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domingo, 29 de janeiro de 2012

FaceBook - A Torre de Babel de nossos dias

Milhares de amigos, "causes" e "games" de toda natureza e uma obsessão por "curtir" tudo que aparece, dando-nos a impressão de que estamos "participando" do mundo e da vida, parecendo-nos que somos importantes e que determinaremos os destinos do mundo! Esse é o FaceBook, um mundo imaginário, ou "virtual", como o querem seus participantes!

Um Big Brother "politicamente correto", em que pessoas fazem "amigos" e trocam impressões inconsequentes, compartilham fotos e ideias, principalmente ideias de terceiros, mal assimiladas, mal compreendidas e fora de contexto, como é o mundo contemporâneo, onde todos se acham no direito de manifestar opiniões sem embasamento, sem fundamento e irresponsavelmente incoerentes!

Aqui, neste "universo virtual", problemas reais são compartilhados em uma ciranda alucinante, por meio de palavras, fotos e vídeos que parecem fazer da Terra uma Aldeia Global. No entanto, o mundo real continua existindo, cruel, desumano, injusto, preconceituoso e perverso, privilegiando os "afortunados" pela sorte ou pelas "espertezas", que Lula chamava de "maracutaias"!

A fome permanece fustigando populações inteiras, esquecidas em pequenas aldeias perdidas nos mais distantes rincões desse planeta nada virtual! Bilhões são relegados ao ostracismo, enquanto uma pequena parcela de privilegiados vive num mundo da fantasia, onde imensas mansões, automóveis de luxo, iates, praias particulares e acesso ao conhecimento não transformaram esses seres em pessoas solidárias, em cidadãos generosos, em políticos honestos.

FaceBook, a Torre de Babel contemporânea faz dos indivíduos pessoas piores, infinitamente irrelevantes para os destinos do mundo, pois nele se constroem "cidades e fazendas virtuais", travam-se batalhas fictícias, desenvolvem-se as habilidades de mafiosos para que, no mundo real, tudo continue na mesma, e os problemas sejam esquecidos, criando-se uma barreira psicológica, um bloqueio intelectual para que os verdadeiros ativistas sejam neutralizados no contexto real de nosso mundo perverso!

Qualquer um pode "falar" qualquer idioma, sem sequer frequentar uma escola de línguas, usando textos "macarrônicos" traduzidos para qualquer língua através do Google Translator!

Para onde caminha a Humanidade? Qual será o futuro dessas novas gerações de imbecis, preparados nas "universidades" da ignorância travestida em fantásticos "Sites de Relacionamento"? Na verdade, esses comportamentos pervertidos pelas novas mídias coincidem com a degradação ambiental do planeta, promovida pelas mineradoras, pelos latifundiários da soja, da cana e do gado, pelos políticos corruptos que dominam câmaras, senados e congressos em todo o mundo, pelas indústrias de agrotóxicos, pelos banqueiros e pelos falsos líderes que confundem a opinião pública com "divertimentos inocentes" como o Big Brother, pela música imbecil de nossos dias, pelos programas de auditório e "talk shows", cujo objetivo único é o de anestesiar as mentes dos jovens, futuros governantes do planeta que herdarão de nós!

E nós, cidadãos conscientes, o que fazemos? Somos, na verdade, a dissidência estúpida, bradando sermões nos desertos, defendendo Causas que não interessam à horda de zumbis que perambulam pelos labirintos da "informação" massificada e inútil... de nada adiantam nossas palavras, que não atingem o Grande Público! Enquanto eu tenho cerca de dois mil leitores por mês em meus blogs, o Big Brother consegue surrupiar sete milhões de ligações telefônicas por semana, apenas para definir quem será defenestrado nos paredões da Globo, "arenas" onde "gladiadores de araque" disputam a pequena fortuna de um milhão de reais para não fazer nada a não ser fofocar e fornicar em público, para deleite dos pervertidos telespectadores.

O FaceBook e seus similares não tão afortunados contribuem para a manutenção desse "status quo", disseminando idéias roubadas de verdadeiros pensadores que habitaram esse mundo em dias melhores que os atuais. De nada vale uma tecnologia sofisticada, complexa e plena de recursos fascinantes, se seu uso apenas corrobora a estupidez humana!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

HOMENAGEM A MARILENE

Marilene de Jesus (da CPT)
Marilene no Acampamento 17 de Abril – Bom Jesus da Lapa - BA
Acabamos de enterrar Marilene, da CPT de Bom Jesus da Lapa – BA há 32 anos. “Põe a semente na terra, não será em vão. Não te preocupe a colheita, planta para o irmão.” Nunca me pareceu tão verdadeiro este canto. As pessoas especiais têm uma relação especial entre o modo como viveram e o modo como morrem... Ela fez de sua vida plantação e os irmãos e irmãs vieram celebrar e oferecer a colheita.

