terça-feira, 31 de agosto de 2010

"A Hora da Virada"

Agora que a eleição presidencial está praticamente definida, caso não haja algum factóide criado pelo PSDB e seus aliados, já podemos avaliar o que ocorreu nas campanhas para que uma decisão tão rápida e fulminante tenha se sucedido. Afinal, todos esperavam uma disputa acirrada no segundo turno e não um crescimento tão fulminante de Dilma Rousseff.

A primeira consideração diz respeito ao estilo político dos contendores. Enquanto Dilma se adaptou rapidamente a uma nova imagem criada pelos marqueteiros, mudando sua aparência e conduta diante das câmeras, Serra se manteve em seu estilo arcaico de pronunciar didaticamente as palavras, como se falasse para débeis mentais, tentando passar conceitos óbvios e requeridos de qualquer administrador, e não trazendo idéias novas que o diferenciassem de sua opositora. Dilma foi além, e invadiu o campo de ataque do concorrente, fazendo dela as palavras que deveriam ter sido ditas pela oposição, propondo mudanças que não foram feitas por Lula.

O segundo aspecto surpreendente é que Lula contrariou o mote de que não se transfere popularidade. Dilma não só herdou a boa fase de Lula, como também usufruiu de sua habilidade política de transferir a Dilma boa parte da responsabilidade pelo excelente desempenho de seu governo. A continuidade passou a ser vista como uma vantagem competitiva e não uma repetição de práticas abomináveis. Essa virada de conceitos se deu porque a população percebeu que a corrupção é inerente à política e não exclusiva de alguns políticos; portanto, não adianta mudar os políticos: a sujeira será sempre a mesma! Pior ainda: a corrupção está, principalmente, no poder legislativo, pela interferência direta de caciques políticos na administração pública, no direcionamento das verbas públicas e no favorecimento de grupos políticos situados à direita do espectro político.

A terceira consideração se refere ao fraco desempenho de Marina Silva, a única que poderia tirar votos do PT. Marina optou por não bater nos adversários, não fazer alianças políticas e ficar com um tempo irrisório do horário político gratuito nos meios de comunicação. Foi uma estratégia equivocada pois os Verdes não representam mais do que os 7% da candidata; não existe consciência ecológica em nossa sociedade. Marina Silva também não fez aliança com Heloísa Helena, a única parceria que poderia contrabalançar o estilo suave de Marina. Heloísa Helena é uma guerreira e poderia demonstrar a garra necessária para angariar votos da extrema esquerda e anular candidaturas inócuas, como a de Plínio de Arruda Sampaio. Marina enveredou por um caminho que demonstra sua inexperiência política e acabou favorecendo a candidatura de Dilma.

Por último, e não menos importante, deveremos avaliar o momento político brasileiro, carente de lideranças capazes de confrontar o grande líder Luiz Inácio Lula da SIlva, um operário que se fez político e estadista, ganhando as manchetes e a atenção do mundo para sua opção pelos pobres. Pode-se questionar seu estilo populista e sua opção desenvolvimentista, por um lado suprindo artificialmente carências através de bonificações do Estado a populações miseráveis, e por outro aliando-se ao que há de mais retrógrado e pernicioso na política brasileira, que são os cartéis do agronegócio e das grandes empresas dos setores de mineração, construção civil, finanças, etc.

Diante dessas opções equivocadas mas eficazes sob o ponto de vista macroeconômico, só nos restaria contrapor políticas voltadas à mudança do modelo político e econômico nacional, favorecendo atividades menos onerosas ao meio ambiente e atitudes menos consumistas, como propõe Marina Silva. Porém, seu discurso não tem eco na população e nas elites. Assim, só nos resta aceitar a derrota e nos conformar com mais quatro anos de desgoverno e de privilégios às classes abastadas, em detrimento da maioria da população. E, paralelemente, ver eleitos os representantes desses mesmos poderosos, os caciques políticos e seus aliados. É uma pena, um atraso que poderá custar muito caro à Nação brasileira e ao planeta Terra, já que grande parte da biodiversidade se encontra aqui.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Lula não Leu!

Quando terminei minha expedição pelo rio São Francisco, em dezembro de 2009, fui procurado por um alto funcionário do Banco do Nordeste do Brasil, Airton Saboya Valente Jr, Gerente da Coordenação de Estudos e Pesquisas Macroeconômicas, Industriais e de Serviços, responsável pela captação de novos títulos, convidando-me a publicar meu livro através do BNB. Enviei meus originais em janeiro de 2010 e aí começou a minha via crucis!

Enviei diversas versões do livro, excluindo ou alterando textos censurados pelo banco, que alegava serem inaceitáveis minhas críticas a personalidades do governo federal e às obras da transposição, "menina dos olhos" de Ciro Gomes e Dilma Rousseff. A contragosto fiz todas as modificações exigidas pelo BNB mas, mesmo assim, o tempo passava e nenhuma resposta definitiva, nenhum comprometimento, até que chegou junho, quando recebi uma resposta evasiva de que um membro do Conselho Editorial havia pedido "vistas" do processo.

Eu me senti como um réu diante de um tribunal de exceção, sendo julgado por falar a verdade, por divulgar que a Revitalização do rio São Francisco era uma mentira, que as obras da Transposição não atenderiam às necessidades do povo nordestino, que havia lutas pela posse das terras indígenas e quilombolas ; tudo o que eu vi e fotografei não passava de imaginação de um escritor sensacionalista. Fiquei parado, suspenso no ar.

