegócio em detrimento de nosso patrimônio natural. A Amazônia e o Cerrado estão se aproximando de um ponto de degradação irreversível, o que afetará o clima de toda América do Sul, mas o PT não dá a mínima importância para isso! Em plena realização da Conferência Rio + 20, o Congresso aprovou, e Dilma sancionou a pior lei ambiental que o Brasil já conheceu: o Código Florestal (ou Código do Desflorestamento, como dizia Aziz Ab'Saber), obra "magnífica" de uma maldita e famigerada bancada ruralista, apoiada pelo insípido Aldo Rebelo, que, embora tenha parte de seus líderes na oposição, tem o apoio irrestrito de Dilma Rousseff. Prova disso é que ela colocou no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, nada menos do que a maior inimiga dos Ambientalistas, Kátia Abreu, a Rainha da motosserra, segundo o Greenpeace!
A Política Indigenista nunca foi tão humilhada e desprezada pelos governos brasileiros! Nem mesmo durante a Ditadura Militar! A Fundação Nacional do Índio amarga a sua pior crise, sucateada por falta de recursos humanos e financeiros, e ameaçada pelos ruralistas, que querem ocupar a Amazônia com soja e gado, a qualquer preço! Os corruptos do Congresso ainda ameaçam a FUNAI e os povos indígenas com um projeto de emenda constitucional (PEC215), que propõe que o Congresso, e não a FUNAI e o Ministério da Justiça, decida sobre a demarcação de terras indígenas. Ocorre que esse processo de demarcação é técnico e exige anos de estudos de antropólogos, historiadores, arqueólogos e outros especialistas, e é regulamentado pela Constituição Federal e por decreto presidencial! E, além disso, as terras indígenas estão em permanente ameaça, com centenas, milhares de invasões, promovidas pelos amigos de Kátia Abreu, por grileiros que atuam sem oposição, e com a proteção de pistoleiros que vivem às claras na região Norte, e pelos parlamentares que querem a liberação dessas terras para a exploração minerária, incentivada por um ex-presidente da FUNAI, o senador Romero Jucá, um dos implicados no Petrolão! Nenhuma ação da Funai pode acontecer hoje, sem que alguma ONG estrangeira entre com o dinheiro, pois não temos nem mesmo o suficiente para a manutenção de nossa estrutura administrativa!
A Educação é uma grande farsa! Divulgam indicadores fantásticos, mas ninguém sabe, de fato, como é o ensino básico nas escolas do interior do Brasil! Falta de tudo: professores habilitados, instalações, material didático, merenda escolar... e os crimes de desvio de verbas continuam cada vez mais escandalosos! Mas ninguém sabe disso, não é mesmo? Essa é a desculpa do PT: "eu não sei de nada!" As escolas de nível superior chegaram ao seu pior nível da história! Abrem-se cursos, mas não existe qualidade de ensino! quem se forma é incapaz de escrever coerentemente, ou defender um ponto de vista, ou raciocinar coerentemente, uma vez que a língua de um povo é o instrumento através do qual ele aprende, ensina e evolui intelectualmente!
Nem vou falar dos programas assistencialistas do PT... ou melhor, vou sim! Os petistas disseram que tiraram 40 milhões de pessoas da miséria com o Bolsa Família, não é mesmo? Pois experimentem retirar esse "benefício" por apenas um ano e vejam quantos dos favorecidos pela "mesada" permanecem longe da miséria! O programa não tirou essas pessoas da miséria: apenas está pagando para que elas não passem fome! Nenhum mérito nisso! Seria fantástico se, além de dar a esmola, ensinasse essas pessoas a se sustentar por conta própria! Mas isso não aconteceu, assim como em outros programas igualmente assistencialistas, cujo único objetivo é assegurar a eleição de candidatos petistas, e dar prosseguimento ao seu projeto de poder e de implantação de um modelo socialista bolivarianista no Brasil, à imagem e semelhança aos planos totalitários de Cuba, Venezuela, Bolívia e outros. Ocorre que esses modelos de sistemas de produção estatizantes já demonstraram suas falhas e consequências na miséria dos povos que os tentaram durante décadas. O Comunismo fracassou, junto à doutrina de Karl Marx, nunca trazendo igualdade e justiça social, e gerando estados totalitários, onde a liberdade de expressão se tornou inimiga do regime e do "povo"!
O sistema de transportes não evoluiu, e todos os investimentos feitos por esse governo do PT não foram para se criar novas alternativas para fortalecer e tornar eficientes os modais de transporte, mas para criar obras destinadas aos "sócios" do PT: as grandes empreiteiras, hoje envolvidas no escândalo do Petrolão. Um dos delatores afirmou que a Petrobras é apenas uma, dentre muitas ramificações desse sistema de corrupção, propinas, cartéis e redes de desvio de dinheiro público existentes no Brasil. As ferrovias também não avançaram, atoladas na burocracia estatal e no desinteresse governamental por estimular outros modais de transporte, o que vai contra os "parceiros" do PT e seus "aliados" da indústria automobilística nacional; as hidrovias não saíram do papel, exceto por pequenas "experiências" mal sucedidas, e hoje nem existe água nos rios para viabilizar o transporte fluvial. As bacias hidrográficas sofrem com a devastação ambiental, ameaçando nosso imenso estoque de água doce, o maior do mundo. A aviação civil continua elitizada e de altíssimo custo para o transporte de cargas, tendo pequena participação no sistema logístico nacional. A navegação de cabotagem é um fiasco, pois os portos brasileiros também não foram modernizados como deveriam ter sido. Continuamos tendo uma das piores estruturas portuárias do mundo, encarecendo a exportação de nossos produtos. Consequência? O famoso "custo Brasil" continua fechando as portas do exterior para os produtos brasileiros, acometidos de outra doença: o aumento abusivo dos impostos sobre a produção, sobre a circulação de mercadorias, sobre a folha de pagamentos, sobre os serviços, e sobre nós, aposentados e assalariados! Taxar as grandes fortunas? Isso foi só promessas de campanhas...
O sistema energético, então, foi um desastre completo! Primeiro Lula investiu em termelétricas, para evitar os apagões, mas colocou o Brasil numa camisa de força, obrigado a pagar pelo uso de diesel para movimentar os motores das termelétricas! Depois veio Dilma com sua proposta indecente de investir em Hidrelétricas NA AMAZÔNIA! Com terríveis impactos ambientais e sociais, essas obras estão deslocando, com muito maior intensidade, o "desenvolvimento" para as nossas áreas protegidas, causando mais devastação ambiental. Os povos indígenas, mais uma vez, são as grandes vítimas desse desenvolvimentismo anacrônico, tomado de empréstimo da ideologia comunista dos primórdios do século passado! (OBS: A sociedade dos séculos XIX e XX já não existe mais! A Infraestrutura como "modelo de desenvolvimento" é uma estupidez! O desenvolvimento tecnológico mudou a face da Terra, mas os comunistas não perceberam isso! Por essa razão, o Comunismo, como doutrina, fracassou fragorosamente! A Rússia de hoje é um arremedo do passado! A China só é "comunista" para manter uma oligarquia de privilégios dos poderosos do "regime", mas é Capitalista como nenhum outro país do mundo!) Nada se fez, de efetivo, para substituir a matriz energética por energias renováveis e limpas, como a eólica e a solar, embora tenhamos as melhores condições do mundo para utilizá-las eficientemente. As iniciativas são tímidas e irrelevantes diante da opção hidrelétrica!
Enfim, caros amigos, onde estão as grandes realizações do petismo nesses últimos doze anos? Estamos empobrecidos, envoltos em sucessivas crises de governabilidade, estagnados em todos os setores mais nobres da Nação, e acuados pelos escândalos! Qual será o julgamento da História para esse período negro do Brasil? Qual será o "legado" do petismo nesse quadro trágico? Não, meus caros amigos, a História não será benevolente com o PT...

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Agropecuária é responsável por 90% do desmatamento ilegal no Brasil

Derrubada irregular dá lugar ao gado e à soja. Grande parte dos produtos é destinada à exportação para Rússia, China, EUA e União Europeia, revela estudo. 


Entre 2000 e 2012, a agropecuária foi responsável por metade do desmatamento ilegal nos países tropicais. No Brasil, até 90% da derrubada ilegal da floresta neste período ocorreu para dar lugar ao gado e à soja. Os números fazem parte de um estudo da organização Forest Trends, divulgado nesta quinta-feira (11/09).

Segundo o relatório da ONG americana baseada em Washington, as situações mais críticas foram registradas no Brasil e na Indonésia. No Brasil, parte considerável dos produtos cultivados nessas áreas ilegais vai para o mercado externo: até 17% da carne e 75% da soja. Os destinos incluem Rússia, China, Índia, União Europeia e Estados Unidos.
Brasil e Indonésia são os maiores produtores do mundo de commodities agrícolas para a exportação. O que é colhido nas terras desmatadas ilegalmente nesses países vai parar em cosméticos, produtos domésticos, alimentos e embalagens.

"Naturalmente, os países compradores também são responsáveis. Afinal, eles estão importando e consumindo produtos sem prestar atenção em como foram produzidos. Consequentemente, estão criando uma demanda. E as companhias envolvidas no negócio estão lucrando", avalia Sam Lawson, principal autor do estudo e consultor de instituições como o Banco Mundial e Greenpeace. Ele calcula que esse tipo de comércio gere uma receita de 61 bilhões de dólares, cerca de 140 bilhões de reais.

