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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Liberdade de opiniões e de expressão

Talvez muitos se perguntem a razão de eu ter publicado, a partir de informações da Wikipedia, a biografia de Giordano Bruno (veja artigo anterior). Podem até estranhar que eu, ateu convicto, venha a apresentar e reverenciar a história desse teólogo italiano. Talvez nem mesmo compreendam a relação entre o pensamento filosófico desse pensador medieval e nosso contexto histórico contemporâneo, supostamente democrático, pois provavelmente, "nunca na história deste país" houve tamanha liberdade de expressão. Prova disso é a existência deste meu blog, sem censuras ou revanches!

Assunto recorrente em minhas publicações, procuro compartilhar com meu público a certeza de que só pode existir democracia e liberdade de expressão se a população tiver consciência de si mesma e capacidade crítica para analisar (e tirar suas próprias conclusões) acerca de ideologias, de pensamentos coletivos e de linhas filosóficas. Entendo que a Filosofia hodierna,ao contrário do que fora concebida pelos pensadores gregos, alemães e romanos, carece de inteligência, coerência e autonomia de raciocínio e, principalmente, de Cultura.

Não sendo um Filósofo por formação, atrevo-me a qualificar-me como um pensador, uma vez que manifesto minhas ideias com uma certa independência, que a muitos incomoda, e muita determinação, acreditando ser obrigação de todos os seres conscientes ter uma vida coerente com os ideais que defende, sob pena de perder, definitivamente, sua credibilidade. Não postulo conquistar adeptos ou seguidores, mas apenas ajudá-los a pensar.

O que me faz crer que as gerações que me sucederam tornaram-se, via de regra, carentes da capacidade de produzir pensamentos é, paradoxalmente, consequência dos mais avançados recursos de socialização do pensamento: a tecnologia, os meios de comunicação e as redes sociais. A disponibilidade de informação atualizada, extremamente veloz, de baixo custo de aquisição e extremamente "amigável" seria, por princípio, o mais poderoso vetor de crescimento intelectual já produzido pela ciência humana.

No entanto, contraditoriamente, essa mesma facilidade e agilidade tem gerado mais contestações e equívocos do que propriamente fontes de referência qualificadas. Qualquer ideia bem vendida, ainda que falsa ou mentirosa, conquista em poucos minutos milhares, senão milhões de adeptos que sequer questionam sua veracidade e originalidade. Somos induzidos a multiplicar o público-alvo da notícia ou informação antes mesmo de meditar sobre seu significado, relevância ou veracidade. O mecanismo é extremamente simples: ler (de forma superficial), "curtir" e "compartilhar"! Simples assim...


Lembro-me, cinquenta anos atrás, que havia poucas alternativas de busca do conhecimento: a escola (pública), o cinema, os jornais, as revistas e os livros. Quando uma informação nos atingia, tínhamos tempo suficiente para "digeri-la", analisá-la,  interpretá-la à luz de nosso próprio conhecimento, e estabelecer um juízo de valor, corroborando-a e incorporando-a ao nosso acervo pessoal de cultura, ou contradizendo-a através de conclusões próprias acerca de sua veracidade, pertinência e relevância. A veiculação de um fato, conceito ou teoria produzia, assim, transformações indeléveis em nosso arcabouço intelectual.

Cada leitor se transfigurava em autor, transformador de ideias, crítico ou adepto. Esse processo, por ser lento, permitia a sublimação do saber e a evolução natural da cultura, seja coletivamente, seja em cada indivíduo exposto às informações. O menor tempo entre a produção, divulgação e assimilação de uma notícia, teoria ou saber era medido em dias, o suficiente para corroborar a procedência dessa informação e sua singularidade.

O ser humano é, por natureza ou comodismo, preguiçoso e cordato; assim, as transformações sociais se processavam em anos, muitos anos, conforme o impacto causado em seu público consumidor. Dessa forma, a validação da informação poderia ser mais profunda e acurada, e não raro, descartava a ideia rejeitada antes mesmo que ela pudesse causar algum efeito danoso à sociedade.