Passou-se junho e julho, e nenhuma nova mensagem minha foi respondida pelo sr. Airton Saboya Valente Jr. Foi quando percebi que eles tinham conseguido seu intento, ou seja, evitar que um livro polêmico fosse publicado antes das eleições! Afinal, Dilma Rousseff liderava as pesquisas de opinião com razoável vantagem sobre seu concorrente!

Diante dessa manobra anti-democrática, decidi publicar meu livro na Internet, de graça, para que todos pudessem lê-lo e tomar conhecimento das mentiras do governo LULA nas obras faraônicas do Amazonas, do semi-árido nordestino e da bacia do São Francisco. Criei um blog, ao qual atribuí o nome de "Lula não Leu" pois tenho certeza que ele não lerá meu trabalho! Não é de seu perfil a leitura de textos extensos e analíticos sobre a realidade brasileira. Afinal, ele decidiu, como um déspota, com o uso do Exército Brasileiro, a construção dos canais de transposição, mesmo contrariando as opiniões de especialistas em hidrologia e meio ambiente, passando longe dos interesses do povo ribeirinho.

Também coloquei meus originais para "download" nos sites 
SCRIBD OVERMUNDO. Mais de 1.200 pessoas já se interessaram pelo meu trabalho e creio que muitas mais terão o cuidado e a atenção de conhecer essa realidade tão distante dos olhos da população urbana de nosso país. Minha dificuldade é divulgar o trabalho e, para isso, conto com vocês: leiam, divulguem, repliquem minha mensagem para que muitas pessoas tenham a lucidez de julgar um governo que começou com a corrupção do desvio de dinheiro do Mensalão e acaba com a construção de obras gigantescas de engenharia (Hidrelétricas na Amazônia e Transposição no Nordeste) que certamente terão um custo social e ambiental irreparáveis! Conto com vocês!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

DEUS

Para as civilizações primitivas DEUS era qualquer manifestação incompreensível dos fenômenos naturais, incluindo nossa presença aqui na Terra. Assim, DEUS não era uma entidade única mas diversas divindades especializadas como o Sol, o Trovão, os Raios, os Vulcões, as Tempestades. Na Antiguidade os povos acreditavam haver um espaço na Terra reservado para essas divindades; os Gregos chamavam essa região desconhecida de Monte Olimpo. Os Egípcios mesclavam aspectos humanos e animais para caracterizar as figuras de seus deuses até que o faraó Akhenaton estabeleceu o culto a uma divindade única: Ra, o Deus-Sol.

As religiões contemporâneas têm, cada qual, seu próprio conceito de DEUS, mas quase todas afirmam que "o Homem foi feito à Sua imagem e semelhança", atribuindo, assim, nosso papel de seres superiores na cadeia dos seres vivos da Terra, um pequeno planeta do sistema solar. Algumas religiões acreditam na reencarnação, outras não. Mas todas, sem exceção, criaram sua Cosmogonia para suprir os temores dos homens de que nossa vida se extinguiria com a morte, e nada restaria de toda nossa pequena obra quando deixássemos este mundo.

Assim é a nossa Fé e nosso Amor a DEUS: um sentimento egoísta de permuta: eu creio em DEUS e Ele me assegura que existe uma outra vida após a morte e ela me redimirá de todos os meus erros e pecados e me propiciará uma nova oportunidade, repleta de felicidade. Alguns fanáticos acreditam que os homens são superiores às mulheres e, dando sua vida para uma causa extrema em louvor a esse DEUS, mil virgens lhes seriam reservadas no Paraíso. Que visão mais primitiva e fantasiosa! Que simplórios são os Homens!

Se DEUS existe e Ele representa o Poder absoluto em toda sua magnificência, imaginemos que somos como as células de nosso organismo. Nós somos DEUS e as células são os Homens da Terra. Nós, como deuses, não tomamos conhecimento de nossas células, e mal sabemos que elas existem. Apenas quando algo funciona mal em nosso organismo nossa atenção se volta para elas e, mesmo assim, como um agrupamento uniforme que executa determinada função: o fígado, os rins, o coração, os pulmões, o cérebro, os intestinos...

Se um Amor absoluto a DEUS fosse possível, ele deveria ser desinteressado e incondicional. "Amar a DEUS sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo" é o primeiro Mandamento das Leis Cristãs. No entanto, aqueles que amam a DEUS o amam com segundas intenções, fazem orações pedindo Graças, oferecem dinheiro, velas, flores "em troca de" benefícios pessoais, de vantagens em detrimento de outros seres humanos.

DEUS não existe; ao menos tal como o concebemos. Não somos capazes, em nossa infinita insignificância, de conceber um Criador Supremo, detentor de poderes ilimitados e capaz de reger a Sinfonia das Esferas e assegurar que esse Universo, que não teve início e não terá fim, funcione de acordo com Suas leis absolutas e previsíveis. Nada é previsível neste Universo que conhecemos. E o conhecemos muito pouco, quase nada. Passaremos nossas vidas pesquisando e descobrindo novas realidades desse Universo, e a Humanidade se extinguirá antes que um infinitésimo dele seja desvendado pela nossa tão decantada Ciência!