A pesquisa foi feita ao longo dos últimos três anos e reuniu dados publicados em mais de 300 artigos científicos, informações da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e dados de satélite.

Ilegalidade no Brasil

Ao mesmo tempo em que o estudo aponta o Brasil como líder nesse tipo de ilegalidade, ele reconhece que o país reduziu dramaticamente o desmatamento desde 2004. A taxa de derrubada ilegal na Amazônia caiu mais de 70% se comparada aos índices medidos entre 1996 e 2005.

"No Brasil, as florestas também estão dentro de propriedades privadas. E, em muitos casos, o único documento que o produtor rural tem para justificar sua plantação é um certificado de posse da terra. Eles não têm, necessariamente, a permissão para cortar a floresta para dar lugar a essa plantação", diz Lawson.

Francisco Oliveira, diretor do Departamento de Políticas de Combate ao Desmatamento na Amazônia, do Ministério de Meio Ambiente, diz que a apropriação irregular de terras públicas, ou "grilagem", é uma das principais causas do desmatamento ilegal. "Um grileiro nunca vai buscar uma autorização de desmatamento", acrescenta.

O corte da mata também é feito por proprietários regulares de terra. Mas nem todos respeitam a lei: muitos retiram a vegetação nativa para expandir plantações sem a devida autorização, que é dada pelo governo estadual. Para aumentar o rigor na fiscalização, o governo federal pretende exigir que os estados repassem as autorizações de supressão de vegetação concedidas aos proprietários.

A legislação nacional obriga as propriedades rurais privadas a manter no mínimo 20% da vegetação natural, a chamada Reserva Legal. Por outro lado, ainda não existem dados oficiais que mostrem quem cumpre a lei. A esperança de separar "o joio do trigo" está no Cadastro Ambiental Rural (CAR), introduzido com o novo Código Florestal para ajudar no processo de regularização.

Esse cadastro tem que ser feito por todo proprietário e trará informações georreferenciadas do imóvel, com delimitação das Áreas de Proteção Permanente, Reserva Legal, entre outros. "A pessoa sabe que entrou para um sistema e vai tomar os devidos cuidados para não desrespeitar a legislação, e quer ser respeitada por isso", analisa Oliveira.

Comida e floresta para todos

Cinco campos de futebol de florestas tropicais são destruídos a cada minuto para suprir a demanda por commodities agrícolas. A FAO também vê esses números com preocupação. A organização estima que, até 2050, o mundo precisará de cerca de 60 milhões de hectares extras para suprir a demanda por comida.

Para Keneth MacDicken, especialista em assuntos florestais da FAO, seria possível fazer essa expansão sem agredir as florestas. "Aumentar a produtividade, melhorar as técnicas e diminuir o desperdício são fundamentais", diz.

Para acabar com a produção agropecuária em terras desmatadas ilegalmente, é importante mostrar que a legalidade é rentável. "Nesse processo, empresas como a Embrapa são muito importantes. Porque elas ajudam os proprietários rurais a produzir de forma mais eficiente e mais rápida", exemplifica MacDicken.

Além do aumento na fiscalização e vigilância por satélite, Oliveira, do ministério de Meio Ambiente, aposta na parceria com produtores para mostrar que o consumidor também está ficando mais exigente. "Os compradores de soja no mercado internacional não estão querendo atrelar o nome ao desmatamento ilegal na Amazônia." Essa percepção criou a chamada "moratória da Soja", em que produtores se comprometeram a não estender o cultivo para áreas desmatadas.

Lawson só vê uma saída: "Nada vai funcionar se os governos não tomarem providências contra a ilegalidade". O pesquisador admite que, hoje, o tema é mais discutido entre produtores e consumidores do que há dez anos. No entanto, se os números do desmatamento associado à expansão da agropecuária ainda são altos, a conclusão é que "esse combate ainda não está sendo feito como deveria".

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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Moratória da Soja, a Ocupação da Amazônia e a Questão Ambiental

Desde 2006, o Greenpeace celebra a assinatura e a renovação anual de um acordo com os produtores rurais, que se comprometeram em não comercializar soja produzida em áreas desmatadas. Aparentemente, um bom acordo para os ambientalistas, não fosse o fato óbvio que todas as lavouras de soja do Cerrado e da Amazônia foram plantadas em áreas que foram devastadas há menos de 50 anos...

Vegetação ciliar às margens do Rio Negro, AM
Os ruralistas declararam, este ano, que seria a última renovação do acordo que, a partir de 2015, seria substituído por um novo compromisso, tomando por base o novo Código Florestal, e os instrumentos criados para o Cadastro Ambiental Rural. Com isto, os ruralistas estariam "legalizando" as inovações que eles mesmos propuseram para a "Gestão Ambiental" e para a "Sustentabilidade Agropecuária", nos moldes do novo código florestal.

Em tese, essas propostas viriam de encontro às reivindicações ambientalistas, e permitiriam que eles continuassem a ter acesso ao farto crédito rural, tomando empréstimos a juros subsidiados, como sempre fizeram, assegurando, a um setor sempre endividado, as benesses e generosidades do poder público e dos bancos oficiais de fomento (Banco do Brasil, Caixa Econômia, BNDES). Quantas moratórias a esses empréstimos foram concedidas nos últimos 50 anos? Quantos "perdões" ou parcelamento de dívidas tributárias foram concedidas aos latifundiários?

Pois bem, vamos aos fatos históricos.

O avanço das fronteiras agrícolas sobre a Floresta Amazônica teve início durante a Ditadura Militar, mas suas origens históricas devem ser debitadas a Juscelino Kubitscheck, que pôs em prática as ideias de Getúlio Vargas, de transferir a capital federal para o Centro-Oeste brasileiro. Seu propósito era a "interiorização do desenvoolvimento". Os militares de 64 deram um cunho estratégico ("Segurança Nacional") a esse objetivo, alegando que a ocupação de nossos territórios da região norte seria imprescindível para a afirmação da Soberania Nacional perante a comunidade internacional, que já olhava com interesse as reservas de minérios e a riqueza biológica da Floresta Equatorial para a indústria farmacêutica.

Extração de madeira de Terra Indígena no Pará
A ocupação da Amazônia se deu pela construção da rodovia Transamazônica, complementada por outras rodovias que cruzaram a floresta em todas as direções, criando extensa malha viária, que tornou possível a migração de povos de todas as regiões do Brasil para as áreas antes inóspitas da floresta, e abrindo novas fronteiras agrícolas para essas populações. Para estimular essa migração foram oferecidas terras da União, que se tornariam o embrião das novas cidades que se instalariam ao longo das rodovias. Gaúchos e nordestinos foram os "desbravadores" desses territórios, inicialmente destinados à agricultura e à pecuária de subsistência.

Hidrelétricas da Amazônia (instaladas e previstas) - clique na imagem para ampliar
Em cerca de 50 anos, um quarto da floresta amazônica foi transformada em campos agrícolas. Junto à agropecuária, outros interesses foram despertados: o garimpo de Serra Pelada, a mineração de Carajás, as hidrelétricas de Tucuruí, de Balbina, do Tapajós, do Madeira, do Xingu... um imenso plano de megaconstruções de hidrelétricas foi desenvolvido, tendo seu marco inicial nos governos militares e sendo reativado nos governos petistas, sob coordenação de Dilma Rousseff, em resposta aos apagões do governo FHC. Toda essa energia gerada na Amazônia tinha como público consumidor as populações do Sul e do Sudeste do país.

Essa estraordinária mobilização de povos e interesses trouxe consigo os graves problemas dos aglomerados urbanos (crimas, prostituição, bebidas, drogas), mas também a grilagem de terras, a pistolagem e os "coronéis" da política e da exploração dos recursos naturais, com gravíssimos e irreversíveis danos ao Meio Ambiente. Tudo isso aliado à corrupção nos bastidores de Brasília.

Queimada em meio à vegetação nativa: o 1º passo para a devastação.
As grandes fazendas que se instalaram inicialmente em Mato Grosso e Goiás, logo estenderam seus domínios para o sul da Amazônia, concentrando-se, principalmente, em Rondônia, Pará e Tocantins. As fronteiras agrícolas se expandiam pela ação de madeireiras, seguidas pela pecuária e pelas grandes plantações de soja.

No período de transição da Ditadura para a nova Democracia o Brasil parou. Passamos por grave crise econômica, combatida por mirabolantes "planos econômicos" nos governos de Sarney e Collor, que levaram o país à estagnação por cerca de uma década. O Brasil herdava, dos militares, uma dívida externa de 100 bilhões de dólares, que foram captados para alimentar o assim chamado "milagre econômico" de Delfin Neto, baseado nas grandes obras de infraestrutura: estradas, pontes, hidrelétricas.

Situação da Transposição do rio São Francisco, dez anos depois de iniciada
Os governos petistas seguiram o mesmo caminho, com projetos questionados até por especialistas, como é o caso do "elefante branco" da Transposição do rio São Francisco, cujo valor previsto, de 3,4 bilhões de reais, já supera hoje os oito bilhões, sendo que grande parte da obra encontra-se em estado de abandono.

Resgatado o equilíbrio das contas públicas, graças à "Lei de Responsabilidade Fiscal" e à privatização das grandes estatais de energia, mineração e comunicações, promovidas por Fernando Henrique Cardoso, o país voltou a crescer e expandir sua Economia, principalmente devido ao Agronegócio e às gigantescas propriedades rurais da monocultura de soja, cana de açúcar, milho, algodão e à criação extensiva de gado. A mineração também deu sua contribuição, produzindo ferro, alumínio, manganês para exportação.

