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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Agropecuária brasileira torna-se mais produtiva, porém mais excludente

Artigo publicado na revista Nature Climate Change analisa mudanças no padrão brasileiro de uso do solo nos últimos 20 anos e ressalta "comoditização" da agricultura

Por Karina Toledo - (Publicado na Revista NATURE)

Agência FAPESP - As mudanças no padrão brasileiro de uso do solo nas duas últimas décadas são destaque da capa da edição de janeiro da revista Nature Climate Change.

Área devastada na Terra Indígena AWA, Maranhão, onde vivem populações de índios isolados, mas cujas florestas hoje representam menos de 50% das áreas originais florestadas. Vale destacar que esses povos ão nômades e necessitam de grandes áreas para sua sobrevivência. As terras indígenas representam cerca de 50% das áreas protegidas do país e de toda biodiversidade conservada.
A boa notícia apontada pelo artigo é que, nos últimos dez anos, ocorreu no país uma dissociação entre expansão agrícola e desmatamento – o que resultou em queda nas emissões totais de gases de efeito estufa. O fenômeno, segundo os autores, pode ser atribuído tanto a políticas públicas dedicadas à conservação da mata como à “profissionalização” do setor agropecuário, cada vez mais voltado ao mercado externo.

Mas essa “comoditização” da produção rural brasileira trouxe também impactos negativos, entre os quais se destacam o aumento da concentração de terras e o consequente êxodo rural.

“As grandes propriedades – maiores que 1 mil hectares – representam hoje apenas 1% das fazendas do país. No entanto, ocupam praticamente 50% das terras agrícolas”, ressaltou David Montenegro Lapola, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro e autor principal do artigo.

As conclusões são baseadas na análise de mais de cem estudos publicados nos últimos 20 anos. Entre os 16 autores – todos brasileiros – estão Jean Pierre Henry Balbaud Ometto e Carlos Afonso Nobre, ambos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e integrantes do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PRPMCG).

Também participaram Carlos Alfredo Joly (Universidade Estadual de Campinas) e Luiz Antonio Martinelli (Universidade de São Paulo), do Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (BIOTA), da FAPESP.

“Os dados mostram, em 1995, um pico de expansão na agricultura coincidindo com um pico de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Isso volta a ocorrer entre os anos de 2004 e 2005, quando também houve pico de crescimento do rebanho bovino do Brasil. Após esse período, porém, a expansão agropecuária se desacoplou do desmatamento, que vem caindo em todos os biomas brasileiros”, disse Lapola à Agência FAPESP.

Se na Amazônia é claro o impacto de políticas públicas voltadas à preservação da floresta – como criação de áreas protegidas, intensificação da fiscalização feita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e pela Polícia Federal e corte de crédito para municípios campeões do desmate –, nos demais biomas brasileiros a queda parece ser resultante de iniciativas do próprio setor produtivo.

“As culturas que mais cresceram são as voltadas ao mercado externo, como soja, milho, cana-de-açúcar e carne. É o que chamamos no artigo de ‘comoditização’ da agropecuária brasileira. De olho no mercado estrangeiro, o setor passou a se preocupar mais com os passivos ambientais incorporados em seus produtos. O mercado europeu, principalmente, é muito exigente em relação a essas questões”, avaliou Lapola.

Também na Amazônia há exemplos de ações de conservação capitaneadas pelo setor produtivo, como é o caso da Moratória da Soja – acordo firmado em 2006, por iniciativa da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e da Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais (Anec), para impedir a comercialização e o financiamento de grãos produzidos em áreas desmatadas.

“Na Amazônia, a soja tem avançado sobre áreas antes usadas como pastagem. O mesmo pode ser observado no Estado de São Paulo, no caso das plantações de cana. A maior parte da expansão canavieira dos últimos anos ocorreu sobre áreas de pastagem”, afirmou Lapola.

Tal mudança no padrão de uso do solo teve um efeito positivo no clima local, apontou o estudo. Em regiões de Cerrado no norte de São Paulo, por exemplo, foi registrada uma redução na temperatura de 0,9° C.

“A maior cobertura vegetal aumenta a evapotranspiração, libera mais água para a atmosfera e acaba resfriando o clima localmente. Mas a temperatura ainda não voltou ao que era antes de ocorrer o desmatamento para dar lugar ao pasto. Nessa época, o aquecimento local foi de 1,6° C”, disse Lapola.

Êxodo rural

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam que as áreas dedicadas à pecuária no Brasil estão diminuindo. No entanto, o número de cabeças de gado continua crescendo no país, o que significa um maior número de animais por hectare e maior eficiência na pecuária (o uso do solo predominante no país).

De acordo com Lapola, o mesmo pode ser observado no caso de outras culturas voltadas à alimentação, como arroz e feijão, que tiveram suas áreas de plantio reduzidas embora a produção total tenha aumentado. Graças a esse incremento na produtividade, a segurança alimentar brasileira – por enquanto – parece não ter sido afetada pela “comoditização” da agricultura.