Precisamos encontrar outras razões para EXISTIR. Precisamos viver plenamente, cultivando valores que nós mesmos, seres humanos, criamos para viabilizar nossos relacionamentos saudáveis. Não há justificativas para acreditar que somos capazes de conceber uma Fonte Absoluta da Existência do Universo (nosso DEUS). Nossa percepção do Cosmos é pequena demais para que possamos sequer imaginar esse manancial de energia que supomos existir.

Esta é uma verdade cruel, insuportável para a maioria dos seres humanos, mas inexorável: DEUS, assim como o concebemos, não passa de uma figura patética e indigna dos poderes incomensuráveis que a Ele atribuímos. Mais se parece com os super-heróis norte-americanos, um Super-Homem capaz de direcionar suas forças para salvar uma mulher em detrimento de toda a Humanidade! DEUS deveria ser muito mais do que somos capazes de imaginar.

Se DEUS existisse e pudéssemos mesmo, como indivíduos, nos comunicar com ele, por que essa divindade atenderia aos pedidos de uns poucos e deixaria a maior parte da Humanidade padecer de miséria e de fome, sofrer as injustiças dos poderosos e, estes, usufruir das riquezas e confortos que a tão poucos são reservados? Não há lógica que explique isso!

Mas mesmo assim, agnóstico ou ateu, somos compelidos a criar regras de relacionamento que nos mantenham dentro de limites aceitáveis de convivência e respeito. Essas regras, mesmo evoluindo ao longo de nossa História, não impediu as barbáries das guerras, das torturas, das atrocidades cometidas pelos Homens, nossa vergonha irreparável.

E o que aconteceu com o sofrimento daqueles que padeceram dessas atrocidades? O tempo faz com que joguemos tudo no baú do esquecimento. Mesmo os maiores vilões da História têm seus nomes gravados, adorados, odiados, mas nunca esquecidos. Nós nos lembramos de Hitler, de Mussolini, de Átila, de Napoleão, de Médici, de Geisel, de Maluf, de Sarney, mas não nos lembramos dos heróis anônimos que foram assassinados a mando deles, dos líderes comunitários que deram suas vidas para redimir seu povo, dos valentes que desafiaram as leis dos homens para proteger inocentes, dos destemidos que lutaram e morreram pela sua causa.

Onde estava DEUS?

Somos os deuses das nossas próprias células: elas possuem vida autônoma, e delas não temos consciência. Onde estávamos nós quando os sintomas do câncer, e de rebeliões intestinas se manifestavam em nossos organismos? Cuidávamos de nossa própria vida...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Cultura de Facebook

Em minha juventude o país vivia uma ditadura militar sangrenta e extremista; proliferavam os movimentos radicais de direita, representados pela OPUS DEI, "Tradição, Família e Propriedade" e Comando de Caça aos Comunistas, de orientação fascista e falaciosa. Eu estava no campo oposto, dos movimentos socialistas e comunistas, lutando contra a ditadura militar e em defesa da liberdade de expressão. Eram facções rivais e ideologicamente opostas.

Naquela época líamos muito, líamos tudo o que caía em nossas mãos, de acordo com nossa ideologia. Eu fazia Estudos Orientais na USP e batalhava nos movimentos estudantis. Fui preso algumas vezes pela polícia política, mas consegui sobreviver, ao contrário de alguns companheiros, torturados e assassinados nos porões do Exército, da OBAN (Operação Bandeirante) e do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), os instrumentos de tortura e repressão da ditadura militar.

Sobrevivi, mas ficou um sentimento de perda irreparável, tanto pelos companheiros mortos, como pelos mutilados e lobotomizados por um "trabalho" de orientação da CIA e do SNI. Fiquei, por muitos anos, traumatizado pelos riscos de ser identificado e morto, em plena juventude, sem ter produzido nada, sem deixar meu rastro na História desse país.

Naquela época líamos muito, jornais, revistas, livros, panfletos, assistíamos espetáculos teatrais censurados, e assim formávamos nossa consciência política e acreditávamos em um mundo de Utopia em que os seres humanos eram pessoas do bem e buscavam, em sua essência e maioria, a solução dos graves problemas sociais que afligiam e afligem o mundo que conhecemos.

Nada disso aconteceu. Prevaleceu o ideário da Ditadura; venceu o Capitalismo e a doutrina Norte-Americana do desperdício, do consumismo e da alienação. Se os jornais, mesmo os mais conservadores, tinham uma ideologia própria e respeitavam o direito de divergir, o tempo fez com que os meios de comunicação se padronizassem em um modelo de informação medíocre, globalizado e infame, que transforma cada indivíduo em um arauto de ideias preconcebidas, sem conteúdo e inofensivas.

A divergência ideológica, a Dialética, é o mais perfeito instrumento de evolução do pensamento humano. Mesmo nos tempos mais negros da Idade Média os pensadores conseguiram produzir obras essenciais para a evolução intelectual da Humanidade.

Porém, com a massificação dos meios de comunicação, essa discussão dialética cedeu lugar à mediocridade, assassinando o pensamento filosófico. O Homem passou a se interessar apenas pela Individualidade, pelo Egoísmo, pela Cultura da Imagem Própria, em detrimento do Ser Humano! Ficamos mesquinhos e pequenos, insignificantes diante do Universo.

