segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mensagem aos Indigenistas

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Mensagem de Maria Augusta Boilitreau Assirati, Presidente da FUNAI. Espero que ela permaneça como nossa presidente, pois seu trabalho demonstra o comprometimento com a CAUSA INDÍGENA, condição essencial para que nossas ações no campo e os serviços na Sede e nas Coordenações Regionais tenham o resultado que as populações indígenas esperam de nós, servidores públicos federais.

Que em 2014 a FUNAI represente, de fato, o PENSAMENTO INDIGENISTA, e que este reflita as expectativas de nossas populações originárias, tão penalizadas pelo governo autoritário e ruralista de #DILMA Rousseff e de seus "colaboradores" reacionários! Que nossas populações indígenas saibam se proteger das falsas promessas de políticos e empreendedores, que nada mais querem do que roubar-lhes as riquezas e perverter sua cultura. Que as ações da FUNAI possam se desenvolver sem os entraves e bloqueios políticos que atendem apenas aos interesses de minorias privilegiadas e assassinas, como latifundiários, grileiros, madeireiras, mineradoras, empreiteiras e outros bandidos que impedem que nossa sociedade cresça de forma justa e igualitária.

Enquanto esses interesses mesquinhos se sobrepuserem aos verdadeiros interesses nacionais, teremos um país escravo de um modelo econômico subserviente e fracassado, que só serve para os países que exploram nossas riquezas naturais em troca da alta tecnologia que não produzimos. São como os "espelhinhos" que eram dados aos indígenas pelos colonizadores portugueses, para enganá-los e surrupiar suas terras e riquezas.


Damos minério de ferro e outros minérios, e recebemos equipamentos eletrônicos sofisticados, que nem uma tonelada desse minério pode comprar; damos madeira de lei e recebemos migalhas que não comprariam os móveis que eles produzem com nossas florestas; damos nossas terras para produção de soja, que é transformada em ração para o gado, que também é exportado, e desmatamos milhões de hectares de terra apenas para conter as 200 milhões de cabeças de gado e as intermináveis plantações de monocultura que transformam florestas em desertos para nossos descendentes. Damos ouro para receber estrume!

Saudações a nossos irmãos indígenas, razão de ser de nosso trabalho e de nossas vidas como indigenistas e ambientalistas! Indígenas do Brasil, uni-vos em defesa de seus territórios e de suas riquezas! Não se iludam com as promessas e as ofertas indecentes das empreiteiras de hidrelétricas: nada que eles façam irá compensar as florestas e as riquezas que elas protegem, e que serão destruídas para viabilizar essas obras faraônicas!

#DILMA insiste nos "êxitos e acertos" de seu governo



Discursos são ardilosos e "construídos" através de armadilhas para os ouvintes / expectadores incautos, despreparados para avaliar criticamente as intenções por detrás das palavras. Está claro que um presidente da república não escreve sozinho seus discursos; ao contrário, um pequeno "colegiado" se incumbe de fazê-lo, sob as lentes dos assessores políticos e dos "magos" da publicidade.

Com #DILMA não é diferente, principalmente porque ela não é um exemplo de talento da oratória! Seus últimos pronunciamentos "de improviso" têm evidenciado as "gaffes" e os vexames de um mandatário despreparado para o cargo que exerce, com todas as suas implicações políticas, internas e internacionais, no âmbito da Economia, da Educação e da Sociedade em geral.

O que #DILMA inovou na política brasileira?

Na verdade, ela não inovou, mas tornou mais claras suas relações com as diferentes esferas do poder. E isso não é um elogio, pois essa clareza evidencia a falta de inteligência de seu governo em dissimular as intenções por detrás das decisões políticas. Se #LULA disfarçava muito bem suas relações com as lideranças do agronegócio, da mineração, das empreiteiras e dos banqueiros, já #DILMA tornou essas "ligações perigosas" muito evidentes, dando a palavra a seus assessores mais diretos, e demonstrando sua vocação para o desenvolvimentismo a qualquer preço, traço marcante de sua "liderança".

O fato é que as "obras do PAC", iniciadas ainda sob a batuta de #LULA, e que a consagraram como a "gerentona" do seu antecessor, não evoluíram por absoluta falta de planos, de projetos, de uma visão de longo prazo desse partido que enganou a todos os seus admiradores, mas não enganou as maiores vítimas: os pobres e miseráveis, que continuaram acreditando nas promessas vãs e na honestidade e lisura do PT!

O principal instrumento de permanência no poder do Partido dos Trabalhadores é o Bolsa Família, depois complementado por outros artifícios como o "Luz para Todos", o "Minha Casa, Minha Vida", o "Mais Médicos", programas populistas com os quais o PT pretende garantir #DILMA no poder por mais 4 anos e, com isso, comprovar a "Profecia do Dirceu" de permanecer no poder por 20 anos!

E o que disse #DILMA em seu pronunciamento de fim de ano? Além de criar o fantasma da "Guerra Psicológica" promovida por alguns setores da sociedade (afinal, todo governante tem os seus fantasmas: Jânio Quadros falava em "Forças Ocultas"!), seu discurso não acrescentou nada de novo à verborragia inaugurada por #LULA e acompanhada pelos seus seguidores e "discípulos".

Cita ela esses "programas de governo" como se fossem uma verdadeira "Revolução Cultural à Brasileira", que transformou a Sociedade e descortinou uma "Nova Era" para as Políticas Públicas praticadas por esse governo que aí está há mais de uma década. Cita o "Milagre do Pré-Sal" como a redenção de nosso povo e a chave que irá abrir as portas para uma nova era de prosperidade e de realizações para a Educação e a Saúde Pública. E isso nos remete ao famoso período da Ditadura Militar, com o comando da Economia nas mãos de Delfin Neto, período este conhecido como o "Milagre Brasileiro". Na época dizia-se em "primeiro fazer crescer o bolo para depois distribuí-lo, acabando com a pobreza.

Porém, nem o bolo cresceu, nem a pobreza diminuiu. Pelo contrário, a consequência desse "milagre" inconsequente foi o endividamento externo feito para financiar as obras faraônicas da Hidrelétrica de Itaipu (na época a maior do mundo), a construção da Ponte Rio-Niterói, a construção da famigerada e trágica Rodovia Transamazônica, entre tantas outras. Nada disso nos ergueu da condição de país do "Terceiro Mundo", nem erradicou a miséria, a fome e a precária Saúde Pública responsável pelos piores índices de mortalidade infantil do Brasil.

Agora, esse governo do PT de #DILMA e de #LULA retomou a construção de hidrelétricas gigantes na Amazônia, está asfaltando a Transamazônica, incentivou e financiou o Agronegócio e redimiu as Empreiteiras e Mineradoras a ajudar na devastação da maior Floresta Tropical do mundo! Quanta imaginação, não é mesmo? Aqueles que combateram a Ditadura agora seguem sua "escola"!

Para um discurso de fim de ano acho que basta.O que poderemos esperar do PT? Aliás, o que poderemos esperar de nosso povo, se pouco mais de trinta moedas são suficientes para calar a boca do brasileiro, levando-o a idolatrar #LULA e referendar #DILMA em uma reeleição que já está ganha antes mesmo que as campanhas alcancem as ruas e a televisão de nossa triste Nação?

Olhando o espectro político não temos mesmo muita escolha: ou #DILMA, ou Eduardo Campos, ou Aécio Neves... que pobreza de políticos! De nada valeu o esforço de finalizar o maior julgamento político de nossa história, colocando na cadeia os Zés Dirceu e Genoíno, o Marcos Valério e uma enorme plêiade de figuras que poderiam ter feito parte de nossa memória política, não fossem as falcatruas em que se meteram, sujando o nome do Brasil no exterior e destruindo a imagem de um partido ético, que seria a opção (lembram? oPTei!) para o povo e para grande parcelas dos intelectuais brasileiros!

Pois agora ela, a "Gerente do PAC", a "Presidenta", a "Guerrilheira Arrependida" e a pior figura que passou pelo Planalto em toda sua história, essa figura patética está segura de que a reeleição está garantida pelas pesquisas de opinião pública, que revertem as revoltas populares de junho e mostram que é muito fácil enganar o povo: basta dar umas migalhas, como o "mensalão dos pobres", e os cordeiros seguirão seus passos até o inferno, referendando a devastação causada pelas obras da Amazônia, pelas mineradoras estrangeiras que em breve virão para surrupiar nossas riquezas em troca de migalhas, pelos latifundiários que plantam SOJA e criam GADO (o que dá na mesma, pois a soja é o alimento do gado).

