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sábado, 14 de março de 2015

O triste ocaso de uma ideologia



Depois do enorme fiasco das manifestações de 13 de março de 2015, CUT, MST e PT amargam a ressaca da constatação de que suas teses populistas deixaram de entusiasmar o povo e de levar grandes concentrações de vermelho às ruas do país. Ontem, o que se viu foi um pequeno grupo de militantes, todos uniformizados, com suas bandeiras e camisetas vermelhas, tentando mostrar que ali havia mais pessoas do que estimou a Polícia Militar. Em suas maiores concentrações, na Avenida Paulista, em São Paulo, e na Candelária, no Rio de Janeiro, pouco mais de dez mil pessoas se espalhavam, em um misto de constrangimento e frustração pela ausência do grande público que esperavam.

O que teria causado esse emagrecimento das antigas hostes do que foi o maior movimento popular que o Brasil democrático conheceu? Em primeiro lugar, esses movimentos continuaram agitando as mesmas bandeiras ideológicas que, se fizeram sentido durante a Ditadura Militar e no Século XX, já não mais significam grande coisa em um mundo em ebulição, mais empolgado com o poder da tecnologia do que com teses do Socialismo Marxista do século XIX.

Já não se aplicam mais os conceitos de burguesia, proletariado, patrões e assalariados, esquerda e direita, luta de classes, ditadura do proletariado, palavras típicas das revoltas que mudaram o mundo do século XX. Hoje, o mundo se transforma pelas mãos dos fenômenos tecnológicos, seus recursos em frenética evolução, suas redes sociais, e a mídia "revolucionária", bombardeando mitos e paradigmas, afrontando religiões, quebrando estereótipos ultrapassados e preconceituosos.

Se a ideologia marxista já não encontra eco em nossas sociedades contemporâneas, o mundo capitalista enfrenta sua maior crise de identidade, pois, mesmo com a transformação que se processa pela tecnologia inovadora e imprevisível quanto às suas limitações, nunca a concentração de renda e as grandes, imensas riquezas familiares e industriais atingiram tais extremos. Um abismo de fortunas concentra o poder nas mãos de 1% da população mundial.

E nem o socialismo marxista, nem a democracia capitalista têm resposta a esse desequilíbrio de forças políticas que caracteriza o momento em que vivemos. A opção marxista, anacrônica e desinformada, representaria uma volta ao passado dos Czares da Rússia; a opção capitalista está aí, à vista de todos, enfrentando a pior crise econômica desde a depressão de 1929. E o sintoma mais evidente dessa incapacidade de enfrentar esses desafios do "Admirável Mundo Novo", que emergiu do fim da Segunda Guerra Mundial, são os conflitos intermináveis entre seitas medievais, como a Evangélica, o Judaísmo e o Islamismo, promovendo o desentendimento, as guerras, o terrorismo e a barbárie.

Outras evidências há, como o esgotamento dos recursos naturais, proveniente do crescimento demográfico incontrolável, o consumismo irrefreado e as ofertas cada vez mais atraentes de um mundo povoado pelos sonhos capitalistas, de poder, riqueza e glória. Esses sonhos, acessíveis somente a uma minoria privilegiada, nada têm a ver, no entanto, com as lutas de classe que deram sentido ao marxismo soviético e chinês. Hoje, a Rússia amarga uma situação de crise e de perda de poder, equiparando-se às nações emergentes dos BRICS, enquanto a China dos mandarins abandonou a doutrina e disparou um processo de crescimento vertiginoso, motivado pela sua imensa população, um mercado consumidor praticamente inesgotável, e pela adoção do modelo capitalista, selvagem e predatório, mais alinhado com os efeitos de devastação que causa.

Essa é a realidade atual, contraditória e predatória, incapaz de vencer os desafios que se apresentam à civilização do século XXI: convivência com as diferenças de visão de mundo e de religiões medievais, enfrentamento dos problemas ambientais e implantação de um modelo de desenvolvimento e consumo menos predatório e devastador, respeito à diversidade étnica e aos direitos das populações tradicionais de viver de acordo com suas tradições, crenças e modos de produção, redução das imensas disparidades entre a distribuição das riquezas do mundo, acabando com os privilégios das classes abastadas e coibindo a acumulação inesgotável de capital e poder a um grupo minoritário, controle rigoroso do crescimento demográfico e da distribuição das populações de modo mais uniforme pelos territórios habitáveis do mundo.

Fato é que essas ideologias que moveram o mundo, e cuja existência se exauriu na mudança de milênio, já não respondem mais a esses desafios, e não serão capazes de gerir uma civilização em permanente contradição entre o consumo e a acumulação de capital, e as noções de sustentabilidade econômica, ambiental e social, que deverão servir de arcabouço ideológico para uma futura ideologia, cujos valores e princípios deverão versar sobre justiça social, paz e tolerância às diferenças, que sempre existirão no mundo, pois não há igualdade na distribuição uniforme das riquezas do mundo. O ser humano se caracteriza, justamente, pela sua diversidade cultural e sua intelectualidade contraditória.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A POLÍTICA A SOCIEDADE E O GOVERNO DO FUTURO

Cyberspace: o mundo do futuro, onde as distâncias perdem o significado
Muito se fala sobre "Reforma Política", "Reforma do Estado", "Reforma das Instituições" e outras "reformas" necessárias à contemporaneidade do mundo. No entanto, tais reformas, tal como têm sido concebidas e propostas, nada possuem de contemporâneo e muito menos de visionário. Tratam-se apenas de adaptações que ignoram as transformações extraordinárias que vêm ocorrendo, principalmente, em função das novas tecnologias da Informação e da Comunicação. Não são meras mudanças decorrentes da tecnologia, mas a superação virtual dos espaços reais, físicos, tais como concebidos em eras anteriores ao século XX.

Para se compreender a complexidade desse "Admirável Mundo Novo" e os impactos que dele advirão para as sociedades do futuro, é necessário antever algumas das possibilidades tecnológicas e as transformações que acarretarão na vida humana. Basta, porém, ter a convicção de que as instituições que existem hoje não terão lugar na sociedade do futuro. E esse futuro já bate à nossa porta, e as tecnologias existentes já permitiriam que essas transformações se processassem, não daqui a dez, cinquenta ou cem anos, mas agora!

