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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Entrevista com Mikhail Gorbachev (Михаил Горбачёв)



Talvez, a grande lição que esse grande líder mundial nos deixou tenha sido sua humildade. Aos oitenta anos ele ainda demonstrava sua lucidez e simplicidade! Talvez, o que falta aos líderes de nosso país seja, justamente, a humildade. Raras vezes na história um único homem teve a oportunidade e a sabedoria de mudar os destinos da humanidade. Gorbachev foi um deles.

domingo, 14 de setembro de 2014

"Operários em Construção"


OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
Vinícius de Moraes

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo,
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer o tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente,
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão,
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, Cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção,
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:


Notou que a sua marmita
Era o prato do patrão
Que a sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que o seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que a sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
-"Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado,
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção,
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
E o operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca da sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! -disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem pelo chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão, porém, que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
_______________________________________________________

De fato, nós, "operários em construção", não temos mais o poder de mudar nosso "patrão", pois, para isso, seria necessário mudar o processo de subserviência de nossos irmãos operários que, aceitando as migalhas do capitalismo através do assistencialismo de estado, perdem sua autonomia de decidir e mudar sua própria vida. Vinícius fala de outra época (1956), nem tão distante, mas na qual as forças dos partidos políticos não estavam tão imbricadas com forças tão antagônicas, parecendo que tudo não passa de mera ilusão, que nada é diferente, e que não importa quem, não importa como, esse mundo irá permanecer sempre o mesmo. Na década de meu nascimento (1950) o Brasil era um país agrícola, e não havia o agronegócio; a agricultura era uma atividade nobre, e os bancos ofereciam linhas de crédito especiais para os agricultores, através de uma carteira agrícola. Hoje, os operários não estão mais nas lavouras, pois foram substituídos por máquinas; eles também não estão nas fábricas, que foram automatizadas; tampouco estão nas construções, onde o ritmo é frenético, e blocos de pré-moldados servem de peças a serem montadas como um lego gigante. Também a música de Chico Buarque (Construção) já não nos diz respeito.

O que há, então, senão empresas virtuais, empresas de serviços, instituições governamentais onde os trabalhadores são chamados de "servidores", termo medieval e anacrônico, como os serviços prestados à população? Existem os empresários, os banqueiros, os latifundiários... porém, nem mesmo eles são igualmente, os mesmos. Seu escritório está nas bolsas de valores; seus empregados estão nos computadores; seu dinheiro, em um paraíso fiscal, assim como o dos políticos "tiriricas" que riem de nós, pobres palhaços. Nossos inimigos não são mais os patrões, pois até mesmo eles vivem da carniça que apodrece nas salas do Poder de Brasília. O Capital mudou de nome, de negócio e de objetivo. Ninguém trabalha mais para edificar uma Nação, mas para conquistar sua posição, não importa como, não importa com quem, não importa, sequer, quantos serão necessários "desconstruir" para se conseguir o que se quer.

Não somos mais "operários em construção", pois não há mais operários. Não nas dimensões que tinham quando Vinícius escreveu sua ode aos trabalhadores. Aliás, mesmo os "trabalhadores" já usam gravata e convivem nos gabinetes do Palácio do Planalto, com a desenvoltura dos que eram, por eles, condenados e acusados de usurpadores do povo. Já não enxergamos mais, nas obras que aí estão, os frutos de nossas mãos calejadas, de nosso trabalho árduo, porque já não há mais calos nem suor nos trabalhos de gabinete. E a monotonia dos campos de soja substituíram a beleza das lavouras diversificadas dos tempos de Vinícius. Milhões de cabeças de gado caminham pelos prados igualmente monótonos da brachiaria transgênica dos latifúndios das "plantations". E a fumaça das cidades não sai mais das chaminés de fábricas, mas dos encanamentos dos veículos paralisados nas infindáveis filas dos congestionamentos urbanos.