O artigo revela, no entanto, que a concentração de terras em grandes propriedades voltadas ao cultivo de commodities intensificou a migração para as áreas urbanas. Atualmente, apenas 15% da população brasileira vive na zona rural.

Em locais onde a produção de commodities predomina, como é o caso do cinturão da cana no interior paulista, cerca de 98% da população vive em áreas urbanas. “Essa migração causou mudança desordenada de uso do solo nas cidades. O resultado foi o aumento no número de favelas e outros tipos de moradias precárias”, afirmou Lapola.

As mudanças no uso do solo afetaram também o padrão brasileiro de emissão de gases do efeito estufa. Em 2005, o desmatamento representava cerca de 57% das emissões totais do país e, em 2010, esse número já havia caído para 22%. Hoje, o setor agropecuário assumiu a liderança, contabilizando 37% das emissões nacionais em 2010, advindas principalmente da digestão de ruminantes, da decomposição de dejetos animais e da aplicação de fertilizantes.

Novo paradigma

No artigo, os autores defendem o estabelecimento no Brasil de um sistema inovador de uso do solo apropriado para regiões tropicais. “O país pode se tornar a maior extensão de florestas protegidas e, ao mesmo tempo, ser uma peça-chave na produção agrícola mundial”, defendeu Lapola.

Entre as recomendações para que esse ideal seja alcançado os pesquisadores destacam a adoção de práticas de manejo já há muito tempo recomendadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), como o plantio na palha, além do fortalecimento do Código Florestal (que estabelece limites de uso da propriedade) e a adoção de medidas complementares para assegurar que a legislação ambiental seja cumprida.

“Defendemos mecanismos de pagamento por serviços ambientais, nos moldes do programa de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), por meio do qual proprietários rurais recebem incentivos financeiros pela conservação da biodiversidade e outros recursos naturais”, explicou Lapola.

Os autores também apontam a necessidade de políticas públicas – entre elas a reforma agrária – que favoreçam um modelo de agricultura mais eficiente e sustentável. “Até mesmo alguns grandes proprietários não têm, atualmente, segurança sobre a posse da terra. Por esse motivo, muitas vezes, colocam meia dúzia de cabeças de gado no terreno apenas para mostrar que está ocupado. Mas, se pretendemos de fato fechar as fronteiras do desmatamento, precisamos aumentar a produtividade nas áreas já disponíveis para a agropecuária”, concluiu Lapola.

O artigo Pervasive transition of the Brazilian land-use system (doi:10.1038/nclimate2056), de David Lapola e outros, pode ser lido por assinantes da Nature Climate Change em www.nature.com/nclimate/journal/v4/n1/full/nclimate2056.htm.

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MINHAS CONSIDERAÇÕES

Apesar das estatísticas mostrarem redução das taxas de desmatamento na Amazônia, elas não evidenciam que as taxas atuais sejam "sustentáveis", ou seja, os índices de desmatamento da Amazônia ainda são assustadores e não asseguram a preservação desse bioma. No ano passado, esses índices voltaram a subir cerca de 28%, fruto da vigência do "novo" Código Florestal, aprovado pelo Congresso durante a realização da Conferência Mundial sobre Preservação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável (RIO+20).

Se a concentração de gado nas áreas de pecuária extensiva aumentou, ainda temos baixíssimo aproveitamento de uso do solo, decorrência do desperdício de terras espoliadas pela grilagem praticada por pistoleiros, de forma intensiva nos anos 1970 a 1990, durante a Ditadura Militar. Também os Assentamentos do INCRA contribuíram fortemente para a devastação da Floresta Amazônica e, ao longo do enorme trajeto da Transamazônica, pode-se observar o efeito conhecido como "espinha de peixe", que é a ramificação das vias (travessões) para dentro desses assentamentos. Esse processo continuou durante os governos do PT, que oPTou por utilizar essas áreas como prioritárias para a "reforma agrária".

Observe-se que, mesmo com a redução dos conflitos com o MST, atendido em suas reivindicações por "Reforma Agrária", o êxodo rural aumentou, como mostram os dados do relatório da NATURE. Isso evidencia que não houve, de fato, uma Reforma Agrária em nosso país, senão uma acomodação de pequenos lavradores em pequenas propriedades de baixa capacidade produtiva, sem orientação técnica adequada, e sofrendo as pressões dos latifundiários para ceder suas terras para plantio de soja e criação de gado.

Vale destacar, também, as investidas do Agronegócio contra as Terras Indígenas, nos anos recentes, tentando inviabilizar a Política Indigenista, e tentando impedir que novas terras sejam demarcadas. Muitas terras indígenas foram invadidas durante o governo petista, não apenas por pequenos lavradores instigados pelos latifundiários, mas também pelos próprios fazendeiros, que chegaram a montar "propriedades" de mais de cinco mil hectares, em nome de laranjas e até mesmo de juízes, procuradores e desembargadores.

