domingo, 31 de outubro de 2010

Carta aberta à Presidente Dilma Rousseff

Sra. Presidente Dilma Rousseff,

Falo como quem não votou em seu nome, e nunca votaria em José Serra. Fui defensor de Marina Silva como uma alternativa de governo que nunca foi tentada neste país, mas que deveria ser considerada por quem ama a terra em que nasceu e acredita no ser humano como uma criatura possível no concerto geral deste universo atribulado por tanta miséria e desgoverno.

Até hoje a humanidade sempre procurou alternativas para conceder o poder e as riquezas para poucos em detrimento da maioria. À senhora que, como eu, lutou contra a ditadura militar, mesmo sabendo que na relação de forças não tínhamos a menor possibilidade de vitória, e que, por idealismo e convicção, mesmo assim perseverou na defesa de seus ideais, peço-lhe apenas um minuto de sua atenção, antes que sucumba de vez nos labirintos do poder.

Nas barganhas dos cargos e dos Ministérios, guarde uma vaga para o bom-senso, e destine, pela primeira vez na história, a Agricultura para os pequenos agricultores, esses que representam mais de 95% de todos os trabalhadores rurais desse país imenso. Não entregue o poder para os ruralistas, esses que querem apenas se enriquecer, produzindo soja, gado e cana de açúcar para abastecer os celeiros do mundo, deixando a mesa dos pobres vazia.

Reserve o Meio Ambiente para quem luta por preservar as belezas desse planeta, suas águas e as florestas, seus animais e as paisagens para que nossos filhos, nossos netos, seus netos, tenham algo para se maravilhar e viver. Deixe um pouco do que resta para as futuras gerações e não para aqueles que ambicionam os domínios intermináveis dos latifúndios vazios.

Leve consigo, para as outras pastas, a Educação, a Saúde, os Transportes, Minas e Energia, pessoas que sonham com um mundo melhor e menos consumista, onde todos (todos mesmo) possam ter suas vidas dignas e não consumidas no desperdício e no desprezo pelos pobres.

Senhora Presidente, seja, antes de tudo, humilde; visite todos os rincões desse país e não apenas aqueles que lhe deram os votos da vitória, mesmo que sejam tão vazios e distantes que apenas os indígenas os estejam habitando. Veja com seus olhos a imensidão de nossas florestas, de nossos rios, a riqueza que eles guardam para um futuro que só acontecerá se alguém cuidar para que isso aconteça. E apenas a senhora poderá fazê-lo.

Não espere que as alianças espúrias que fez lhe garantam a tal "governabilidade". Tenha a coragem e a ousadia de decidir pelas gentes de nossa Nação, a despeito dos partidos políticos, cada vez mais corruptos, cada vez mais distantes dos nossos anseios populares.

Senão, para que terá valido sua luta revolucionária? Lembre-se de seu idealismo como estudante, que enfrentou as armas dos exércitos, os porões da ditadura, apenas para viabilizar um mundo melhor, mais solidário, mais justo e honesto. Traga de volta seus sonhos estudantis, ainda não contaminados pelas ambições políticas, e pense em seu povo, pois foi este quem a elegeu com seus milhões de votos! Rompa essas alianças estúpidas e acredite em seu poder.

Senhora Dilma Rousseff, não repita a hipocrisia do passado! Leve consigo poucas propostas, mas apenas as efetivas, importantes de fato, que possam modificar para sempre a fisionomia deste imenso país, de recursos (quase) inesgotáveis. Não deixe que eles se acabem!

Ainda existem pessoas do bem, preocupadas e solidárias, aquelas que votaram em Marina Silva apenas pelo que ela representou para todos nós, uma via diferente, não baseada no Capitalismo Selvagem em que vivemos, mas na busca de alternativas Sustentáveis, que possam preservar a Vida, a Beleza e a Permanência do Homem sobre a Terra.

Este é o meu pedido sincero, senhora Presidente!

Resultado esperado

Prevaleceu a lógica e Dilma se elegeu.