Somos bilhões de seres, três vezes mais do que quando Vinícius teve sua inspiração e produziu seu texto iluminado. O marxismo já não nos entusisma, nem nos faz lutar contra a opressão de nossos patrões endinheirados. Afinal, qualquer um de nós pode se desfazer de seus valores, de seus princípios, de sua ética incorruptível, alistar-se em um partido político dos trabalhadores, e eleger-se membro das confrarias da corrupção e do enriquecimento fácil. Em breve, seremos dez bilhões de seres humanos, andando sem rumo em um mundo desprovido de belezas, intoxicado pelos gases asfixiantes produzidos pela ausência das paisagens que tanto nos encantaram. Não teremos água para saciar nossa sede, mas algum cientista haverá de encontrar uma saída para isso também. Não entenderemos, nem tentaremos descobrir a razão do existir, que tanto incomodaram os filósofos da antiguidade. Mas não haverá, também, filósofos, nem poetas, nem sonhadores, pois esses seres humanos terão sido banidos do convívio da sociedade; serão, tão-somente, marginais.

E aquele operário, que vislumbrava o mundo à sua volta, compreendendo-o como sendo a sua própria obra, terá saltado dos andaimes, espatifando-se no vazio dos pátios das construções. Já não haverá, também, lugar para ele. Vivemos o fim das ideologias e dos valores éticos. Por isso, somente o pragmatismo imediatista se permitirá existir, e aqueles que o afrontarem, ainda que só em pensamentos, terá sido condenado a não mais existir. Nem mesmo delatores haverá, então, pois quem se atreverá a contrariar a lógica das construções sem operários? Não seremos, sequer, "operários em construção"...

sábado, 23 de junho de 2012

DECLARAÇÃO FINAL CÚPULA DOS POVOS NA RIO+20


POR JUSTIÇA SOCIAL E AMBIENTAL, EM DEFESA DOS BENS COMUNS, CONTRA A MERCANTILIZAÇÃO DA VIDA
Movimentos sociais e populares, sindicatos, povos e organizações da sociedade civil de todo o mundo presentes na Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, vivenciaram nos acampamentos, nas mobilizações massivas, nos debates, a construção das convergências e alternativas, conscientes de que somos sujeitos de uma outra relação entre humanos e humanas e entre a humanidade e a natureza, assumindo o desafio urgente de frear a nova fase de recomposição do capitalismo e de construir, através de nossas lutas, novos paradigmas de sociedade.

A Cúpula dos Povos é o momento simbólico de um novo ciclo na trajetória de lutas globais que produz novas convergências entre movimentos de mulheres, indígenas, negros, juventudes, agricultores/as familiares e camponeses, trabalhadores, povos e comunidades tradicionais, quilombolas, lutadores pelo direito a cidade, e religiões de todo o mundo. As assembleias, mobilizações e a grande Marcha dos Povos foram os momentos de expressão máxima destas convergências.

As instituições financeiras multilaterais, as coalizões a serviço do sistema financeiro, como o G8/G20, a captura corporativa da ONU e a maioria dos governos demonstraram irresponsabilidade com o futuro da humanidade e do planeta e promoveram os interesses das corporações na conferência oficial. Em contraste a isso, a vitalidade e a força das mobilizações e dos debates na Cúpula dos Povos fortaleceram a nossa convicção de que só o povo organizado e mobilizado pode libertar o mundo do controle das corporações e do capital financeiro.

Há vinte anos o Fórum Global, também realizado no Aterro do Flamengo, denunciou os riscos que a humanidade e a natureza corriam com a privatização e o neoliberalismo. Hoje afirmamos que, além de confirmar nossa análise, ocorreram retrocessos significativos em relação aos direitos humanos já reconhecidos. A Rio+20 repete o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global. À medida que essa crise se aprofunda, mais as corporações avançam contra os direitos dos povos, a democracia e a natureza, sequestrando os bens comuns da humanidade para salvar o sistema econômico-financeiro. 

As múltiplas vozes e forças que convergem em torno da Cúpula dos Povos denunciam a verdadeira causa estrutural da crise global: o sistema capitalista associado ao patriarcado, ao racismo e à etnofobia. 