A Economia ia bem, mas o povo e o Meio Ambiente iam muito mal. O salário mínimo não ultrapassava a barreira dos cem dólares, a educação seguia, trôpega, pelas reformas promovidas pelo Acordo MEC-USAID dos tempos da Ditadura, e a mão de obra continuava despreparada para alavancar o crescimento industrial. Enquanto isso, os movimentos sociais bradavam "Reforma Agrária já!", através do MST e outras siglas campesinas.

Por do Sol na Floresta Amazônica
Nesse clima de contradições e de conflitos fundiários, o PT se elegeu presidente, na figura carismática de Lula, e atropelou o poder com sua máquina de arrecadação do Mensalão, enterrando-se na lama da corrupção e dos conchavos políticos, aliando-se aos partidos que havia criticado enfaticamente desde sua fundação no ABC paulista. Os movimentos populares se emanciparam e o poder central viveu dias de "ideal revolucionário", substituindo, em oito anos, toda estrutura de poder político, através dos sindicatos e da barganha de cargos em todos os escalões do governo. Um novo grupo de "revolucionários" petistas, assessorado por intelectuais de esquerda trazidos da Academia, tomou o poder, mas entregou posições estratégicas de ministérios e de empresas estatais para partidos sem qualquer ideário democrático ou compromisso ético com a Nação brasileira.

Percebendo a fragilidade desse governo inexperiente e ávido pelo poder, forças reacionárias, vinculadas às oligarquias e ao latifúndio, se infiltraram no poder, tomando de assalto ministérios como o das Minas e Energia, da Agricultura e Pecuária, e do Trabalho, além de manter grande influência nas decisões políticas e econômicas, principalmente a partir da posse de Dilma Rousseff na Presidência da República. Empreiteiras, mineradoras, banqueiros e latifundiários passaram a frequentar o Palácio do Planalto com a desenvoltura de quem não só faz parte do poder, mas tem a primazia de decidir as questões fundamentais da política e da economia nacionais.

Garimpo em Terra Indígena do Pará, próximo a Belo Monte
Se anos de debates ideológicos entre membros da Academia, Ambientalistas e ideólogos socialistas conseguiram produzir a Constituição Federal, o Código Florestal e os avanços da legislação indígena e quilombola, essas novas alianças do poder jogaram tudo por terra em pouco mais de uma década. Não apenas o Meio Ambiente está ameaçado, mas também o armistício entre trabalhadores e empresários, bem como as conquistas sociais, alcançadas a duras penas, desde o fim dos governos ditatoriais. Bancadas fundamentalistas de evangélicos e ruralistas tomaram o poder no Congresso Nacional, aprovando, em poucos anos, aberrações jurídicas que invalidaram décadas de luta pela Democracia e a Liberdade.

Políticos soterrados nas urnas e no julgamento popular, como Paulo Maluf, Renan Calheiros e José Sarney, foram resgatados pelo PT, transformando as casas legislativas em balcões de barganha e de interesses escusos e fascistas. Essa bancadas dominaram de tal forma o poder que já não sabemos quem governa o país: se o PT de Lula ou se o PMDB de Sarney. O fato é que o país caminha sem rumos, sem planos, sem comando central, deixando passar ao largo a mais espetacular oportunidade histórica de se alçar para níveis de desenvolvimento jamais imaginados, graças à grande crise econômica de 2008, que aniquilou as economias europeias e norte-americanas. A China, o México, o Chile, a Índia e outros países menores que o Brasil se agarraram a essa oportunidade e alavancaram suas economias, deixando o Brasil para trás.

Área alagada pela interrupção do curso de um igarapé
A expansão agropecuária teve como consequência imediata a devastação de nossos principais biomas: o Cerrado e a Caatinga, que encolheram 50%, a Amazônia, que perdeu 25% de sua biomassa, e o Pantanal, que se encontra ameaçado pelo esgotamento de seus recursos hídricos, cujas nascentes se encontram, em grande parte, no Cerrado.

A agricultura e a pecuária seguem sua marcha de devastação, aliadas à mineração e à extração de madeiras, além da mais nefasta política de construção de hidrelétricas, com graves impactos às populações tradicionais indígenas e ao Meio Ambiente.

Nossa maior empresa pública, a Petrobrás, uma gigante do petróleo com áreas potenciais de prospecção, passou, nos governos petistas, a cumprir um papel de reguladora das taxas inflacionárias, mantendo preços deficitários, comprometendo os lucros de seus investidores e minando sua capacidade de investimentos, justo no momento em que foram descobertos poços gigantes de petróleo na plataforma marinha do litoral fluminense, conhecidos pela camada de pré-sal, a grandes profundidades. Uma intensa batalha política tomou conta do Congresso, em uma disputa pelos recursos de exploração do Pré-Sal, que já foram divididos entre os Estados da Federação antes mesmo que sua viabilidade técnica e econômica justificasse a euforia inicial.

Diante desse cenário, talvez a Moratória da Soja não tivesse importância tão relevante para a conservação do Meio Ambiente, não fosse o papel determinante da floresta na regulação do clima da América do Sul. Ocorre que o desequilíbrio climático causado pela devastação da Amazônia afetará o Brasil a ponto de inviabilizar até mesmo os latifúndios do agronegócio, sem que esse setor da economia tenha dado sua contribuição efetiva para alavancar o desenvolvimento de nosso país. Houve, sim, um grande enriquecimento desses proprietários de terras, que se limitaram a aumentar suas fortunas pessoais, gerando pouco emprego em função da mecanização plena de suas atividades, pouco contribuindo, também, com baixa tributação de seus produtos, e gozando de incentivos fiscais que ofendem a dignidade de qualquer cidadão, que paga seus impostos.

Canteiro de obras da Hidrelétrica de Belo Monte
Se a moratória da soja é uma mentira, pouco importa agora. O fato é que a devastação continua ativando seu ciclo perverso: derrubada das árvores nobres, queima do que restou da floresta, criação de gado até a exaustão da terra, plantio de soja e, finalmente, a longo prazo, a desertificação desses territórios. Já não importa quem nasceu primeiro: o ovo da derrubada das árvores ou a galinha da exploração intensiva do solo até sua exaustão. Todos fazem parte do mesmo círculo vicioso e nefasto, que resultará na miséria de nosso povo.

Se os latifundiários nunca respeitaram o Código Florestal, em seus 50 anos de existência até a descaracterização promovida pelos ruralistas, por que o fariam agora, com a infeliz redação aprovada em 2012? E mesmo o fazendo, sua nova redação propicia alternativas suficientemente "flexíveis" para se acabar com a quase totalidade de nossos biomas. Estima-se que mais de 50% da Amazônia poderá ser, legalemente, derrubada pelos latifundiários, graças ao novo código, apenas pela redução das áreas de preservação permanente e das reservas legais. Aliás, em assentamentos do INCRA essas reservas sequer existem mais, devido à omissão desse órgão e da falta de punição dos infratores. Os assentamentos são a evidência do efeito "dominó" sobre as vicinais da Transamazônica!

Se a brilhante contribuição de Aziz Ab´Saber, para que se elaborasse um Código da Biodiversidade, era uma utopia inadmissível para nossa primitiva sociedade de consumo e de desperdício, esse novo "Código Ruralista" será uma sentença de morte a ser aplicada à Natureza, em doses homeopáticas, para que a vítima (nossa Nação) não perceba que está sendo entorpecida por um veneno letal...

domingo, 19 de janeiro de 2014

Gestão Dilma é a pior da história para o meio ambiente, diz ambientalista

RICARDO MENDONÇA - FOLHA DE SÃO PAULO

O geógrafo Mario Mantovani trabalha há cerca de dez anos como uma espécie de "lobista da natureza" no Congresso Nacional.

Diretor de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, ele tenta influenciar os projetos relacionados ao tema e coordena informalmente a chamada Frente Parlamentar Ambientalista, fórum com adesão de 187 dos atuais congressistas para debater assuntos da área em reuniões semanais.

Militante da causa desde 1973, conhecido como um dos mais ativos ambientalistas do país, Mantovani não parece medir palavras para expor suas opiniões.

Diz, por exemplo, que a presidente Dilma Rousseff faz o "pior governo da história" para o meio ambiente. Que a aliada Marina Silva não deveria ter ido para o PSB. Ou que o melhor parceiro dos ambientalistas em Brasília é o deputado Zequinha Sarney, filho do ex-presidente que ostenta alta rejeição fora do Maranhão.

Nesta entrevista ele discorre sobre alguns dos principais problemas ambientais do país e conta que, a exemplo do que já fizeram os fazendeiros, os ambientalistas também irão sentar com todos os candidatos à presidência para listar suas reivindicações. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) foi o primeiro deles.

Raquel Cunha/Folhapress 
Mario Mantovani, diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, é um dos mais ativos ambientalistas do país

Folha - O ex-ministro Roberto Rodrigues (Agricultura) disse o assédio dos candidatos à turma do agronegócio nunca foi tão forte e antecipado. O que achou?

Mario Mantovani - É verdade. Acho que o Roberto tem toda a razão quando fala do volume econômico. A situação do Brasil não é boa, a indústria está ruim. Hoje, o que está bombando são as obras públicas, Copa do Mundo e esses eventos, e a indústria da construção. Mas é coisa que circula aqui dentro, o Brasil não faz caixa. E o que a gente viu agora foi que esse dinheiro do agronegócio realmente cresceu muito também. O Brasil está cada vez melhor no agronegócio. E é muito bom isso. Onde está o problema? É que isso é uma commodity. A decisão não é aqui. O valor da commodity é decidido na Bolsa de Chicago, em Nova York. Eles já ficam com o radar ligado, olhando o clima, tudo. E isso cria impacto para todo lugar.