Os últimos tempos de Marilene de Jesus Cardoso Matos foram de uma intensidade reveladora: de um espírito inquebrantável, ela não teve um corpo que, ainda sendo forte, sustentasse tanto destemor – a revolta das células de um câncer tão violento quanto inadmissível a matou em três meses. As agruras familiares, o assassinato do esposo Afonso, a prisão arbitrária, as dificuldades em conciliar o estudo e o trabalho, as incertezas da luta popular na atual quadra... tudo isso junto e em pouco tempo foi um coquetel da vida duro de engolir até para uma Marilene.

A numerosa reunião provocada pela celebração de seu passamento, viva eucaristia, foi outra revelação: além dos familiares, gente de longe e gente de perto, de todas as cores, vários credos, graus de instrução, a diversidade dos movimentos sociais, organizações populares do campo e da cidade eram expressão de 53 anos de vida e uns 35 de militância popular, pastoral, eclesial.

Melhor os diziam os símbolos junto ao corpo tirado do aparato e simbolicamente plantado no chão do Centro Cristo Rei, em Santa Maria da Vitória, lugar-memorial das lutas sangrentas do povo do Oeste Baiano: flores, cactus, enxada, livros, água, lágrimas, bandeiras dos vários movimentos (sem terra, quilombolas, atingidos por barragem, mulheres, educação do campo, PJMP, CEBs, reserva extrativista, fundos e fechos de pasto), fotos dos mártires locais da Causa do Povo, cartazes da Romaria da Terra e das Águas ao Bom Jesus da Lapa, da qual ela era considerada “mãe” e participou de quase todas as 33 edições, os cantos mais evocativos da Caminhada, os testemunhos dos amigos e companheiras, os velhos pais, as duas jovens filhas, o pote que por acidente se quebrou espalhando a terra e todos souberam interpretar...

Marilene marcou com amor feito firmeza e carinho a vida de muita gente, dos camponeses em especial, do movimento popular, da Igreja, da CPT.

Marilene no escritório da CPT em Bom Jesus da Lapa-BA

Mulher, negra, pobre, urbana, filha de pais lavradores de terra alheia, desacostumou-se a dar de graça o suor e desde cedo, nas CEBs, na PJMP, na CPT, pôs-se a suar na luta do povo, no caminho do Reino, na Romaria para a Terra Prometida. Forjada na adversidade, aprendeu na contracorrente a ser libertária. Jamais se dobrou ou contemporizou com os poderes, nem os opressores nem os falsamente libertadores.

A qualidade que mais admirava nela era a consciência de seu próprio papel como agente de pastoral, como educadora popular, como CPT – servidora fiel da libertação verdadeira. Sempre ponderada, chegava a ser intransigente quanto ao protagonismo e autonomia do povo nas decisões que a luta exigia. Rechaçava qualquer tentação vanguardista ou ameaça de manipulação da vontade e do sonho dos trabalhadores. Sofria com as desilusões políticas, as manipulações, as cooptações, o refluxo da luta do povo.

E vinha da fé profunda este proceder, não era metodologia, estratégia ou tática. As leituras bíblicas de sua última celebração o disseram: “Eu ouvi os clamores do meu povo, por causa dos seus opressores. Conheço seu sofrimento e desci para o libertar das mãos de seus opressores e para fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa onde correm leite e mel “(Êxodo 3,7-8); “O Reino de Deus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e semeou no seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce, é a maior das hortaliças e torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu se abrigam nos seus ramos” (Mateus 13,31-32). De fato nem Javé nem Jesus fizeram concessões ao que não fosse a vida, a liberdade, a justiça, a solidariedade, a paz, construídas em amorosa parceria com a humanidade. “Quero cantar ao Senhor, sempre enquanto eu viver, hei de provar seu amor, seu valor e seu poder”.

Em 25/03/2010, ordenada pelo Juiz da Comarca, Eduardo Nostrani, deu-se a prisão dela e do presidente do STR João Sodré, apenas porque assinaram como representantes nota de denúncia das arbitrariedades deste juiz no caso da grilagem de terra nas comunidades geraiseiras de fecho de pasto de Salobro, Quati, Mutum, Jatobá, Pedra Preta, Brejinho dos Gerais, pelos advogados Paulo (ex-padre) e Socorro Sobral. A prisão injusta, ainda que sofrida, completou uma vida de irrestrita solidariedade à luta camponesa, tão criminalizada hoje.

Muitos viram na trajetória de Marilene também um alerta para cuidarmos mais e melhor da saúde, da relação com a família, o que implica em rever prioridades e ritmo de trabalho. Sem, porém – para continuar fiel a Marilene –, que isso sequer resvale para preocupações pequeno-burguesas, tão encontradiças hoje.