As corporações transnacionais continuam cometendo seus crimes com a sistemática violação dos direitos dos povos e da natureza com total impunidade. Da mesma forma, avançam seus interesses através da militarização, da criminalização dos modos de vida dos povos e dos movimentos sociais promovendo a desterritorialização no campo e na cidade.

Avança sobre os territórios e os ombros dos trabalhadores/as do sul e do norte. Existe uma dívida ambiental histórica que afeta majoritariamente os povos do sul do mundo que deve ser assumida pelos países altamente industrializados que causaram a atual crise do planeta.

O capitalismo também leva à perda do controle social, democrático e comunitário sobre os recursos naturais e serviços estratégicos, que continuam sendo privatizados, convertendo direitos em mercadorias e limitando o acesso dos povos aos bens e serviços necessários à sobrevivência.

A atual fase financeira do capitalismo se expressa através da chamada economia verde e de velhos e novos mecanismos, tais como o aprofundamento do endividamento público-privado, o super-estímulo ao consumo, a apropriação e concentração das novas tecnologias, os mercados de carbono e biodiversidade, a grilagem e estrangeirização de terras e as parcerias público-privadas, entre outros.  As alternativas estão em nossos povos, nossa história, nossos costumes, conhecimentos, práticas e sistemas produtivos, que devemos manter, revalorizar e ganhar escala como projeto contra-hegemônico e transformador.

A defesa dos espaços públicos nas cidades, com gestão democrática e participação popular, a economia cooperativa e solidária, a soberania alimentar, um novo paradigma de produção, distribuição e consumo, a mudança da matriz energética, são exemplos de alternativas reais frente ao atual sistema agro-urbano-industrial.

A defesa dos bens comuns passa pela garantia de uma série de direitos humanos e da natureza, pela solidariedade e respeito às cosmovisões e crenças dos diferentes povos, como, por exemplo, a defesa do “Bem Viver” como forma de existir em harmonia com a natureza, o que pressupõe uma transição justa a ser construída com os trabalhadores/as e povos. A construção da transição justa supõe a liberdade de organização e o direito a contratação coletiva e políticas públicas que garantam formas de empregos decentes.Reafirmamos a urgência da distribuição de riqueza e da renda, do combate ao racismo e ao etnocídio, da garantia do direito a terra e território, do direito à cidade, ao meio ambiente e à água, à educação, a cultura, a liberdade de expressão e democratização dos meios de comunicação, e à saúde sexual e reprodutiva das mulheres.

O fortalecimento de diversas economias locais e dos direitos territoriais garantem a construção comunitária de economias mais vibrantes. Estas economias locais proporcionam meios de vida sustentáveis locais, a solidariedade comunitária, componentes vitais da resiliência dos ecossistemas. A maior riqueza é a diversidade da natureza e sua diversidade cultural associada e as que estão intimamente relacionadas.

Os povos querem determinar para que e para quem se destinam os bens comuns e energéticos, além de assumir o controle popular e democrático de sua produção. Um novo modelo enérgico está baseado em energias renováveis descentralizadas e que garanta energia para a população e não para corporações.

A transformação social exige convergências de ações, articulações e agendas comuns a partir das resistências e proposições necessárias que estamos disputando em todos os cantos do planeta. A Cúpula dos Povos na Rio+20 nos encoraja para seguir em frente nas nossas lutas.  

Rio de Janeiro, 15 a 22 de junho de 2012.
Comitê Facilitador da Sociedade Civil na Rio+20 - Cúpula dos Povos

domingo, 27 de novembro de 2011

Por que escrevo? Por quem escrevo?