Portanto, essa "visão otimista" da NATURE não se justifica, não apenas pelos dados que mencionei acima, mas também porque a opção ao Agronegócio é uma péssima alternativa para o Brasil, que agrega as commodities agrícolas à exportação de minérios, dilapidando o Patrimônio Natural do Brasil e condenando as futuras gerações a um país devastado e imprestável para a agricultura, a pecuária e a mineração. Em contrapartida, as nações que souberam se preservar, adquirindo esses produtos do Brasil, terão se enriquecido pelo desenvolvimento de indústrias de alta tecnologia, capazes de asfixiar nossa próprioa indústria, que não recebe os mesmos incentivos fiscais e empréstimos a juros subsidiados, como acontece com o Agrnegócio. Como diz o artigo, “As grandes propriedades – maiores que 1 mil hectares – representam hoje apenas 1% das fazendas do país. No entanto, ocupam praticamente 50% das terras agrícolas”...
Madeireira no interior da Amazônia. Eles são apenas uma parte da cadeia de devastação. Derrubadas as árvores, vem o gado e, depois, a SOJA! (Foto: Silvano Fernandes)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A mãe de todas as bolhas financeiras

Furar a bolha financeira mundial e impedir que explore ainda mais os cidadãos e os ecossistemas exige enfrentar as falsas filosofias do “economicismo”


Por Hazel Henderson



Enquanto nosso clima se desestabiliza, as cidades inundam, as florestas queimam, os cultivos são arruinados pela seca e a contaminação radioativa vaza para a água e o solo, muitos contadores e analistas políticos estão despertando.

São seguidos por organizações não governamentais, dirigentes sociais, informantes e uns poucos políticos que pensam no interesse público.

A grande mensagem é que a arraigada, mas falsa, filosofia do “economicismo” e seus dogmas estreitos e antiquados são o vírus oculto que propaga a “financialização” e a destruição social e ecológica.

Este código-fonte se propaga por todo o mundo, se apropria da tomada de decisões públicas e privadas, e faz caso omisso de pesquisas científicas em outras disciplinas que demonstram a situação real dos 7,5 bilhões de pessoas que integram nossa família humana neste planeta.

A mudança é difícil, especialmente em muitas mentes humanas, como escreveu meu falecido amigo Thomas Kuhn, em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, em 1962. Os novos paradigmas se introduzem nos sistemas sociais “um por vez com cada funeral”.

Mahatma Gandhi (1869-1948) recordava: “Primeiro te ignoram, depois riem de ti, em seguida te atacam, então ganhas”. As pesquisas nos Estados Unidos mostram que ainda cerca de 40% do público não acredita na evolução das espécies, enquanto muitos políticos continuam negando a ciência e a mudança climática.

Estudiosos do comportamento demonstram que nossos cérebros se encerram nos hábitos de pensamento, amplificando frequentemente nosso temor à mudança e ao “outro”, emoções primitivas que estão assentadas na amídala cerebral.

Isto limita o desenvolvimento pessoal como as políticas públicas, enquanto ouvimos os políticos repetindo que “não há alternativa” às velhas ideias ou ao status quo criado pela bolha financeira: austeridade e cortes em serviços públicos, empregos, educação, saúde e proteção ambiental. Outros culpam Deus pela contaminação ambiental e as alterações climáticas causadas pelos seres humanos.

Outros, entre os quais me incluo, previram a crise financeira de 2008 e a miséria imposta sobre tantas populações em todo o mundo. Wall Street se transformou, passando de firmas e associações de baixo porte e pequenos manipuladores a corporações e fundos de investimentos gigantescos e enredando à sua passagem políticos e reguladores famintos.

Essas firmas financeiras capitalizaram a infraestrutura pública, os recursos comuns não protegidos e as tecnologias de comunicação mais novas, computadores, internet e satélites financiados pelos contribuintes.

Os políticos dóceis ajudaram as finanças a se globalizarem depois do “big bang” que implicaram as desregulamentações e privatizações de Ronald Reagan e Margaret Thatcher nos anos 1980. O dinheiro foi enviado para o exterior, colocado em paraísos fiscais, como detalhou o britânico Nicholas Shaxson.

Isto culminou na bolha financeira mundial da atualidade, com mais de 4 trilhões de dólares em divisas comercializadas diariamente, quintilhões de derivados gerados por megabancos e agentes de bolsa irresponsáveis.

As firmas com ações nas bolsas de alta frequência colocam e cancelam milhares de milhões de ordens por segundo, valendo-se de truques para obter informação sobre tendências antes de outros investidores, tudo em instáveis plataformas informatizadas e programadas por algoritmos que costumam falhar.