O que certamente desaparecerá nesse mundo novo? O papel, os automóveis, o petróleo, os latifúndios, as aldeias, o casamento, as cadeias, a polícia, o exército, as assembleias, câmaras, congressos, partidos políticos e outras associações, a propriedade privada, os escritórios e organizações, os cinemas e as salas de espetáculo, as igrejas e as religiões, as escolas, os animais de abate, os zoológicos, a carne como alimento, o esgoto e os lixões, os fios, as linhas de transmissão de energia e as hidrelétricas, as ideologias e as guerras.

Muitos se perguntarão como seria possível um mundo sem essas instituições e sem esses objetos e conceitos, hoje essenciais para a vida de qualquer ser humano. Mas, se observarmos atentamente, todas essas "coisas" e conceitos são primitivos, e vinculados às características de nosso mundo em transição. Assim, passarei a descrever cada um deles e as causas de seu desaparecimento.

PAPEL. Só existe porque é usado, ainda, como meio de comunicação. Porém, as tecnologias digitais já tornam supérfluo e inaceitável o "papel" como mídia destinada à veiculação de idéias, de notícias e de conhecimentos. Estou escrevendo em um meio digital, para ser publicado em um espaço virtual, para conhecimento de milhões de pessoas que se interessem pelo tema e que sejam estimuladas pelas "tags" (ou palavras-chave) que eu colocar em minha mensagem. Tudo sem usar o papel. Além disso, o papel é fruto da destruição das florestas.

AUTOMÓVEIS. Como meio de transporte, os automóveis são resquícios de uma sociedade aristocrática e ineficiente. Todas as vias construídas para esse tipo de veículo são sub-aproveitadas, assim como o próprio veículo per se, que ocupa o espaço de dez pessoas sentadas em um veículo coletivo, mas transporta, em média, apenas duas. Veículos individuais e coletivos, percorrendo trajetos planejados, utilizando energias renováveis, substituirão os automóveis assim que outros paradigmas sociais tenham sido removidos.

PETRÓLEO. Simples corolário do item anterior, além do resultado do esgotamento desse combustível fóssil, o petróleo desaparecerá assim que sua produção e comercialização sejam inviabilizados pela produção de outras formas de energia renováveis, mais econômicas e não poluidoras. Talvez mesmo antes de que os investimentos do pré-sal tenham sido amortizados, o petróleo já terá se transformado em uma fonte proibitiva e inviável, política e economicamente, superado por fontes limpas e sustentáveis de energia.

LATIFÚNDIOS. Esse tipo de lavoura, que utiliza espaços gigantescos com baixa produtividade em relação ao consumo humano, e com enorme impacto sobre o meio ambiente, deverá ser substituído por fábricas de alimentos sintéticos, resultado do desenvolvimento da biogenética e de novas versões de transgênicos que não dependam do solo para sua fertilização e produção. Os latifúndios são o reflexo de uma sociedade feudal inaceitável, e que já deveria ter sido extinta, pois é geradora de privilégios e comportamentos inadmissíveis em um mundo superpovoado, como será a Terra no final deste século.

ALDEIAS. Pequenas aglomerações humanas se tornarão impossíveis em um mundo cujos espaços sejam cada vez mais insuficientes para abrigar uma gigantesca civilização cibernética. A ideia romântica de vilas, povoados e aldeias dará lugar ao pragmatismo da sobrevivência da espécie humana. Comunidades indígenas, quilombolas, de lavradores e ribeirinhos não caberão nesse mundo novo que se prenuncia. Serão absorvidas pelas novas cidades cibernéticas.

CASAMENTO. A união conjugal vem passando por transformações históricas. Embora a homossexualidade seja tão antiga quanto o homem, só neste século é que a sociedade passou a admitir que a escolha de parceiros sexuais é uma decisão que não cabe à sociedade julgar, em termos de moralidade. Por outro lado, o casamento, que nas suas origens representava a bênção da igreja para a procriação, deixou de fazer sentido com essas modalidades conjugais, tornando-se mero contrato social destinado a assegurar os direitos de cada parte na união.

CADEIAS. Prisões são feitas para isolar o indivíduo que quebra as regras de convivência social, em prejuízo de alguém que se sentiu lesado, ou como prevenção a novos crimes praticados contra a sociedade. Com o crescimento demográfico, as cadeias passaram a ser amontoados de pessoas, sem que pudessem cumprir a finalidade a que se propõem, qual seja a de dar ao prisioneiro uma oportunidade de se redimir pelos erros cometidos e se reintegrar na sociedade. A sociedade do futuro terá outros mecanismos e instrumentos para controlar e fiscalizar esses indivíduos, sem que, para isso, tenham que ser afastados do convívio social e serem mantidos em celas que mais parecem um zoológico. O que se prevê é a "reprogramação comportamental" através de sessões de medicação, condicionamento intelectual e até mesmo interferências genéticas na mente do indivíduo "meliante".

POLÍCIA. O aparato policial de que dispõe a sociedade para coibir, reprimir e capturar criminosos é desproporcional à sua finalidade social, e fonte de corrupção e descaminho. O futuro produzirá meios de controle social sem o uso de armas ou de violência, e poderá ser monitorado por centenas, milhares, senão milhões de câmeras distribuídas estrategicamente nos agrupamentos urbanos, e de aparatos (chips) instalados no indivíduo ao nascer. E a captura do criminoso se dará por meios legítimos de neutralização e remoção do indivíduo da cena do crime, até que sua "readaptação" social seja efetivada.

EXÉRCITO. Essa instituição só tem sentido na medida em que existem fronteiras, limites geográficos, e nações e países, que acreditam que o espaço de confinamento demonstra e caracteriza a personalidade e a identidade das pessoas com o espaço nacional dos países em que habitam. Abolindo-se as fronteiras, as bandeiras, os hinos e a história isolada desses países, o Exército se tornará inútil e supérfluo, e as guerras de conquista serão apenas memórias históricas de um mundo dividido por ideologias e conceitos medievais.