No entanto, nos dias atuais, a informação circula o mundo em alguns segundos, contaminando milhões de seres humanos quase instantaneamente. Isso não permite às pessoas construir seu próprio juízo de valor, e a decisão em replicá-la entre seus círculos de relacionamento precisa ser tomada quase instantaneamente para assegurar a precedência e originalidade do "autor" (copiador), e pode determinar sua posição de liderança dentro de seu grupo, "tribo" ou "comunidade". Em instantes a "notícia" é traduzida para dezenas de idiomas e "corre mundo"!

Como, então, esperar dessas gerações mais recentes a coerência e a sabedoria necessária para descartar o lixo intelectual que prolifera nesses novos meios de comunicação? Não há tempo para buscar a veracidade das fontes e testar a coerência de princípios que nortearam a seleção da notícia, o desenvolvimento de uma teoria e a relevância do que é publicado.

O "autor" se tornou apenas espectador ou, na melhor das hipóteses, seu replicador! Devo citar exemplos... hoje, pela manhã, antes mesmo de iniciar meus preparativos para o trabalho, debrucei-me em meu notebook e acessei as notícias que rolavam céleres pelo canto da página do Facebook. Logo vi o nome de um amigo de São Gabriel da Cachoeira, milhares de quilômetros de distância de minha casa. Entrei em sua página e, de imediato, uma foto desviou minha atenção e me colocou diante de duas versões de um fato recente: à esquerda, uma mulher segurava seu filho ao colo, com uma arma apontada para a cabeça da criança. O texto, porém me alertava: essa informação era mentirosa ("fake", na linguagem dos internautas)! E à direita a pretensa versão verdadeira: a mesma mulher com a criança no colo, dessa vez com uma chupeta apontada para sua cabeça! Qual das duas era falsa?

Assim, as notícias giram 24 horas por dia nos canais virtuais, mostrando sempre versões conflitantes acerca de um mesmo assunto, de um mesmo povo, de um mesmo local. Não há tempo para análises: é preciso decidir impulsivamente e escolher a versão que lhe convém! E desse modo nos tornamos reféns de um oceano de informações não digeridas que impactarão em nossas vidas para sempre, sem que nos tornemos protagonistas de nosso próprio destino!

Um outro exemplo, já exaustivamente explorado por mim em meus blogs: as eleições em um país democrático (o nosso!). Se os recursos tecnológicos nos habilitaram a votar com segurança em nossos candidatos, por que os representantes eleitos são tão incompetentes, desonestos, safados e hipócritas, traindo nossos ideais que eles juraram defender e compartilhar ao longo da monótona campanha eleitoral?

A razão é simples e foi respondida pelos meus argumentos anteriores: nosso povo perdeu a capacidade de raciocinar, de analisar, de julgar, de tomar decisões e escolher seus representantes "democraticamente" eleitos! Não fosse assim e Tiririca nunca teria sido eleito! Portanto, para que tenhamos uma Democracia de fato, um Congresso digno, governadores, prefeitos e vereadores honestos e bem intencionados, para que sejamos verdadeiramente livres, é preciso mudar esse modelo consumista e predatório de "modo de vida" alicerçado sobre o lodo da incompetência, o limbo da ignorância e o vazio do conhecimento intelectual.

Se as ideologias fracassaram e as estruturas de Estado e de Poder não são adequadas ao desenvolvimento da Humanidade, é preciso transformar nossos processos de aquisição e re-produção do "conhecimento", resgatando aquilo que foi surrupiado do povo para torná-lo passivo, apático, condescendente e complacente com o poder de poucos e a miséria de muitos!... Só haverá um mundo onde valha a pena viver se extirparmos esse mal, definitivamente, de nossa equivocada visão de mundo, e restabelecermos o protagonismo humano nesta Terra.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

LIBERDADE DE IMPRENSA

Com o julgamento do caso Eloá Pimentel e Lindemberg Alves, a discussão acerca dos limites da liberdade de imprensa e a responsabilidade social decorrente das consequências da divulgação exaustiva de detalhes sórdidos de fatos policialescos volta a ser debatida. Afinal, terá a imprensa alterado o resultado das negociações para libertação da refém, contribuindo para causar-lhe a morte? Até onde vai o direito de liberdade de imprensa? 