Mas e a política?

Quem está fazendo política em Brasília, como eu faço, vê que não é assim. Esse setor [agrícola] é o que mais tem voto de cabresto ainda. É o que vive especificamente de seus currais eleitorais. É o político de Ribeirão Preto que mantém lá todo um grupo ligado a ele, as cooperativas, tudo isso. Esse pessoal sempre esteve ligado à política partidária. Mas antes era cada feudo para o seu lado. Dessa vez o governo está vendo [o agronegócio] como uma grande força. Vem da luta em torno das mudanças do Código Florestal. Eles [os fazendeiros] se mostraram muito mais eficientes para fazer política do que se mostravam antigamente.

Como foi essa virada?

Os ruralistas acharam um governo que aceitou a chantagem. Até então, essa chantagem se repetia: "Se vocês não fizerem tal coisa, não vai ter comida", diziam. "Se não fizerem isso, o Brasil vai ficar nos rincões". Mas o governo não entrava nisso. O governo dizia: "pare de encher o saco, quem está bancando vocês sou eu."

Com crédito?

Com crédito agrícola. Que nunca foi tão alto como agora. R$ 150 bilhões hoje.

E quando mudou?

Quando o governo precisou refazer essa base eleitoral. Nós tivemos uma baita crise com a base, que foi o mensalão. Qual é o setor mais suscetível e que mais precisa do governo para funcionar? É o setor agrícola. Se não tiver o crédito, não vai para frente. Eles têm direito a isso [ao crédito]. Só que no Brasil não funciona assim, com direitos. Funciona com quem é mais próximo do poder, aí tem menos burocracia. Como o mensalão quebrou as pernas do governo – repare que na base do mensalão não tinha ninguém do meio agrícola, era tudo gente das regiões metropolitanas –, o governo, para refazer a base, buscou os ruralistas. Até então eles não tinham expressão nenhuma. A gente entrou com esses caras em muitas brigas, inclusive sobre o Código Florestal, e eles nunca levaram. Fizemos o Mais Ambiente (programa de cadastro rural), a Lei da Mata Atlântica, a Lei dos Crimes Ambientais, a Lei das Águas e outras. Com alguns deles votando com a gente, inclusive. Mas com a crise do mensalão, quando o governo buscou uma nova frente de apoio, aí começaram as negociações. E aí eles descobriram que poderiam ir avançando.

Dê um exemplo desse avanço. Como é na prática?

Ocorreu no Código Florestal. Eu participei de cada detalhe da tramitação. Então cada vez eles colocavam um bode na sala. "Nós queremos que acabe com a função social da terra". Não dava, o PT não poderia trair assim. "Então exigimos meia função social da terra", diziam. Aí o PT foi fazendo, fazendo, cedendo. E teve o papel do neocomunista Aldo Rebelo (deputado do PC do B-SP), que foi presidente da Câmara, sabia como funcionava a Casa. Eles já tinham conquistado uma coisa em que o governo comeu a maior bola, que foi uma comissão especial para tratar do Código. Com isso, não passaria mais por outras comissões. A Força da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) era muito violenta também, a CNA estava bancando todos os eventos do governo. Então eles avançaram muito.

As disputas não ficaram só sobre o Código, certo?

Eles perceberam a força que tinham no episódio do Código. E aí continuaram as pressões: "queremos mais dinheiro para o crédito", "queremos agora estrada para levar a produção". Então, além de estarmos bancando R$ 150 bilhões de crédito agrícola, você tem dinheiro do governo hoje para fazer infraestrutura, para fazer mais cidades e até algumas insanidades. Exemplo é o caso dos motoristas de caminhão que tinham que descansar de duas em duas horas. Os caras derrubaram isso, porque agora o caminhão de soja tem de sair de Rondônia e bater em Paranaguá (PR) o mais rápido possível. E tem o dinheiro que começa a financiar caminhão, também fora do crédito agrícola. Uma estrutura nova do Brasil.

Mas muito disso é legítimo, não? Qual é o grande problema?

A grande sacanagem é ver tudo isso avançando em cima de área pública. E avançando numa frente na floresta. E conforme avança, uma área fica para trás, vazia. Essa área fica para especulação.

Como isso ocorre?

Vamos pegar na Mata Atlântica. Dos 90% que foram abetos, só 40% tem alguma atividade econômica em cima. O resto é especulação: região metropolitana, expansão das cidades. E muita área abandonada. Qual é o jeito de abandonar? Põe pasto.

Quem conduz isso hoje?

Não são as mesmas oligarquias de antes, as velhas oligarquias. Isso mudou. São as novas oligarquias do crédito. Tem os melhores, como o próprio Blairo [Maggi, produtor de soja e ex-governador do Mato Grosso], que se diz ambientalista. Ele já desafiou os caras: "eu cumpro a lei e faço mais".

Mas é bravata ou é real?

É real. Ele está além da conta. Na reserva legal [parte preservada da mata que toda fazenda precisa ter], ele está acima. E muitas empresas acabaram fazendo isso. Também porque colocaram como ativo: "eu protejo", "eu sou o cara que mais protege". Isso funciona como marketing.

E isso não racha o setor?

Ainda não. Mas vai rachar. E não é uma questão de estar ou não estar do lado dos ambientalistas. É uma tendência, não tem jeito, não volta mais.

Quais são as contas que vocês fazem?

É assim: Dos 860 milhões de quilômetros quadrados que tem o Brasil, há 5,5 milhões de propriedades que dizem que são donas de 560 milhões de hectares. Só que em 60 milhões de hectares é onde está a agricultura. Dentro disso você tem uns 25 ou 30 milhões de soja, 10 de cana, 7 de celulose e vai indo até a abobrinha. E tem 200 milhões de hectares para pasto. Para 200 milhões de bois. Bom, então toda a atividade econômica da agricultura está concentrada aqui: 260 milhões de hectares, somando a plantação e o pasto. Já não é um bom negócio, pois nessa conta dá um boi por hectare. Hoje, para ser uma pecuária boa, você precisa de três bois por hectare. Mas a questão é outra. Se eles têm 560 milhões de hectares e usam 260 milhões, onde está o resto? Cadê os 300 milhões de hectares restantes?

Onde está?

Na mão de especulação. Terras devolutas, Unidades de Conservação, Terras Indígenas. E tem outras coisas que eles não falam. Você tem 30 milhões de hectares para a soja. Se o cara de Chicago descobre que agora vai ter dois bois por hectare e, portanto, vai sobrar 100 milhões de hectares, isso não quer dizer que vai dobrar a produção de soja. Porque se fizer isso, o preço cai. Esse número [30 milhões de hectares para a soja] é contadinho, não vai crescer. As próprias produtoras de semente param de vender. Não vão arriscar. Então, na realidade estamos fazendo a conta mais imbecil. O Brasil fica falando de "uma agricultura que vai produzir alimento para o mundo, nós queremos expandir..." Não vai expandir. Está no limite. Celulose está no limite, cana no limite, soja no limite. Só não está a abobrinha. E desses R$ 150 bilhões do crédito, não chegam R$ 15 bilhões para a agricultura familiar. E mais uma coisa: 80% dos proprietários têm menos de 20% das terras. E 20% têm 80% da terra. Então é essa desigualdade toda. E é essa a bancada que partiu para a chantagem com o governo. E o governo aceitou.

E o dinheiro?

Para ver como funciona eu fui agora lá no Agrishow comprar equipamento. Em 2012, fui com o balão "Veta Dilma" [sobre o Código Florestal] e fizemos um barulho (risos). Agora eu fui comprar. Apareci lá falando que estava precisando comprar colheitadeira de cana, todo o equipamento, caçamba, tudo aquilo. Aí falei: "Como é que assina esse financiamento aí? Minha propriedade tem todos os problemas ambientais, como eu faço?". Sabe qual foi a resposta? "Seus problemas acabaram!" (risos). Disseram: "Você vai receber sua máquina em um ano, vai pagar tanto, esquece o problema [ambiental], Código Florestal... E se você precisar de uma [picape] Amarok aí, para ir quebrando o galho, pode pôr na mesma conta, vai receber na hora". E assim era com Toyota Hilux, tudo. Era uma grande farra do dinheiro. Eu fui de agroboy lá, bota, aquele fivelão no cinto (risos). Os caras não perguntavam quem eu era, nem nada. Tem CPF, faz negócio.

Difícil imaginar que o Brasil deixará de ser fornecedor de produto básico. O que deveria ser feito?

Nós não vamos mudar, deixar de ser um país de commodity. Vai continuar assim, como já era desde 1500. O ciclo do ouro, o ciclo da borracha, o ciclo do café, depois o da cana. Agora tem o da soja. A nossa visão é que agregue nessa commodity a questão ambiental. Então se você comprar uma tonelada de soja do Brasil, você estará levando biodiversidade, porque tem corredor de biodiversidade formado pela APP (Área de Preservação Permanente), tem reserva legal de 20%, está protegendo floresta, tudo isso.

Mas o chinês está preocupado com isso? Vai pagar?