REPRESENTAÇÕES POPULARES. As assembleias, câmaras, senado, partidos políticos e outros tipos de representações populares serão consideradas nefastas e geradoras de discórdias. Por outro lado, o poder de manifestação será melhor exercido através de recursos tecnológicos que permitam, não apenas a formação de grupos virtuais heterogêneos, como estarão disponíveis através de diferentes ferramentas destinadas a criar e desfazer alianças temporárias, para finalidades variadas, conforme o interesse dos cidadãos, permitindo-lhes o exercício da democracia plena e da representatividade absoluta em cada nova situação.

PROPRIEDADE PRIVADA. A posse de bens é, talvez, a mais nefasta das concepções humanas, na medida em que cria a falsa ideia de que o mundo pode ser loteado para poucos, em prejuízo de muitos. Por outro lado, para que possuir bens se tudo pode ser usufruído por todos em qualquer situação, sem que, para isso, seja concedida a posse exclusiva e egoísta desses bens a um único indivíduo? O direito de uso não agrega valor a uma existência efêmera de poucas décadas. E a herança desses bens é o mais poderoso instrumento de perpetuação de castas e privilégios que a humanidade já tenha criado.

ESCRITÓRIOS DO FUTURO. Ainda nos parece essencial ter um lugar físico para se exercer as atividades burocráticas de uma organização. A esses lugares se denominou, no passado, de "escritórios", ou "lugar para se escrever". A ação de se escrever era, no passado, difícil e restrita aos poucos (geralmente, os "escribas monásticos") que dominavam a "arte da escrita", ou seja, o conhecimento de um idioma, com seus símbolos gráficos, regras de sintaxe e ortografia, e o manuseio de pincéis ou canetas; as máquinas de escrever e, principalmente, a estrutura organizacional física surgiram com a revolução industrial. Escritórios do futuro já existem, e são virtuais. Podem estar em locais compartilhados e temporários, podem estar nas casas dos funcionários, os "home office", ou podem, simplesmente, não existir, na medida em que cada pessoa estaria exercendo suas atividades em qualquer lugar, conforme seu conhecimento ou experiência, sendo que a articulação dos processos seria construída conforme a necessidade momentânea ou duradoura de um projeto, programa ou plano. Assim, não existiriam organizações formais, mas grupos de trabalho destinados a exercer atividades específicas, enquanto fossem necessárias, desfazendo-se quando a função, ou a missão, ou o projeto estivesse concluído. Simples assim.

CINEMAS E SALAS DE ESPETÁCULO. As manifestações artísticas e culturais estariam disponíveis a todo momento, cada grupo podendo se apresentar virtualmente, para quaisquer públicos interessados. Estes, por sua vez, teriam condições de se manifestar virtualmente, fazendo parte do espetáculo de forma interativa, anônima ou não, agrupando-se também de forma virtual, enquanto fosse de seu interesse. Cada indivíduo ou grupo, seja de atores, seja de espectadores, se formaria e se desintegraria para cada apresentação. Todos os espetáculos poderiam ser guardados virtualmente, fazendo parte do acervo individual ou coletivo, através de filtros de seleção e preferências manifestadas.

IGREJAS OU RELIGIÕES. Assim como os partidos políticos, as igrejas e as religiões criam instituições sectárias preconceituosas, perniciosas à harmonia social, devendo ser definitivamente extintos e proibidos. A manifestação de ideologias, sociais ou espirituais, deve ser livre e fazer parte da cultura de qualquer indivíduo, sem que, para isso, se converta em seita de fanáticos, que se manifestam coletivamente, perdendo sua identidade individual, e tornando-se, portanto, impessoal e ameaçadora à paz e à liberdade coletiva. Talvez, esta seja a maior das transformações que o mundo, tal qual o conhecemos e o experimentamos, presenciará nas próximas décadas, uma vez que extinguirá a farsa que domina, pela ignorância, as mentes dos menos privilegiados, intelectualmente.

ESCOLAS. Pode parecer estranho não existir escolas, mas elas apenas existem porque a transmissão do conhecimento ainda é primitiva e lenta. Passamos cerca de um quarto de nossas vidas aprendendo coisas inúteis, desconexas ou desnecessárias às atividades que exercemos, deixando de aprender o essencial, que é o conhecimento da finalidade da vida, da missão da sociedade humana, da percepção das sinapses que construímos em nossas mentes, e dos valores e princípios que deveriam nortear o comportamento humano, sem ter, contudo, o domínio do processo de organização desses complexos caminhos de armazenamento, de busca e de organização da inteligência humana.

ZOOLÓGICOS, ANIMAIS DE ABATE E A CARNE. Uma das mais importantes mudanças no comportamento humano será o entendimento de que não podemos ser carnívoros, seja porque as proteínas da carne não são as únicas que poderiam suprir nossas necessidades diárias, seja porque, neste futuro utópico, a comida será sintetizada artificialmente, acabando com as fazendas agrícolas e a criação de animais para abate, seja, ainda, porque precisaremos de todo espaço disponível na Terra para o lazer, as habitações e as atividades humanas. Zoológicos são aberrações que criamos para conhecer os animais, que deveriam estar vivos em seus habitats, e não confinados em jaulas ou em paisagens artificiais, construídas para serem usadas como presídios de visitação e deleite dos seres humanos.

DEJETOS HUMANOS: OS LIXÕES. Segregamos locais para despejar o nosso lixo, transportado por tubulações e veículos de carga, deixando de reaproveitá-lo para reuso e consumo. Esses lixões e esgotos são uma excrescência de nossa civilização e deverão ser eliminados. Os processos de separação e tratamento do lixo devem fazer parte de nossa rotina diária, e não servir de motivo de segregação de uma população diminuída em seu papel de seres humanos catadores e separadores de nosso próprio lixo.