Quem assiste aos noticiários dos canais de assinantes da TV brasileira percebe o exagero de repórteres em busca de seus espaços na mídia, comprometendo, muitas vezes, a veracidade das notícias veiculadas, sem que editores tenham tempo de evitar seus efeitos. No caso em questão, o criminoso foi exposto exaustivamente à mídia, e a sua defesa alega que esse foi um dos motivos de sua decisão de matar a refém, sua ex-namorada.

Verdade ou não, importa avaliar se esse exagero em noticiar crimes e situações mórbidas contribui para que a sociedade seja melhor ou pior, uma vez que informações relevantes e fatos edificantes não alcançam o mesmo espaço nos veículos de comunicação social. Esse fenômeno não é novo e apenas coloca em evidência a face obscura do ser humano, que se compraz com a tortura, a violência, o crime, os desvios de comportamento, mais do que com as ações nobres e edificantes.

Até onde deverá ir a liberdade de imprensa? Em quanto essa "imprensa marrom" que existe em todos os meios de comunicação contribui para a perversidade do homem, ressaltando o crime ao invés de valorizar o Bem, o Justo, o Belo, o Culto?... Até mesmo os canais de TV voltados para dignificar a Natureza, como o National Geographics destaca o TABU,  o PRISON BREAK, as DROGAS, os SEGUNDOS FATAIS e outros aspectos obscuros do comportamento humano.

Sim, porque o que "dá IBOPE" são os crimes e a maldade humana, e o fator de retro-alimentação da imprensa não pode ser desprezado e negligenciado. Em nome da "liberdade de imprensa" e em defesa dos direitos das emissoras de assegurarem seus lucros irresponsáveis, a TV e a mídia impressa cada vez mais buscam as "catacumbas da mente" e se esquecem que o bom gosto e a cultura precisam ser estimulados permanentemente. Esse é o papel educativo dos meios de comunicação. A Cultura não faz parte do instinto humano, mas a violência sim! É por isso que vivemos hoje o pior momento de nossa evolução intelectual.

No momento em que houve a ruptura dialética entre duas correntes filosóficas, entre o Capitalismo e o Socialismo, perdeu-se o principal fator de motivação do desenvolvimento ideológico da humanidade; e isso pode ser evidenciado pelo vazio que tomou conta dos espaços culturais, dos veículos de discussão filosófica e da própria formação cultural da juventude, hoje contaminada pela "cultura brega" e pela vulgaridade intelectual.

Perdeu-se a capacidade de análise factual, e os meios de comunicação têm toda culpa nesse processo, assim incluídas as redes sociais, que banalizam os fatos e tornam dispensáveis as investigações profundas das causas e consequências das realidades do mundo contemporâneo. Importa muito menos analisar e compreender os fatos do que divulgá-los à exaustão, ocupando durante horas, dias e até meses os espaços da mídia, até que a própria notícia se esvaia e "canse" a audiência, ou novo fato tome conta do noticiário.

A maior evidência desse "prazer mórbido" são os desastres humanos, naturais como um Tsunami, ou induzidos, como um atentado terrorista às Torres Gêmeas. Se a solidariedade com as vítimas existe, ela é pouco relevante diante da satisfação dos desejos humanos pelos detalhes das tragédias, sua "natureza plástica e estética" ao ver desabarem as estruturas, os edifícios, os seres humanos se debatendo desesperadamente em busca da salvação que não é possível... quanto prazer nos causa cada cena dessa natureza?

Até onde seria tolerável a Liberdade de Imprensa? Quais seriam seus limites? Qual a responsabilidade social dos meios de comunicação e seus impactos no desenvolvimento cultural de nossa Nação?

domingo, 27 de novembro de 2011

Por que escrevo? Por quem escrevo?

A idade nos faz responsáveis pelo que há de vir a ser depois de nossa passagem por este mundo, ainda que nossas crenças não passem de desejos. Existem razões para que tenhamos sentimentos inexplicáveis como amor, afeição, compaixão, solidariedade... creio que tudo se explique pelo instinto de sobrevivência, principalmente quando nossa convicção maior seja a de que a morte nos despe de todas as conquistas que a curta vida nos legou. Já abordei esse assunto antes, mas à medida que o tempo se esvai em nossa ampulheta da vida, esse entendimento se torna quase imprescindível, embora inalcançável. Tentamos nos agarrar a alguma coisa que justifique o sofrimento, a dor, as decepções, as tristezas, o ódio, o desejo de vingança, as traições, tudo enfim que nos tenha causado dissabores e sensação de impotência. Agregue-se a isso a impressão de que a humanidade caminha para sua autodestruição, enquanto ainda temos entes queridos neste mundo, e teremos compreendido a máquina dos sonhos que preserva a chama de vida ainda acesa.