Primeiro foi a leitura de Manchetes! Já não importava a análise aprofundada dos eventos, mas apenas "saber" que esses acontecimentos existiam: "você viu o atentado contra os edifícios do Word Trade Center"? "Pois é... que horror, não é mesmo?" Apenas isso! Causas? Consequências? Para que? Bastava saber que aconteceu!

Agora, as redes sociais fazem o "estrago" final, eliminando qualquer preocupação com o entendimento de causas, efeitos e prioridades nos eventos do mundo contemporâneo: "hoje acordei cansada", diz a jovem. "Por que?", pergunta o 'amigo'". Eu fui à "balada" e cheguei às seis da manhã!", responde e finaliza a jovem. Apenas isso.

É assim que se desenvolve o pensamento contemporâneo. Tanto faz a precedência dos fatos, todos passaram a ter a mesma relevância, seja o cocô do neném, seja o porre do indivíduo, seja a morte de milhares de pessoas no tsunami das Filipinas, seja a miséria dos bilhões de esquecidos nos países pobres e em desenvolvimento. Estamos todos "no mesmo barco furado" e sem destino.

A "Cultura do Facebook" é a mais perniciosa da História da Humanidade! Milhões de pessoas conectadas, sem saber o que dizer, sem ter nada para dizer de relevante nesse mundo de mediocridade e marasmo em que vivemos! Somos, assim, levados pela correnteza do excesso de palavras e ausência de conteúdo, cada um "na sua", tentando passar o tempo e deixando a vida seguir seu curso inútil, desnecessária e irrelevante.

Para onde caminhamos? Qual o futuro dessa Humanidade sem causas, sem ideias, sem nada para defender ou contestar? Provavelmente, seremos conduzidos para a catástrofe natural, uma vez que, sem ideologia e sem destino, o excesso de consumismo e individualismo nos levará, necessáriamente à extinção.

Melhor assim do que viver sem propósitos!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Nossa heranças políticas

Depois do golpe militar de 1964 todos os partidos políticos foram extintos, com a declarada intenção dos generais de acabar com as ideologias políticas e, ao mesmo tempo, estimular a dicotomia "situação" e "oposição", metamorfoseadas sob as legendas ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Era uma idéia maquiavélica que incentivava o antagonismo das forças populares e simulava uma "democracia" de fachada, exigida pela política externa norte-americana, que financiou o golpe.

É claro que essa hipocrisia não se sustentou e esses "partidos" (a palavra "partido" havia sido inteligentemente banida das siglas) se fragmentaram entre forças de "esquerda" (ligadas aos movimentos sociais e ao Socialismo) e de "direita" (vinculadas ao Poder sob qualquer pretexto). 
Direita Esquerda eram expressões para identificar aqueles que se sentavam à direita ou à esquerda na Câmara dos Lordes (nobreza, classe dominante, aristocracia) e na Câmara dos Comuns (povo, classe oprimida, democracia), similares ao Senado e a Câmara, tal como o conhecemos, representadas pelos partidos Conservador e Trabalhista, em versão contemporânea do Poder Britânico.

A ARENA se transformou em PDS (Partido Democrático Social) e o PMDB apenas acrescentou o "P (partido)". Foi apenas uma mudança de siglas. O PDS se fragmentou nos partidos de direita: PFL (Partido da Frente Liberal), de Antônio Carlos Magalhães; 
PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), de Ivete Vargas; PP (Partido Progressista), de Paulo Salim Maluf; além de inúmeros partidos nanicos à espera de um corruptor e de uma oportunidade para demonstrar seus préstimos. O evento mais claro e vergonhoso dessa "missão" dos nanicos foi a eleição de Severino Cavalcanti em 2005 para a presidência do Senado.

O PMDB se manteve até hoje como sigla e preservou, durante anos, suas características de "lona de circo", sob a qual absorvia e mantinha "unidas" as correntes de esquerda. No entanto, dele saíram os partidos socialistas e a fragmentação maior das oposições no país: PDT (Partido Democrático Trabalhista), de Leonel Brizola; PT (Partido dos Trabalhadores), de Luis Inácio Lula da Silva; PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), de Fernando Henrique Cardoso; PSB (Partido Socialista Brasileiro) de Miguel Arraes; e os partidos nanicos PSTU, PSOL, PCB, PCdoB, PPS...

A herança política de Getúlio Vargas foi disputada por PTB e PDT. O PTB guinou para a direita e é hoje um dos partidos de sustentação do governo Lula; o PDT se manteve como membro das esquerdas descaracterizadas e atua por conveniência, ora apoiando o governo, ora a ele se opondo. Mas foi o PT quem conquistou a simpatia popular, primeiro pela defesa da Ética na Política, e depois pelos resultados do governo Lula e seu apoio popular. A Ética foi jogada no lixo da História na primeira eleição em que Lula se sagrou Presidente da República, pelo envolvimento em escândalos do Mensalão e pela ambição desmesurada pelo poder manifestada pelo seu "ideólogo maquiavélico" e "eminência parda" de Lula, José Dirceu.

O PSDB e o PFL disputaram, durante anos, a ideologia do chamado Neo-Liberalismo, e do movimento pela Globalização, talvez a mais nefasta corrente política da História da Humanidade pelos seus efeitos sobre os hábitos de consumo e a ambição das classes populares de ascender às castas medianas de consumo. O Desenvolvimentismo preconizado pela Globalização deu origem a um consumismo sem precedentes na História, criando a mais perniciosa corrida pela evolução tecnológica e esgotamento dos recursos naturais.