Não vejo perspectivas favoráveis para o próximo ano. Nem para a Economia, que continuará em seus passos miúdos, que mal cobrem o crescimento demográfico e a imperiosa necessidade de criação de novos empregos para os jovens que entram no mercado de trabalho; nem para o ajustamento das disparidades sociais crescentes, que fazem da "classe média" a fonte de recursos para financiar os gastos públicos através de impostos cada vez mais aviltantes; nem para a Educação, que continuará aumentando o imenso fosso que separa as "castas sociais" que dizem não existir no Brasil, mas que distinguem os "cidadãos de primeira classe", os bem-nascidos que herdaram a fortuna desonesta de seus pais, da população negra, parda, indígena, que desmistificam a falsa moralidade daqueles que dizem não haver preconceito racial no Brasil.

2014 será como 2013 e como todos os anos desse Novo Milênio, dessa "Era de Aquários", que deveria resgatar a Paz, a Harmonia, a União entre os homens, mas que não passou de mais uma ilusão, igual àquela de todos os seres humanos, que acreditam que o simples virar de uma página do calendário será capaz de realizar o milagre de transformar o mundo em que vivemos, ameaçados por nós mesmos, incapazes de reverter o quadro de devastação que irá varrer a humanidade da face da Terra, mas que ninguém quer acreditar que seja verdade, e não invenção dos Ambientalistas, esse bando de fanáticos que querem acabar com a "Farra do Boi"!

Portanto, parabéns àqueles crentes, muitos dos quais Evangélicos, que votarão em #DILMA e apagarão as causas e as consequências do Mensalão! Parabéns a todos que fazem do #PT o seu partido de coração, acreditando em "fadas e duendes" que criaram o "partido mais ético da História do Brasil"! Parabéns a vocês que foram às ruas, exigindo reformas e o fim da corrupção, mas se calaram no momento crucial em que #DILMA e todo o Congresso deram o golpe de misericórdia em suas reivindicações, tomando para si as rédeas da transformação que nunca acontecerá em nossa sociedade! Parabéns e Feliz 2014!

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

As entranhas do bolsismo

Em viagem de pesquisa visitei áreas rurais na divisa do Maranhão com o Pará. Muitos pequenos povoados com centenas de motos cruzando as estradas da região. Inúmeros sinais de continuidade do atraso histórico, mas iguais evidências, ainda embrionárias, de algum dinamismo social.
Em sua casa de barro, conversei com um jovem agricultor. Recém-casado e com um filho de 6 meses, ele cultiva uma pequena roça com mandioca, praticando a "agricultura no toco", que significa o desmate de uma área de mata original e o plantio após a queimada dos remanescentes florestais. Só vende a farinha se precisar de dinheiro, pois recebe uma bolsa do programa Mais Educação. E o que faz? "Sou professor de agroecologia", diz com certo orgulho. Ele explica que se trata de ensinar a preparação de "canteiros sustentáveis, plantar horta sem venenos", adiantando, contudo, que não foi treinado e, por isso, não sabe "ainda o que é agroecologia". Trabalha um dia por semana na escola da comunidade e recebe R$ 600 mensais.
Em outra comunidade rural, o líder que organizou o levantamento dos interessados locais no programa Minha Casa, Minha Vida afirma que serão oferecidos empréstimos de R$ 35 mil, mas cada família pagará apenas R$ 1 mil, divididos em quatro anos, indicando um subsídio de 97% nas futuras moradias. A dele é uma modesta casa de chão batido e seus olhos brilham ante a perspectiva de mudança. Fazia pouco tempo que esse agricultor assistira a uma conferência em Belém, destinada a representantes comunitários do programa, durante a qual foi escolhido para participar da conferência nacional, em Brasília. Não conhece nada além do Pará e a chance da viagem também alegra o líder da comunidade.
Já em Salvador, uma candidata a empregada doméstica foi entrevistada na casa da senhora contratante. Acertados o salário e os horários de trabalho, ela impôs uma inesperada exigência: não queria ter a Carteira de Trabalho assinada. Diante da surpresa, explicou que se for assim perderá o "auxílio-pesca" que recebe há quase dez anos. "Mas você é pescadora?" Ela riu e disse que nunca fez isso, mas em seu município de origem todos recebem o benefício federal, mesmo não sendo pescadores. Mora com o marido na capital, mas mantém o endereço anterior para continuar beneficiária. Pretendem se mudar para a cidade de Conde, pois lá ofereceriam adicionalmente uma cesta básica por mês.
No outro lado do País, diversos resultados de estudos realizados nas reservas extrativistas do Acre demonstram processos sociais similares, notavelmente adaptados ao sistema de bolsas e auxílios oferecidos pelo governo federal desde 2003. Na famosa Reserva Extrativista Chico Mendes, a principal atividade atualmente não é o extrativismo, mas a pecuária de corte, de fato proibida pelas normas do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Nem por isso, no entanto, muitos deixam de receber a Bolsa Verde. Aliás, por essa razão, em outra reserva, no Alto Juruá, o líder da comunidade afirma: "O que mais se produz aqui é menino, pois é o que rende mais" - em referência ao recebimento de Bolsa Família e outros benefícios, como a bolsa que a mãe poderá pleitear do Programa Brasil Carinhoso.
Finalmente, fruto de pesquisas em diversas regiões, é iluminada a preocupante associação entre a multiplicação das bolsas e a redução da atividade agrícola. Repete-se, em alguma medida, o que foi verificado na década de 1990, quando a disseminação das aposentadorias rurais após a regulamentação da Constituição permitiu a inúmeras famílias rurais pobres trocar parcialmente a incerteza da produção pelo recebimento monetário certo e mensal desse direito. Em consequência, diminuiu a oferta de produtos agrícolas, sobretudo nas regiões rurais mais empobrecidas.
São ilustrações do bolsismo. Quais os seus reais impactos na sociedade brasileira, além da simplória propaganda governamental? É um debate sinuoso e desafiador, pois facilmente polariza, de um lado, a defesa intransigente e usualmente irrefletida, quase sempre partidarizada, e, de outro lado, as opostas posições, até reacionárias, que não aceitam sequer a compaixão social pelos mais pobres. Mas é preciso aprofundar a discussão, escapando desse diálogo de surdos e examinando com mais ciência e distanciamento analítico o gigantesco sistema de auxílios, bolsas e benefícios criado e as suas implicações mais variadas.
Esgotada a meta inicial do bolsismo, que era o aumento da renda dos menos favorecidos, qual será o passo seguinte? No caso das famílias rurais pobres, por exemplo, o conservadorismo do imaginário social poderá acentuar o que julga ser a inata indolência desses grupos sociais, visão já consagrada por alguns escritores no passado. Raramente se observa, contudo, que as escolhas das famílias rurais refletem um sábio cálculo econômico que pondera a exaustão da atividade e os recursos disponíveis, uma equação que um economista agrícola russo, Alexander Chayanov, desvendou quase cem anos atrás em diversos trabalhos.
Não são aceitáveis a superficialidade e as frases de falastrões, ao chegarmos aos dez anos do Programa Bolsa Família. Também é inconcebível tudo ser feito apenas para manter a estreita correlação entre a distribuição das bolsas e o apoio político ao partido no poder. Precisamos ultrapassar esse rebaixamento de cunho eleitoreiro e analisar o sistema de proteção social brasileiro com mais transparência, refinamento e visão de nação. Trata-se de uma vasta estrutura de assistência a que quase ninguém mais se opõe, mas precisa ser aperfeiçoada e transformada numa alavanca pública para promover a prosperidade geral. Manter o sistema de bolsas, que apenas se amplia, sem nenhuma estratégia, especialmente para garantir votos, desqualifica nossos esforços para construir a emancipação cidadã e estimular o desenvolvimento social do País.