Este mau uso das tecnologias para a informação e a comunicação financiadas pelo público levou às minicrises reiteradas desde a execrável quebra de maio de 2010, e continuaram com o colapso do índice Nasdaq da Bolsa de Nova York, em 22 de agosto deste ano.

Todos os esforços para regular e reduzir esta destrutiva bolha financeira, e devolver as finanças ao seu papel modesto de apoiar as economias reais e locais, batem de frente com a feroz oposição de lobistas em Wall Street, Londres, Washington, Davos e entre seus grupos de especialistas financiados por privados e por intelectuais mercenários que trabalham para qualquer governo.

Economistas e acadêmicos bem dotados e seus departamentos universitários apoiam as ortodoxias econômicas, equiparando os mercados “livres” com a liberdade e os direitos individuais. Todas estas políticas se baseiam ainda em “externalizar” os custos sociais e ambientais, jogando-os sobre os ombros de outros, contribuintes e gerações futuras.

Esta perniciosa filosofia do “economicismo” permanece incólume, o que se vê inclusive no fato de ainda se falar dos ganhadores do Prêmio do Banco da Suécia em “Ciências” (sic) Econômicas como um prêmio Nobel real. Durante décadas, houve resistência até à correção das contas para incluir “fatores externos”.

Em 1992, 170 governos do Artigo 40 da Agenda 21 (o Programa 21), na Cúpula da Terra da Organização das Nações Unidas (ONU), acordaram incluir em seu produto interno bruto (PIB) o trabalho não pago de milhões de pessoas dedicadas à agricultura tradicional, às tarefas domésticas e às atividades comunitárias voluntárias.

Experimentei esta resistência da profissão econômica e dos ministérios de Finanças, Economia e Comércio, enquanto era conselheira de ciência política em Washington na década de 1970.

Estatísticas de outras disciplinas, que medem as brechas de pobreza e o desempenho real em saúde, educação, habitação, infraestrutura pública e monitoramento ambiental, ficaram relegados a contas “satélite”, em lugar de serem integradas às medidas mais amplas de progresso nacional além do PIB.

Somente em 1995, o grupo pioneiro do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) publicou em seu Informe de Desenvolvimento Humano uma estimativa do valor mundial do trabalho produtivo não pago: US$ 11 trilhões de trabalho realizado por mulheres e US$ 5 trilhões por homens, que simplesmente não figuram nos US$ 24 trilhões oficiais de PIB mundial registrados naquele ano.

Assim, a maioria das sociedades é muito mais rica do que os economistas admitem, tanto em habilidades humanas que não têm preço, como em bens ambientais, como exposto durante décadas por pesquisadores sociais e ecologistas.

Informes recentes, encomendados pela ONU à TEEB, Trucost e outros, mostram que milhares de milhões contabilizados por algumas corporações como “lucro” são compensados por maiores custos e perdas ambientais e sociais.

Furar a bolha financeira mundial e impedir que explore ainda mais os cidadãos e os ecossistemas exige enfrentar as falsas filosofias do “economicismo” e seus seguidores no governo, no empresariado e na academia, além de seus operadores nos mercados financeiros.

Uma vez que se considere o “economicismo” como ideologia obsoleta e falida e se exponham suas “inovações” financeiras como abstrações matemáticas, deixaremos de voar às cegas.

A contabilidade é uma profissão mais realista do que a macroeconomia. O aumento de novos protocolos de contabilidade realistas está fornecendo novas rodas para a mudança social rumo a sociedades mais sãs, inclusivas e equitativas, mais verdes e mais ricas em conhecimento.

Agora os contadores começam a medir seis formas de capital: físico (prédios, pontes, etc.), financeiro (dinheiro como a unidade contável aceita), humano (talento, energia, suor), social (associações, comunidade, instituições), intelectual (conhecimento) e natural (biodiversidade, serviços do ecossistema).

Esta nova métrica para avaliar o desempenho de firmas corporativas e financeiras, bem como cooperativas, empresas sociais e associações comunitárias, foi crescendo silenciosamente durante décadas em fundos éticos e socialmente responsáveis, pensões, fundações e doações, administradores de bens, empresários, cientistas inovadores e reformistas monetários.

Os novos protocolos de contabilidade são multidisciplinares e integram muitos fatores fundamentais para analisar o desempenho das empresas na hora de criar ou destruir valor.

Nesta nova tendência podemos mencionar a Global Reporting Initiative, Integrated Reporting, Association of Chartered Certified Accountants, The Institute of Chartered Accountants in England and Wales, American Institute of Certified Public Accountants, Sustainability Accounting Standards Board, junto com The Network for Sustainable Financial Markets e as administradoras pioneiras de bens Domini, Calvert e Innovest. Bloomberg, Dow Jones e outros já as refletem.