Não foi um resultado bom, mas o possível diante de tantas incertezas políticas e de um sistema de eleição viciado e ineficiente. A cada dois anos o Brasil pára e acompanha eleições que apenas corroboram a necessidade de mudanças profundas, seja no sistema de governo, seja na Economia, atrelada a ele. Trocam-se os governantes, mas a sociedade não percebe mudanças.

De que servem tantos partidos políticos se eles se aglutinam nas eleições e se amarram aos vencedores e perdedores, restaurando a dualidade do poder? Antes, eram Arena e MDB; depois, PDS e PMDB; a seguir, esses partidos se esfacelaram: tanto a "direita" como a "esquerda" se romperam em dezenas de siglas, cujos conteúdo ideológico não se diferenciava a ponto de permitir escolhas ou opções relevantes. Hoje é o PT de um lado e PSDB de outro. Muitos pensamos que, um dia, esses dois partidos estariam do mesmo lado.

Mas isso não aconteceu, e a tragédia foi que as sucessivas crises éticas e morais também destroçaram a confiança da população na existência de partidos limpos de fato. Eles não existem. Por isso, siglas como o DEM e o PMDB optaram por não mais lançar candidatos e oferecer suas estruturam políticas regionais para garantir a "governabilidade"... foi um tiro no pé dos partidos socialistas!

Seja quem for que se instale no poder, terá que se subordinar a esses partidos inescrupulosos e corruptos para a fromação de seu staff de ministros. É o que aconteceu desde que a ditadura militar cedeu o poder aos civis, em 1985. Os ministérios mais importantes não ficam com o partido vencedor, mas com seus "aliados": Transportes, Minas e Energia, Educação, Saúde, Agricultura... cada um "pega um pedaço"; e sobra para o presidente compor esse mosaico multicolorido e multifacetado de parcelas do poder, sem coesão interna e sem harmonia de gestão, indispensáveis para a condução dos rumos do poder.

E quem vence nas urnas fica com a impressão da vitória, mas os verdadeiros vencedores são aqueles que nem apareceram na TV no horário eleitoral: ficaram na retaguarda, articulando essa divisão estratégica do poder, que garantirá que o mandatário maior do país seja simplesmente a "rainha da Inglaterra", ungida com o manto real, mas desprovida de qualquer parcela de autoridade perante seus súditos enganados.

A senhora Dilma Rousseff nem poderá dizer que venceu esta eleição, pois este mérito cabe única e exclusivamente a seu criador, o presidente Lula, com o apoio estratégico dos marqueteiros de campanha, verdadeiros maquiadores a transformar a imagem de uma mulher rude e desajeitada em uma dama habilidosa e matreira, capaz de até vencer um debate na TV. O que virá depois de 31 de dezembro? Será que esta fera despertará da letargia e se libertará se seu criador? Que parcela de poder ela ainda tem para manobrar as peças do tabuleiro? Poderá conter a gana revanchista do PSDB, alijado por mais quatro anos da arena política? Dilma retomará sua postura inflexível que a tornou conhecida como a "dama de ferro" da política barsileira? O que será do PAC, um programa de retalhos sem coesão interna?

Muitas dúvidas restam por se responder, mas ficaremos em suspensão até que o primeiro jogo de dominação esteja concluído: a escolha do Ministério. Saberemos, então, quem dará as cartas e também se Dilma teve força suficiente para romper os compromissos irreveláveis do poder. Seguindo a lógica das últimas eleições, desde a morte de Tancredo Neves e a ascensão de José Sarney, nossas expectativas não podem ser muito alvissareiras...

Mas há quem ainda se empolgue com essa farsa e acredite que vivemos em plena democracia. É difícil se iludir a tal ponto, sabendo das grandes disparidades sociais e do abismo existente entre as diversas regiões do país. Mais ainda, é difícil acreditar em um governo voltado para as ações sociais onde quem manda de fato é uma minoria descarada, cujos propósitos são, única e exclusivamente, a ganância e a dominação econômica.