ZANDER NAVARRO, SOCIÓLOGO, É PROFESSOR APOSENTADO DA UFRGS - EMAIL: Z.NAVARRO@UOL.COM.BR

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Mensagem de Fim de Ano

Jardim de Maitreia - Chapada dos Veadeiros, Goiás



Já nem me lembro de quantas vezes estive nessa região mística e encantadora... mas lá encontro a paz com que sempre sonhei, longe dos homens e de suas maldades. Porém, não consegui me estabelecer por lá, apesar de minha imensa vontade de viver mais simples, sem luxos, sem supérfluos, sem as ambições e contradições que a sociedade nos impõe...

Agora, chega mais um fim de ano, e as promessas e os votos de Paz, Amor, Fraternidade, estão presentes nas palavras vazias de um mundo que não tem mais jeito... as palavras não saem do coração... E nos iludimos com essas falsas promessas e até nos redimimos de nossos erros e de nossa tremenda omissão, como se deixássemos de ser os veículos do mal desse planeta.

Infelizmente, não é verdade... ainda que esses desejos fossem sinceros, pensamentos e palavras não movem o mundo, e logo um novo ciclo se inicia, sem que nada tenha transformado a essência de cada ser que habita esse pequeno universo chamado TERRA. Seguimos o mesmo caminho de erros, de desperdício, de ausência de qualquer sentimento que possa minimizar as terríveis diferenças que existem entre o discurso dos líderes e a VERDADE que separa ricos de pobres, poderosos dos humildes, tiranos de líderes verdadeiros. O mundo que conhecemos é injusto e desigual, como sempre.

De que adiantam, então, as promessas, as religiões, as nobres causas que defendemos, se a cada dia estamos mais perto do abismo intransponível que sucumbirá a nossa Civilização, como já ocorreu tantas vezes na História da Humanidade? Somos tão somente o pó do deserto, que os ventos espalham pela planície, completamente indiferenciados da paisagem que nos cerca...

Então, não façamos promessas vãs... não joguemos palavras ao vento... não desperdicemos o tempo na ilusão de que "dizer" é melhor do que "fazer", pois a simples manifestação de desejos frágeis jamais os tornará realidade. Vamos assumir nossa verdadeira personalidade: injusta, cruel, desumana, egoísta, arrogante e prepotente, sabendo que caminhamos para a extinção como todas as civilizações que nos antecederam e desapareceram sem deixar senão vestígios de seu poder e de sua arrogância. O futuro não será diferente...

Talvez, um dia, uma tremenda catástrofe varra os homens da face da Terra, e nem o dinheiro, nem o poder, nem a vaidade, nem a ganância que caracterizam esse presente que tentamos tornar mais digno do que, de fato, é, nos salvará e nos redimirá dos males que causamos, não apenas a nossos semelhantes, mas a todos os seres vivos desse imenso paraíso que queremos ver destruído e transformado pela ambição de nos acreditarmos ser divinos...

Portanto, não desejo "Feliz Ano Novo" porque seria apenas mais uma hipocrisia...

domingo, 15 de dezembro de 2013

"O Gatilho da Ofensiva Ruralista"

aud camara 1112 2Brasil - Diário Liberdade - [Luísa Molina] Brasília, DF. "Depois que nós finalizarmos a questão indígena, eu quero saber qual é o outro tema que eles vão inventar para poder atrapalhar a agropecuária brasileira". Foi exatamente assim – sem meias-palavras e sem pudor algum – que a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) concluiu a sua fala na audiência pública da Comissão de Agricultura na última quarta-feira, 11 de dezembro, no principal auditório da Câmara dos Deputados.

Nada mais representativo do espírito do evento e do tom de seus participantes. Convictos de uma superioridade inabalável, parlamentares e latifundiários partem do princípio de que o seu setor detém autoridade moral absoluta sobre a República. Prova disso foi a instalação à força, na noite de terça, 10 de dezembro, da comissão especial para analisar a PEC 215. Ou mesmo a realização, a todo custo e a partir de ameaças, do que foi chamado de "Leilão da Resistência", que em 7 de dezembro arrecadou mais de meio milhão de reais para ações contra indígenas em Mato Grosso do Sul, incluindo a formação de milícias.

A palavra é imponência. Em tudo o agronegócio se pretende e se diz grande (e qualquer semelhança com a tônica governista não é mera coincidência). Ruralistas e latifundiários estão se preparando para uma guerra, determinados a passar por cima de qualquer obstáculo para o seu setor. E no momento esse "obstáculo" chama-se terras indígenas.

Guerra a qualquer custo

A audiência pública desta quarta, como o leilão em Mato Grosso do Sul, foi uma demonstração de força do agronegócio, disposição para o embate e total desprezo pelos direitos indígenas. A Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) montou no auditório da Câmara Federal um verdadeiro cenário com faixas contra a Fundação Nacional do Índio (Funai) e pelas "mãos calejadas que alimentam o Brasil". Figuravam ali cerca de 350 trabalhadores rurais de pelo menos 7 estados (BA, TO, MA, MT, MS, PR e RS), todos com camisetas dadas pela própria CNA e chapéus de palha idênticos. Pareciam uniformizados. Os deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e da Comissão de Agricultura investiam em seus discursos a estratégia clássica de tentar uma aproximação com os trabalhadores na "luta contra o inimigo comum" – os povos indígenas e seus apoiadores. E não faltaram falas, tanto de parlamentares como de trabalhadores, onde apareceram "índios importados do Paraguai", "a rentável profissão de índio", "a mão esmagadora da Funai" e muito mais.
De outro lado, reforçavam a imagem do trabalhador de mãos calejadas, injustiçado e expulso da sua terra. Trata-se não só de dois lados, mas principalmente de posicionar-se para o "enfrentamento" – uma das palavras que mais circulou por ali. Como o deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS), anfitrião do evento, fez questão de frisar: "quem fica em cima do muro é caco de vidro ou gato ladrão". Heinze insistiu ao longo de toda a audiência para que os participantes narrassem processos de desintrusão (como a da terra indígena Marãiwatsédé), como se esses episódios fossem uma verdadeira tragédia, o grande pesadelo do latifundiário prestes a se espalhar por todo o país. Mais uma vez sobraram imagens nas falas: famílias sendo arrancadas à força, suicídios, idosos em surto psicótico, crianças sofrendo. Além da raiva e do sentimento de injustiça, munições perigosas, se cultivava ali o medo.

"Debaixo de cassetete"

"Está na hora de os homens assumirem o destino do nosso país, principalmente os produtores rurais", afirmou Chico Maia, presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) e um dos organizadores do chamado "Leilão da Resistência". Às vésperas desse evento Maia afirmou publicamente: "para entrarmos numa batalha precisamos de recurso. Imagine se precisamos da força de 300 homens, precisamos de recurso para mobilização". Em outra ocasião e ainda sobre o leilão, disse: "novos confrontos estão por vir e algo precisa ser feito para evitar novas mortes". Já na audiência pública, depois de chamar o Ministério Público Federal de "frango de granja", Chico Maia fez coro a outras dezenas de falas, quanto a expandir a proposta do leilão para outros estados.

Confrontos iminentes apareceram com nitidez nas falas e principalmente nos ânimos dos participantes. "Nós vamos fazer esse enfrentamento. Um enfrentamento duro. Em Mato Grosso do Sul e em todo o país", afirmou o senador Waldemir Moka (PMDB-MS). Aplausos e as expressões de satisfação que rondaram o auditório quando o deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA), ao falar de como "lidaram" com "o problema indígena" no seu estado com violência. "Ninguém mais contrata advogado. Entrou hoje [indígena na terra], sai na madrugada do dia seguinte. Sai debaixo de cacete". Ele prossegue, aconselhando outros a contratarem empresas de segurança: "4 horas da manhã você aborda o pessoal [que entrou na terra], chega o cravo no primeiro que reclamar, dá-lhe um cacete, bota em cima de um caminhão e manda devolver". Queiroz, sem disfarçar um racismo quase caricato, disse ainda: "[os índios] querem ser civilizados. Nós todos um dia fomos índios. Nós, aliás, fomos macacos".

Fonte: Diário Liberdade

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O futebol é o ópio do povo!