Depois de anos de escândalos políticos o PFL mudou de nome e criou o Democratas. Não foi suficiente, pois a corrupção estava nas pessoas e não no partido político e, hoje, o Democratas continua campeão de escândalos de corrupção no país. A escória política se hospedou nesta sigla e dominou os noticiários da Polícia Federal nos últimos anos.

Nas próximas eleições a "direita" não está concorrendo ao cargo de Presidente da República e isso nada tem a ver com seu poder político, mas às estratégias dos partidos corruptos de dominar o poder sem se desgastar nos processos eleitorais. Tanto no PSDB quanto no PT os partidos de direita estão atrelados como parasitas à espera da definição das urnas. Seja quem for o vencedor das eleições, eles estarão lá para defender suas "idéias", proteger o poder dos grandes industriais, das grandes mineradoras, dos grandes fazendeiros ruralistas, dos grandes banqueiros, das grandes empreiteiras e das grandes corporações econômicas de nosso país.

Assim, seja o PT ou o PSDB o partido vitorioso, quem comandará o Senado e a Câmara dos Deputados será a direita, revanchista, corrupta, imoral e defensora do conhecido jargão popular: "Mateus, primeiro, os meus"!

O PV e Marina Silva não se aliaram a essa partilha política e resolveram se lançar na disputa sem alianças espúrias. Infelizmente, essa é uma tática "kamikaze" e não tem possibilidade de conquistar o poder. O mesmo fizeram o PSTU e o PSOL, só que sob siglas mais radicais e sem possibilidade de mobilizar a opinião pública. O Partido Verde não é um partido de Esquerda, por não ser ideológico; apenas prega a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento econômico não baseado no extremo consumismo.

Os partidos nanicos de direita são todos inexpressivos, principalmente porque, não tendo uma ideologia própria, vivem de divulgar idéias isoladas, como o "imposto único", sem qualquer importância econômica ou social. Alguns se aventuram a lançar candidatura própria, como o antigo partido de Fernando Collor de Mello. Mas não têm representatividade popular.

Assim, nossas heranças políticas demonstram claramente a falência desse modelo de eleições, de governo e de estrutura do Estado. Não há reforma política que possa modificar essa situação. Seria preciso uma nova Assembléia Constituinte formada por intelectuais, juristas, economistas, sociólogos, antropólogos, ideólogos de todas as disciplinas do conhecimento humano para conceber um novo sistema de governo não atrelado a ideologias anacrônicas, e sem segmentação de castas e de ideias.

No entanto, isso é uma Utopia e o que nos espera é continuar fazendo escolhas erradas e arcar com as consequências de longo prazo: a exploração do trabalho semi-escravo, a subserviência das classes populares à aristocracia do poder econômico, a proliferação dos baixos golpes de corrupção, feitos na nossa presença, sob nossos narizes e compactuados pelo poder dominante: político, econômico e social. Não há escolhas!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

QUEM SE IMPORTA COM O DESTINO DESSE RIO?


Às vésperas das eleições não conhecemos ainda as intenções dos candidatos no que se refere ao Meio Ambiente. Nem mesmo Marina Silva se arrisca a dar suas opiniões, pois o IBOPE informa que preservar a Natureza NÃO É uma das preocupações da população brasileira, ou seja, defender a Ecologia NÃO DÁ voto! Já sabemos que Dilma Rousseff e José Serra não têm grande simpatia pelas causas de Sustentabilidade. Afinal, Dilma é co-autora do projeto de Transposição das águas do São Francisco e madrinha das maiores hidrelétricas consctruídas e em construção nos rios Xingu e Madeira.

Se a bola da vez é a Saúde porque a Globo assim "interpretou" a maior preocupação dos brasileiros, com a nítida intenção de conceder o mote a José Serra, que se considera "o melhor Ministro da Saúde da História desse país" (já ouviram algo semelhante? "Nunca na História desse País..."), quem se importará com o destino de nossos rios? Quem se importará com o São Francisco, com seus mais de 150 afluentes, com seus 15 milhões de habitantes? Onde estão os Planos de Revitalização e uso sustentável de nosso Velho Chico?

Se nós que temos todo interesse em sua preservação nada fazemos, quem fará? Quem cobrará dos presidenciáveis, dos deputados, senadores, governadores as políticas públicas direcionadas ao Meio Ambiente na imensa Bacia do São Francisco e no Semiárido? Onde estão as ONG´s neste momento crucial da vida da Nação brasileira, que não reivindicam nada para a continuidade de nossos recursos naturais renováveis? Sim, eu disse RENOVÁVEIS, mas até quando? Se tudo continuar como está, nada se renovará no futuro!

QUEM SE IMPORTA COM O DESTINO DESSE RIO?

Já se passou um ano desde que percorri o São Francisco da nascente à foz, ouvindo e retratando as dramáticas realidades desse rio; no entanto, nada mudou. Nem mudará, pois a preocupação dos brasileiros é com seu quinhão nos resultados das eleições. Há quem vote em Dilma porque provavelmente ela prosseguirá em sua política protecionista e paternalista com relação a servidores públicos, a sindicatos e a movimentos sociais. Mas não é assim que se escolhe o mandatário maior dessa nação gigantesca! E as políticas públicas?