Filósofos, sociólogos, antropólogos, teólogos se sucedem na história do homem, sempre buscando a causa, a origem da existência e a motivação para nossa sobrevivência. Ao contrário dos animais, o homem pensa, mas não é por isso que ele existe. O que nos mantém vivos é a esperança de que haja, de fato, uma razão maior, a possibilidade de preservarmos a essência do ser que existe dentro de nós, e que alguns chamam de espírito, outros de alma... o nome não importa. Mas essa criação mental de algo imaterial que transcende a morte é que, de fato nos mantém vivos, nos motiva a ser melhores, a buscar a evolução, a superar os limites do corpo e da mente. Esse é o segredo dos homens, a grande mentira que cada um leva consigo até que o inevitável fim nos alcance e nos mostre que foi apenas uma ilusão e, mesmo lembrados em preces, em nomes de praças, em livros, nas lápides de nosso último endereço, no instante final de nossas vidas saberemos que nada nos livrará do ostracismo, e que essas pequenas menções ao que fomos não nos trará de volta a este mundo, nem nos levará a outras esferas de consciência.

Essa verdade incômoda às vezes é esquecida, ou mesmo negada veementemente por quem ainda está aqui, pois não saberíamos como justificar o dia seguinte, o trabalho, as obrigações cotidianas; nada nos impediria de rejeitar qualquer desconforto ou ameaça, nada nos obrigaria a ser honestos, justos, corretos, pois essas palavras deixariam de ter significado diante de nossa fatal consumação. Assim, torna-se preferível a mentira, as crendices, a fé e até a convicção de que existe algo transcendental depois de nossa vida terrena. E o homem encontrou meios de propagar essa pretensa verdade, que assume diferentes feições conforme a cultura, o saber, o ceticismo, as tradições. Tribos primitivas e sociedades intelectuais, cada uma tem suas próprias razões para construir um arcabouço, uma fundação mística, xamânica ou religiosa que sustente os princípios de coesão social que torna a vida suportável para todos.

Assim, por que escrevo? Para quem escrevo se não tenho essas convicções, se acredito que a morte é o fim de tudo, que não existe deus, céu, inferno ou purgatório, não existem anjos nem demônios, e que quando eu morrer todo conhecimento que adquiri estará perdido para sempre? Por que insisto em me aliar a grupos de defesa do bem comum? Por que critico aqueles que agem de má fé, enganando os ingênuos em favor de si mesmos? Por que combato, com os instrumentos intelectuais que desenvolvi nesse meio século de reflexões e estudos, aqueles que contrariam os princípios da ética, da justiça, da igualdade social? O que espero conseguir com meus pensamentos manifestos, se tudo não passa de mera ilusão? A quem me reporto, afinal?

Assim como todos, eu também preciso de razões para existir, para que o tempo se torne suportável em meus dias intermináveis. Então, escrevo, até por saber que nenhum intelecto é o bastante complexo e evoluído para explicar, ainda que a si mesmo, a razão de estarmos aqui. Sim, isso também é ilusão, é farsa, é mentira, mas me mantém vivo e me faz parecer com os outros seres que, como eu, povoam esta pequena nau sem rumo, voando a esmo pelo espaço infinito e incompreensível. Pensando assim, deixo que o tempo se encarregue de me levar para onde for, pouco me importa, e minhas mágoas se tornam menos ácidas, menos cruéis.

Quando me for para sempre, ficarão esses escritos soltos neste espaço virtual até que uma nova tecnologia sepulte esse obsoleto objeto de que hoje poucos podem prescindir. E como minhas palavras se esvaindo até o fim, assim também novos pensamentos e novas tecnologias farão o homem pensar que é eterno, imaginar-se o próprio deus que ele criou, até que seus traços se esgotem, como a imagem de um espelho enferrujado, despedaçado em um monte de lixo inerte.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Homenagem a Milton Santos


Milton Santos, por André Koehne

Fonte: Wikipedia

Milton Almeida dos Santos (Brotas de Macaúbas, 3 de maio de 1926São Paulo, 24 de junho de 2001) foi um geógrafo brasileiro. Apesar de ter se graduado em Direito, Milton destacou-se por seus trabalhos em diversas áreas da geografia, em especial nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo. Foi um dos grandes nomes da renovação da geografia no Brasil ocorrida na década de 1970.