As organizações não governamentais pautam estas mudanças com seu trabalho e as colaborações com agências da ONU, como a Green Economy Coalition, o Fórum Social Mundial desde 2001, e aquelas ativas desde a Conferência Internacional para o Financiamento sobre o Desenvolvimento, realizada em 2002, em Monterrey, no México, às quais se uniram este ano muitos especialistas em finanças de longo prazo.

Na medida em que são necessárias, são feitas mudanças e os investimentos privados se voltam para os setores verdes em todo o mundo desde 2007. Os defeitos fatais do “economicismo” subjacentes na crise de 2008 agora ficam expostos e há reformas em curso. Mas as organizações não governamentais devem permanecer vigilantes, se querem que as finanças “muito grandes para caírem ou pagar com prisão” se transformem de cassino global em um setor de serviços públicos. Envolverde/IPS

* Hazel Henderson é presidente do Ethical Markets Media (Estados Unidos e Brasil) e criadora do Green Transition Scoreboard(IPS)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Mudanças no clima podem tornar obsoletas as unidades de conservação do país


Deslocamento de animais em busca de melhores condições climáticas deve mudar a distribuição da fauna brasileira – e colocá-la fora de áreas protegidas (foto de catita, marsupial da Mata Atlântica: Yuri Leite/Ufes)
Por Noêmia Lopes

Agência FAPESP – Os efeitos do aquecimento global no Brasil provocarão deslocamentos de aves, mamíferos, anfíbios e outros animais em direção a regiões com temperatura e umidade mais compatíveis às suas necessidades, indicam estudos da Rede Brasileira de Pesquisa e Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) em diferentes biomas.
“Em consequência dessa movimentação, nosso atual sistema de unidades de conservação pode ficar obsoleto ou não muito eficiente”, afirmou Alexandre Aleixo, coordenador da sub-rede Biodiversidade e Ecossistemas da Rede Clima e pesquisador do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (Conclima), ocorrida em São Paulo na semana passada.
Um dos grupos vinculados à sub-rede, formados por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), debruçou-se sobre a situação de 431 espécies de anfíbios que habitam a Mata Atlântica e fez projeções para o futuro (até 2080) a partir de três modelos climáticos.
Os resultados, publicados em artigo na revista PLoS One, projetam uma redução de 72% na área atual de distribuição desses anfíbios e a extinção regional de 12% das espécies. “Nesse cenário, muitos dos animais terão de se dispersar para outros locais, uma vez que as condições de temperatura e umidade já não lhes serão adequadas”, explicou Aleixo.
O artigo também indica quais seriam os pontos prioritários do bioma em termos de inclusão nos sistemas de conservação, a fim de oferecer proteção às espécies que forem forçadas a se deslocar por conta das mudanças climáticas.
Ainda sobre o bioma Mata Atlântica, uma segunda pesquisa apresentada por Aleixo – um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com base em análises estatísticas para 2050 – revela o impacto das alterações no clima sobre a riqueza de espécies de aves.
Considerando apenas o aumento de temperatura, 117 espécies podem perder área de distribuição, seis podem entrar no grupo de espécies ameaçadas e uma espécie pode ser extinta. Considerando o aumento de temperatura e a ocorrência de desmatamento, os números sobem para 120, 14 e dois, respectivamente.
“Também deve ocorrer movimentação entre as aves. Mas fica bastante claro que não são somente os deslocamentos que preocupam – a possibilidade de mais espécies ficarem ameaçadas requer atenção”, afirmou Aleixo.
De acordo com o pesquisador, a situação é semelhante para outros grupos de animais, em diferentes regiões do país, como exemplifica um segundo estudo da UFG, que também resultou emartigo publicado na PLoS One.
Desenhando cenários sobre o impacto das mudanças climáticas na distribuição das 55 espécies de marsupiais que ocorrem no Brasil, concluiu-se que em 2050 a maioria das espécies pode ter uma redução significativa de habitats adequados.
As taxas de movimentação, nesse caso, também seriam relativamente altas, mas com variações ao redor do país. Os locais com clima atrativo seriam alguns pontos da região dos Pampas, a porção sul da Mata Atlântica, o norte do Cerrado e da Caatinga e o noroeste da Amazônia.
Já para o bioma Amazônia, diversos modelos climáticos preveem que o setor de menor umidade, próximo a Tocantins, vai se tornar ainda mais seco.
“As nossas previsões para 2020 e 2050 também apontam para um impacto muito maior das mudanças climáticas no sul da Amazônia do que ao norte da região, em função de variáveis ambientais e de altas taxas de desmatamento. Podemos ter um colapso do sistema florestal no sudeste da Amazônia, com imensos prejuízos para a biodiversidade”, disse Aleixo.
Esses e outros resultados da sub-rede Biodiversidade e Ecossistemas contribuem para responder uma das questões norteadoras do grupo: historicamente, ao longo da evolução das espécies, outras modificações climáticas teriam contribuído para a aquisição de uma resiliência natural por parte de alguns animais?
“Por enquanto, não temos indícios disso”, afirmou Aleixo. “As evidências mostram que a fauna sofre com as grandes modificações – no caso amazônico, particularmente com os processos de secamento da floresta.” 