PRODUÇÃO E TRANSPORTE DE ENERGIA. Outra forma primitiva de atividade, que caracteriza nossa sociedade humana, é a produção e o transporte de energia: hidrelétricas, termelétricas, usinas nucleares, linhas de transmissão, com enormes perdas pelo caminho, estações rebaixadoras e todo esse processo antiquado de produção, transporte e distribuição de energia deverá ficar no passado. Cada unidade humana, seja uma residência, seja uma unidade produtiva, seja qualquer equipamento útil, deverá ter sua própria fonte de energia, eliminando toda essa estrutura produtora e portadora que existe hoje.

IDEOLOGIAS E GUERRAS. Talvez devêssemos acrescentar, a essa dupla concepção, as religiões, já tratadas junto aos partidos políticos e associações. O fato é que toda dissidência humana se inicia em um embate de ideias sem o propósito construtivo da manifestação intelectual, mas apenas com a intenção de fazer prevalecer nosso ponto de vista ao dos nossos adversários. Daí, talvez, a necessidade de se discutir, aqui também, as atividades competitivas dos seres humanos, como o futebol e outros esportes geradores de discórdia e desunião. Mas trataremos apenas das ideologias e das guerras. Extintos os territórios, os países e seus limites, as guerras deixariam de existir, assim como as disputas pela sua posse. Não precisamos de terrenos murados, cercas, bloqueios de qualquer espécie, destinados, única e exclusivamente, a demarcar territórios que não nos pertencem. O mundo é dos seres vivos, independentemente de sua inteligência, sua cultura, suas linguagens e suas construções mentais. Quem contestará o fato de que surgimos da evolução das espécies? Quem assegurará que outras espécies poderão, eventualmente, evoluir para outras formas de vida inteligente, até mais qualificadas do que os seres humanos, tal como somos?

Essas considerações despretensiosas foram escritas para meditarmos a respeito do que nos separa, daquilo que nos segrega em nossa sociedade atrasada e arrogante, tornando ideias, que deveriam existir para serem compartilhadas, em armas para nos separar e desunir. Acabamos de sair de uma disputa ideológica que não trouxe vitoriosos, mas apenas perdedores. Tendo sido discutido exaustivamente o tema das "MUDANÇAS" por ambas as candidaturas finais do confronto ideológico, tudo o que não aconteceu foram "MUDANÇAS"! Ficou o mesmo grupo no poder, com as mesmas ideologias ultrapassadas, confrontadas com outro grupo ideológico também ultrapassado. Ficou um gosto amargo da derrota para ambas as partes, que não conseguiram convencer o eleitorado da prevalência de suas ideias às ideias opostas. Usou-se de artifícios e mentiras para iludir uma parcela indefesa da sociedade. Perdeu-se uma oportunidade de nos afastarmos da disputa ideológica para algo mais pragmático, como a "SUSTENTABILIDADE" de nossos processos produtivos, sociais, intelectuais, comportamentais, diante de um mundo em transformação, onde as "MUDANÇAS CLIMÁTICAS" determinarão os rumos de nossas vidas nas próximas décadas.

O que virá do caos decorrente de nossas ações predatórias sobre o Meio Ambiente? O que restará depois dos desastres ecológicos que arruinarão nossos sistemas produtivos medievais? Como subsistiremos à morte de nossas fontes de recursos naturais, quando os processos predatórios tiverem exaurido essas riquezas naturais, que desaparecerão pela perversidade e ignorância de governos despreparados para gerir o Universo em que habitamos? São essas as questões que estão em pauta, não a cor da pele e de nossa ideologia, ou a "magnanimidade" das migalhas distribuídas a uma parcela desta sociedade desigual, arcaica, feudal, primitiva, egoísta, sem solidariedade, sem compaixão, sem amor ao próximo, que são estes os princípios e valores essenciais à vida inteligente.

E não saberemos dizer quando teremos outra disputa que valha a pena ser realizada. Esta, certamente, não serviu para nada. Saímos perdedores, acusando-nos, mutuamente, dos mais torpes preconceitos! Perdemos diante de nossos "inimigos", que são nossos irmãos de sangue, de culturas, de herança genética, de vizinhança, de território, de costumes, ainda que primitivos! Quando teremos nossa próxima oportunidade de rever nossos conceitos? Quando aprenderemos a debater ideias sem que, para isso, tenhamos que humilhar nossos adversários com palavras grotescas e arrogantes, acreditando que as "Nossas Verdades" sejam melhores que as "Verdades Alheias"?

Não existem VERDADES! Existem conceitos divergentes, que o próprio tempo cuidará de comprová-los falsos e decorrentes de nossa percepção míope do Universo que nos cerca. E esse tempo, que nos levará muito antes que tenhamos tempo de aprender o suficiente para sermos humildes, acabará por dar fim a essa humanidade que se vangloria de ser a espécie mais bem sucedida da face da Terra! Será mesmo? Pois seremos nossos próprios algozes, e exterminaremos nossa própria raça, a despeito de cores, credos, ideologias, conhecimentos científicos, realizações materiais ou desenvolvimento tecnológico.

Ao pó das estrelas retornaremos, e lá permaneceremos por milhões, bilhões de anos terrestres, à espera de que a casualidade combine nossas moléculas esparsas, catalizadas por acontecimentos e fenômenos igualmente aleatórios, reconstituindo novas formas de vida que, por sua vez, se reorganizarão até que, um belo dia, nova vida "inteligente" venha a surgir e se desenvolver, cometendo os mesmos erros e determinando o fim dessa nova espécie.

Esse é o ciclo do próprio Universo. Existirá um DEUS, uma inteligência que, como um maestro, conduza o tempo fictício e os eventos cósmicos  em direção à constituição cíclica de eras geológicas, manifestações naturais, surgimento de espécies "VIVAS" e seu desaparecimento, sem que, aparentemente, nada faça sentido para nós, reles seres humanos em vias de extinção? Jamais saberemos.

domingo, 16 de março de 2014

POLÍTICA COMO ARENA DE DISPUTAS IDEOLÓGICAS

O povo, sem cultura, é como o gado, que precisa do boiadeiro para conduzi-lo.
Ano de eleições. Muitos já chegam à disputa com a mente decidida, com candidato escolhido, com um partido político que mais parece uma religião, tantos são os "dogmas" a que precisam se submeter. Esses não têm escolha, e apenas referendam a votação de eleições passadas, sem refletir se o que foi feito correspondeu às suas expectativas e cumpriu as promessas de campanha e está em conformidade com o ideário do partido político ao qual se filiaram. Como nas religiões, sua opinião não tem valor, pois são induzidos a escolher os candidatos que lhes foram impostos, acatando as decisões previamente tomadas, sem discussão. Outros nem candidatos têm, e esperam alguma sugestão de amigos, ou pedidos de candidatos em troca de um "agrado" qualquer. Alguns não têm sequer noção da importância do voto...