Biografia

Milton Santos nasceu no município baiano de Brotas de Macaúbas em 3 de maio de 1926. Ainda criança, migrou com sua família para outras cidades baianas, comoUbaitaba, Alcobaça e, posteriormente, Salvador. Em Alcobaça, com os pais e os avós maternos (todos professores primários), foi alfabetizado e aprendeu álgebra e a falarfrancês.

Aos 13 anos, Milton dava aulas de matemática no ginásio em que estudava, o Instituto Baiano de Ensino. Aos 15, passou a lecionar Geografia e, aos 18, prestou vestibular para Direito em Salvador. Enquanto estudante secundário e universitário marcou presença na militância política de esquerda. Formado em Direito, não deixou de se interessar pela Geografia, tanto que fez concurso para professor catedrático no Colégio Municipal de Ilhéus. Nesta cidade, além do magistério desenvolveu atividade jornalística, estreitando sua amizade com políticos de esquerda. Nesta época, escreveu o livro Zona do Cacau, posteriormente incluído na Coleção Brasiliana, já com influência da Escola Regional francesa.

Em 1958, concluiu seu doutorado na Universidade de Strasburgo, na fronteira da Françacom a Alemanha. Ao regressar ao Brasil, criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, mantendo intercâmbio com os mestres franceses. Após seu doutorado, teve presença marcante na vida acadêmica, em atividades jornalísticas e políticas de Salvador. Em 1961, o presidente Jânio Quadros o nomeia para a subchefia do Gabinete Civil, tendo viajado a Cuba com a comitiva presidencial - o que lhe valeu registro nos órgãos de segurança nacional após o golpe de 1964.[1]

Exílio

Em função de suas atividades políticas junto à esquerda, Milton foi perseguido pelos órgãos de repressão da ditadura militar. Seus aliados e importantes políticos intervieram junto às autoridades militares para negociar sua saída do país, após ter cumprido meio ano de prisão domiciliar. Milton achou que ficaria fora do país por 6 meses, mas acabou ficando 13 anos. Milton começa seu exílio em Toulouse, passando por Bordeaux, até finalmente chegar em Paris em 1968, onde lecionou na Sorbonne, tendo sido diretor de pesquisas de planejamento urbano no prestigiado Iedes.

Permaneceu em Paris até 1971, quando se mudou para o Canadá. Trabalhou na Universidade de Toronto. Foi para os Estados Unidos, com um convite para ser pesquisador no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde trabalha com Noam Chomsky. No MIT trabalha em sua grande obra O Espaço Dividido. Dos EUA viaja para a Venezuela, onde atua como diretor de pesquisa sobre planejamento da urbanização do país para um programa da ONU. Neste país manteve contato com técnicos da Organização dos Estados AmericanosEstes contatos facilitaram sua contratação pela Faculdade de Engenharia de Lima, onde foi contratado pela Organização Internacional do Trabalho(OIT) para elaborar um trabalho sobre pobreza urbana na América Latina.

Posteriormente, foi convidado para lecionar no University College de Londres, mas o convite ficou apenas na tentativa, já que lhe impuseram dificuldades raciais. Regressa a Paris, mas é chamado de volta à Venezuela, onde leciona na Faculdade de Economia da Universidade Central. Segue, posteriormente para Tanzânia, onde organiza a pós-graduação em Geografia da Universidade de Dar es Salaam. Permaneceu por dois anos no país, quando recebeu o primeiro convite de uma universidade brasileira, a Universidade de Campinas. Antes disso, regressa à Venezuela, passando antes pela Universidade de Colúmbia de Nova Iorque.