A idade nos faz responsáveis pelo que há de vir a ser depois de nossa passagem por este mundo, ainda que nossas crenças não passem de desejos. Existem razões para que tenhamos sentimentos inexplicáveis como amor, afeição, compaixão, solidariedade... creio que tudo se explique pelo instinto de sobrevivência, principalmente quando nossa convicção maior seja a de que a morte nos despe de todas as conquistas que a curta vida nos legou. Já abordei esse assunto antes, mas à medida que o tempo se esvai em nossa ampulheta da vida, esse entendimento se torna quase imprescindível, embora inalcançável. Tentamos nos agarrar a alguma coisa que justifique o sofrimento, a dor, as decepções, as tristezas, o ódio, o desejo de vingança, as traições, tudo enfim que nos tenha causado dissabores e sensação de impotência. Agregue-se a isso a impressão de que a humanidade caminha para sua autodestruição, enquanto ainda temos entes queridos neste mundo, e teremos compreendido a máquina dos sonhos que preserva a chama de vida ainda acesa.

Filósofos, sociólogos, antropólogos, teólogos se sucedem na história do homem, sempre buscando a causa, a origem da existência e a motivação para nossa sobrevivência. Ao contrário dos animais, o homem pensa, mas não é por isso que ele existe. O que nos mantém vivos é a esperança de que haja, de fato, uma razão maior, a possibilidade de preservarmos a essência do ser que existe dentro de nós, e que alguns chamam de espírito, outros de alma... o nome não importa. Mas essa criação mental de algo imaterial que transcende a morte é que, de fato nos mantém vivos, nos motiva a ser melhores, a buscar a evolução, a superar os limites do corpo e da mente. Esse é o segredo dos homens, a grande mentira que cada um leva consigo até que o inevitável fim nos alcance e nos mostre que foi apenas uma ilusão e, mesmo lembrados em preces, em nomes de praças, em livros, nas lápides de nosso último endereço, no instante final de nossas vidas saberemos que nada nos livrará do ostracismo, e que essas pequenas menções ao que fomos não nos trará de volta a este mundo, nem nos levará a outras esferas de consciência.

Essa verdade incômoda às vezes é esquecida, ou mesmo negada veementemente por quem ainda está aqui, pois não saberíamos como justificar o dia seguinte, o trabalho, as obrigações cotidianas; nada nos impediria de rejeitar qualquer desconforto ou ameaça, nada nos obrigaria a ser honestos, justos, corretos, pois essas palavras deixariam de ter significado diante de nossa fatal consumação. Assim, torna-se preferível a mentira, as crendices, a fé e até a convicção de que existe algo transcendental depois de nossa vida terrena. E o homem encontrou meios de propagar essa pretensa verdade, que assume diferentes feições conforme a cultura, o saber, o ceticismo, as tradições. Tribos primitivas e sociedades intelectuais, cada uma tem suas próprias razões para construir um arcabouço, uma fundação mística, xamânica ou religiosa que sustente os princípios de coesão social que torna a vida suportável para todos.

Assim, por que escrevo? Para quem escrevo se não tenho essas convicções, se acredito que a morte é o fim de tudo, que não existe deus, céu, inferno ou purgatório, não existem anjos nem demônios, e que quando eu morrer todo conhecimento que adquiri estará perdido para sempre? Por que insisto em me aliar a grupos de defesa do bem comum? Por que critico aqueles que agem de má fé, enganando os ingênuos em favor de si mesmos? Por que combato, com os instrumentos intelectuais que desenvolvi nesse meio século de reflexões e estudos, aqueles que contrariam os princípios da ética, da justiça, da igualdade social? O que espero conseguir com meus pensamentos manifestos, se tudo não passa de mera ilusão? A quem me reporto, afinal?

Assim como todos, eu também preciso de razões para existir, para que o tempo se torne suportável em meus dias intermináveis. Então, escrevo, até por saber que nenhum intelecto é o bastante complexo e evoluído para explicar, ainda que a si mesmo, a razão de estarmos aqui. Sim, isso também é ilusão, é farsa, é mentira, mas me mantém vivo e me faz parecer com os outros seres que, como eu, povoam esta pequena nau sem rumo, voando a esmo pelo espaço infinito e incompreensível. Pensando assim, deixo que o tempo se encarregue de me levar para onde for, pouco me importa, e minhas mágoas se tornam menos ácidas, menos cruéis.