Ainda na última hora, sinal de contradição dos tempos cruéis que vivemos e nos interpela cruamente: no muro do cemitério duas faixas foram colocadas lado a lado. Uma do Partido dos Trabalhadores de Santa Maria da Vitória alegava “profundo pesar pelo óbito da nossa companheira”. A outra, tosca, posta por trabalhadores, dizia pequeno em desenhos quase infantis de flor e coração com a palavra “mãe” e “te amamos, Marilene”, e pedia bem grande “QUEREMOS JUSTIÇA”.

A comoção geral era dor pelas perdas várias e específicas, mas era também profundo agradecimento pela trajetória de vida e serviço de Marilene. Sejamos na luta, nos movimentos populares, na política, na Igreja, na CPT, na vida, dignos e dignas da companheira que hoje devolvemos à terra, que tanto queria repartida! Viva Marilene de Jesus, da CPT.

Ruben Siqueira
CPT Bahia / São Francisco
Santa Maria da Vitória, 2 de agosto de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Desigualdade social e crescimento econômico

Quando a ONU divulgou o seu relatório sobre a situação mundial das desigualdades sociais e o Brasil se apresentava em uma posição tão degradante, talvez poucos em nosso próprio país tenham se conscientizado da gravidade dessa situação que se arrasta por séculos, e tem sempre a mesma causa e origem: a concentração brutal do poder econômico.

Aqui, em nossas terras, vivem populações inteiras percebendo uma renda irrisória de menos de R$2,00 (dois reais) por dia! Ao mesmo tempo, uma pequena "elite" de privilegiados desperdiça milhares de reais em refeições nababescas, pouco se importando que a fome e a miséria arrastam crianças para a morte, desprovidas dos recursos mínimos para sua sobrevivência.

Riqueza e ostentação narcotizam a mente das pessoas. Quem possui vários carros de luxo em suas garagens, viaja regularmente para o exterior, manda seus filhos para as escolas mais tradicionais e caras do país, possui casa de campo e de praia, milhares de cabeças de gado em terras que parecem não ter fim, televisores e computadores pessoais importados, anda de jet ski em praias sofisticadas... essas pessoas não têm tempo para pensar na miséria que mora nas favelas vizinhas das periferias, ou nas comunidades indígenas e quilombolas às margens de rios e em áreas distantes da civilização!

Civilização? Como podemos nos chamar de "civilizados" quando seres humanos como nossos filhos padecem da miséria das doenças provocadas pela inanição? Como podemos ir a um espetáculo teatral ou a um restaurante sofisticado que nos custa mais do que uma família inteira tem de recursos para sobreviver um ano inteiro? Como colocar a cabeça no travesseiro e dormir placidamente em plumas de ganso e lençóis de seda enquanto não há perspectivas ou políticas públicas para tirar metade de nosso povo da pobreza extrema em que tentam sobreviver?

Pois é... ninguém se importou com os dados do relatório das Nações Unidas... também, pudera! Quanta besteira tínhamos para falar nos Twitter, Orkut, Facebook em nossas horas de ócio e preguiça! Afinal, vivemos estressados com o trânsito, com os bandidos que rondam nossas famílias abastadas, querendo roubar nossas fortunas herdadas de nossos pais...

Ontem os canais da Globo começaram a circular a exposição de um filme tipicamernte americano, onde uma família de doze filhos "sofre" com a mudança de seus pais de uma cidade no interior, onde viviam em um belo rancho, e vão morar em uma mansão de Chicago! Deve ser muito duro para elas, não é mesmo? Deixar para trás seus amigos, namorados...

As novelas da TV também costumam retratar com frequência a riqueza como se fosse um mérito, um privilégio dos "melhores", dos eleitos por algum poder sobrenatural, que premia os "bons" (falsos arianos) e pune os "maus" (negros, caboclos, índios...). Por que será que os protagonistas sempre são bonitos e os vilões feios? Seria essa a tendência na(rci)zista dos homens?

A sensação que tenho é que, para nossa burguesia colonial, que gerou as castas mais abastadas de nossa sociedade, um relatório que expõe a miséria em seus números mais cruéis, deve lhes parecer estranho e irreal como os livros de ficção mais absurdos! Algo como "Alice no País das Maravilhas", só que às avessas! Ou então o nosso "Arquipélago Gulag"!

Mas não poderemos fechar nossos olhos por muito tempo, pois a população do mundo (e também a do Brasil) cresce muito mais nas camadas mais pobres. Por isso eles se tornam cada vez mais numerosos, e logo nos incomodarão mais e mais, até que não seja mais possível escondê-los nas favelas, nas várzeas, nos morros e nas comunidades esquecidas por Deus.

Esquecemos que somos mestiços, que não temos sangue azul, que nosso futuro está nessas crianças mestiças e miseráveis que relegamos à marginalidade. Até quando vamos ignorar essa verdade óbvia e nos iludir acreditando que esse Brasil desgraçado não é o nosso país?