Jovem espancado na disputa entre Vasco da Gama e Atlético Paranaense, em Joinville (08/12/2013)
"A religião é o ópio do povo" (em alemão "Die Religion ... Sie ist das Opium des Volkes") é uma citação da "Crítica da Filosofia do Direito", de Hegel. No entanto, o futebol demonstra o mesmo papel, quando vemos fanáticos se digladiando até a morte em estádios de futebol.  O fanatismo do futebol, assim como o das religiões, aniquila a capacidade intelectual dos indivíduos, tornando esse esporte a única alternativa relevante de suas vidas medíocres. Nenhum outro interesse, nenhum tema relevante, nenhuma causa que compense...

Nas décadas de 1970/80 os Hooligans apavoraram o mundo com sua violência estúpida nos campos da Europa, a ponto de serem banidos para sempre das arquibancadas das arenas do futebol.

Uma canção dos Raimundos dizia:

hooligans are made to destroy
hooligans are born just to kill
mom I'd like to be...
it's all I wanna be....

hooligan - hooligan - hooligan - hooligan

why you never let me be?
why you never let me kill
mom I hate you...
kill you is what I wanna do...

hooligan - hooligan - hooligan - hooligan

destroy
kill for joy
pleasure pain
yeah I'm the man!!!!

hooligan - hooligan - hooligan - hooligan
let me be one
hooligan - hooligan - hooligan - hooligan


Traduzindo essa "obra de arte":

vândalos são feitos para destruir
desordeiros nascem apenas para matar
mãe, isso que eu gostaria de ser ...
é tudo que eu quero ser ....

hooligan - hooligan - hooligan - hooligan

por que você nunca me deixa ser assim?
por que você nunca me deixa matar?
mãe, eu te odeio ...
matá-la é o que eu quero fazer ...

hooligan - hooligan - hooligan - hooligan

destruir
matar por prazer
prazer do sofrimento
sim, eu sou o homem!!

hooligan - hooligan - hooligan - hooligan
deixe-me ser um
hooligan - hooligan - hooligan - hooligan

Um sentimento primitivo de ódio e de terror emana dessa "música" monstruosa! Um desafio à violência sem propósito! No entanto, parece que muitos se identificam com essa violência gratuita e descabida, e manifestam sua barbárie contra pessoas que sequer conhecem. Por que esse comportamento doentio?

O "hooliganismo" (do inglês "hooligan" = "vândalo", pronuncia-se: [ˈhuː.lɪ.ɡən], "rúulegan") refere-se a um comportamento destrutivo e desregrado, geralmente em partidas de futebol. O termo também pode se aplicar ao comportamento desordeiro e ao vandalismo (em geral), muitas vezes sob a influência de álcool e drogas.

O que nos assusta é que tais comportamentos, cada vez mais frequentemente, ocupam as manchetes da imprensa mundial, demonstrando a escalada da violência sem sentido, como nos inúmeros crimes de franco-atiradores nas escolas norte-americanas (ver "Tiros em Columbine", filme-documentário de Michael Moore), os atentados terroristas como os da Maratona de Boston e das Torres Gêmeas, e essa turba de covardes em Joinville, neste final de semana, que chocou o mundo com sua violência despropositada, maculando a imagem do futebol brasileiro e do próprio país, às vésperas da Copa Mundial de Futebol.


A vítima já está inconsciente, mas continua a apanhar do covarde!

Não basta dizer que são vândalos, covardes, bandidos, assassinos em potencial. O fato é que são pessoas aparentemente normais, que estudam, trabalham e, de repente, em uma partida de futebol, passam a agir com truculência e ódio contra outras pessoas, pelo simples fato de torcerem para diferentes equipes de futebol. No caso de Joinville, uma do Rio de Janeiro, outra do Paraná! Certamente, não se conheciam, não sabiam nada da vida pessoal dessas vítimas / algozes e fizeram isso apenas para despertar a besta que existe dentro de cada um. Coisas dos homens, não dos animais, que não sabem alimentar ódio ou paixão!


Vejam o parafuso na ponta do marrete do vascaíno assassino!

Pode-se perceber que esses cretinos já entram em campo com a determinação de brigar e agredir, com extrema violência, seus adversários, como se constata na foto acima. A barbárie chegou a tal ponto que a única forma de se lidar com ela seria pela dissolução definitiva de todas torcidas organizadas, verdadeiras escolas formadoras dos bandos de facínoras que frequentam e aterrorizam os estádios e suas imediações!

Não é possível contemporizar com tamanha truculência, descabida e inconsequente. Se o Estado brasileiro não tomar providências imediatas, eles (os criminosos) assumirão o controle, e cada jogo se transformará em um campo de batalhas. Torcidas como a "Gaviões da Fiel" (Corinthians), "Mancha Verde" (Palmeiras), "Ira Jovem do Vasco" (Vasco da Gama), "Fla Manguaça" (Flamengo), "Fanáticos" (Atlético Paranaense), "Galoucura" (Atlético Mineiro) e "Máfia Azul" (Cruzeiro) são incompatíveis com um Estado do Direito.

O Futebol é o ópio do povo, assim como são as religiões! Possui seu próprio ritual, seus amuletos, suas túnicas, seu templo, seus ídolos de barro como todas as religiões populares e fanáticas. Quem aprecia futebol, geralmente, não se interessa por outro assunto; torna-se medíocre e vulgar; usa uniforme do time como se vestisse roupas de griffe; faz questão que seu filho torça para o seu time, e ridiculariza seus adversários, transmitindo essa "doutrina" do ódio para seus descendentes. Recusa-se até a usar roupas com as cores de seus adversários. Um processo de bulling se inicia e se estabelece, não apenas entre crianças, mas entre adultos, e, não raro, apelidos jocosos e humilhantes são atribuídos aos torcedores de outros times.

Futebol não é sadio: grande parte de jogadores, amadores ou profissionais, sofrem danos, muitas vezes permanentes, nos joelhos e tornozelos devido à violência em campo. Assim como nos jogos profissionais, agredir o adversário é usual entre jogadores de várzea, prova de machismo e "coragem", causando rompimento de ligamentos, entre outras contusões sérias; às vezes, até causando incapacidade física.

Sim, o futebol é o ópio do povo, e traz mais prejuízos do que benefícios. É um esporte alienante, machista e preconceituoso, que separa familiares, destrói amizades, contamina discussões intermináveis e inúteis, e ofende a dignidade das pessoas. Se computássemos as perdas de trabalho e de estudos devidas ao futebol teríamos a verdadeira dimensão dos danos causados por essa modalidade de esportes.

Mas nossa sociedade é movida por interesses fúteis, como a religião e o futebol. Enormes cifras são desperdiçadas por essas duas atividades, não gerando nada produtivo ou útil para a sociedade. Futebol e religião são semelhantes em tudo: fanatismo, ilusão, alienação, violência, ódio, preconceito. Das guerras havidas entre os povos, a religião tem sido uma das principais causas. Se o futebol não provoca guerras convencionais, produz batalhas campais com frequentes vítimas da violência e do preconceito.

O fanático por futebol é tão estúpido que é capaz de torcer por um time de outro país apenas para evitar que seu adversário conquiste uma taça em uma grande competição internacional!

Então, por que o futebol é tão popular no mundo? Por que, para se assistir a um jogo ou para se jogar futebol não é preciso nada além de treino, domínio da bola e obediência às regras do jogo. Alguns jogadores se destacam pelo talento, mas a maioria absoluta é medíocre e burra. O certo é que gostar, praticar e torcer por um time de futebol não exige inteligência: apenas força bruta, cabeça vazia e mediocridade!

Mas somos o "País do Futebol", não é mesmo? Que pena...


Covardia! Ódio! Truculência! Intolerância! Banditismo!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Hidrelétricas 'impulsionam desmate indireto' na Amazônia, diz estudo


Floresta foi desmatada no entorno das usinas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte (Foto: AFP/BBC)
Segundo pesquisadores, devastação causada apenas pela usina de Belo Monte pode atingir 5.100 km² ou 10 vezes o tamanho da área a ser alagada.

Entre ambientalistas e pesquisadores, porém, há cada vez mais vozes que contestam a comparação e afirmam que o cálculo do governo ignora custos e danos ambientais indiretos das hidrelétricas. Para alguns, esses impactos colaterais influenciaram no aumento da taxa de desmatamento da Amazônia neste ano.