Você tem um mercado maior que o chinês. Para ele tanto faz comprar da Argentina ou o excedente dos Estados Unidos. E a tonelada de soja no Brasil pode custar a mesma coisa. A soja brasileira tem de ser conhecida no mundo. Como foi com o café. O café do Brasil era uma marca, todo mundo sabia que era o melhor por isso ou aquilo. O Brasil precisa pôr uma marca no mundo dizendo "somos produtores de alimento, o celeiro do mundo, mas o celeiro que protege a natureza". O que tem hoje? O que há é uma diplomacia reativa. Como é que o Brasil não leva isso para uma conferência? Poderia dizer "olha o que temos de reserva indígena, olha o que temos de parque".

O que o Brasil fala?

O que a diplomacia fica falando? Fica dizendo assim: "O Brasil não destrói índio". É reativo, percebe? Poderia fazer assim: "Compre tudo o que é feito no Xingu que é para proteger o Xingu. Todos os proprietários lá fizeram a reserva legal e estão fazendo a proteção dos rios com mata, tudo legal". É isso que o Brasil tem. Como eu achei que iria acontecer com o etanol, mas não aconteceu. A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) fez um trabalho maravilhoso, projetou, foi com escritório lá fora e tudo. O que aconteceu? Murchou. Aqui dentro não teve suporte.

O ex-presidente Lula tratava como prioridade. Pelo menos no discurso, não?

O Lula dava suporte, mas esse governo não deu. Esse governo foi atrás do [petróleo da camada] pré-sal, fez uma aposta que até agora não aconteceu e está aí hoje a conta para ser paga. O que fez a celulose? Perguntaram: "O que é que tem no mundo aí que é bom? É o FSC (Forest Stweardship Council), a certificação florestal? Hoje todo mundo é FSC no Brasil. Falaram assim: "Tem alguma coisa mais para cima que FSC no mundo? Não? Então é isso, somos isso".

As empresas mudaram?

Pegue a Veracel [empresa de celulose], que foi minha inimiga mortal 20 anos atrás, lá no sul da Bahia. Eu fui em audiência lá em que o pessoal dizia "lincha". Hoje a Veracel tem 120 mil hectares protegidos e 90 mil plantados. É muito mais que o necessário. Eles têm o FSC, o melhor do mundo, e estão além da lei [na proteção]. Aí você pega Parque Nacional Monte Pascoal, Parque Nacional do Descobrimento e Parque Nacional do Pau Brasil. Esses três parques não somam 80 mil hectares. Estão abandonados, sem gente. Por que uma empresa mantém 120 mil hectares, não pega fogo, ninguém invade? São 120 mil de mata nativa, mata de primeiríssima qualidade. E os parques do governo, na mesma região, estão cheios de problemas. Por que o governo não consegue proteger? Aí está a prova. O Estado é a coisa mais fácil de detonar. Estão lá os políticos fazendo média, botando família para invadir, movimento de sem terra resolve brigar com o governo e invade, índio resolve brigar e invade o parque. E o governo não tem gente para cuidar.

Fale mais dessa história da Veracel.

Eles tinham fama de terem sido detonadores. Foram. Foi provado. A SOS [Mata Atlântica] pegou os caras lá, abrimos uma ação contra eles. Então o que eles fizeram? "Bom, vamos mudar a imagem". E o governo também teve um papel nisso. Quem financiou? Quem é que falava para os caras que o licenciamento era picareta? O ACM (Antônio Carlos Magalhães, ex-senador e ex-governador da Bahia) dizia assim: "Pode meter o trabalho, vai, faz, aqui quem manda sou eu". Os caras foram nessa, se ferraram. Hoje é da Votorantim. Fibria, como chamam. É nota dez. Eu prefiro trabalhar com a Fibria em qualquer circunstância. Tudo top. Na celulose, todos têm reserva legal, como exigem, todos têm APP. E ajudam nós nas brigas. Tanto que não entraram no debate do Código Florestal com os ruralistas. Claro que não. Se entrar nisso, não certifica. E quem dá o certificado não é o governo, é entidade internacional. Disseram o seguinte para os parceiros deles: "Por que vocês não querem fazer, se nós fizemos?" Aí o pessoal respondeu: "então vocês não entram na briga [pela mudança do Código], porque nós vamos brigar".

Depois de vários anos em queda, o desmatamento voltou a crescer. Qual é a explicação?

É a prova da má gestão. Eu estou há 35 anos em ONG. Não estou em partido nenhum, nunca tive nenhum vínculo. O que eu vejo que aconteceu? Eu digo: para o meio ambiente, este é o pior governo da história. Porque o Lula pelo menos incorporou, colocou a Marina Silva [no ministério do Meio Ambiente], fez avanços. A lei da Mata Atlântica, por exemplo, foi com o Lula. A Dilma simplesmente passou o trator em cima de tudo. Não tinha o desmatamento na Amazônia porque tinha o controle muito maior, toda a fiscalização. Com o desmonte da Dilma nesses anos, mudou. E a projeção de desmatamento é muito maior daqui para a frente. Ela abriu todos os controles. O desastre que a Dilma causou vai ser uma coisa para os próximos 10, 20 anos.

Dê exemplos.

O orçamento do ministério. É o pior. Como é que você quer que o ministério que faz licenciamento trabalhe se você não tem um técnico para análise? Acabou com as Unidades de Conservação, não fez mais nenhuma. A PEC 215 (Proposta de Emenda à Constituição que transfere a competência da União na demarcação das terras indígenas para o Congresso), por exemplo, nasceu dentro do governo. É um baita desgaste. Belo Monte, do jeito que foi encaminhado, é uma bola dividida.

Mas era bom antes? Restrição orçamentária tem em todo lugar.

Sim, mas nunca chegou no nível que tem hoje. E nunca teve tanta demanda como tem hoje. Desde a criação o ministério vinha crescendo, vinha incorporando áreas, passa a cuidar de parques, cresce, faz o Instituto Chico Mendes. O que a Dilma fez foi o inverso. Ela acabou desmontando. Antes traziam recursos, fizeram o controle de satélite que não tinha. A Dilma realmente desmontou. O setor que mais teve contingenciamento foi esse.

E a ministra (Izabella Teixeira)?

É uma técnica. Muito competente como técnica, mas não tem influência política. O Zequinha [Sarney, ex-ministro] sabia negociar. Mesmo o [ex-ministro] José Carlos Carvalho tinha algum suporte. A Marina fazia uma baita representação. Ela peitava, ia para cima, tanto que peitou a própria Dilma. O que vimos é que essa ministra [Izabella] ajudou a fechar a porta, foi botando panos quentes.

Vocês estiveram recentemente com o Aécio, né? Como foi a conversa?

Estivemos. Vamos marcar com o [Eduardo] Campos e também com esse governo. A conversa foi muito boa. Falamos de todas essas dificuldades e outras coisas. O ativo que o PSDB tem é grande. A legislação ambiental brasileira foi quase toda feita pelo [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso, uns 90% foram feitos naquele governo. Dissemos. "Vocês vão rasgar tudo isso por causa desse momento?"

Como ele reagiu?

Reagiu com preocupação. E aí depois nós metralhamos. O governo de Minas Gerais é o campeão da devastação no caso da Mata Atlântica. E por quatro anos seguidos.

O que ocorre por lá?

Carvão, a pior coisa do mundo. E o que é pior: com famílias trabalhando nos fornos. No Jequitinhonha [norte do Estado], que é um dos lugares mais pobres, para uso na siderurgia. Eles usam a mata, transformam em carvão e colocam a família trabalhando sem nenhum registro. É a coisa mais medieval que tem. O cara fala que vai fazer um programa ambiental e vem de um Estado que está liderando na devastação? Aí ele ficou preocupado, disse que iria ver o que estava acontecendo. E não é só lá. O Pará também é do PSDB. Também é problemático, com desmatamento.

E no Congresso, como está o meio ambiente hoje?

Em geral, dá para dizer que o meio ambiente vem tendo cada vez mais adeptos. Esse ano que passou talvez não tanto na questão da biodiversidade, mas na questão dos animais. Pet, essas coisas. Se você pegar nas redes sociais, é um fenômeno. Tem mais pet shop no Brasil hoje do que farmácia. Então tem mais gente ligada à questão de animais. O pessoal do pet em Brasília foi o que mais cresceu. É uma coisa impressionante.

A bancada do cão? (risos)

(risos). É a bancada do pet, acho. No nosso café da manhã semanal da frente ambientalista é a turma que mais tem atividade. É o que mais tem atraído gente.

Como é essa frente ambientalista? Um levantamento recente do jornal "O Estado de S. Paulo" mostrou que muitos deputados aparecem na frente, mas também são da bancada ruralista.

São quase 300 pessoas que já assinaram na frente ambientalista. E não é uma frente ideológica. É uma frente de formação. Então se o parlamentar não está comigo hoje na questão do Código Florestal, ele está na discussão sobre resíduos sólidos. Se o outro não está num tema tal, pode estar na discussão sobre pagamento de serviços ambientais. A questão é saber com quem você pode contar em cada questão. Então temos os grupos de trabalho: o das águas, o dos serviços ambientais, o dos animais, que é hoje o mais animado. E tem muitos no do Código Florestal também, agora acompanhando a implementação.

Os ambientalistas fizeram campanha contra a mudança do Código Florestal e perderam. Se era ruim, por que agora querem a implementação rápida?