Em nosso país, as eleições se tornaram referendo e não escolha. Duas facções se formaram, com o entulho ideológico do passado, imersos nas mesmas acusações e promessas, sem criatividade, sem idealismo, sem vontade de transformar o nosso pequeno universo em um lugar melhor para se viver. Até mesmo os slogans das empresas de marketing político não se renovam, e o cenário apresentado nos horários eleitorais é sempre o mesmo, reproduzindo frases já ditas à exaustão nos últimos trinta anos de vida "democrática". Seria essa a República de Platão ou a Democracia de Atenas?

Apesar dos vários candidatos, as discussões são estéreis e infundadas. Prevalece a mentira, a hipocrisia, a falsidade... curioso é que mesmo os partidos de esquerda, que deveriam aceitar o debate, pois a "Dialética" faz parte do ideário comunista e de seu Método de Reflexão, se recusam a provocar as discussões de temas "sensíveis". Ninguém quer se expor demais para não "perder a carona"! A causa disso tudo é que os partidos se misturaram, perderam a identidade! Restou apenas uma paisagem enevoada na qual não se distingue as nuances e as ideologias ali representadas.

Neste momento crítico de nossa vida política, como cidadãos, deveríamos estar discutindo programas de partidos, plataformas eleitorais, propostas setoriais, debates sobre temas que nos dizem respeito. No entanto, discute-se migalhas de pensamentos. É mais importante falar das tolices ditas no STF do que debater a crise de nossa política interna e a situação internacional. Nunca houve tanto assunto a ser discutido, e apenas o que veremos são caras de idiotas prometendo fazer isso ou aquilo, as mesmas coisas que já disseram anos a fio... tipo assim: "A Educação é a prioridade de nosso governo!"ou "Venha para o nosso Partidoe participe dos debates sobre a emancipação da Mulher Brasileira!"

Como esperar que algo mude nesse país, se as pessoas são as mesmas, as regras são as mesmas, os partidos são os mesmos e os métodos de aliciamento, infelizmente, também são os mesmos? "Nada de novo no front"! Com essa declaração os repórteres começavam o dia na Segunda Guerra Mundial, quando meses se passavam sem novidades, a não ser a tragédia das milhões de mortes que se acumulavam na consciência humana... pois diremos o mesmo: "Nada de novo na política brasileira"! Porque os atores repetem a mesma peça teatral, cansada e desinteressante, dos candidatos se alternando na tela da TV, pronunciando promessas ou acusações desprovidas de sentido, apenando para a emoção ou incitando ao ódio, ou ainda fazendo denúncias, com ou sem fundamento, mas que nada têm a ver com o processo de seleção em que ele é o candidato e o eleitor é a banca examinadora! Poucos percebem isso!

E assim, com votos de cabresto, votos de analfabetos (integrais ou funcionais), votos de "amizade" ou votos de submissão messiânica a um partido político, cem milhões de brasileiros despreparados escolherão o mandatário supremo da Nação, além de senadores e deputados, representantes "legítimos" de nossa vontade política. Com um processo dessa natureza, como esperar que, nos próximos quatro anos, alguma coisa irá mudar nesse país? Então surgem as temerosas "fórmulas mágicas": -militares no poder! -constituinte já! -voto distrital misto! -financiamento público de campanha! -fim das reeleições! -parlamentarismo! -fim das alianças políticas! -fim do voto eletrônico!

Cada um traz seus palpites, irresponsáveis e infelizes, acreditando que o problema do Brasil é de cunho institucional. Não é. Se um povo é politicamente preparado, qualquer sistema de governo funciona razoavelmente. Não é o nosso caso, com certeza! Outros ainda trazem aqueles "bordões" já rustidos e desqualificados: "o que falta ao brasileiro é Educação, é Saúde, é Transporte, é Cultura, é blábláblá..." Sim, é tudo isso, mas não é nada disso, pois o que significa ter cada uma dessas áreas priorizadas, se carecemos de Honestidade, de Ética, de Solidariedade, de Respeito?

Precisamos de um povo que compreenda o sentido de NAÇÃO BRASILEIRA! Que saiba respeitar os valores éticos da sociedade, mas que também saiba o valor de sua Terra, ou melhor, que compreenda o conceito mais complexo de TERRITORIALIDADE! Que tenha o entendimento de que o espaço físico de um povo não pertence a ninguém. Que os recursos naturais da Humanidade são finitos e que cada um de nós é responsável por preservá-los para as próximas gerações. Que ser Cidadão é muito mais do que obedecer às leis e às regras sociais, mas é, sobretudo, respeitar o OUTRO, ser justo, condescendente, solidário, generoso, humilde, honesto, altruísta, idealista... sim, porque só um povo que tem respeito pelo outro é capaz de construir uma Nação. Pátria é um conceito simplório...

Finalmente, mas não menos importante, é compreender que FAZER POLÍTICA é atuar numa arena onde as idéias podem ser discutidas sem ofensas e sem mágoas, que cada um tem o direito de pensar diferente, desde que seus proósitos atendam àqueles valores mencionados, que fazer política é dialogar mais do que discutir, buscar o consenso mais do que vencer por maioria, comprender o outro lado mais do que impor sua vontade. A arena política pode chegar a "ferver" de emoção e "fervilhar"de idéias contraditórias ou complementares. O que não pode acontecer é a imposição de uma vontade sobre as demais pelo poder político, econômico, religioso ou social. Não é nada fácil...

domingo, 27 de novembro de 2011

Por que escrevo? Por quem escrevo?