As eleições chegarão e não importa quem vença, pois nenhuma proposta verdadeiramente revolucionária se apresenta aos eleitores. Da mesma forma, a sociedade organizada em sindicatos, associações, movimentos sociais pede muito pouco: eles apenas querem verbas! Mas dinheiro sem planos consistentes não representa uma solução. Exemplo disso é a Saúde e a Educação que recebem juntas quase a metade do orçamento da União e não evoluem como deveriam. E isso só ocorre porque as desigualdades sociais nesse país de latifundiários e milionários (que só representam 2% da população) não têm sido tratadas de forma consistente por ninguém que ocupou o Palácio do Planalto ao longo de nossa História.

Assim, o Velho Chico continuará a definhar, a perder suas matas e seus animais, a ser imundecido pela poluição de esgotos domésticos, a ser envenenado por agrotóxicos e resíduos industriais, a ser sugado para outras terras por obras majestosas e de pouco significado para a população ribeirinha, a ser assoreado pelas terras arrancadas dos barrancos... o Velho Chico continuará esquecido, "na fila do SUS", como diz Frei Luiz Cappio.

Enquanto isso, muitos milhares sonham com um cargo público de deputado, senador, governador ou presidente, sem mesmo saber o que fará quando empossado, a não ser continuar com as mesmas práticas de corrupção e mau uso do dinheiro público. Passaremos mais quatro anos sem perspectivas renovadoras porque NÓS não renovamos nossos políticos! 

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

As virtudes e os pecados

Muito temos falado a respeito de transformações sociais necessárias ao desenvolvimento sustentável. No entanto, antes de reformar o Estado é necessário reformar o Ser Humano. Dizemos isso porque as virtudes e os pecados da sociedade refletem o estágio evolutivo da raça humana sobre a Terra e apenas uma nova forma de encarar a vida permitiria melhorias expressivas e duradouras na qualidade de vida.

Vamos falar de virtudes e pecados. Criticamos nossos políticos porque são desonestos, corruptos, dissimulados, incompetentes e enriquecem graças a práticas ilícitas no exercício dos seus mandatos. São raríssimas as exceções e mais raros ainda os exemplos de virtude em políticos, e a razão evidente dos desvios de comportamento ético é a falsa noção que se tem, em cargos públicos, que o dinheiro que se movimenta nos órgãos governamentais não tem dono. Por isso, usufruir dos "benefícios" do poder não se caracterizaria em crime de lesa-pátria.

O mesmo se dá em nosso comportamento público e privado. Em nossa vida pessoal cuidamos de nossa casa, preservamos nossos espaços, educamos nossos filhos conforme nossa capacidade e nossos princípios. No entanto, é comum vermos pessoas "civilizadas" atirando lixo pela janela de seus carros, xingando outras pessoas por erros no volante de seus veículos, cometendo infrações grosseiras no trânsito sempre que a punição parece impossível. Não nos damos conta de que o mundo é a nossa casa!

Por isso, de nada adiantam as leis coibirem os desvios de conduta se sempre haverá meios de descumpri-las. Nosso país tem leis razoáveis, o que evidencia que, mesmo com políticos incompetentes, o debate ideológico aperfeiçoa as ideias e as torna melhores. O problema está no tremendo aparato policial e de fiscalização permanente necessário para garantir seu cumprimento. O custo social desse poder coercitivo é enorme e ineficaz, pois são os pontos de corrupção mais evidentes nas estruturas sociais. Além dos próprios políticos, a polícia e os fiscais, em todos os seus níveis, são os piores agentes de corrupção desse país.

As religiões sempre foram consideradas os baluartes da moral e da decência. No entanto, os casos de pedofilia no clero da igreja evidenciam essa falsa moral que se alimenta da crendice e ingenuidade da população mais pobre e menos informada. Algumas seitas, como as grandes igrejas evangélicas, são focos de corrupção ainda maiores. Muitos "bispos" se enriquecem através do engodo, traindo a confiança de quem já está desesperado pelas agruras da vida. Não são poucas as famílias que doam boa parte de sua renda para essas igrejas em troca de promessas vãs.

A educação pública é um descalabro e não cumpre o papel que deveria ser seu de formar as novas gerações e prepará-las para serem cidadãos melhores do que temos sido. Não apenas os professores são despreparados, como os métodos de ensino não funcionam, pois os livros ensinam uma realidade que não está visível e nem acessível às classes sociais menos favorecidas. A escola vende sonhos, assim como as novelas de televisão.

Por tudo isso e muito mais, de pouco adiantam as eleições e a alternância de poder, pois o que se alterna são as pessoas e não as ideologias. Nossos caminhos estão equivocados! Se não criarmos uma nova consciência nas gerações futuras, nenhum governo será eficiente e nada mudará nesse país. Se não pararmos esse processo consumista, as reservas naturais se esgotarão e o futuro da humanidade será desastroso e irreversível.

Portanto, falar das virtudes e pecados do ser humano é falar das virtudes e pecados da sociedade humana em sua totalidade. E os caminhos para a eliminação dos pecados não estão escritos nos livros sagrados, mas na consciência do ser humano.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Imprensa "Livre" e as Eleições Brasileiras

Depois do fim da ditadura militar, a imprensa brasileira organizou-se para exigir que leis fossem promulgadas para protegê-la dos desmandos de governos corruptos e totalitários. Durante anos a Lei da Imprensa cumpriu esse papel até que fosse revogada, a pedido da própria Imprensa, que julgou serem os instrumentos constitucionais suficientes para garantir essa autonomia. No entanto, isso não é verdade!