Quando me for para sempre, ficarão esses escritos soltos neste espaço virtual até que uma nova tecnologia sepulte esse obsoleto objeto de que hoje poucos podem prescindir. E como minhas palavras se esvaindo até o fim, assim também novos pensamentos e novas tecnologias farão o homem pensar que é eterno, imaginar-se o próprio deus que ele criou, até que seus traços se esgotem, como a imagem de um espelho enferrujado, despedaçado em um monte de lixo inerte.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Homenagem a Milton Santos


Milton Santos, por André Koehne

Fonte: Wikipedia

Milton Almeida dos Santos (Brotas de Macaúbas, 3 de maio de 1926São Paulo, 24 de junho de 2001) foi um geógrafo brasileiro. Apesar de ter se graduado em Direito, Milton destacou-se por seus trabalhos em diversas áreas da geografia, em especial nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo. Foi um dos grandes nomes da renovação da geografia no Brasil ocorrida na década de 1970.

Biografia

Milton Santos nasceu no município baiano de Brotas de Macaúbas em 3 de maio de 1926. Ainda criança, migrou com sua família para outras cidades baianas, comoUbaitaba, Alcobaça e, posteriormente, Salvador. Em Alcobaça, com os pais e os avós maternos (todos professores primários), foi alfabetizado e aprendeu álgebra e a falarfrancês.

Aos 13 anos, Milton dava aulas de matemática no ginásio em que estudava, o Instituto Baiano de Ensino. Aos 15, passou a lecionar Geografia e, aos 18, prestou vestibular para Direito em Salvador. Enquanto estudante secundário e universitário marcou presença na militância política de esquerda. Formado em Direito, não deixou de se interessar pela Geografia, tanto que fez concurso para professor catedrático no Colégio Municipal de Ilhéus. Nesta cidade, além do magistério desenvolveu atividade jornalística, estreitando sua amizade com políticos de esquerda. Nesta época, escreveu o livro Zona do Cacau, posteriormente incluído na Coleção Brasiliana, já com influência da Escola Regional francesa.

Em 1958, concluiu seu doutorado na Universidade de Strasburgo, na fronteira da Françacom a Alemanha. Ao regressar ao Brasil, criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, mantendo intercâmbio com os mestres franceses. Após seu doutorado, teve presença marcante na vida acadêmica, em atividades jornalísticas e políticas de Salvador. Em 1961, o presidente Jânio Quadros o nomeia para a subchefia do Gabinete Civil, tendo viajado a Cuba com a comitiva presidencial - o que lhe valeu registro nos órgãos de segurança nacional após o golpe de 1964.[1]

Exílio

Em função de suas atividades políticas junto à esquerda, Milton foi perseguido pelos órgãos de repressão da ditadura militar. Seus aliados e importantes políticos intervieram junto às autoridades militares para negociar sua saída do país, após ter cumprido meio ano de prisão domiciliar. Milton achou que ficaria fora do país por 6 meses, mas acabou ficando 13 anos. Milton começa seu exílio em Toulouse, passando por Bordeaux, até finalmente chegar em Paris em 1968, onde lecionou na Sorbonne, tendo sido diretor de pesquisas de planejamento urbano no prestigiado Iedes.

Permaneceu em Paris até 1971, quando se mudou para o Canadá. Trabalhou na Universidade de Toronto. Foi para os Estados Unidos, com um convite para ser pesquisador no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde trabalha com Noam Chomsky. No MIT trabalha em sua grande obra O Espaço Dividido. Dos EUA viaja para a Venezuela, onde atua como diretor de pesquisa sobre planejamento da urbanização do país para um programa da ONU. Neste país manteve contato com técnicos da Organização dos Estados AmericanosEstes contatos facilitaram sua contratação pela Faculdade de Engenharia de Lima, onde foi contratado pela Organização Internacional do Trabalho(OIT) para elaborar um trabalho sobre pobreza urbana na América Latina.