Ao defender a construção de hidrelétricas na Amazônia, o governo federal costuma citar o argumento de que essas usinas são menos poluentes e mais baratas que outras fontes energéticas capazes de substituí-las.

Há duas semanas, o governo anunciou que, entre agosto de 2012 e julho de 2013, o índice de desflorestamento na Amazônia cresceu 28% em relação ao mesmo período do ano anterior, a primeira alta desde 2008.

Paulo Barreto, pesquisador sênior da ONG Imazon, atribui parte do aumento ao desmatamento no entorno das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, e da usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará.

Segundo ele, as hidrelétricas atraem migrantes e valorizam as terras onde são implantadas. Sem fiscalização e punição eficientes, diz ele, moradores se sentem encorajados a desmatar áreas públicas para tentar vendê-las informalmente.

No caso de Belo Monte, Barreto afirma que o desmatamento em torno da usina seria menor se o governo tivesse seguido a recomendação do relatório de impacto ambiental da obra para criar 15 mil km² de Unidades de Conservação na região.

Uma pesquisa do Imazon, da qual Barreto é coautor, estima que o desmatamento indireto causado pela hidrelétrica atingirá 5.100 km² em 20 anos, dez vezes o tamanho da área a ser alagada pela barragem. Na bacia do Tapajós (PA), onde o governo pretende erguer uma série de usinas, ele diz a área desmatada indiretamente chegará a 11 mil km².


Há duas semanas, o governo anunciou que, entre agosto de 2012 e julho de 2013, o índice de desflorestamento na Amazônia cresceu 28% em relação ao mesmo período do ano anterior, a primeira alta desde 2008.


Fórmula do desmatamento


O engenheiro Felipe Aguiar Marcondes de Faria desenvolve em seu projeto de PhD na Universidade Carnegie Mellon (EUA) uma fórmula complexa. Ele pretende incluir os efeitos indiretos da construção de hidrelétricas na Amazônia - como o desflorestamento gerado por imigração ou especulação fundiária - no cálculo das emissões de carbono das obras.

A conta, que mede a liberação de gases causadores do efeito estufa, normalmente leva em conta somente as emissões geradas pela perda de vegetação e pela degradação da biomassa na área inundada pelas barragens.

"Se a construção de uma hidrelétrica implicar taxas de desmatamento superiores às de locais onde não existem tais investimentos, nós poderemos acrescentar esse desmatamento extra ao balanço de carbono do projeto".

O pesquisador diz ainda que, além de valorizar terras e atrair imigrantes, a construção de hidrelétricas pode estimular o desmatamento ao melhorar as condições de acesso à região, expondo florestas antes inacessíveis.

Faria também questiona os cálculos que exaltam o baixo preço das hidrelétricas em comparação com outras fontes de energia. "As diferenças não consideram adequadamente os custos socioambientais desses empreendimentos".

Ainda assim, avalia que o Brasil não pode excluir a hidroeletricidade de seus planos de expansão do sistema energético. Para ele, a modalidade oferece grandes vantagens em relação a outras fontes de energia, como flexibilidade para atender à variação da demanda e dispensa de importação de matérias-primas.

Faria defende, no entanto, que o governo mude sua postura quanto às hidrelétricas na Amazônia. "O desenvolvimento hidrelétrico na Amazônia deveria ser visto não como uma barragem no rio, mas sim como uma chance de criar um novo paradigma de desenvolvimento sustentável para uma região, que crie condições para a manutenção das unidades de conservação e terras indígenas, investimentos em educação e ciência e melhora na saúde da população."

Porém, para o procurador-chefe do Ministério Público Federal no Pará, Daniel César Azeredo Avelino, a construção de hidrelétricas na Amazônia não tem sido acompanhada pela manutenção de áreas protegidas.

Se a construção de uma hidrelétrica implicar taxas de desmatamento superiores às de locais onde não existem tais investimentos, nós poderemos acrescentar esse desmatamento extra ao balanço de carbono do projeto" [Felipe Aguiar Marcondes de Faria, engenheiro]

Nos últimos anos, o governo reduziu Unidades de Conservação para facilitar o licenciamento das hidrelétricas no rio Madeira e das futuras usinas no Tapajós. Segundo ele, simples sinalizações de que se pretende reduzir essas áreas já motivam o desmatamento.

Em 2012, diz Avelino, um mês após jornais divulgaram que o governo estudava diminuir a Floresta Nacional Jamanxim, no sudoeste do Pará, houve um surto de desmatamento na região. "Quando se fala em reduzir Unidades de Conservação para hidrelétricas, alimenta-se a ideia de que poderá haver novas reduções, o que encoraja o desmatamento."

Governo responde
No entanto, segundo Francisco Oliveira, diretor do Departamento de Combate ao Desmatamento do Ministério Ambiente, a destruição dentro de áreas protegidas corresponde a menos de 10% do desflorestamento na Amazônia.

Quanto ao desmatamento recente no Pará e em Rondônia, diz que não se deveu necessariamente às hidrelétricas. Oliveira afirma que o desflorestamento em um raio de 50 quilômetros de Belo Monte passou de 380 km², em 2011, para 41 km² em 2013.

Em Rondônia, ele diz que também tem havido redução no ritmo do desmate em áreas próximas às usinas.

Segundo Oliveira, as principais causas para o maior desmatamento na Amazônia no último ano foram: no Pará, a apropriação ilegal de terras (grilagem) na região de Novo Progresso; no Mato Grosso, a expansão da agropecuária; e em Rondônia, a expansão da pecuária.

Oliveira afirma, porém, que, apesar da alta, o índice de desflorestamento em 2013 foi o segundo menor desde que começou a ser medido, há 25 anos.

MERGULHO RECREACIONAL & MEIO AMBIENTE

Há muito tempo quero escrever sobre essa atividade recreacional e seu papel na preservação do Ambiente Subaquático. Sendo um meio exótico para o ser humano, traz consigo reflexões sobre como tratamos a maior superfície de nosso planeta. A água do mar representa mais de 90% de toda água da Terra. Porém, não pode ser consumida por nós, pelo seu alto teor de sal. Se o fosse, jamais teríamos problemas de escassez desse precioso líquido, que assegura nossa existência. Apesar de já existirem tecnologias para dessalinização da água do mar, seu custo ainda é proibitivo para uma produção de água potável em grande escala para abastecer toda população da Terra.

Mergulho na Laje de Santos, SP. Naufrágio do Moréia


A atividade de mergulho é extremamente prazerosa, embora exija muito treinamento e um elevado investimento em artefatos necessários para nos garantir a vida submersa. Esses artefatos são conhecidos pela sigla SCUBA, “Self Contained Underwater Breathing Apparatus”, ou, em uma tradução livre, adaptada para o português, “Equipamento Individual para Respiração sob a Água”. O explorador Jacques Cousteau, em suas famosas aventuras, foi um dos principais idealizadores desse equipamento e contribuiu muito para seu desenvolvimento.

O simples fato de podermos permanecer submersos por 50 minutos ou mais já se torna um privilégio para aqueles que têm a oportunidade de descobrir esse fascinante ecossistema dos oceanos. Embora os investimentos em roupas especiais, equipamentos e treinamento sejam elevados, o prazer de conviver com as criaturas marinhas compensa qualquer sacrifício.

Aprender a mergulhar demanda apenas algumas aulas sobre as técnicas essenciais de sobrevivência sob as águas. Porém, existem várias especializações de mergulho recreacional:

  • Mergulho Noturno
  • Mergulho em Naufrágios (“Wreck Diving”)
  • Mergulho em Correnteza
  • Mergulho em Caverna (“Intro to Cave”)
  • Navegação com Bússola em Mergulho
  • Mergulho de Busca e Recuperação
  • Mergulho de Salvamento (“Rescue Diving”)
  • Uso de Misturas de Gases (Nitrox, Trimix)
  • Mergulho em Altitude (acima do nível do mar)
  • Uso de Roupa Seca (em águas geladas)
  • Mergulho Profundo (“Deep Diving”)
  • "Dive Master" (Mergulhador Profissional)
Essas modalidades são destinadas àqueles que já fizeram o treinamento para mergulho avançado. O mergulho básico só permite ir a profundidades até 18 metros, enquanto que o mergulhador avançado pode chegar até a 40 metros de profundidade. Abaixo disso, considera-se mergulho técnico, e são exigidas técnicas de descompressão antes de se voltar à superfície. Para se tornar um Dive Master são necessárias cinco especializações e a formação de Rescue Diver, além de 100 mergulhos logados (comprovados).