Mas tinha coisa boa nele. Nós queremos o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Isso vai mostrar quem é quem. Foi a coisa que a CNA foi mais contra. Olha, acho que só teve um momento em que a concentração de terra foi mais desigual que hoje, só na época da capitania hereditária. O maior problema ambiental brasileiro é fundiário. Começa aqui mesmo, em São Paulo, na [represa de] Guarapiranga, em Santo André, na [represa] Billings. Se você pegar aqui, na zona sul [de São Paulo], eu te garanto: 80% das pessoas que moram lá não tem nem documento em cartório, o título. Uma insanidade. O Brasil é completamente irregular. E 90% dessas ocupações foram feitas por políticos. Você sabe, os políticos que fizeram a ocupação em Santo Amaro [bairro da zona sul] são os que mandam aqui em São Paulo hoje, junto com o [prefeito Fernando] Haddad. O maior problema é o fundiário. Então vamos fazer cumprir o Código naquilo que os ruralistas têm maior pavor, que é o controle.

Mas o que se sabe hoje?

Nada.

Como nada? Você sabe quem são os grandes. Você mesmo citou o Blairo Maggi, por exemplo.

Ah, você tem dois ou três. Mas não se sabe os grupos que estão atrás, não sabemos o quem é quem nessas propriedades. E tem um monte de laranja nisso. Então se você tiver o CAR de todas as propriedades, vai saber quem está aonde, como é que está a reserva legal, os limites exatos da propriedade, tudo georreferenciado. Aí você vai saber o tamanho desse Brasil. Como era antes? Tinha a lei que dizia que tinha que tinha que ter reserva legal, mas você não sabia onde nem como. Tinha a lei que dizia que tinha que ter APP, mas não se sabia onde nem como. Agora vamos saber. Quantos proprietários foram beneficiados com a anistia ampla, geral e irrestrita [para desmatamentos feitos antes de 2008] que colocaram no Código? Vamos saber. Quem são eles? Vamos saber. E esses desmatamentos anistiados estão aonde? Vamos saber. Então são elementos para você conhecer e depois entrar na Justiça.

Meio ambiente dá voto?

Nunca deu.

Não é um paradoxo? O tema nunca esteve tão na moda. O apelo está por toda parte, virou marketing das grandes corporações, mesmo as que poluem, está nos discursos de todos os partidos, na mídia, nas escolas...
É, mas ainda não dá voto. O que dá voto? Vai para o cara que faz asfalto, o que dá cesta básica. É o de sempre. A população ainda não tem essa visão sobre meio ambiente. São temas universais. É como a reciclagem: todo mundo é a favor, mas só 2% fazem. Ou saneamento. Todos sabem que cano enterrado não dá voto. Hoje o cara diz "eu fiz um posto de saúde, fiz o hospital regional". Aí você pergunta quantos dos internados nesse novo hospital são por doenças de origem hídrica. Dá 70%. Agora, se fizer um metro de cano, tira sete internações. Mas aí ninguém vê. E é tudo muito recente. Muitos desses ruralistas têm razão quando falam. Eles dizem: "30 anos atrás foi o governo que mandou derrubar [a mata], mandou colonizar". Na cidade também é recente. Trinta anos atrás você não tinha uma lei de uso de solo como tem hoje. Agora tem de ter recuo de frente, de lado, calçada, tudo. Não existia antes. Essas coisas serão cada vez mais exigidas, pois estamos vendo que a cidade fica inviável. Então é muito pouco tempo. Qual é a história do Brasil? Depreda, depreda, depreda. A natureza era uma coisa a ser conquistada, a ser incorporada, nunca teve custo. Esgotou a terra? Abre outra, vai abrindo.

No meio político todo mundo se surpreendeu com a filiação da Marina Silva no PSB após o fracasso da criação da Rede a tempo de disputar em 2014. Entre os ambientalistas também houve surpresa?

Também. Eu não esperava. Eu esperava que ela seguisse firme com a história da Rede e não se entusiasmasse com essa eleição de 2014, que é uma bola dividida. Agora, o que acho que deixou a Marina contrariada é que ocorreu uma baita sacanagem, né? Eles já tinham conseguido as assinaturas [para criar o partido]. Você acha que o Partido Ecológico Nacional conseguiu as assinaturas? O Paulinho [da Força, para criação do Solidariedade]? Então acho que foi uma resposta dela a esse tipo de agressão. No meio, tem gente que gostou [da filiação ao PSB] porque acha que tem de ocupar espaço político. Outros não, como eu. E eu não acho que tem de ter um partido só de meio ambiente. Muito melhor é ter o assunto permeado em todos, PMDB, PSDB, PV, PSOL. O PT tinha um grupo muito bom, mas esvaziou. Mas eu não sei se ela terá tanto ganho quanto teve quando concorreu sozinha.

Quem é melhor parlamentar para tratar de meio ambiente em Brasília hoje?

O Zequinha (Sarney Filho, PV). É o cara mais nota dez com quem eu já trabalhei. E vai se ferrar por causa disso, viu? Porque a base eleitoral dele no Maranhão é onde está o agronegócio hoje. E os caras estão jogando pesado contra ele lá. Pesado mesmo, detonando. Ele vai ter muito problema para se reeleger. O Zequinha... Fiz todas as campanhas contra o pai dele... E é uma coisa impressionante, ele é o meu melhor parceiro lá em Brasília. Desde ministro. Antes até. É o cara mais coerente de Brasília. Eu o conheci antes da Constituição. Na Constituição ele nos apoiou, participou daquele primeiro grupo pequeno, que diziam cabia numa Kombi (risos). E foi aquele grupo que escreveu o capítulo do meio ambiente na Constituição. O cara teve uma vida pautada nesse tema. É por isso que foi ministro, já tinha história.

E no Senado?

Tem gente boa. Você tem o senador de Brasília, o [Rodrigo] Rollemberg (PSB-DF), ele é muito bom. E tinha lá o [Jorge] Viana (PT-AC), né? Mas foi uma das maiores traições que a gente teve, um terror. [Viana foi um dos relatores das mudanças do Código Florestal e, na avaliação dos ambientalistas, atuou em desacordo com os interesses do meio ambiente]

Já acertaram as contas com ele?

Ah, não. Vai ser difícil. Foi terror. Eu mesmo nunca mais falei com ele. E olha que eu converso com todo mundo. Ele traiu. Traiu a Marina até.

E a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO, presidente da CNA), que aparece como porta-voz dos fazendeiros?

Ela é a amiga da presidente, né? Aparecem de mãos dadas. A Kátia é aquela coisa... É o problema pessoal dela. É tudo complicado. Essa mulher tem interesse particular, não é nem interesse corporativo. Eu acho que a bola lá está dividida por lá. Acho que o Roberto Rodrigues, por exemplo, tem uma visão totalmente diferente da dessa mulher. É possível conversar com o Roberto. Com ela, nem pensar, é impossível. E ela tem bala, tem 20 e tantos assessores parlamentares, os melhores jornalistas estão com ela agora, cada dia produzem uma nota. E ela está bem. Bancou o Brasil no Fórum Mundial de Água. Ela tentou colocar aquela tese de que se o Brasil tem APP então todos os países tinham que ter. Nós fomos lá e demos o "Troféu Copo Vazio" para ela (risos). Aí eles ficaram bravos, "quem banca esse estande somos nós". É desse jeito, é ridículo. Então ela está fazendo confronto, não faz diálogo. Todos os posicionamentos dela são agredindo. Muito do que foi o Aldo Rebelo no fim. Aquela conversa "as ONG internacionais", "os que querem impedir o Brasil". Ora, eu não sou ONG internacional.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O gigante sonha que acordou e pode ser golpeado (ou “Como a Globo virou o jogo”)

Na novela das dezoito horas, Flor do Caribe, a Aeronáutica é mitificada; e adolescentes que sempre dormiram na aula de História (ou não tiveram acesso à educação) tatuam o emblema da cobra fumando em seus bracinhos magrelos. Os militares também apareceram como redentores da sociedade na recém-encerrada novela, Salve Jorge, das 21 horas. Em Salve Jorge, o exército, de modo especial a cavalaria, foi elevado a um patamar inédito no imaginário popular. Foi uma propaganda do tipo “Aliste-se Já!” que durou meses. 

Um “golpe branco” (ou mais escuro se for preciso), como plano de contenção vem sendo preparado pelo alto escalão do Exército em parceria com os ruralistas e corporações (dos ramos de energia, comunicação, mineração e armas) conforme atestam, como provas históricas, o artigo da senadora Kátia Abreu (PSD), de outubro de 2011, intitulado “Constituinte em tempos de paz” e o discurso do general Enzo no dia do exército (19 de Abril) de 2012. O general Enzo dizia estar atento à conjuntura e antevendo o que estaria por vir: “Visualizo tempos desafiadores. O Brasil cada vez mais precisa do seu Exército com capacidade de dissuasão e pronta resposta”, disse há pouco mais de um ano.

Antes disso, irritada com a demora para da tramitação do novo Código (anti)Florestal, a senadora Kátia Abreu escrevia considerar que "Há muita coisa na Constituição que se tornou um obstáculo a uma gestão racional do Estado e ao equilíbrio entre direitos e deveres". Segundo ela "As ideias dominantes sobre o funcionamento do Estado, da economia e da sociedade no Brasil de 1988 já não existem mais, não servem mais.(...), precisamos de um Estado muito diferente do que foi cristalizado pelas ideias da Constituição brasileira.".

Por que esse grupo planejaria uma ruptura institucional se tais grupos já se encontram no poder, controlando o Senado, determinando a política de terra, energia e até as intervenções militares em terras indígenas? As eleições de 2010 já haviam demonstrado a nascente influência das redes sociais no processo político brasileiro. Além disso, motivados pela revolta engasgada com as injustiças sociais e a violência policial, jovens do Norte da África e Oriente Médio se mostravam capazes de organizar processos de revolução e insurgência de uma hora para outra. O exemplo poderia se espalhar, como se espalhou, para além do mundo árabe, e a América Latina, com suas mazelas históricas, sempre foi campo fértil para corações rebeldes. É preciso lembrar que o principal fator deflagrador da Meia Revolução Egípcia de 2011 foi a extrema violência e injustiça das ações policiais contra os cidadãos, problema que no Brasil também é endêmico.