A idade nos faz responsáveis pelo que há de vir a ser depois de nossa passagem por este mundo, ainda que nossas crenças não passem de desejos. Existem razões para que tenhamos sentimentos inexplicáveis como amor, afeição, compaixão, solidariedade... creio que tudo se explique pelo instinto de sobrevivência, principalmente quando nossa convicção maior seja a de que a morte nos despe de todas as conquistas que a curta vida nos legou. Já abordei esse assunto antes, mas à medida que o tempo se esvai em nossa ampulheta da vida, esse entendimento se torna quase imprescindível, embora inalcançável. Tentamos nos agarrar a alguma coisa que justifique o sofrimento, a dor, as decepções, as tristezas, o ódio, o desejo de vingança, as traições, tudo enfim que nos tenha causado dissabores e sensação de impotência. Agregue-se a isso a impressão de que a humanidade caminha para sua autodestruição, enquanto ainda temos entes queridos neste mundo, e teremos compreendido a máquina dos sonhos que preserva a chama de vida ainda acesa.

Filósofos, sociólogos, antropólogos, teólogos se sucedem na história do homem, sempre buscando a causa, a origem da existência e a motivação para nossa sobrevivência. Ao contrário dos animais, o homem pensa, mas não é por isso que ele existe. O que nos mantém vivos é a esperança de que haja, de fato, uma razão maior, a possibilidade de preservarmos a essência do ser que existe dentro de nós, e que alguns chamam de espírito, outros de alma... o nome não importa. Mas essa criação mental de algo imaterial que transcende a morte é que, de fato nos mantém vivos, nos motiva a ser melhores, a buscar a evolução, a superar os limites do corpo e da mente. Esse é o segredo dos homens, a grande mentira que cada um leva consigo até que o inevitável fim nos alcance e nos mostre que foi apenas uma ilusão e, mesmo lembrados em preces, em nomes de praças, em livros, nas lápides de nosso último endereço, no instante final de nossas vidas saberemos que nada nos livrará do ostracismo, e que essas pequenas menções ao que fomos não nos trará de volta a este mundo, nem nos levará a outras esferas de consciência.

Essa verdade incômoda às vezes é esquecida, ou mesmo negada veementemente por quem ainda está aqui, pois não saberíamos como justificar o dia seguinte, o trabalho, as obrigações cotidianas; nada nos impediria de rejeitar qualquer desconforto ou ameaça, nada nos obrigaria a ser honestos, justos, corretos, pois essas palavras deixariam de ter significado diante de nossa fatal consumação. Assim, torna-se preferível a mentira, as crendices, a fé e até a convicção de que existe algo transcendental depois de nossa vida terrena. E o homem encontrou meios de propagar essa pretensa verdade, que assume diferentes feições conforme a cultura, o saber, o ceticismo, as tradições. Tribos primitivas e sociedades intelectuais, cada uma tem suas próprias razões para construir um arcabouço, uma fundação mística, xamânica ou religiosa que sustente os princípios de coesão social que torna a vida suportável para todos.

Assim, por que escrevo? Para quem escrevo se não tenho essas convicções, se acredito que a morte é o fim de tudo, que não existe deus, céu, inferno ou purgatório, não existem anjos nem demônios, e que quando eu morrer todo conhecimento que adquiri estará perdido para sempre? Por que insisto em me aliar a grupos de defesa do bem comum? Por que critico aqueles que agem de má fé, enganando os ingênuos em favor de si mesmos? Por que combato, com os instrumentos intelectuais que desenvolvi nesse meio século de reflexões e estudos, aqueles que contrariam os princípios da ética, da justiça, da igualdade social? O que espero conseguir com meus pensamentos manifestos, se tudo não passa de mera ilusão? A quem me reporto, afinal?

Assim como todos, eu também preciso de razões para existir, para que o tempo se torne suportável em meus dias intermináveis. Então, escrevo, até por saber que nenhum intelecto é o bastante complexo e evoluído para explicar, ainda que a si mesmo, a razão de estarmos aqui. Sim, isso também é ilusão, é farsa, é mentira, mas me mantém vivo e me faz parecer com os outros seres que, como eu, povoam esta pequena nau sem rumo, voando a esmo pelo espaço infinito e incompreensível. Pensando assim, deixo que o tempo se encarregue de me levar para onde for, pouco me importa, e minhas mágoas se tornam menos ácidas, menos cruéis.

Quando me for para sempre, ficarão esses escritos soltos neste espaço virtual até que uma nova tecnologia sepulte esse obsoleto objeto de que hoje poucos podem prescindir. E como minhas palavras se esvaindo até o fim, assim também novos pensamentos e novas tecnologias farão o homem pensar que é eterno, imaginar-se o próprio deus que ele criou, até que seus traços se esgotem, como a imagem de um espelho enferrujado, despedaçado em um monte de lixo inerte.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Novamente, as eleições!

Ainda faltam meses... um ano, na verdade! Mas já nos sentimos ofendidos pelas propagandas estúpidas e mentirosas dos políticos e dos partidos que temos, e que nos envergonham nos noticiários.
Partidos que nem sequer sabemos que existem, por que existem e o que defendem em suas "doutrinas ideológicas"! Creio que seus dirigentes nem sabem o que isto significa. A Presidência fala de progressos que não percebemos: milhões de empregos, sociedade igualitária, obras magníficas, solução para todos os problemas desse povo sofrido e ignorante... sim, ignorante, que não sabe votar, que é manipulado descaradamente, que é levado a pensar que existe solução para tudo, que o petróleo do fundo do mar mudará suas vidas para sempre, que haverá moradia decente e digna para suas famílias, e que a primavera florescerá para todos!

Mentira! Continuamos fingindo para nós e para o mundo! Os pobres serão sempre as vítimas, nem tão inocentes quanto deveriam, dos poderosos, exibidos às claras nas novelas globais que, no entanto, falam de reinos maravilhosos, da nobreza que ainda existe no imaginário de toda gente que vota nos "bacanas" ou nos "babacas", que aposta na megassena, que vislumbra o paraíso nas crendices de suas religiões simplórias! Continuamos acreditando nas promessas dos candidatos e votando no lixo intelectual dos "tiriricas da vida"!