Mas o que tudo isso tem a ver com o Meio Ambiente e a preservação da Natureza? Ocorre que a proficiência em mergulho é que dará autonomia e segurança para que o mergulhador possa conhecer, apreciar, e, por conseguinte, proteger o ecossistema submarino. Só defendemos aquilo que conhecemos; cada nova modalidade de mergulho abre novas janelas para a exploração desse extraordinário ambiente aquático, oculto para a maioria dos seres humanos.

A intimidade com esse novo ambiente só vem com o tempo, na medida em que dominamos as técnicas de mergulho e nos sentimos seguros com nosso equipamento. Passamos, então, a perceber a exuberante vida ao nosso redor: riquíssimas formações coralíneas, peixes das mais diversas espécies, pequenas criaturas ocultas na vegetação marinha, navios naufragados, criando ambientes para que a vida se multiplique. Cada paisagem nos mostra novas possibilidades para a vida se manifestar. Diferente dos aquários, os oceanos se transformam a cada novo mergulho: as condições de visibilidade, temperatura da água, a presença de grandes animais, como tubarões, arraias, meros, e nossas próprias condições para o mergulho. 

Os oceanos, apesar de sua imensidão, constituem ambientes extremamente sensíveis às mudanças climáticas, muito mais sensíveis do que os ambientes terrestres. Apenas para exemplificar, a variação de apenas 3° Celsius na temperatura média dos oceanos é suficiente para extinguir a vida nos recifes de coral e, por conseguinte, de toda fauna marinha. Estima-se que, em 15 anos, mais de 90% dos corais estarão ameaçados, e até 2050 toda vida dos oceanos terá desaparecido, caso o aquecimento global continue a crescer nos moldes atuais.

Um dos ambientes mais críticos e sensíveis são os mangues, que se encontram na foz dos rios, em sua vegetação híbrida e de transição entre a água salgada do mar e a água doce dos rios. Mangues são os berçários naturais para esse ambiente único. A maior parte dos manguezais já foi destruída pela ação humana, seja para a construção de portos, seja pela invasão imobiliária ou mesmo pela exploração de alguma atividade econômica que demande extensas áreas costeiras, como criação de crustáceos, exploração de petróleo ou a construção de balneários.


Mergulho com a tartaruga na Laje de Santos, SP.


Todos os ecossistemas da Terra estão interligados, e as correntes marítimas têm um papel determinante no Clima de nosso planeta. Essas correntes percorrem todos os mares em um movimento contínuo, trocando calor entre as áreas tropicais e os polos terrestres. Esse ciclo termomecânico é o responsável pela sobrevivência das minúsculas criaturas que povoam os oceanos, e que constituem a base da pirâmide alimentar: o plâncton. Esses pequenos seres são o alimento de grandes espécies, como as baleias jubarte, o tubarão baleia e as raias manta. O fenômeno do crescimento dos corais e da formação do plâncton regula a vida.

Estudos científicos desenvolvidos por projetos sobre o aquecimento global confirmam que grande parte dessa vida submersa já desapareceu, e o restante está ameaçado. Se o Polo Norte se descongelar, o que provavelmente acontecerá nos próximos vinte anos, as correntes marítimas perderão sua mobilidade, provocando alterações profundas no clima da Terra.

A redução das florestas também terá impactos profundos no clima, pelo desaparecimento dos rios de superfície e subterrâneos. Isso se dá pelo simples fato de que, sem a cobertura vegetal, a camada de “solo arável”, rico em matéria orgânica, perde a umidade e se torna impermeável, transformando enormes extensões de terreno em savanas, e encadeando um processo de desertificação em grande escala. A Floresta Amazônica é responsável pelo equilíbrio hídrico da América do Sul, em um ciclo complexo que se inicia na evaporação do Oceano Atlântico e segue nas chuvas que abastecem a floresta. Em seguida, a evapotranspiração da floresta inicia novo ciclo de chuvas e prossegue assim até formar as geleiras da Cordilheira dos Andes. O degelo das montanhas forma os rios da Amazônia, que completam o ciclo das águas. O Pantanal e o Cerrado são predominantemente abastecidos por esses rios e pelas correntes subterrâneas formadas pela água que se infiltra no terreno.

Por fim, as águas dos rios voltam ao mar, assegurando o equilíbrio dos nutrientes e da salinidade dos oceanos. O desequilíbrio desse complexo de ecossistemas e do ciclo das águas fará com que a Terra, nessa parcela de nosso continente, perca a capacidade de conservar a vida. Milhares de espécies desaparecerão, e o solo se tornará impróprio para a agricultura. Milhões de seres humanos passarão fome e sede, pela escassez de alimentos e pela falta de fontes de água potável. O derretimento das geleiras, não apenas do Polo Norte, mas de todas as geleiras da Terra, provocará uma elevação significativa do nível dos oceanos, dizimando as cidades litorâneas, que representam mais da metade da população de nosso planeta.

Compreender esses processos ecológicos é fundamental para que possamos defender o Meio Ambiente, modificando a maneira como utilizamos os recursos naturais finitos de que dispomos. Reduzir o consumismo e eliminar os combustíveis não renováveis é nossa missão urgente para que possamos equilibrar as forças monumentais que mantêm a vida na Terra. Os oceanos, como já dissemos, são parte integrante desse complexo de recursos interligados. Foi nas águas salgadas dos mares que a vida surgiu na face da Terra e se proliferou por toda parte.

Conhecer os oceanos e entender esses processos é fundamental para que possamos preservar o “nosso lar”. Ser ambientalista não é defender o Meio Ambiente apenas por admiração às belezas nele encontradas, mas sim compreender que sem ele não poderemos sobreviver. Uma das formas de se compreender um ecossistema é interagir com ele, e o mergulho recreacional exerce um papel importantíssimo nesse processo educativo. Os mergulhadores aprendem intuitivamente que tudo lá embaixo está interligado pelas infinitas cadeias alimentares.

Hoje cometemos crimes ambientais incompatíveis com a preservação da vida na Terra: devastamos as florestas, poluímos os rios e praticamos a pesca predatória em larga escala, sem nos preocuparmos com o amanhã. É certo que não estaremos aqui para sermos punidos pelos nossos crimes, mas nossos descendentes sim, e eles não terão a oportunidade de aprender a conservar a Natureza. Eles serão as vítimas de nossas atrocidades, cada vez mais aceleradas, cada vez mais avassaladoras. Fechamos todas as rotas de fuga e acreditamos que tudo não passa de alarde de ambientalistas, “esses lunáticos que pregam o apocalipse e nos impedem de enriquecer”! Sim, é verdade, somos sonhadores e lutamos por uma causa, mas não sabemos o que está por vir; acreditamos em um milagre: a conscientização dos homens a tempo de evitar a nossa extinção como espécie “mais desenvolvida” da Terra!

Não há mais tempo para reverter esse processo. Ativamos a bomba e não sabemos como interromper esse processo fatal. Perdemos a noção do perigo e vivemos alucinados com as nossas próprias façanhas. Vivemos em um mundo virtual, em que tudo é possível, e construímos a nossa própria versão do Universo. Somos nosso próprio Deus e não percebemos a nossa insignificância diante da Eternidade! Afinal, em um tempo que se mede em bilhões de anos, só aparecemos no último segundo, nos míseros instantes finais da vida neste planeta. Mas o Universo não se restringe a esses pequeninos e arrogantes seres da Terra, e depois de nossa extinção, milhões de outras criaturas passarão por seus próprios processos evolutivos... e alguma profecia, finalmente, se comprovará, apesar de inútil, tardia e irrelevante...