É preciso que levemos em conta os planos expansionistas da poderosa bancada ruralista de Kátia Abreu, que sonhava com a aprovação do novo Código Florestal Brasileiro ainda em 2011, o que sabiam que não poderiam fazer sem oposição. Mesmo que a comunidade científica brasileira tenha alertado e tenha desagradado parte da população, a pequena parte que de alguma forma acompanhou os debates sobre esse tema, o Código foi aprovado sem que esse fosse o estopim para um levante civil contra o sistema político falsamente representativo, onde a classe política representa apenas aos seus interesses e aos de seus patrocinadores.

O Brasil perdeu, numa emenda só, 22 milhões de hectares de mata nativa, o equivalente ao estado do Paraná, ou 22 milhões de campos de futebol. Com as novas regras, pessoas que já eram extremamente ricas e donas de áreas enormes, poderão desmatar ainda mais perto de beiras de rios, encostas e etc., prejudicando a todos, já que assim perderemos consequentemente boa parte de nossas nascentes de água, de nossa biodiversidade e da capacidade do planeta de produzir oxigênio, e limpar o ar que a civilização industrial polui. Se uma chuva de bombas nucleares lançado por alguma potência estrangeira tivesse causado tamanho impacto concentrado e de uma só vez, talvez a população do Brasil e do mundo tivesse se chocado e se levantado de fato contra alguém que fizesse uma barbaridade dessas. No entanto, a alienação causada pelo estilo de vida urbano e a televisão, que distrai o povo com outros assuntos menos importantes, foram mais do que suficientes para apaziguar a população.

Devemos lembrar que as pessoas ainda não haviam chegado ao seu limite de endividamento e a febre do consumo era acelerada por desonerações, pequena queda nos juros e perspectiva de geração de emprego devido às obras dos eventos esportivos anunciados. Enquanto podiam trocar de celular e baixar os hits das novelas para lhes servir de despertador, as pessoas não se empolgaram em ir para as ruas pela água que vai faltar a seus filhos.

Mas a qualquer momento a bomba das revoltas populares poderia estourar e por isso Katia Abreu já exigia sua “Constituinte em tempos de paz” e general Enzo antevia “tempos desafiadores”. Ao que parece, esses dois setores da sociedade, Exército e latifundiários, já tem pelo menos desde 2011 um projeto de Estado pronto para caso fosse deflagrada uma crise institucional por qualquer razão que fosse. Trata-se de uma estratégia antiga no Brasil, o poder de fato promover quantas mudanças institucionais necessárias no Estado aparente para manter a ordem social e política como está. Tal prática encontra diversos exemplos históricos, como a própria proclamação de Independência e a fundação da República, conforme analisei em meu ensaio ‘Uma revolução ou reforminha para chamar de sua” *.
O poder econômico tomou 100% do controle do processo político brasileiro, alienando a sociedade de esfera de decisões, conforme bem analisa o Manifesto OcupaSampa (outubro de 2011), marco na história dos movimentos autônomos (redigido coletivamente debaixo do viaduto do chá na Zona Autônoma do levante satyagrahi que durou mais de 40 dias e chegou a reunir mais de mil pessoas no Vale do Anhangabaú).

O próprio Sarney, o coronel eletrônico, presidia a comissão de reforma política que houve no Congresso no mesmo ano de 2011. Sim, o mesmo ex-aliado da ditadura que presidiu o Brasil durante o processo conhecido como “Abertura Democrática” nos anos 80.

Para ser claro e direto: Um projeto de reforma institucional do Estado, que não responde aos anseios democráticos da população, está sendo preparado há pelo menos dois anos pelas classes dominantes. Os discursos da Senadora, dos militares e das novelas não deixam dúvidas para isso.

Televisão Arma de Guerra

E a Globo, onde entra? Entra onde sempre esteve. O jornal O Globo foi decisivo para que o golpe de 64 acontecesse. Um ano após a instalação do regime de exceção a Rede Globo de Televisão era fundada pelos militares e pelo jornalista Roberto Marinho, o “Cidadão Kane brasileiro”. Em pouco tempo, cobriria praticamente todo o território nacional, chegando a mais de 99% dos lares brasileiros. O objetivo era ser uma espécie de porta-voz do regime, exaltando os projetos de desenvolvimento dos militares (por mais superfaturados e absurdos que fossem) e omitindo tanto a corrupção quanto as mazelas sociais do país. A função da Globo sempre foi dissimular, enganar, manipular a população em favor das classes dominantes, que controlavam o governo por meio da junta militar.

Para se ter uma ideia da atuação da Globo, em 1984, quando a sociedade civil começava a se organizar e sair às ruas para pedir eleições diretas e livres, o Jornal Nacional exibiu cenas do mega-comício pelas Diretas Já (no Vale do Anhangabau) dizendo se tratar de um evento em comemoração ao aniversário de São Paulo.

Com o boicote da televisão, numa época onde ainda não existia internet nem redes sociais, o movimento pelas Diretas não se viralizou tanto e a campanha acabou não saindo vitoriosa. O primeiro presidente civil em décadas viria a ser eleito indiretamente pelo congresso. Esse presidente, Tancredo Neves, não chegaria a assumir, já que após uma entrevista com uma famosa jornalista da Globo, caiu doente inexplicavelmente e veio a morrer pouco depois. Quem assumiu foi o oligarca maranhense José Sarney, velho aliado da Ditadura (e de quem estava por trás).

Sarney comandou o país durante a transição e a Assembleia Constituinte de 88, durante esse tempo tratou de estabelecer as bases de uma nova forma de dominação de modo a manter o poder dessas oligarquias mesmo com eleições presidenciais. As concessões de TV foram a fórmula precisa para isso conforme analisei também no quarto capítulo do meu livro (Capitalismo: Religião Global – CC – 2013). 

“Como os minérios do subsolo e rios, o espectro eletromagnético, por onde passam as ondas AM, FM, UHF e VHF, é um recurso natural finito. Finito, pois a quantidade de faixas de onda, que atravessam o espaço, é limitada. A distribuição do direito de exploração, concessão pública, desse recurso natural, o espectro eletromagnético, no entanto, segue critérios políticos.

Rádio e TV são serviços públicos. Ninguém pode ser “dono” de uma faixa do espectro eletromagnético, pois ele é de todo mundo, pois passa por todo mundo. Através de nossas células correm ondas eletromagnéticas, mesmo que não estejamos vendo, com as ondas das novelas, jogos de futebol e toda a tele-evangelização possível.

Tecnicamente, Globo, SBT, Record e Bandeirantes estão prestando um serviço público. O problema é que as concessões são sempre renovadas e não é exigido praticamente nada dessas emissoras em contrapartida. Nada além de "sustentação política”.

Ao longo das últimas décadas, a media televisiva tem feito seu papel. Existe, no entanto, um distanciamento enorme entre a realidade e a realidade MEDIAda. Isso acabou ficando claro com as manifestações, quando se contrastou claramente a voz da TV que diz que no Brasil vai tudo bem e a voz das ruas que sabe que tudo vai mal.

Quando se dita uma suposta “Realidade Nacional” é possível mentir sobre todo o resto. Só quem vive no “faroeste” do Pará (e olhe lá) sabe dos conflitos no Pará; só quem vive os conflitos nas periferias de São Paulo sabe que há uma guerra civil na madrugada há muito tempo. A TV diz para as aldeias da floresta e para as quebradas das megalópolis que o Brasil vai bem, que cada um está sozinho nas suas angustias. O Brasil é um império televisivo.

O jornal noturno da TV Bandeirantes, por exemplo, trata latifundiários que grilaram terras indígenas como vítimas dos índios. Uma reportagem exibida dias antes das explosões das manifestações nessa rede que se tornou a porta-voz do agronegócio começava com um close nos olhos do fazendeiro chorando, e não mostrava ou ouvia um índio sequer. Os índios eram descritos como uma ameaça à “economia do país”. Tudo uma grande mentira, os índios são responsáveis pela manutenção e proteção da biodiversidade, além de deterem o conhecimento ancestral sobre as plantas que podem salvar muitas e muitas vidas por aqui e pelo mundo sem necessidade de dependermos de multinacionais estrangeiras. Se fosse dado o devido respeito e pesquisa para fins públicos universais, só a medicina indígena poderia gerar remédios para tantos males que fariam decair enormemente inclusive nossos gastos com saúde. No Peru, por exemplo, clínicas em que xamãs trabalham junto com médicos têm atingido os maiores índices de recuperação de dependentes químicos viciados em crack e cocaína. Enquanto no Brasil não temos tratamento para essas pessoas e gastamos fortunas com polícia e balas contra elas, os “nóias”, os leprosos de nosso tempo.

Quem perde com as retomadas feitas pelos índios são os latifundiários, os grandes proprietários de terra, que não produzem alimento, mas apenas commodities para serem exportadas para a indústria, seja da China ou dos EUA, como etanol e óleo de soja. Enquanto isso, o preço dos alimentos dispara pois as vastas planícies de dimensões continentais continua pertencendo às mesmas famiglias que também concentram torres de TV e cadeiras no Senado.