Dessa corja fazem parte os grandes banqueiros nacionais, os mega-fazendeiros do agronegócio, as empresas de mineração, as empreiteiras de grandes obras públicas (sempre as mesmas), a grande mídia capitaneada pela Rede Globo, e um poder oculto mas cada vez mais atuante, das religiões ditas cristãs: os católicos, que sempre estiveram ao lado do poder, e agora os evangélicos, multifacetados em pequenas ou grandes seitas doutrinadoras.

Parece incrível, mas esses grupos, que representam os interesses de uma insignificante minoria numérica, detêm o poder econômico em quase sua plenitude, detreminando, por isso, os destinos de nossa combalida Nação. Não temos uma democracia, nunca teremos. E com Dilma não será diferente, pela simples razão de que nada mudou nesse país e nessa eleição.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A escolha difícil

Conforme havíamos previsto em crônicas anteriores, Dilma será, provavelmente, a nova inquilina do Palácio do Planalto. Embora não conte com nossa simpatia e apoio, a candidata do PT tem muito mais qualificações para assumir a Presidência da República do que o tucano Serra.

Isto porque Lula, que a apóia, representou, para o Povo Brasileiro, uma promissora redenção em suas políticas públicas que favoreceram a ascensão das minorias à condição de dignidade social, e à grande e empobrecida maioria, alguns degraus que a afastou temporariamente da pobreza e da fome. Assistencialismo e imediatismos à parte, essa "proteção" contra a miséria, vinda através do Bolsa Família, era uma necessidade imperativa, enquanto medidas mais efetivas e duradouras não pudessem vir a afeito.

As habilidosas e inteligentes negociações de Lula e de sua equipe de Diplomatas conseguiram evitar que a maior crise do Capitalismo desestruturasse todas as conquistas sociais obtidas nesses últimos 10 anos. Isso ocorreu porque nosso mercado externo passou pela maior guinada de sua História, reduzindo a importância de parceiros tradicionais, fortemente atrelados ao Euro e ao Dolar, e buscando a parceria de outros países emergentes, como a China e a Índia, além dos países africanos e do Oriente Médio.

Lula também acelerou o processo de demarcação das terras indígenas e dos quilombolas, e de assentamento de trabalhadores rurais, dando o primeiro passo para o resgate desssas populações, que foram as maiores vítimas do Colonialismo português, no pior genocídio que maculou a História do Brasil, de Portugal e de sua aliada, a Inglaterra.

No entanto, apesar de tantas conquistas sociais importantes, o governo Lula não conseguiu reverter o processo de destruição sistemática da Floresta Amazônica, deixando um vergonhoso rastro de devastação provocado pelas alianças espúrias do PT com a famigerada Bancada Ruralista, para quem só importa o enriquecimento fácil da exploração e da exportação de soja, da criação de gado bovino e dos subprodutos da cana de açúcar.

Marina Silva, nossa candidadta à Presidência, não conseguiu, contudo, conter a fúria destruidora do  Latifúndio e das monoculturas, que destroçaram, desgraçadamente, grande parte do Cerrado do Mato Grosso, Goiás e Tocantins, e também extensas regiões da Floresta Amazônica nos estados do Pará, Rondônia e Acre.

Na visão Desenvolvimentista embasada pelo anacrônico e decadente Neo-Liberalismo, DIlma e Serra não se diferenciam; isso nos leva a crer que os próximos quatro anos, pelo menos, serão desastrosos para o Meio Ambiente, conduzindo-nos a uma situação crítica de sobrevivência de nossos principais biomas, os mais importantes do Planeta em extensão e biodiversidade. Principalmente para as bacias hidrográficas do Amazonas e do São Francisco, fontes de irrigação de uma gigantesca extensão territorial brasileira.