Enquanto isso, nossa educação pública se vangloria dos péssimos índices de qualidade que, sendo genéricos e nacionais, não refletem a verdadeira situação dos guetos de pobreza que se dispersam nos sertões do Brasil. Nossa política ambiental decreta o fim de nossas reservas naturais, que continuam sendo dizimadas às claras, à luz do dia, por políticos latifundiários, capitaneados pela famigerada e poderosa "bancada ruralista", amparada por políticas exportadoras de produtos primários e importadora de alta tecnologia. Enquanto isso, ouvimos diariamente as promessas de uma Copa do Mundo salvadora, de uma Olimpíada que resgatará a imagem perversa que têm os povos cultos do mundo com relação à nossa gente.

E as eleições virão para confirmar nossa incompetência em escolher gente digna e honesta e que comprovará que esse modelo de "democracia" está falido e podre, servindo apenas para perpetuar no poder aqueles que compactuam da safadeza e usufruem das benesses da corrupção, do empreguismo e do vandalismo de nossos valores culturais. O que sobra desse país, senão um povo ludibriado e passivo? O que restou da juventude dos "anos de chumbo", daqueles que deram suas vidas pela liberdade de expressão, pela dignidade humana? Se éramos minoria diante dos terrores da ditadura, ao menos tínhamos ideais e lutávamos pela ética na política e pela justiça social. Agora, os partidos que ajudamos a criar nos traem descaradamente, buscam parcerias com o inominável poder daqueles que no passado nos torturaram nas celas das prisões ilegais e desumanas! Eles estão por toda parte, galgando cargos e pisando nas cabeças daqueles que deram seu sangue para o bem do país...

Agora virão novas eleições para vereadores, prefeitos, deputados, senadores... e veremos, mesmo que contra nossa vontade, perfilarem diante de nós, nas telinhas da tv, qual bandidos sendo expostos à identificação pública, os mesmos, os novos, os sempre políticos imorais que combatemos no passado. Se me perguntarem de novo, direi que não valeu a pena nossa geração se perder na luta inglória, assim como não vale a pela defender princípios éticos, ideologias que já não servem para nada, pois o futuro dessa geração de agora está sendo desenhado em um rascunho indecente e imoral... tenho pena dos que virão depois de mim...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A solidão do poder

por João Carlos Figueiredo, terça, 8 de fevereiro de 2011 às 00:59

Não importa o regime político ou o modelo de governo: as decisões dos governantes são sempre solitárias e unilaterais. Já vivi tempo suficiente para não acreditar na democracia. Quando era um estudante secundarista e, depois, como estudante universitário, lutava por direitos que não eram meus: justiça, igualdade, liberdade eram palavras de ordem que comandavam as massas... ah... sim, as massas!

Massas, proletariado, classes menos favorecidas... os termos mudaram, mas a realidade não foi informada dessas transformações! Poder não se delega: se toma! E, dentro dessa constatação, cedemos às evidências: Democracia é Utopia, assim como socialismo e outras doutrinas de compartilhamento do poder.

Fui membro do DCE da USP (Diretório Central dos Estudantes - Universidade de Sâo Paulo). Em nossas assembléias compareciam cerca de 100 a duzentos estudantes, em um universo de 20.000 alunos dos diversos cursos e carreiras. Nós nunca representamos os estudantes: fomos sim os manipuladores de uma corrente de pensamento que visava um mundo perfeito, onde não houvessem discriminações e onde todos tivessem voz.

Porém, o povo não quer ter voz! A maioria absoluta da população sonha com os caudilhos, com os líderes que transformam suas expectativas em bandeiras em busca de soluções... muito poucos são os que aspiram atingir o poder, pois é muito mais fácil apoiar aqueles que doam suas vidas em defesa desses ideais!

Durante muito tempo acrreditei que o povo queria tomar o poder, mas a história contesta essa afirmação. A maioria quer ser conduzida! Alguém precisa transformar a inércia e a preguiça intelectual do povo em aspirações políticas, em projetos de governo, em defesas intransigentes de liberdades de expressão, de justiça social...

Quem se expõe à defesa desses ideais? Uma insignificante minoria!

Pois é assim que o mundo percorre sua trajetória histórica e preserva valores que não são de muitos, mas apenas de uma minoria intelectual que prefere entregar suas vidas em defesa de causas insustentáveis! O poder pode corromper; o poder pode inebriar uma "elite" que habita os congressos, as assembléias, os palanques em forma de "democracia"; mas quem toma as rédeas e o timão são uns poucos abnegados, que mal sabem por que fazem isso!

Sou um desses tolos e crédulos! Acredito que vale a pena lutar pelos direitos sociais, mesmo que, no fim das contas, eu acabe sendo mais uma vítima de minhas próprias ideologias... e assim, sigo caminhando, sem rumo definido, baseando-me apenas pelas manifestações de minha intuição e pela ideologia, da qual jamais abdiquei...

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

De volta às polêmicas indesejadas

Por alguma razão que não ouso interpretar volto ao meu blog predileto, não porque eu tenha novas idéias políticas, mas porque sinto falta das questões polêmicas que apimentam nosso cotidiano. Em um momento singular de nossa história política, quando a transição de Lula para a Dilma se consolida, sinto falta de me manifestar perante meu escasso, mas solidário público. Sim, voltei para continuar a abrir minha Boca Ferina contra os desmandos dessa Nação tão pródiga em fatos escabrosos e calamitosos, fruto de nossa História nada edificante...

Aceitem, portanto, meu renitente retorno, meus raros e caros amigos, e compartilhem comigo desse ingrato mister de não sermos apenas as "vaquinhas de presépio" diante do absurdo que se manifesta cotidianamente nos periódicos impressos e nos noticiários tendenciosos desse mercado Global. Não somos os donos do WikiLeaks, mas fazemos nossa parte!