Retorno ao Brasil

No final de 1976, houve contatos para a contratação de Milton pela universidade brasileira, mas não havia segurança na área política e o contato fracassou. Em 1977, Milton tenta inscrever-se na Universidade da Bahia, mas, por artimanhas político-administrativas, sua inscrição foi cancelada. Ao regressar da Universidade de Colúmbia iria para a Nigéria, mas recusou o convite para aceitar um posto como Consultor de Planejamento do estado de São Paulo e na Emplasa. Esse peregrinar lhe custou muito, mas sua volta representou um enorme esforço de muitos geógrafos, destacando-se Armen Mamigonian, Maria do Carmo Galvão, Bertha Becker e Maria Adélia de Souza. Quanto ao seu regresso, Milton tinha um grande papel nas mudanças estruturais do ensino e da pesquisa em Geografia no Brasil.

Após seu regresso ao Brasil, lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) até 1983. Em 1984 foi contratado como professor titular pelo Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), onde permaneceu mesmo após sua aposentadoria.[2]. Também lecionou geografia na Universidade Católica de Salvador.

A trajetória e o reconhecimento

Embora pouco conhecido fora do meio acadêmico, Santos alcançou reconhecimento fora do país, tendo recebido, em 1994, o Prêmio Vautrin Lud (conferido por universidades de 50 países).
  • Sua obra O espaço dividido, de 1979, é hoje considerado um clássico mundial, onde desenvolve uma teoria sobre o desenvolvimento urbano nos países subdesenvolvidos [3].
  • Suas idéias de globalização, esboçadas antes que este conceito ganhasse o mundo, advertia para a possibilidade de gerar o fim da cultura, da produção original do conhecimento - conceitos depois desenvolvidos por outros. Por uma Outra Globalização, livro escrito por Milton Santos dois anos antes de morrer, é referência hoje em cursos de graduação e pós-graduação em universidades brasileiras. Traz uma abordagem crítica sobre o processo perverso de globalização atual na lógica do capital, apresentado como um pensamento único. Na visão dele, esse processo, da forma como está configurado, transforma o consumo em ideologia de vida, fazendo de cidadãos meros consumidores, massifica e padroniza a cultura e concentra a riqueza nas mãos de poucos.

Espaço: abordagem inovadora

A obra de Milton Santos é inovadora e grandiosa ao abordar o conceito de espaço. De território onde todos se encontram, o espaço, com as novas tecnologias, adquiriu novas características para se tornar um "conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações"[4].

As velhas noções de centro e periferia já não se aplicam, pois o centro poderá estar situado a milhares de quilômetros de distância e a periferia poderá abranger o planeta inteiro. Daí a correlação entre espaço e globalização, que sempre foi perseguida pelos detentores do poder político e econômico, mas só se tornou possível com o progresso tecnológico. Para contrapor-se à realidade de um mundo movido por forças poderosas e cegas, impõe-se, para Santos, a força do lugar, que, por sua dimensão humana, anularia os efeitos perversos da globalização.[5].

Estas idéias são expostas principalmente em sua obra A Natureza do Espaço (Edusp, 2002).
No conceito de espaço, Milton Santos revela a noção de paisagem, onde sua forma está em objetos naturais correlacionados com objetos fabricados pelo homem. Santos aponta que espaço e paisagem não são conceitos dicotômicos, onde os processos de mudança social, econômico e político da sociedade resultam na transformação do espaço, que concatenado a paisagem se adaptam para as novas necessidades do homem naquele dado período. Milton Santos revela o conceito de paisagem como algo não estanque no espaço, e sim que a cada período histórico altera, renova e adapta para atender os novos paradigmas do modo de produção social.

São idéias apontadas na obra "Pensando o espaço do homem" São Paulo: Hucitec, 1982.

Referências

  1. Site da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior. <http://www.abmes.org.br/miltonsantos/Biografia/index.asp> Acessado em 12 de maio de 2009.
  2. Milton Santos. Testamento intelectual. São Paulo: Ed. da Unesp, 2004
  3. Milton Santos. O espaço dividido. Os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979 (Coleção Ciências Sociais).
  4. Luis Lopes Diniz Filho. Fundamentos epistemológicos da geografia. 1. ed. Curitiba: IBPEX, 2009 (Coleção Metodologia do Ensino de História e Geografia, 6), p. 198.
  5. Milton Santos. Por uma outra globalização. São Paulo: Record, 2000
Atividades, prêmios e distinções
Por seus méritos, universidades e instituições ligadas à Geografia passam a outorgar-lhe títulos acadêmicos e honrarias. Os mais importantes são[carece de fontes]:
Milton Santos tem o título de Doutor Honoris Causa pelas seguintes instituições:
Além da vida acadêmica, Milton Santos desempenhou outras atividades, entre as quais:

Livros

  • SANTOS, Milton. A cidade nos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira S.A., 1965.
  • SANTOS, Milton. Geografía y economía urbanas en los países subdesarrollados. Barcelona: Oikos-Tau S.A. Ediciones, 1973.
  • SANTOS, Milton. Sociedade e espaco: a formacão social como teoria e como método. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo: AGB, 1977, p. 81- 99.
  • SANTOS, Milton. Por uma Geografia nova. São Paulo: Hucitec-Edusp, 1978.
  • SANTOS, Milton. O trabalho do geógrafo no Terceiro Mundo. SP: Hucitec, 1978.
  • SANTOS, Milton. Pobreza urbana. São Paulo/Recife: Hucitec/UFPE/CNPV, 1978.
  • SANTOS, Milton. Economia espacial: críticas e alternativas. SP: Hucitec, 1979.
  • SANTOS, Milton. Espaço e sociedade. Petrópolis: Vozes, 1979.
  • SANTOS, Milton. O espaço dividido. Os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979 (Coleção Ciências Sociais).
  • SANTOS, Milton. A urbanização desigual. Petrópolis: Vozes, 1980.
  • SANTOS, Milton. Manual de Geografia urbana. São Paulo: Hucitec, 1981.
  • SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Hucitec, 1982.
  • SANTOS, Milton. Ensaios sobre a urbanização latino-americana. SP: Hucitec, 1982.
  • SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1985.
  • SANTOS, Milton. O meio técnico-científico e a redefinição da urbanização brasileira. Projeto de pesquisa apresentado ao CNPq, 1986 (datilografado).
  • SANTOS, Milton. Aspectos geográficos do Período Técnico-Científico no estado de São Paulo. Projeto de pesquisa apresentado à Fapesp, maio 1986 (datilografado).
  • SANTOS, Milton. A região concentrada e os circuitos produtivos. Texto apresentado como parte do relatório de pesquisa do projeto O Centro Nacional: Crise Mundial e Redefinição da Região Polarizada, 1986 (datilografado).
  • SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. São Paulo: Nobel, 1987.
  • SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. Paulo: Hucitec, 1988.
  • SANTOS, Milton. O Período Técnico-Científico e os estudos geográficos: problemas da urbanização brasileira. Projeto de pesquisa apresentado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), mar. 1989 (datilografado).
  • SANTOS, Milton. Metrópole corporativa fragmentada: o caso de São Paulo. São Paulo: Nobel/Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
  • SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. São Paulo: Hucitec, 1993.
  • SANTOS, Milton. Por uma economia política da cidade. SP: Hucitec /Educ, 1994.
  • SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo. São Paulo: Editora Hucitec, 1994.
  • SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia A.(org.). A construção do espaço. São Paulo: Nobel, 1986.
  • SANTOS, Milton. Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Editora Record, 2000.

Sobre Milton Santos

  • ELIAS, D. "Milton Santos: a construção da geografia cidadã". In: El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos. Scripta Nova. Revista electrónica de geografía y ciencias sociales, Universidad de Barcelona, vol. VI, núm. 124, 30 de septiembre de 2002.http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm [ISSN: 1138-9788]

Ver também

Ligações externas

Referências

  1. Site da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior. <http://www.abmes.org.br/miltonsantos/Biografia/index.asp> Acessado em 12 de maio de 2009.
  2. Milton Santos. Testamento intelectual. São Paulo: Ed. da Unesp, 2004
  3. Milton Santos. O espaço dividido. Os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979 (Coleção Ciências Sociais).
  4. Luis Lopes Diniz Filho. Fundamentos epistemológicos da geografia. 1. ed. Curitiba: IBPEX, 2009 (Coleção Metodologia do Ensino de História e Geografia, 6), p. 198.
  5. Milton Santos. Por uma outra globalização. São Paulo: Record, 2000