Conflitos de Consciência

A história dos estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia foi escrita com sangue; todos sabem disso. O processo de apropriação da terra foi feito através da “grilagem” [1] e da pistolagem [2] e muitos desses personagens ainda estão vivos (e ricos), e agora são aceitos na sociedade como “homens de bem”, “ilustres cidadãos que construíram a própria riqueza e a de seus estados”!
Mata residual na região de Altamira, PA
Porém, a história é bem diferente. Esses três estados tiveram na madeira a fonte de suas riquezas. Depois veio o gado e a soja, e, finalmente, o INCRA [3], cujos assentamentos removeram as fronteiras da Floresta Amazônica para dentro de seu território, devastando imensos ambientes e fragmentando o ecossistema em parcelas que hoje não sustentam a vida. Cerca de 40% do estado do Pará já perdeu sua cobertura vegetal original. Rondônia perdeu quase 80% das áreas de floresta, convertidas em pastos e monoculturas. O estado de Mato Grosso já perdeu quase a metade de dois ecossistemas: o Cerrado e a Floresta Amazônica.

Para quem se interessa pelo tema, recomendo a leitura de um artigo relativamente recente, publicado no Diário do Pará no dia 1º de agosto de 2010, intitulado “Pistolagem, terror e impunidade em Tomé-Açu” [4]. Outro artigo interessante foi publicado pela revista Época, em 25/11/2005, sob o título “À espera do assassino” [5], que trata dos “jurados de morte”, pessoas que vivem sob a ameaça dos pistoleiros contratados por fazendeiros, políticos poderosos ou qualquer desafeto que tenha razoável quantia em dinheiro para matar alguém [6]. Um terceiro artigo interessante é o do site “Barrancas do Itaúnas”, sob o título “Pistolagem no sudeste do Pará”, que relata a morte do casal José Cláudio e Maria do Espírito Santo, duas lideranças dos assentamentos do INCRA na região de Altamira, Pará. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Nova Ipixuna, Eduardo Ribeiro da Silva reforçou a denúncia de descaso para com o casal de ambientalistas e foi mais além. “O nosso sangue deve servir para alguma coisa; quantos de nós precisarão morrer para que o Estado tome providências em relação ao desmatamento na nossa região?”, indaga. Para ele, José Claudio e Maria do Espírito Santo deixam uma grande lacuna na luta campesina.

Mas todos esses relatos têm uma coisa em comum: a impunidade! Seja por medo, interesse político ou dinheiro, praticamente nenhum assassino ou mandante dos crimes foi condenado ou cumpriu a pena até o fim. Exemplo dessa impunidade é o caso do assassinato de Irmã Dorothy Stang. Ela chegou ao Brasil em 1966, com 16 anos de idade, e dedicou sua vida aos pobres. Foi ameaçada de morte diversas vezes, mas jamais se intimidou. Participava da Comissão Pastoral da Terra da Igreja Católica, dedicada aos trabalhadores sem terra.

Irmã Dorothy foi assassinada com seis tiros, aos 73 anos, no dia 12 de fevereiro de 2005, nas proximidades de Anapu, no Pará. Indagada pelo seu algoz se estava armada, limitou-se a exibir sua Bíblia. Atribui-se a ela a frase: “Não vou fugir, nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor, numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar”.

Criação de gado em fazendas do Pará
Hotel na região de Plano Dourado, também conhecida como "Quatro Bocas"
Acidente na BR-230, nas proximidades de Pacajá, PA
Estrada aberta dentro da mata em terra indígena de Altamira, PA
“Nota da Comissão Pastoral da Terra sobre o assassinato de Irmã Dorothy” [7]

Mataram Irmã Dorothy

A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra, CPT, reunida em Goiânia, recebeu com dor e indignação a notícia do assassinato de Irmã Dorothy Stang, de 73 anos, ocorrido hoje (12/02), às 9 horas, em uma emboscada no município de Anapú, PA, com três tiros.

Irmã Dorothy, de nacionalidade norte-americana, naturalizada brasileira, da Congregação das religiosas de Notre Dame, participa da CPT, desde a época da sua fundação e tem acompanhado com firmeza e paixão, a vida e a luta dos trabalhadores do campo, sobretudo na região da Transamazônica, no Pará.

Por causa de sua atuação, e pela denúncia da ação predatória de fazendeiros e grileiros, irmã Dorothy, desde 1999, vinha recebendo ameaças de morte. Na quarta-feira da semana passada (09/02), durante Audiência Pública, em Belém, apresentou ao ministro, Nilmário Miranda, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, ao ouvidor Agrário Geral, Gercino Filho, e a autoridades do governo do Estado do Pará, as denúncias de ameaça de morte que estava sofrendo.

No ano passado, ela recebeu da Assembleia Legislativa do Pará o título de Cidadã do Pará, ocasião em que ressaltou que este título representava o reconhecimento que o poder legislativo dava à luta do povo pelos seus direitos.

O inqualificável assassinato de Ir. Dorothy Stang, traz para nós a memória de um passado que julgávamos encerrado. É a primeira morte de um agente da Comissão Pastoral da Terra, neste governo do presidente Lula. A sanha de fazendeiros e madeireiros da região não respeita nada, e até a ação de uma religiosa idosa se torna para eles um obstáculo para a consecução dos seus objetivos. Se a vida de uma religiosa indefesa é tirada desta forma, como não são tratados os trabalhadores e trabalhadoras do campo!

Surpresos, chocados e impotentes diante de tanta brutalidade, a CPT continua firme em seu serviço aos povos da terra e das águas. Preferiríamos que não fosse assim. Mas infelizmente ir. Dorothy é mais uma mártir da Pastoral da Terra.

Neste início da Campanha da Fraternidade, em que as igrejas convocam o povo brasileiro para a superação de toda violência e injustiça, pedimos a Deus que a morte de ir. Dorothy nos ajude a construir a sonhada paz na terra.

Goiânia, 12 de fevereiro de 2005.

Coordenação Nacional
Comissão Pastoral da Terra
Secretaria Nacional

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A Comissão Pastoral da Terra menciona cerca de 45 mil pessoas ameaçadas de morte por pistoleiros a serviço de grileiros e latifundiários da Amazônia, muitos dos quais, políticos de destaque no cenário nacional e regional. Estima-se que 40% dos assassinatos ocorridos no Pará tenham sido perpetrados por pistoleiros. Apenas no ano de 2010, 28.945 pessoas foram mortas por pistoleiros naquele estado. Mato Grosso segue atrás, com 3.625 assassinatos.

Moradores de Altamira afirmam que ainda existem muitos pistoleiros vivendo naquela cidade, alguns “aposentados”, outros ainda “na ativa”, a serviço de seus mandantes, enriquecidos pela grilagem, e vivendo de suas “posses”, sob o olhar envergonhado de uma polícia inoperante. Até cidades com o nome desses poderosos foram criadas, e preservam o seu “legado”!
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Viajar pelos assentamentos às margens da Rodovia Transamazônica (BR-230) é voltar ao passado. Às suas margens, dezenas de vilarejos preservam o ambiente dos anos 1950, quando a maior parte das casas era de madeira, as ruas de terra, e o comércio se restringia a uns poucos estabelecimentos, na maioria, botecos e armazéns de variedades de baixo valor. Muitas dessas vilas (talvez a maior parte) ainda despejam seus esgotos nas vias públicas onde as crianças brincam descalças, pisando na lama esverdeada que se alastra por todo lado.

Percorremos cerca de 2.000 km em cinco dias, pelos travessões [8] dos assentamentos, buscando as possíveis entradas para a terra indígena que iríamos demarcar. Pernoitamos em hotéis de estrada, muitos, de madeira, sem água quente, como é usual na região amazônica. As pontes, feitas de árvores cortadas ao meio, deixam um grande vão entre as toras, às vezes na medida justa dos eixos da caminhonete. A estrada, esburacada ou arenosa, fica quase intransitável no período das chuvas, que começam em novembro e têm sua maior intensidade nos meses de janeiro e fevereiro. Em alguns trechos, mesmo usando a tração 4x4 do veículo, o trajeto era difícil, perigoso e lento, intercalando buracos do tamanho das rodas a lamaçais inundados.