Posteriormente, foi convidado para lecionar no University College de Londres, mas o convite ficou apenas na tentativa, já que lhe impuseram dificuldades raciais. Regressa a Paris, mas é chamado de volta à Venezuela, onde leciona na Faculdade de Economia da Universidade Central. Segue, posteriormente para Tanzânia, onde organiza a pós-graduação em Geografia da Universidade de Dar es Salaam. Permaneceu por dois anos no país, quando recebeu o primeiro convite de uma universidade brasileira, a Universidade de Campinas. Antes disso, regressa à Venezuela, passando antes pela Universidade de Colúmbia de Nova Iorque.

Retorno ao Brasil

No final de 1976, houve contatos para a contratação de Milton pela universidade brasileira, mas não havia segurança na área política e o contato fracassou. Em 1977, Milton tenta inscrever-se na Universidade da Bahia, mas, por artimanhas político-administrativas, sua inscrição foi cancelada. Ao regressar da Universidade de Colúmbia iria para a Nigéria, mas recusou o convite para aceitar um posto como Consultor de Planejamento do estado de São Paulo e na Emplasa. Esse peregrinar lhe custou muito, mas sua volta representou um enorme esforço de muitos geógrafos, destacando-se Armen Mamigonian, Maria do Carmo Galvão, Bertha Becker e Maria Adélia de Souza. Quanto ao seu regresso, Milton tinha um grande papel nas mudanças estruturais do ensino e da pesquisa em Geografia no Brasil.

Após seu regresso ao Brasil, lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) até 1983. Em 1984 foi contratado como professor titular pelo Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), onde permaneceu mesmo após sua aposentadoria.[2]. Também lecionou geografia na Universidade Católica de Salvador.

A trajetória e o reconhecimento

Embora pouco conhecido fora do meio acadêmico, Santos alcançou reconhecimento fora do país, tendo recebido, em 1994, o Prêmio Vautrin Lud (conferido por universidades de 50 países).
  • Sua obra O espaço dividido, de 1979, é hoje considerado um clássico mundial, onde desenvolve uma teoria sobre o desenvolvimento urbano nos países subdesenvolvidos [3].
  • Suas idéias de globalização, esboçadas antes que este conceito ganhasse o mundo, advertia para a possibilidade de gerar o fim da cultura, da produção original do conhecimento - conceitos depois desenvolvidos por outros. Por uma Outra Globalização, livro escrito por Milton Santos dois anos antes de morrer, é referência hoje em cursos de graduação e pós-graduação em universidades brasileiras. Traz uma abordagem crítica sobre o processo perverso de globalização atual na lógica do capital, apresentado como um pensamento único. Na visão dele, esse processo, da forma como está configurado, transforma o consumo em ideologia de vida, fazendo de cidadãos meros consumidores, massifica e padroniza a cultura e concentra a riqueza nas mãos de poucos.

Espaço: abordagem inovadora

A obra de Milton Santos é inovadora e grandiosa ao abordar o conceito de espaço. De território onde todos se encontram, o espaço, com as novas tecnologias, adquiriu novas características para se tornar um "conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações"[4].

As velhas noções de centro e periferia já não se aplicam, pois o centro poderá estar situado a milhares de quilômetros de distância e a periferia poderá abranger o planeta inteiro. Daí a correlação entre espaço e globalização, que sempre foi perseguida pelos detentores do poder político e econômico, mas só se tornou possível com o progresso tecnológico. Para contrapor-se à realidade de um mundo movido por forças poderosas e cegas, impõe-se, para Santos, a força do lugar, que, por sua dimensão humana, anularia os efeitos perversos da globalização.[5].