Será uma perda irreversível, dada a fragilidade dos solos amazônicos, e um grande risco para a sobrevivência da raça humana. Quem será o responsável por essa hecatombe: Dilma ou Serra? No próximo final de semana conheceremos o nosso algoz!

domingo, 17 de outubro de 2010

Marina cobra mais consistência na discussão entre Dilma e Serra

Flávia Tavares - "O Estado de São Paulo" - 16 de outubro de 2010
Senadora inaugura nova ‘barganha’ eleitoral e quer compromissos em vez de cargos, mas vê ‘desenvolvimentismo’

SÃO PAULO - Foi ela quem levantou a bandeira do meio ambiente no primeiro turno e, agora, é ela quem luta para mantê-la hasteada. Enquanto Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) fingiam que o tema tinha saído da pauta, Marina Silva (PV) pressionou os presidenciáveis a se posicionar mais claramente no que se refere à sustentabilidade e, ainda que não inteiramente, condicionou seu apoio a algum deles à adesão a sua agenda ambientalista.
Mas ela não se ilude. Sabe que, por um lado, inaugurou uma nova modalidade de "barganha" eleitoral, ao exigir compromissos em vez de cargos em troca de seu consentimento. Por outro, percebe em Dilma e Serra muito mais disposição ao desenvolvimentismo - ou, como dizem alguns de seus assessores, ao "crescimentismo" - do que ao ambientalismo. "Mesmo no primeiro turno, as duas campanhas não se ativeram à temática do meio ambiente. Ela aparecia apenas dirigida a mim, já que isso é uma prioridade da nossa plataforma de governo. Não aparecia pela minha interação com os outros candidatos", lembra a candidata do PV.
Importante. Para Marina, depois de seus quase 20 milhões de votos no dia 3 de outubro, ficou claro que os brasileiros consideram a sustentabilidade um tema importante. "Pela primeira vez, houve um ensaio político para referenciar uma proposta de desenvolvimento baseada na sustentabilidade. Proposta que teve um respaldo muito grande em termos eleitorais, mesmo que as pessoas não tenham uma compreensão mais aprofundada da questão", disse a senadora.
Ela sabe que nem todos os que votaram nela o fizeram somente pela cor de sua bandeira. Ainda assim, acredita que esse recado dos eleitores obrigará partidos e lideranças políticas a dialogar sobre meio ambiente com mais frequência e consistência. "Pode ser que o tema ainda não seja tratado com muita profundidade pela sociedade, mas outras questões também não são." Ela compara: se nem todos têm clareza do que é um bom sistema de saúde, é certo que todos querem um bom sistema de saúde ou anseiam por uma boa educação, mesmo sem entender bem qual seria a reforma ideal do ensino.
A expectativa de Marina é de que no tempo que resta até o segundo turno os candidatos se dediquem a discutir sustentabilidade. "As candidaturas que se apresentaram, na oposição e na situação, têm uma visão desenvolvimentista. Há a oportunidade agora para que essas questões possam ser mais bem tratadas nos debates e nas campanhas."

Em busca do apoio do PV, candidatos assumem compromissos ambientais

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo
Marina Silva não passou para o segundo turno das eleições presidenciais, mas conseguiu fazer aquilo que muitos esperavam de sua candidatura: inscrever a sustentabilidade na agenda política nacional.
Nacho Doce/Reuters-15/10/2010
Nacho Doce/Reuters-15/10/2010
Pioneira. Com a força de seus 20 milhões de votos, Marina Silva acha que o tema ambiental deverá ser discutido com mais frequência a partir de agora
Pressionados pelos 20 milhões de votos obtidos pela candidata do Partido Verde (PV) no primeiro turno, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) não podem mais se dar ao luxo de ignorar questões ambientais consideradas prioritárias pelo eleitorado "marineiro", como o combate ao desmatamento e a proteção ao Código Florestal.
O Estado enviou aos dois candidatos uma série de perguntas relacionadas a alguns do principais debates ambientais do Brasil. Todas elas, também, abordadas na lista de 42 compromissos essenciais apresentada pelo PV como base para definição de um eventual apoio do partido a uma - ou nenhuma - das candidaturas. A decisão será votada hoje em assembleia do partido.
Um dos temas considerados mais críticos é a reforma do Código Florestal, que estipula regras e limites para a ocupação de áreas de vegetação nativa. Em resposta ao Estado, ambos se disseram contrários à anistia a desmatadores, prevista no relatório de Aldo Rebelo (PC do B), aprovado por uma Comissão Especial da Câmara em julho.
A assessoria da campanha tucana afirmou que Serra considera a anistia "inaceitável". "Mas também não se pode imaginar que áreas de agricultura consolidadas há décadas tenham que ser abandonadas, pois isso vai afetar a produção e o emprego rural", completou. Serra se coloca contra a redução das áreas de preservação obrigatória previstas no código. Propõe o pagamento por serviços ambientais.
O candidato se compromete a resolver o impasse no primeiro semestre de seu governo. "Ambos os lados, ambientalistas e ruralistas, precisam compor uma posição de consenso que equacione os principais problemas dessa agenda no campo", disse.
"Sou a favor do veto a propostas que reduzam áreas de reserva legal e preservação permanente, embora seja necessário inovar em relação à legislação. Sou favorável ao veto à anistia para desmatadores", afirmou Dilma. 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Questão ambiental ganha força por apoio de Marina

