É triste este mundo... comecei a trabalhar em 1.972, há 40 anos... pensei conhecer um pouco da alma humana, mas depois desses quase 12 poucos meses nesta terra, percebi que nada sei, que não estou preparado para a sordidez humana, que não tenho os atributos e as armas necessárias para enfrentar esse tipo de inimigos... estou pasmo! Em tão pouco tempo, sepultei minhas crenças, minha ideologia, meus mais profundos ideais de contribuir para a redenção de um povo sofrido, ultrajado, humilhado e desencantado por tantos anos de dominação... pensei até que eram os brancos os responsáveis por essa tirania... mentira! Os homens são iguais em qualquer arena, sob qualquer bandeira política, por debaixo de qualquer interesse!
Meus companheiros de trabalho me traíram... os líderes dessa população interétnica traíram seus próprios companheiros! As autoridades máximas do movimento indígena traíram, descaradamente, esses povos! O que nos resta? A que viemos, se não temos, entre nós, as pessoas, os profissionais capazes de romper com a exploração dos povos indígenas? A ambição humana não tem limites e é capaz de qualquer coisa para obter insignificantes benefícios pessoais em troca da deslealdade, da entrega de si mesmos por cargos!
Ao me candidatar ao serviço público acreditei que existia uma ética, princípios que norteavam as decisões, que conduziam as pessoas a pensar acima de seus interesses individuais, a buscar valores que a sociedade capitalista havia deixado no passado... mas não! São todos iguais... não, são todos piores, mesquinhos, medíocres, primatas! Sua ambição não tem limites, pois buscam interesses menores em suas ações!
O pior de tudo é que me entreguei de corpo e alma a esse propósito, desafiei autoridades, manifestei publicamente minha fé nos seres humanos, declarei minha opção pelos pobres e até abri mão de minha família para lutar em defesa de ideais maiores, duradouros, perenes, incorruptíveis... para concluir, no final, que são todos desleais, movidos por interesses mesquinhos e imediatistas, por cargos, por posições sociais!
Agora só me resta voltar, renunciar, esquecer esse triste passado que enterrarei nas areias do Rio Negro... que me perdoem as populações indígenas, não suas lideranças corruptas, mas os povos humildes e traídos por pessoas incompetentes e desonestas, mas não tenho alternativas. Volto à minha vida passada na esperança de encontrar outras razões para perseverar, para enterrar esse curto período de equívocos...
Não sei mentir, não sei enganar, não sei trair... por isso, vou-me embora, com muitas mágoas e um imenso sentimento de frustração perante essa realidade perversa que conheci aqui. Não levarei lembranças, não deixarei memórias de minha passagem por aqui, pela simples razão de que não existem pessoas dignas, no meio em que atuei, de guardarem, de mim, recordações relevantes... fiquem eles com suas ambições menores... eu buscarei outros caminhos pois, se não os encontrar, não terei razões para existir!
No dia 1º de janeiro Dilma defendeu o uso de energias renováveis. Menos de um mês depois apóia publicamente a inauguração de uma usina movida a carvão. Afinal, qual é a posição da presidente?
Usina Presidente Médici, em Candiota, RS. Greenpeace / Lunaé Parracho
A política energética brasileira, uma das meninas dos olhos da presidente Dilma Roussef, deu, menos de um mês depois de ela prometer no discurso de posse o incentivo a investimentos em usinas à base de biomassa, eólica e solar, mais um passo para trás. O Brasil, oficialmente, coloca hoje mais uma termoelétrica movida à combustível fóssil em funcionamento em Candiota, Rio Grande do Sul. Trata-se da usina Presidente Médici, ou Candiota III como prefere, por óbvias razões, o atual governo. A usina, parte de um complexo de seis térmicas semelhantes, funciona a carvão, considerado uma das fontes mais poluentes de energia.
Candiota III é o terceiro tropeço do recém-empossado governo na área de energia em menos de um mês de vida. O primeiro foi o anúncio de um plano para construir 11 megahidrelétricas na Amazônia. O segundo, mais recente, a brutal forçada de barra para que o Ibama desse algum tipo, aliás qualquer tipo, de selo de aprovação à construção da usina de Belo Monte. E agora, Candiota III. Juntando os fatos, pode-se muito bem supor que o discurso de Dilma na sua posse, com declarações fortes em favor das energias renováveis, foi apenas papo. “Candiota III é um monumento à geração energética do passado”, diz Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de Energias Renováveis do Greenpeace.
Movida a carvão – o menos nobre e mais poluente dos combustíveis fósseis – Candiota III promete gerar 350 MW de energia deixando um rastro de emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa que ameaçam a saúde humana e a estabilidade do clima do planeta. A usina deve garantir uma energia firme de 315 MW e a produção de 2,76 milhões de MWh por ano. Considerando a emissão média de 1 tonelada de CO2 por MWh típica de térmicas a carvão, obtém-se o espantoso montante de 2,76 milhões de toneladas de CO2 emitidos por ano. Na prática, toda essa numerália significa que uma única usina – responsável por pouco mais de 0,5% da energia gerada atualmente no Brasil - contribuirá com o aumento de 10% das emissões atuais do setor elétrico.
Área do Rio Xingu, no Pará, que será alagada pela construção da usina de Belo Monte. ©Greenpeace/Marizilda Cruppe