Nossa imprensa não é igualmente compromissada, seja com os ideais democráticos, seja com a própria qualidade de sua produção de notícias, de análises, de críticas e mesmo de independência das correntes políticas e ideológicas da Nação. A imprensa hoje se confunde com os novos meios de comunicação e, por isso, perdeu sua identidade como veiculadora das informações. Agora qualquer pessoa pode emitir suas opiniões e defender sua ideologia, sem se preocupar com linhas editoriais ou quaisquer outros instrumentos de coerção.

Lamentavelmente, no entanto, a qualidade de nossa imprensa é sofrível e poderosos veículos de comunicação estão completamente comprometidos com setores da economia, com partidos políticos e até mesmo com organizações religiosas. Exemplo disso é o inegável apoio da Rede Globo ao candidato José Serra; não apenas da organização, mas de seus próprios repórteres, que não escondem suas preferências pelo candidato tucano.

Isso não seria tão grave se não fosse a proximidade das eleições e o poder dessa empresa no cenário nacional. E esse comportamento não é de hoje; a eleição de Fernando Collor de Mello deve muito à Rede Globo pela manipulação ideológica do povo brasileiro naquela eleição. E não foi somente a Rede Globo; o jornal "O Estado de São Paulo", extremameente conservador, sempre se posicionou ao lado dos candidatos das elites, da FIESP e do agronegócio. E da mesma forma, esse jornal tem papel importante na formação de opiniões nos meios empresariais do sudeste e do sul do país.

Os debates, as entrevistas e a exposição à mídia durante a propaganda eleitoral gratuita terão pouquíssimo impacto no processo de decisão do povo na escolha de seus candidatos. Embora tenhamos sofisticados meios de proteção do voto em si mesmo, como mecanismo de manifestação popular, a conscientização do povo é uma mentira! Quantos realmente analisam a história política de seus candidatos, seus compromissos com idéias com as quais compactuamos, sua responsabilidade social e a evolução até de sua riqueza pessoal?

Iremos às urnas como sempre fomos, despreparados e irresponsavelmente despreocupados com as consequências de nossas escolhas pessoais. Que importa se a senhora Dilma Rousseff tem predileções por obras faraônicas e pouco se lhe dá quais impactos essas obras terão sobre o meio ambiente e a população do entorno? Que importa se o senhor José Serra possui um discurso monótono, típico dos PSDBistas, enaltecendo-se a si mesmos e às suas realizações do passado? Que importa se a senhora Marina Silva não quer fazer alianças políticas e não está preocupada com a fragorosa derrota que terá nas urnas?

Além do Presidente da República elegeremos senadores, deputados federais, distritais e estaduais e governadores. Essas pessoas permanecerão em seus cargos por quatro anos (oito, no caso dos senadores), sem que nada possamos fazer senão contemplar as barbaridades que cometerão em nome da democracia. Não se ensina política nas escolas; temos mais de 50% de eleitores completamente despreparados intelectualmente até para poder comparar as biografias dos candidatos; e nossa memória política é tão fraca que temos hoje, nesse cenário, "personalidades" como José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor de Mello, Paulo Salim Maluf, Roseane Sarney, Álvaro Dias, Ronaldo Caiado, Aldo Rebelo, Edson Lobão, Romeu Tuma... a lista é enorme e, no entanto, são exatamente estes que irão receber a maioria dos votos dos brasileiros, pois quem não tem consciência política vota pelo "SOM" do nome: quanto mais se repete o SOM, mais provável é sua eleição!

Para que trocar então? Deixem esses daí, que já sabemos como agem! E a imprensa "livre" de nosso país faz muito pouco, quase nada para reverter esse quadro lastimável, assim como o fazem nossos juízes e desembargadores... e para que, então, a "ficha limpa"?

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Marilene de Jesus (da CPT)

Minha homenagem a Marilene de Jesus, da CPT de Bom Jesus da Lapa, no dia em que a conheci, dois anos após o assassinato de seu marido, Afonso, líder carismático dos desamparados. Foto no Acampamento 17 de Abril, próximo a Sítio do Mato, Bahia, com Marilene acompanhada de suas filhas.

HOMENAGEM A MARILENE

Marilene de Jesus (da CPT)
Marilene no Acampamento 17 de Abril – Bom Jesus da Lapa - BA
Acabamos de enterrar Marilene, da CPT de Bom Jesus da Lapa – BA há 32 anos. “Põe a semente na terra, não será em vão. Não te preocupe a colheita, planta para o irmão.” Nunca me pareceu tão verdadeiro este canto. As pessoas especiais têm uma relação especial entre o modo como viveram e o modo como morrem... Ela fez de sua vida plantação e os irmãos e irmãs vieram celebrar e oferecer a colheita.

Os últimos tempos de Marilene de Jesus Cardoso Matos foram de uma intensidade reveladora: de um espírito inquebrantável, ela não teve um corpo que, ainda sendo forte, sustentasse tanto destemor – a revolta das células de um câncer tão violento quanto inadmissível a matou em três meses. As agruras familiares, o assassinato do esposo Afonso, a prisão arbitrária, as dificuldades em conciliar o estudo e o trabalho, as incertezas da luta popular na atual quadra... tudo isso junto e em pouco tempo foi um coquetel da vida duro de engolir até para uma Marilene.