Sem histórico de militância na área, Dilma e Serra pouco falaram sobre o tema, que pode ser determinante para eleitorado verde (Fonte: "O Estado de São Paulo")
A preocupação com a questão ambiental foi, durante todo o primeiro turno, o eixo dos pronunciamentos e propostas da candidata Marina Silva, do PV. Mas passou quase em branco nas campanhas de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). Agora, quando os dois correm atrás dos votos do eleitorado de Marina, o tema vai subir de status.

Entre os eleitores verdes, uma das preocupações é verificar qual dos dois candidatos tem propostas mais próximas das que foram apresentadas por Marina. Diferentemente da ex-seringueira e ex-ministra do Meio Ambiente, nem Dilma nem Serra têm histórico de militância na área ambiental.

"Ambos ainda têm dificuldade de conjugar os verbos desenvolver e preservar numa mesma frase", diz o coordenador de políticas públicas do Greenpeace, Nilo D’Ávila.

Nos tempos em que eram colegas de governo, Marina, na pasta do Meio Ambiente, e Dilma, na Casa Civil, ficavam frequentemente em lados opostos. Vista por muitos ambientalistas como um trator do desenvolvimento a qualquer custo, Dilma não tolerava os questionamentos e as ressalvas do pessoal de Marina sobre licenciamento ambiental de hidrelétricas e outras obras de infraestrutura na Amazônia.

"Claro que é normal cobrarem agilidade nos licenciamentos. O que não é normal é desqualificar a questão ambiental como um entrave ao desenvolvimento", diz uma fonte próxima ao governo, que presenciou os embates internos naquele período.


Nas discussões sobre planejamento energético, Dilma, que antes de assumir a Casa Civil foi ministra de Minas e Energia, desdenhava do potencial de fontes renováveis, como eólica, solar, e até da biomassa de cana.

Na questão climática, foi refratária à adoção de metas para a redução das emissões nacionais de gases do efeito estufa, apesar de ter sido a representante do Brasil na malfadada conferência das Nações Unidas sobre mudança do clima, em Copenhague, no fim de 2009, quando a meta foi finalmente anunciada.

"A principal característica (de Dilma) é ainda considerar a questão ambiental como uma restrição e não oportunidade. Todo o resto é consequência disso", avalia Roberto Smeraldi, diretor da organização Amigos da Terra – Amazônia Brasileira. "A conservação é vista como um mal necessário, um problema que precisa ser resolvido para não atrapalhar o desenvolvimento, e não como parte da solução."

Ferramenta. Serra, segundo Smeraldi, já consegue enxergar as questões ambientais como uma ferramenta socioeconômica de promoção do desenvolvimento sustentável. "Acho que foi a mudança climática que fez com que ele enxergasse o tema de outra maneira", diz.

À frente do governo de São Paulo, Serra criou no ano passado a Política Estadual de Mudanças Climáticas, com a meta de redução de 20% das emissões paulistas de gases do efeito estufa até 2020. Foi o primeiro Estado brasileiro a assumir um compromisso desse tipo em lei.