terça-feira, 16 de abril de 2013

O Valor e a Importância da Biodiversidade

Produtos inspirados pela natureza dobram a cada ano no mercado

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – A planta de lótus (Nelumbo nucifera) virou símbolo de pureza espiritual por sua capacidade de se manter impecavelmente limpa apesar do ambiente lamacento em que vive. Tal façanha pode ser explicada pela presença de nanocristais de cera na superfície de suas folhas capazes de repelir a água de maneira muito eficaz. As gotas que ali caem assumem uma forma quase perfeitamente esférica, deslizam com facilidade e levam consigo a sujeira e os microrganismos.
Tal fenômeno, batizado pelos cientistas de “efeito lótus”, serviu de inspiração para o desenvolvimento de tintas, vidros e tecidos autolimpantes, que dispensam o uso de detergentes, além de equipamentos eletrônicos à prova d’água.
Já a superfície única da pele do tubarão de galápagos (Carcharhinus galapagensis), repleta de minúsculas protuberâncias que funcionam como um repelente natural de bactérias, inspirou o desenvolvimento de biofilmes para revestir camas hospitalares, entre outras aplicações.
Esses e outros exemplos de tecnologias inspiradas pela natureza foram apresentados pela bióloga norte-americana Janine Benyus durante o Simpósio Internacional Biomimética & Ecodesign, realizado pela FAPESP e pela Natura no dia 11 de abril.
Benyus é pioneira em um campo de pesquisa emergente, a biomimética, que propõe aos cientistas usar a biodiversidade não como fonte de matéria-prima para a indústria, mas como fonte de ideias para o design e o desenvolvimento de produtos e de sistemas.
“O número de produtos inspirados pela natureza dobra a cada ano no mercado e o número de publicações científicas na área duplica a cada dois ou três anos. É um campo do conhecimento que cresce muito rapidamente”, contou Benyus.
Durante a palestra, a bióloga mostrou de que forma a biomimética pode ajudar a superar desafios globais, como garantir o acesso à água potável, à alimentação e à energia, além de reduzir as emissões de carbono. Entre os casos citados, está um dispositivo capaz de capturar a umidade do ar e usá-la para irrigar plantações de forma dez vezes mais eficiente que as redes coletoras de neblina tradicionais.
O autor original da ideia é o besouro da Namíbia (Stenocara gracilipes), morador de áreas desérticas que, durante a madrugada, coleta o sereno com a ajuda de microcanais na superfície de seu corpo feitos de materiais hidrofóbicos (como as folhas de lótus) e hidrofílicos (que, ao contrário, atraem a água). As microgotículas fluem pelos microcanais do dorso e unem-se para formar gotas grandes, que chegam até a boca do animal.
“Existem duas formas de fazer biomimética. Uma delas é partir de um desafio de design e buscar um modelo biológico capaz de realizar aquela função que você precisa. A outra é observar um fenômeno interessante do mundo natural e procurar aplicações para ele”, afirmou Benyus.
O princípio não serve apenas para o desenvolvimento de produtos. Pode inspirar, por exemplo, o planejamento de cidades sustentáveis, que funcionem como um ecossistema natural. “Ecossistemas naturais, como as florestas tropicais, são generosos. Limpam o ar, limpam a água, fertilizam o solo. Produzem serviços que beneficiam também outros habitats. É isso que as cidades deveriam fazer”, opinou.
Construir pontes
Antes de trabalhar como consultora de empresas interessadas em encontrar soluções para criar produtos sustentáveis, Benyus era escritora de livros de história natural.
“Como bióloga, eu via muitos pesquisadores estudando como as folhas fazem fotossíntese e como os ecossistemas trabalham tão bem em conjunto. Por outro lado, havia um interesse crescente das empresas por soluções mais sustentáveis. Mas os designers não enxergavam as pesquisas produzidas pelos biólogos. Era preciso construir uma ponte entre eles”, contou em entrevista à Agência FAPESP.