A TV e o levante popular
Torcedoras exibem cartaz distribuído pela Globo. Emissora convocou telespectadores a aderirem a protestos do dia seguinte defendendo a Copa no Brasil

Como dizia o músico Gil Scott Heron, “A Revolução não será televisionada”. Uma outra frase, essa de Gandhi sobre a revolução da não-violência também deve ser lembrada: “Primeiro te ignoram, depois te ridicularizam, logo te atacam, e então você vence”. Esse foi o roteiro exato da luta pela revogação do aumento das passagens. A mídia e o estado agiram assim. Arnaldo Jabor passou um papelão ao atacar o Movimento Passe Livre em um telejornal da Globo e pouco depois se ver obrigado a se retratar em sua crônica radiofônica.

Quando os repórteres e fotógrafos da mídia impressa voltaram para as redações com olhos roxos e testas sangrando após a violenta e inconstitucional repressão policial à quinta manifestação contra o aumento do transporte, a mídia não pode mais se omitir nem ridicularizar. A Força da Verdade** venceu e conseguiu que governos de diversas cidades e estados revogassem o aumento das passagens, inclusive em cidades onde não haviam ocorrido, ainda, manifestações.

Essas vitórias populares inspiraram uma série de outros protestos, por diversas coisas, que encontraram, sim, um ponto comum, ou ao menos um alvo simbólico: a Copa do Mundo. Esse era o inicio do despertar para a realidade de que a Indústria do Espetáculo tem uma forte importância na manutenção da ordem política social. Isso fica claro para muitos que não encontram serviços públicos de qualidade, como um hospital num momento de emergência, enquanto essa gente vê o governo gastar bilhões com a construção das arenas da Copa do Mundo e Olimpíadas. Isso é ainda mais claro para aquele que é expulso de suas casas por soldados de seu próprio Estado, que derruba seu bairro para a construção de hotéis ou vias de acesso aos estádios.

A Globo e a Fifa sabiam que ia chegar nela. Com o descredito da Globo, todo o resto apareceria. Que faz então o grupo Roberto Marinho? Se não pode vencê-los, junte-se a eles. A Globo passa a “apoiar” os protestos, mas tenta direcioná-lo, usando a Copa do Mundo a seu favor, para criar uma agenda nacionalista e canalizar a fúria popular para apenas a classe política. Por classe política, entenda-se os profissionais que defendem os interesses de quem lhes paga mais.

O objetivo era impedir que os protestos chegassem a questionar a estrutura agrária e também os latifúndios eletromagnéticos (as grandes concentrações de concessões de rádio e TV na mão de um pequeno grupo privado). 

No dia do primeiro jogo do Brasil na Copa das Confederações, enquanto manifestantes que pediam moradia, fim da violência policial, cancelamento da Copa apanhavam de soldados do lado de fora dos estádios, a câmera focalizava torcedores de classe media alta (os únicos que podem comprar ingressos FIFA) com cartazes do tipo: “Esse protesto é contra a corrupção e não contra a seleção” E divulgavam a hashtag #OGiganteAcordou. A tag conduzia a diversos conteúdos nacionalistas com um discurso contra a corrupção, de modo especial aos escândalos que atingem o governo federal.

Nos dias seguintes as televisões passam a mostrar o caótico caldeirão de insatisfação que toma as ruas como divididos em dois grupos: os “cívicos”, que cantam o hino nacional e apoiam a seleção, e do outro lado os vândalos.

A ênfase maior é nos vândalos. Eles ganham mais espaço nos noticiários da TV aberta com alguns objetivos muito específicos: justificar a ação da polícia, criminalizar as manifestações que questionem a agenda do grupo dominante.

A estratégia da classe dominante agora é criar instabilidade institucional, dividir o povo o quanto puder, identificar eventuais líderes (para coopta-los ou elimina-los via prisão, morte ou qualquer outro meio) e, garantir que a ruptura institucional não atinja o âmago da origem de nossos problemas, nossa estrutura social, mais do que nossa própria ordem jurídica que apenas a legitima. 

O fim da concentração dos meios de produção, seja de bens materiais seja de bens simbólicos, deve ser o foco desse levante popular, que, embora não seja anarquista, é anárquico e só por isso tem também alcançado vitórias.

O Gigante pensa que acordou. O que quer que venha a ser feito precisará de legitimação popular, o que nos coloca no meio de uma verdadeira “guerra simbólica”, como previu Hakin Bey. 


Guerra simbólica: BM dispersa manifestantes que atacaram mascote da Copa financiado pela Coca-Cola em Poa

A disputa política brasileira agora voltou às ruas, às ágoras. É uma disputa de símbolos e ideias. “A luta é pelo sentido das coisas”, já alerta há muito tempo o cineasta carioca Pedro Rios Leão, deletado do Facebook há pouco tempo. E se há uma guerra simbólica envolvida nessa luta de classes dos muito muito ricos contra todo o resto da população, os televisores são canhões apontados para as cabeças desses 99% da população. Entretanto se os verdadeiros gigantes da classe dominante possuem esse canhão, que propaga militarismo já há algum tempo; do outro lado estão meninos com disposição davídica, com suas “fundas” de blogs, fanzines, discursos no busão, latas de spray, rádios piratas, redes sociais, cartazes, aulas públicas, bandas independentes, rodas de discussão em Centros Acadêmicos e pistas de skate. Uma geração disposta a determinar seus próprios caminhos e interagir com a realidade do mundo real.

Essa é, no entanto, uma geração sem muita referência, e muito desconhecimento sobre sua própria História e Geografia (o sucateamento proposital da educação das ciências humanas fez isso com eles; eles não têm culpa). Existem muitos jovens indignados nas ruas, com uma justa fome e sede de justiça, mas que podem ser facilmente cooptados por grupos e ideologias da extrema direita, como os carecas fascistóides que espancavam qualquer um que estivesse trajando vermelho nas últimas marchas na Avenida Paulista.

Alguns passos da Guerra Simbólica

Muitos lances curiosos têm acontecido nessa disputa politica cheia de facções não assumidas. E muita coisa ainda está por vir. Alguns lances por vir são:

- Não sabemos ainda como se postarão os pastores das maiores igrejas evangélicas do país.

- Não sabemos o que o papa vai fazer por aqui.

-Não sabemos se alguns editais para gravar CDs ou indicações para secretarias da Cultura vão fazer o Fora do Eixo pender pro governismo. Essa rede de coletivos de cultura independente (?) pode ajudar a ampliar o som da contracultura e participar ativamente inclusive em termos de proposição estática anti-sistema. Ou então pode recuar como fez ao não apoiar os acampamentos de 15 de Outubro de 2011. Por razões desconhecidas, inclusive por boa parte de sua própria base, o FDE ora está com os movimentos sociais (como na Marcha da Liberdade), ora está com o governo a qualquer custo (como no vergonhoso caso em que chancelou a Rio +20). Se o FDE segue no processo revolucionário com os movimentos autônomos, atuando nessa guerra simbólica, ou se aceitará qualquer emendazinha de consolação do Sistema é um mistério. Isso pode definir inclusive o futuro da música brasileira.

- E movimentos sociais do campo, como ficam? Haverá ocupações autônomas sem lideranças que possam ser cooptadas como ocorrem nos movimentos tradicionais?

-O envio de tropas, “com nosso dinheiro”, contra os índios mundurucu causará nos brasileiros o que o Vietnã causou na juventude estadunidense nos anos 60?

- Os hackerativistas estenderão suas ações para a ocupação de sinais de rádio e TV ou continuarão apenas pichando páginas de internet?

- Essa gente que propõe intervenção militar e se mistura às marchas nas ruas vai convencer alguém?

Na guerra simbólica. A juventude tucana tenta tomar dos anarquistas o símbolo da máscara de Guy Fawkes, até mesmo um vídeo fake dos Anonymous ganhou a rede pedindo que o povo ignorasse questões de gênero e liberdade religiosa e direitos civis de minorias, se focando em “5 causas”, como a cassação de Renan Calheiros. Tal vídeo propunha não o cancelamento da Copa, nem o boicote de seus patrocinadores, mas apenas que se investigassem os gastos, de uma maneira bastante vaga.

Outro lance interessante foi Lula mandar sua base de apoio vestir vermelho e aderir às manifestações de rua. Ele não contava com o fato de que carecas da extrema direita chegassem antes, de verde e amarelo como a Globo mandou, agredindo pessoas de vermelho nas manifestações que até então não haviam registrado qualquer conflito entre manifestantes.

Seja o que for, o processo político está apenas começando. E a disputa não deve permanecer apenas no campo simbólico, mas esse é o campo primordial. O levante da juventude pode nos levar a um país melhor, mais justo e livre; mas não podemos nos esquecer que corremos, sim, o risco de um rebote vindo da Direita. As reformas que a classe dominante almeja são para manter seu poder de fato, ainda que isso implique em tirar direitos e aumentar a repressão em vez de aproximar o povo do centro de decisões.

Sim, o levante popular tem que ser também contra os latifúndios eletromagnéticos, contra o monopólio do discurso, contra a indústria do espetáculo (que distrai e manipula). Os cartazes verde e amarelo mostrados pela Globo no dia do jogo não me representam. Eu acho que o gigante continua dormindo e apenas sonha que acordou, se não perceber de uma vez que a disputa em andamento é muito maior.

Leandro Cruz é jornalista e historiador, editor do blog Viagem no Tempo (www.viagemnotempo.com.br ) autor do livro "Capitalismo: Religião Global" disponivel para download gratuito no link http://www.sendspace.com/file/b32xtk