A numerosa reunião provocada pela celebração de seu passamento, viva eucaristia, foi outra revelação: além dos familiares, gente de longe e gente de perto, de todas as cores, vários credos, graus de instrução, a diversidade dos movimentos sociais, organizações populares do campo e da cidade eram expressão de 53 anos de vida e uns 35 de militância popular, pastoral, eclesial.

Melhor os diziam os símbolos junto ao corpo tirado do aparato e simbolicamente plantado no chão do Centro Cristo Rei, em Santa Maria da Vitória, lugar-memorial das lutas sangrentas do povo do Oeste Baiano: flores, cactus, enxada, livros, água, lágrimas, bandeiras dos vários movimentos (sem terra, quilombolas, atingidos por barragem, mulheres, educação do campo, PJMP, CEBs, reserva extrativista, fundos e fechos de pasto), fotos dos mártires locais da Causa do Povo, cartazes da Romaria da Terra e das Águas ao Bom Jesus da Lapa, da qual ela era considerada “mãe” e participou de quase todas as 33 edições, os cantos mais evocativos da Caminhada, os testemunhos dos amigos e companheiras, os velhos pais, as duas jovens filhas, o pote que por acidente se quebrou espalhando a terra e todos souberam interpretar...

Marilene marcou com amor feito firmeza e carinho a vida de muita gente, dos camponeses em especial, do movimento popular, da Igreja, da CPT.

Marilene no escritório da CPT em Bom Jesus da Lapa-BA

Mulher, negra, pobre, urbana, filha de pais lavradores de terra alheia, desacostumou-se a dar de graça o suor e desde cedo, nas CEBs, na PJMP, na CPT, pôs-se a suar na luta do povo, no caminho do Reino, na Romaria para a Terra Prometida. Forjada na adversidade, aprendeu na contracorrente a ser libertária. Jamais se dobrou ou contemporizou com os poderes, nem os opressores nem os falsamente libertadores.

A qualidade que mais admirava nela era a consciência de seu próprio papel como agente de pastoral, como educadora popular, como CPT – servidora fiel da libertação verdadeira. Sempre ponderada, chegava a ser intransigente quanto ao protagonismo e autonomia do povo nas decisões que a luta exigia. Rechaçava qualquer tentação vanguardista ou ameaça de manipulação da vontade e do sonho dos trabalhadores. Sofria com as desilusões políticas, as manipulações, as cooptações, o refluxo da luta do povo.

E vinha da fé profunda este proceder, não era metodologia, estratégia ou tática. As leituras bíblicas de sua última celebração o disseram: “Eu ouvi os clamores do meu povo, por causa dos seus opressores. Conheço seu sofrimento e desci para o libertar das mãos de seus opressores e para fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa onde correm leite e mel “(Êxodo 3,7-8); “O Reino de Deus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e semeou no seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce, é a maior das hortaliças e torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu se abrigam nos seus ramos” (Mateus 13,31-32). De fato nem Javé nem Jesus fizeram concessões ao que não fosse a vida, a liberdade, a justiça, a solidariedade, a paz, construídas em amorosa parceria com a humanidade. “Quero cantar ao Senhor, sempre enquanto eu viver, hei de provar seu amor, seu valor e seu poder”.

Em 25/03/2010, ordenada pelo Juiz da Comarca, Eduardo Nostrani, deu-se a prisão dela e do presidente do STR João Sodré, apenas porque assinaram como representantes nota de denúncia das arbitrariedades deste juiz no caso da grilagem de terra nas comunidades geraiseiras de fecho de pasto de Salobro, Quati, Mutum, Jatobá, Pedra Preta, Brejinho dos Gerais, pelos advogados Paulo (ex-padre) e Socorro Sobral. A prisão injusta, ainda que sofrida, completou uma vida de irrestrita solidariedade à luta camponesa, tão criminalizada hoje.

Muitos viram na trajetória de Marilene também um alerta para cuidarmos mais e melhor da saúde, da relação com a família, o que implica em rever prioridades e ritmo de trabalho. Sem, porém – para continuar fiel a Marilene –, que isso sequer resvale para preocupações pequeno-burguesas, tão encontradiças hoje.

Ainda na última hora, sinal de contradição dos tempos cruéis que vivemos e nos interpela cruamente: no muro do cemitério duas faixas foram colocadas lado a lado. Uma do Partido dos Trabalhadores de Santa Maria da Vitória alegava “profundo pesar pelo óbito da nossa companheira”. A outra, tosca, posta por trabalhadores, dizia pequeno em desenhos quase infantis de flor e coração com a palavra “mãe” e “te amamos, Marilene”, e pedia bem grande “QUEREMOS JUSTIÇA”.

A comoção geral era dor pelas perdas várias e específicas, mas era também profundo agradecimento pela trajetória de vida e serviço de Marilene. Sejamos na luta, nos movimentos populares, na política, na Igreja, na CPT, na vida, dignos e dignas da companheira que hoje devolvemos à terra, que tanto queria repartida! Viva Marilene de Jesus, da CPT.

Ruben Siqueira
CPT Bahia / São Francisco
Santa Maria da Vitória, 2 de agosto de 2010

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