Há 15 anos, Benyus publicou o livro Biomimicry: Innovation Inspired by Nature, no qual reuniu diversas pesquisas sobre o tema e introduziu o termo “Biomimética”. Desde então, além de prestar consultoria empresarial, a americana oferece um serviço sem fins lucrativos para instituições acadêmicas e cursos de especialização para biólogos, químicos, engenheiros, arquitetos e demais cientistas interessados em se aprofundar no tema. Todos os serviços estão reunidos no Instituto Biomimicry 3.8.
Benyus também mantém o portal Ask Nature , que reúne um enorme banco de dados taxonômicos e permite aos pesquisadores interessados em biomimética realizar gratuitamente buscas de estratégias do mundo natural para lidar com um determinado desafio.
“Tudo que os organismos naturais fazem para saciar suas necessidades – comer, respirar, acasalar – contribui de alguma forma para a fertilidade do habitat em que vivem. Os dejetos dos animais adubam o solo, o dióxido de carbono que expiram é usado pelas plantas na fotossíntese. A vida criou um sistema generoso e essa é a razão pela qual esse material genético existe há 10 mil gerações. A única forma de garantir o futuro de nossos filhos, netos e bisnetos é cuidar do lugar em que vão viver. Tem de aprender a ser generoso. É o que a vida faz”, defendeu.
Design sustentável
Ainda durante o Simpósio Internacional Biomimética & Ecodesign, Tim McAloone, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Danmarks Tekniske Universitet, na Dinamarca, falou sobre outra estratégia que permite às empresas criarem processos e produtos ambientalmente adequados: o ecodesign.
“Design para o ambiente é um conceito que permeia todas as fases do ciclo de vida de um produto, desde a escolha do material, do processo de manufatura e dos meios de transporte,até a distribuição e o descarte”, explicou.
Como exemplo, citou uma cadeira de escritório desenvolvida pela empresa americana Steelcase. Com um número menor de peças e materiais diferenciados, foi possível reduzir 15% o peso de transporte e o volume, além de tornar o processo de reciclagem mais fácil e de aumentar a durabilidade.
Além de apresentar aos cientistas critérios-chave para o design sustentável, McAloone falou sobre meios para implantar essa forma de planejamento nas organizações e divulgou um guia gratuito para o desenvolvimento de produtos disponível para download no site:www.kp.mek.dtu.dk/Forskning/omraader/ecodesign/guide.aspx. 
Parceria
Na abertura do simpósio, o diretor de Ciência e Tecnologia da Natura, Vitor Fernandes, afirmou que o objetivo do evento era unir dois temas considerados pela empresa “bastante complementares”. “Queremos discutir com a comunidade científica de que forma isso pode ser aprofundado, expandido e gerar valor para a sociedade, as empresas e a ciência”, disse.
O diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, ressaltou que a parceria com a Natura faz parte dos esforços da FAPESP para promover a interação entre pesquisadores de instituições acadêmicas paulistas e aqueles que atuam em empresas.
“No Estado de São Paulo existe um grau de interação entre empresa e universidade comparável ao de qualquer lugar do mundo onde há boas pesquisas e boa ciência”, disse Brito Cruz.
Segundo dados da National Science Foundation, em 2010, aproximadamente 6% do dinheiro investido em pesquisa nas universidades norte-americanas veio de empresas. “Na Europa esse percentual varia entre 3% e 10%. Em universidades paulistas, como USP, Unesp e Unicamp, está entre 5% e 10%. São percentuais comparáveis em termos de volume de recursos e de quantidade de projetos”, disse Brito Cruz.
Mas, para que a parceria dê certo, ponderou o diretor científico da FAPESP, é preciso que a empresa tenha sua própria atividade de pesquisa. “Assim conseguirá perceber onde precisa de ajuda e montar uma pauta de pesquisa. A colaboração com a universidade não substitui a pesquisa interna da empresa”, destacou. 