Nasce o mesmo Brasil a cada dia, embora nossa esperança fosse diferente... nenhuma novidade no front político: as raposas do PMDB reclamam sua parte na partilha da presa conquistada nas eleições passadas. Lula se retira de cena com seu tradicional "nunca antes na história deste país", mas sem a empolgação das campanhas, e sabedor de que seu cetro foi definitivamente passado para outra imperatriz de nosso triste reino da fantasia.

As velhas questões voltam à cena, sem o glamour das eleições já ganhas ou perdidas, mas com a crueldade de quem não se importa com o futuro da Nação, mas apenas com o futuro de seus apadrinhados, amigos, irmãos, sobrinhos e afilhados. E o retrato disso tudo é um envelhecido mas poderoso chefe mafioso chamado José Ribamar Sarney!

Não que ele seja assim tão importante, mas apenas porque ele simboliza o podre, o antigo, o indesejado, o passado mais asqueroso da ditadura, os conchavos políticos, as artimanhas do poder insaciável das elites que sempre dominaram nosso país, a despeito do que digam Lula e seus asseclas. Sim, pois essa transição nada mais é do que a evidência de que nada mudou com as eleições. Tudo será como antes; tudo transcorrerá como querem essas elites: a partilha dos cargos, as permutas e compromissos que nos levarão ao mesmo caos...

Não me iludo e por isso escrevo essas parcas linhas de protesto. Nós somos os responsáveis pela baderna que domina a cena política. Nós, o Tiririca, Lula, DIlma, Serra e até mesmo o finado Quércia. Todos farinha do mesmo saco! Todos comprometidos em sangrar até a morte o povo dessa terra, sem piedade, sem remorsos. Vivam os poderosos! Essa é a Nação dos vencedores, não das batalhas valorosas, mas das permutas indecentes por trás do pano...

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ideologia e partidos políticos

Vivemos um antagonismo e uma contradição: enquanto a ciência e a tecnologia ultrapassam todas as fronteiras concebíveis e se equiparam à ficção, nossa organização social permanece arcaica e anacrônica. Os partidos políticos perderam a ideologia junto com o desaparecimento das doutrinas marxistas.

E isso não é exclusividade do terceiro mundo! As nações ditas "desenvolvidas" passam pelos mesmos dilemas. Alguns países possuem apenas dois partidos políticos, que se autodenominam "conservadores" e "progressistas", como se houvessem apenas o branco e o preto em nossa natureza ideológica! As matizes não teriam nenhuma importância!

Outros países, como o nosso, mergulharam em um mar de partidos sem qualquer identidade intelectual, senão os próprios nomes, com suas cargas históricas desvirtuadas. Vejam, por exemplo, o trabalhismo: PT, PDT, PTB e outros tantos sem expressão política relevante. O que, de fato, eles representam? O Getulismo morto e enterrado? As centrais sindicais, corruptas e pelegas? O paternalismo estatal de nossas lideranças?

Ou então a velha denominação "esquerda" versus "direita"! Quem é de esquerda? PSDB? PSOL? PT? PDT? PPS? PC do B? Apenas siglas, mas sem conteúdo ou orientação ideológica! A discussão das idéias políticas não existe dentro dos partidos políticos!

Então, o que os diferencia, senão seu maior ou menor fisiologismo ou "grau de adesão" ao partido no poder? Alguns até assumiram como estratégia "crescer para aderir ao poder", sem disputar eleições para cargos executivos, como é o caso do PMDB e do DEM (ex-arena, ex-PDS, ex-PFL, ex-qualquer-coisa). É mais confortável e seguro oferecer seu apoio condicionado a concessões por cargos de primeiro escalão, ou por presidência de empresas estatais!

Na verdade, não há saída para os partidos políticos, senão a extinção! É preciso rever o modelo de representatividade, o papel dos partidos políticos, a questão ideológica, a responsabilidade ética como pré-requisito à representação popular, a questão da fidelidade partidária, que deveria ser ideológica...

De que adiantam tantos partidos políticos se o povo não se encaixa em nenhum deles? Como ingressar na política sem macular o próprio nome na corrupção, nas mordomias, no nepotismo descarado, nos conchavos da disputa por cargos, na ausência de uma ética política? Como participar da vida política de uma nação quando seus governantes perderam a vergonha na cara e posam para as fotos com a cara de pau de quem nada deve?

O Senado, a Câmara Federal, as Assembléias Estaduais, as Câmaras Municipais, todos os palanques populares estão completamente contaminados pela corrupção e pelo abuso dos mecanismos de poder! E como resgatar a dignidade dessas casas representativas se nossos representantes, escolhidos por nós, corrompem, roubam e trapaceiam sem nenhum pudor ou decência?

Talvez, nessa sociedade movida a tecnologia não haja lugar para a ideologia...  e esse reality show em que se transformaram nossas vidas, seja pelos meios de comunicação, seja pelos sites de relacionamento cada vez mais presentes e determinantes em nossas sociedades, talvez esse terceiro poder seja a nova célula  desse mundo anárquico e cada vez mais desigual!

Enquanto isso, à nossa revelia, os mecanismos do poder institucionalizado articulam as ações, sem o respaldo do povo para o qual ele foi constituído, e devassando cenários de extrema indecência política, seja dos mensalões, seja das obras faraônicas, seja das igrejas universais! E, pasmem, tudo é feito às claras, noticiado em cadeia nacional, explorado por entrevistas onde os responsáveis pelas falcatruas nem se defendem mais, convictos de sua impunidade, e até mesmo admirados pela esperteza de dar um golpe sem consequências para si, senão fama e poder!

Fortunas surgem do nada, de um conceito virtual, "vaporware" como diz a tecnologia, neologismo que revela a fragilidade desse admirável mundo novo! Com isso, jogamos nossa História no lixo da própria História, pois o que vale é o "aqui e o agora", não das doutrinas budistas, mas do imediatismo ágil e esperto!

E se a ideologia morreu e se tornou anacrônica, assim como os princípios éticos e morais, se os partidos políticos representam apenas os "clubes" de poder que dividem a carniça apodrecida da "res publica", se a "governança" se confunde com a "comilança" e com a partilha dos bens e da riqueza nacional, só nos resta fazer parte dessa festa, ou escrever um blog como o meu!...