"Ele viu a meta como uma maneira de impulsionar a modernização da indústria, não apenas como uma bandeira ambiental", avalia Smeraldi.

Para Nilo D’Ávila, do Greenpeace, ainda que Dilma tenha batido de frente com Marina no passado, um eventual governo petista teria mais facilidade para adotar uma agenda ambiental proativa, com base na bagagem deixada pela própria Marina. "O PT pode fazer um resgate rápido de planos do passado que têm a digital da Marina. O PSDB terá dificuldade maior."

D’Ávila acha que os tucanos titubeiam em temas cruciais, como o Código Florestal. O Greenpeace enviou um questionário com perguntas sobre o tema a cada candidato, e as respostas foram protocoladas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). "A Dilma é mais direta; vai direto ao ponto e diz que é contra a anistia a desmatadores, por exemplo", relata D’Ávila. "O Serra não aperta a tecla até o fim. É um tema sobre o qual não dá para ficar em cima do muro."

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Marina Silva, a grande vencedora

Nem Dilma, nem Serra. Marina venceu as limitações de seu partido, a falta de alianças e conseguiu, em sua breve campanha, crescer de 7% para quase 20% do eleitorado! Se tivesse a estrutura do PT ou do PSDB, certamente teria levado esta eleição no primeiro turno! Agora, entra em conflito com a direção do partido, questionando uma adesão hipócrita ao PSDB, sem pleitear qualquer posição dentro do novo governo.

Dilma foi quem mais perdeu: tinha a eleição ganha até o último debate, quando fugiu declaradamente do enfrentamento a seu opositor direto. Sua inabilidade política e falta de carisma coloca, agora, sua eleição em risco, e depende da decisão de Marina Silva para garantir sua eleição. Serra se considera vencedor por ter ido ao segundo turno, mas nada fez para consegui-lo, foi Marina quem tirou votos da petista e não Serra quem cresceu diante de seu eleitorado.

Os próximos passos serão decisivos: se o PV criar juízo e deixar Marina negociar sua participação no novo governo, terá a oportunidade única em sua história de definir os rumos da eleição e ter pelo menos dois ministérios: Meio Ambiente e algum outro menos representativo no gabinete de qualquer dos dois candidatos. Se o PV mantiver seu apoio incondicional ao PSDB correrá o risco de não ter nenhum ministério, além de perder o apoio de Marina que, neste caso, permanecerá neutra, ou talvez abandone o PV.


Seja como for, Dilma ou Serra, qualquer um vencerá com o gosto amargo da derrota, tendo dependido de um pequeno partido para se eleger. Quem ganha, contudo, é o Brasil, que terá o peso de uma grande ambientalista na decisão política mais importante do país.

Esperemos para ver o desenrolar dos acontecimentos, mas torcendo para que os Verdes não joguem essa oportunidade no lixo de sua própria História!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O Significado da Vitória de Dilma

Às vésperas das eleições já fica evidente a vitória de Dilma Rousseff, ou melhor, de Luiz Inácio Lula da Silva, o grande mentor da candidata petista e único responsável pelo seu desempenho espetacular. Muitos diriam: "é prematuro falar em vitória às vésperas das eleições"! Mas o fato é que o PT levará a presidência, provavelmente no primeiro turno, pois tem sido, historicamente, o partido mais combativo nas bocas de urna. Seja como for, Serra não ganha no segundo turno e isso é praticamente irreversível.

Mas o que significa essa "Vitória de Pirro" para os brasileiros? Quais as consequências de mais quatro, talvez oito anos de hegemonia petista no poder central? O que mudou em nossa sociedade nos últimos oito anos e que nos faz crer em um processo planejado, arquitetado pela cúpula dirigente do PT? Falamos em Lula, mas também em José Dirceu, em Antônio Palocci, José Genoíno, na própria Dilma Rousseff...