Estas idéias são expostas principalmente em sua obra A Natureza do Espaço (Edusp, 2002).
No conceito de espaço, Milton Santos revela a noção de paisagem, onde sua forma está em objetos naturais correlacionados com objetos fabricados pelo homem. Santos aponta que espaço e paisagem não são conceitos dicotômicos, onde os processos de mudança social, econômico e político da sociedade resultam na transformação do espaço, que concatenado a paisagem se adaptam para as novas necessidades do homem naquele dado período. Milton Santos revela o conceito de paisagem como algo não estanque no espaço, e sim que a cada período histórico altera, renova e adapta para atender os novos paradigmas do modo de produção social.

São idéias apontadas na obra "Pensando o espaço do homem" São Paulo: Hucitec, 1982.

Referências

  1. Site da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior. <http://www.abmes.org.br/miltonsantos/Biografia/index.asp> Acessado em 12 de maio de 2009.
  2. Milton Santos. Testamento intelectual. São Paulo: Ed. da Unesp, 2004
  3. Milton Santos. O espaço dividido. Os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979 (Coleção Ciências Sociais).
  4. Luis Lopes Diniz Filho. Fundamentos epistemológicos da geografia. 1. ed. Curitiba: IBPEX, 2009 (Coleção Metodologia do Ensino de História e Geografia, 6), p. 198.
  5. Milton Santos. Por uma outra globalização. São Paulo: Record, 2000
Atividades, prêmios e distinções
Por seus méritos, universidades e instituições ligadas à Geografia passam a outorgar-lhe títulos acadêmicos e honrarias. Os mais importantes são[carece de fontes]:
Milton Santos tem o título de Doutor Honoris Causa pelas seguintes instituições:
Além da vida acadêmica, Milton Santos desempenhou outras atividades, entre as quais:

Livros

  • SANTOS, Milton. A cidade nos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira S.A., 1965.
  • SANTOS, Milton. Geografía y economía urbanas en los países subdesarrollados. Barcelona: Oikos-Tau S.A. Ediciones, 1973.
  • SANTOS, Milton. Sociedade e espaco: a formacão social como teoria e como método. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo: AGB, 1977, p. 81- 99.
  • SANTOS, Milton. Por uma Geografia nova. São Paulo: Hucitec-Edusp, 1978.
  • SANTOS, Milton. O trabalho do geógrafo no Terceiro Mundo. SP: Hucitec, 1978.
  • SANTOS, Milton. Pobreza urbana. São Paulo/Recife: Hucitec/UFPE/CNPV, 1978.
  • SANTOS, Milton. Economia espacial: críticas e alternativas. SP: Hucitec, 1979.
  • SANTOS, Milton. Espaço e sociedade. Petrópolis: Vozes, 1979.
  • SANTOS, Milton. O espaço dividido. Os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979 (Coleção Ciências Sociais).
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  • SANTOS, Milton. O Período Técnico-Científico e os estudos geográficos: problemas da urbanização brasileira. Projeto de pesquisa apresentado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), mar. 1989 (datilografado).
  • SANTOS, Milton. Metrópole corporativa fragmentada: o caso de São Paulo. São Paulo: Nobel/Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
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  • SANTOS, Milton. Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Editora Record, 2000.

Sobre Milton Santos

  • ELIAS, D. "Milton Santos: a construção da geografia cidadã". In: El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos. Scripta Nova. Revista electrónica de geografía y ciencias sociales, Universidad de Barcelona, vol. VI, núm. 124, 30 de septiembre de 2002.http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm [ISSN: 1138-9788]

Ver também

Ligações externas

Referências

  1. Site da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior. <http://www.abmes.org.br/miltonsantos/Biografia/index.asp> Acessado em 12 de maio de 2009.
  2. Milton Santos. Testamento intelectual. São Paulo: Ed. da Unesp, 2004
  3. Milton Santos. O espaço dividido. Os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979 (Coleção Ciências Sociais).
  4. Luis Lopes Diniz Filho. Fundamentos epistemológicos da geografia. 1. ed. Curitiba: IBPEX, 2009 (Coleção Metodologia do Ensino de História e Geografia, 6), p. 198.
  5. Milton Santos. Por uma outra globalização. São Paulo: Record, 2000