Os acidentes na BR-230 são constantes. Tratores e caminhões tombados no meio da estrada impedem o trânsito, formando grandes filas, que se esgueiram à beira dos barrancos. A Transamazônica está em obras, mas seus problemas sempre existiram. Exemplo disso são os trechos curtos de asfalto, intercalados por longos percursos de terra, onde as pontes são precárias e também construídas de madeira. Ao que consta, foram entregues dessa maneira pelas empreiteiras, sem que o governo tenha tomado qualquer providência para se ressarcir dos prejuízos. Nos raros trechos de asfalto, muitos buracos se intercalam com o asfalto mal feito, e as ultrapassagens perigosas contribuem para novos acidentes, muitas vezes, fatais.

A devastação da Floresta Amazônica é assustadora! Milhões de hectares transformados em pasto, ou simplesmente queimados para tornar irreversível a destruição das matas! Áreas de preservação permanente e reservas legais não existem nessas terras destruídas pelo INCRA. Não sobrou nada; apenas as terras indígenas ainda preservam boa parte da floresta, mas mesmo elas estão sob pressão do enorme empreendimento de Belo Monte. O Consórcio Belo Monte adotou a estratégia de atender a todas as demandas dos indígenas, passando por cima da autoridade federal (FUNAI), e executando obras sem qualquer preocupação com seu impacto ambiental: estradas sem planejamento, aeroportos e clareiras abertos da noite para o dia, com consequências imprevisíveis para esses territórios antes preservados.

Uma desolação! Em poucos anos, todo cenário de belezas e riquezas naturais, abundante de caça e repleto de centenas de espécies de peixes, tornou-se vulnerável e instável, com inúmeras entradas desguarnecidas. A presença de evangélicos hoje é constatada em todas as aldeias, espalhando suas “doutrinas” permeadas de ameaças do “fogo do inferno” a todos que não professarem a mesma fé insana. Caçadores e pescadores profissionais invadem as aldeias e “compram” seu ingresso com bugigangas, dinheiro, combustível, doces e bebidas, porcarias semelhantes àquelas dos nossos invasores portugueses, cinco séculos atrás!



Voltei dessa viagem com um buraco em meu estômago, como se tivesse sido obrigado a engolir um enorme sapo cururu... todo trabalho que desenvolvemos parece que se esvaiu em um segundo, dando lugar a essa sensação de derrota, de fracasso, de missão perdida. É muito fácil enganar um indígena, cuja única educação formal chegou, ao máximo, ao 4º grau do ensino fundamental, e que conhece o homem branco através de processos assistencialistas, que dão suas migalhas a conta-gotas, exigindo, em troca, que se mantenham puros e conservem suas tradições, para deleite de antropólogos radicais. Esses indígenas se veem diante da opção de aceitar tais práticas nocivas ou receber as “dádivas” dos empreendimentos que irão destruir seu modo de produção e de vida, sua inocência e pureza, dando em troca uma terra devastada, em nada diferente daquela que existia no entorno de suas terras.

Para onde caminha o Indigenismo brasileiro? Por que não somos capazes de implementar projetos de longa duração, que tenham, como consequência, oferecer um modo de vida mais justo e digno para nossos povos ancestrais? Como superar tamanhas contradições, que começaram com a colonização e a evangelização forçada dos indígenas, tornando-os clientes de um sistema perverso de desagregação de suas populações, e hoje chegam ao ápice das contradições e da falta de um modelo adequado de desenvolvimento, que possa responder aos anseios desses povos, sem submetê-los a imposições de nossa sociedade contemporânea?

Enquanto as ideologias se debatem, tentando conquistar a confiança dessas populações, como se fossem troféus de batalhas, os indígenas sucumbem a crenças exógenas que desvirtuam os ensinamentos de seus antepassados e os tornam cada vez mais vulneráveis a transformações, que nós mesmos não sabemos aonde irão nos levar. As portas das aldeias foram escancaradas e não temos como reverter essa situação. O “pecado primal” da perda da inocência foi cometido, não por eles, mas por nós, que os tutelamos a contragosto, sem consultá-los sobre suas verdadeiras intenções e desejos. Os monstros de nossa civilização controvertida foram soltos e não sabemos como domá-los, antes que adentrem as malocas e xaponos...

Haverá, ainda, uma esperança?
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[1] A apropriação de terras públicas feita de modo indevido e por meio de falsificação de documentos de titularidade da terra é referida no Brasil como “grilagem de terras”. A grilagem de terras existe em virtude de especulação imobiliária, venda de madeiras e lavagem de dinheiro.

[2] Uso de pistoleiros (assassinos de aluguel) para intimidar e matar legítimos proprietários de terra a “venderem” suas posses para um “grileiro”.

[3] INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

[4] http://diariodopara.diarioonline.com.br/not-cm.php?idnot=102925

[5] http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EDG72362-6014,00.html

[6] Um assassinato pode ser contratado por R$500,00 a R$10.000,00, dependendo da importância da vítima

[7] http://cimi.org.br/site/pt-br/index.php?system=news&action=read&id=1038

[8] Travessões são as estradas de terra que cortam os assentamentos em todos os sentidos, num emaranhado de vias que tornam a viagem estressante e perigosa.

Genoino poderá vir a se aposentar por invalidez mesmo após renúncia

Pedido de aposentadoria foi feito antes da renúncia e continuará a tramitar.

Informação é da assessoria da Câmara dos Deputados.

Nathalia Passarinho [GLOBO.COM]
A assessoria da Câmara dos Deputados informou nesta terça-feira (3) que o pedido de renúncia ao mandato de José Genoino (PT-SP) não impede que ele seja aposentado, no futuro, por invalidez e passe a receber salário integral como deputado – atualmente de R$ 26,7 mil.

Como o pedido de aposentadoria foi feito em setembro pelo petista, antes da renúncia ao mandato, o processo poderá continuar, de acordo com a assessoria. Preso devido a condenação no julgamento do mensalão, Genoino apresentou nesta terça (3) à Mesa Diretora da Câmara carta de renúncia ao mandato. Ele está provisoriamente em prisão domiciliar devido a problemas cardíacos que levaram a Justiça a autorizar que saísse do Presídio da Papuda, em Brasília.

"Quanto à aposentadoria por invalidez, que concederia ao ex-deputado o valor integral do subsídio parlamentar (R$ 26.723,13), o processo seguirá tramitando normalmente, tendo em vista que foi iniciado antes de José Genoino renunciar ao mandato", informou a assessoria.


Na semana passada, a junta médica da Casa apresentou laudo que diz que Genoino não tem doença que justifique aposentadoria por invalidez. Os médicos opinaram por conceder 90 dias de licença para que o deputado tenha condições de recuperação total da doença cardíaca.

Depois deste período, ele passará por nova perícia para verificar se está apto a trabalhar. De acordo com os integrantes da junta médica, o processo de aposentadoria só se encerra dois anos após o pedido. Até lá, serão realizadas perícias periódicas.

Se tiver a aposentadoria concedida, Genoino receberá salário integral de deputado, que atualmente é de R$ 26,7 mil. Apesar da renúncia ao mandato, o petista ainda assim receberá R$ 20 mil porque já possui uma aposentadoria proporcional por tempo de serviço pelo Legislativo.

Quando retornou à Câmara, no início do ano, ele solicitou a suspensão da aposentadoria para ter condições de atuar como deputado e passou a receber R$ 26,7 mil, salário atual dos parlamentares. De acordo com a assessoria da Casa, com a renúncia ao mandato, Genoino voltará a receber R$ 20 mil.

Aposentadoria por invalidez


Genoino pediu licença médica à Câmara dos Deputados para se recuperar de uma cirurgia cardíaca e, depois, entrou com pedido de aposentadoria por invalidez.

O ex-presidente do PT está em prisão domiciliar provisória devido ao seu estado de saúde e deve ter o pedido de prisão domiciliar definitiva avaliado nos próximos dias pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do processo do mensalão, Joaquim Barbosa.O deputado foi condenado a 6 anos e 11 meses de prisão pelos crimes de corrupção ativa (4 anos e 8 meses) e formação de quadrilha (2 anos e 3 meses). Ele começou a cumprir a pena somente por corrupção ativa. Com relação à condenação por formação de quadrilha, entrou com recurso que será julgado no ano que vem pelo Supremo Tribunal Federal.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou parecer ao STF na segunda (2) no qual opina pela concessão de prisão domiciliar por mais 90 dias para Genoino. Ao fim do prazo, segundo o procurador, "deverá ser reavaliada" a situação de saúde do parlamentar.