Para entender melhor o sentido desse processo "socialista" precisamos compreender os rumos do socialismo nacionalista da América Latina, principalmente de Evo Morales e Hugo Chávez, cujo tom determina uma transformação social talvez não adequadamente analisada pelos cientistas políticos: a ascensão ao poder de representantes populistas e de movimentos sociais vinculados às lutas pela posse da terra e pela ascensão de minorias étnicas vítimas dos processos históricos desses países. Talvez Lula tenha sido o menos representativo desses novos líderes, mas com certeza o mais influente e o mais bem sucedido.

Dilma, porém, é a incógnita. Mesmo tendo sido guerrilheira e lutado pelas liberdades democráticas durante o regime ditatorial dos militares brasileiros, Dilma não se identifica com nenhuma corrente populista de nosso país. Muito pelo contrário: talvez hoje esteja mais à direita do que o próprio José Serra, e tenha a simpatia da Bancada Ruralista e dos Desenvolvimentistas, dada sua predileção pelas grandes obras de engenharia que caracterizaram sua administração frente ao Ministério de Minas e Energia e como gestora do PAC.

As alianças políticas do PT com o que há de mais retrógrado neste país, como o PMDB, o PTB e o PCdoB compelmentam essa visão pessimista dos destinos de nossa política interna: até que ponto podemos esperar mudanças na condução da Economia? E que alento podem ter os Ambientalistas com uma presidente que foi a grande responsável pela saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente? É uma visão sinistra, mas realista do futuro político da Nação com Dilma Rousseff à presidência.

Lula, com toda sua deselegância intelectual, contava com a simpatia do mundo pelo seu jeito caboclo de dizer o que pensava, rompendo as regras cerimoniais do ritual diplomático e forçando líderes do porte de Barack Obama a manifestar sua admiração pela coragem e audácia de nosso Presidente. E Dilma? O que ela tem para oferecer no concerto das nações, diante de um momento complexo e instável, caracterizado pela incoerência dos países poderosos em se recusar a admitir a crise econômica, energética e ambiental?

Dilma não tem carisma, nem jogo de cintura para driblar as crises políticas, mesmo as internas; mas viverá um "inferno astral" com a divisão de forças conservadoras entre a oposição e o governo. Lula, em seu desdizer permanente, confundia a oposição, que sequer sabia identificar o seu território; e a maior evidência dessa perplexidade foi a campanha eleitoral, onde a equipe de Dilma, ou seja, de Lula, encampou todas as teses da oposição e neutralizou até mesmo os ataques pessoais mais medíocres da equipe de Serra.

Como Dilma enfrentará o poder assim dividido? Como encaminhará as mensagens mais polêmicas que implicam em reformas profundas do sistema político, previdenciário e fiscal brasileiro? Muitos diriam que essas reformas já tramitam desde FHC e que, portanto, não seriam assim tão urgentes e necessárias. Mas o PAC é um "programa" que só serviu para dara a vitória a Dilma, e as grandes obras só poderão prosseguir até saturar a capacidade de investimento do país. Além disso, o "pré-sal" apenas amadurecerá a longo prazo, sendo, por enquanto, um sorvedouro de recursos insaciável para a Petrobrás.

Se a oposição não teve competência para vencer essas eleições, certamente passará por um processo de revisão profunda, a menos que aceite ser alijada para sempre do comando da Nação. Portanto, Dilma enfrentará uma oposição mais forte e menos dividida nos próximos anos e terá que justificar sua presença no Planalto, pelo menos por quatro longos anos. E o Congresso não seguirá o mesmo caminho das urnas e o poder deverá estar mais dividido e mais instável nas casas legislativas.

No cenário internacional, a Europa ainda passará pelos rescaldos da crise, assim como os Estados Unidos e o Japão. No entanto, a China continua em seu caminho de dominação e deverá liderar a economia mundial na próxima década, deixando o Brasil apenas com a função medíocre de prover matérias primas para que a China cresça sob nossas barbas. Nossa opção histórica pelos produtos primários se mostrará trágica em futuro próximo, e nem o "pré-sal" nos resgatará do naufrágio. Esse talvez seja o grande desafio de Dilma e do PT.

BPMN