terça-feira, 5 de março de 2013

Pesquisadores detalham projeto sobre evolução da biota amazônica

Fonte: Agência Fapesp

Por Frances Jones
Agência FAPESP – Cerca de 30 especialistas brasileiros e estrangeiros de áreas diversas – indo da botânica à geologia, da paleontologia ao sensoriamento remoto – participaram da primeira reunião “presencial” com os integrantes de um Projeto Temático que investigará o que ocorreu com na Amazônia nos últimos 20 milhões de anos.
O projeto é apoiado pela FAPESP e pela National Science Foundation (NSF) no âmbito de um acordo que prevê o desenvolvimento de atividades de cooperação entre os programas "Dimensions of Biodiversity" (NSF) e BIOTA (FAPESP). O estudo também conta com o apoio da agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa.
“Essa pesquisa enorme e audaciosa é uma oportunidade de se fazer algo que poucos podem fazer”, afirmou o norte-americano Joel Cracraft, do American Museum of Natural History, pesquisador principal do projeto do lado americano, na abertura do simpósio “The assembly and evolution of the Amazonian biota and its environment”, na sede da FAPESP, em São Paulo, para uma plateia de 260 pessoas. 
Entre as perguntas a serem respondidas pelo projeto estão: como era o ambiente e quais organismos povoaram a Amazônia? Qual é a explicação para tamanha biodiversidade encontrada hoje na região?
O primeiro dia da reunião (04/03) foi aberto ao público, que pôde conhecer um pouco sobre as linhas de pesquisa e planos de trabalho do grupo e ter uma ideia da especialidade de cada um dos integrantes.
Nos outros quatro dias da semana, os pesquisadores vão se reunir a portas fechadas para definir em detalhes o andamento da pesquisa. A pesquisadora principal do lado brasileiro e organizadora do simpósio é Lúcia Garcez Lohmann, professora do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora associada dos jardins botânicos de Nova York e do Missouri.
“Este não é um simpósio tradicional sobre a Amazônia. Queremos usar o simpósio para integrar os colaboradores a fim de que todos cantem a partir da mesma partitura. O projeto é maior do que a soma das pesquisas individuais”, disse Cracraft.
O Projeto Temático envolve instituições de vários países – seis brasileiras, oito norte-americanas, uma canadense, uma argentina e uma britânica. E ainda busca colaborações de especialistas interessados, principalmente brasileiros.
Um grande desafio será como lidar com a enorme quantidade de informações, provenientes de diferentes metodologias e disciplinas. “Uma das nossas metas nessa reunião é tentar entender como lidaremos com esses dados”, disse Cracraft.
A norte-americana Barbara Thiers, do New York Botanical Garden, foi uma das primeiras especialistas a se apresentar no simpósio. Ela falou sobre a importância dos dados de localização para os estudos biogeográficos e traçou um panorama sobre o que já existe no que se refere a bancos de dados de plantas amazônicas.
Segundo Thiers, há cerca de 120 herbários ativos no Brasil, com informações sobre aproximadamente 7 milhões de espécies de plantas. Na Amazônia, são reconhecidos entre 1 e 1,5 milhão de espécies.
Há poucas coleções de amostras de plantas amazônicas colhidas antes de 1900, feitas em sua maioria por europeus. Grande parte das amostras data de depois de 1960 – em especial entre 1975 e 1984, durante um programa binacional do Brasil e dos EUA.
A questão é que boa parte das amostras de plantas não contém informações sobre a latitude e longitude de onde foram encontradas. “Antes de 1980, não era rotina as amostras incluírem as geocoordenadas sobre as localidades onde haviam sido encontradas”, afirmou Thiers.
Para tentar montar esse quebra-cabeça, os pesquisadores, de acordo com ela, usarão vários instrumentos, entre eles o Google Maps.
Thomas Trombone, do American Museum of Natural History, contou que a sua contribuição ao projeto será tentar responder à questão sobre como a biodiversidade dos vertebrados está distribuída na Amazônia.
“Montaremos o maior banco de dados com informações sobre a Amazônia, será um Atlas da biodiversidade amazônica”, afirmou, acrescentando que os dados serão colocados em um portal na internet.
Grupos-modelo
Os pesquisadores envolvidos no Projeto Temático tentarão entender a origem, a estruturação e a evolução dos organismos que povoam e povoaram a Amazônia a partir de quatro grandes grupos: plantas, primatas, borboletas e aves.
“Em uma primeira etapa, estudaremos a história evolutiva desses organismos e caracterizaremos o ambiente amazônico, incluindo informações sobre a história geológica e ciclos biogeoquímicos”, disse Lohmann, especialista em sistemática de plantas, que estuda o parentesco e a história evolutiva de representantes da família Bignoniaceae, da qual fazem parte os ipês, os jacarandás e diversas espécies de cipós que compõem as florestas tropicais.
Dentro dos grupos-modelo, os pesquisadores pretendem reconstruir a filogenia, ou seja, “árvores evolutivas” desses grupos, bem como realizar estudos ao nível populacional de organismos selecionados.
“Como ainda sabemos muito pouco sobre a biodiversidade amazônica, tivemos que selecionar grupos-modelo, pois seria absolutamente inviável estudar toda a biota amazônica durante o período de vigência deste projeto”, disse Lohmann, que também é presidente da Association for Tropical Biology and Conservation (ATBC). 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O agronegócio brasileiro na década 2009-2019

Fonte: ANDEF - Associação Nacional de Defesa Vegetal


O agronegócio brasileiro tem grande potencial de crescimento. O mercado interno é expressivo para todos os produtos analisados, e o mercado internacional tem apresentado acentuado crescimento do consumo. Este é o resultado do estudo Projeções do Agronegócio - 2008/09 a 2018/19, elaborado pela Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). A seguir, o resumo do estudo:

Recursos naturais

Países superpopulosos terão dificuldades de atender às demandas devido ao esgotamento de suas áreas agricultáveis. As dificuldades de reposição de estoques mundiais; o acentuado aumento do consumo, especialmente de grãos como milho, soja e trigo; o processo de urbanização em curso no mundo, criam condições favoráveis aos países como o Brasil, que têm imenso potencial de produção e tecnologia disponível. A disponibilidade de recursos naturais no Brasil é fator de competitividade.

Principais produtos

Os produtos mais dinâmicos do agronegócio brasileiro deverão ser a soja, milho, trigo, carnes, etanol, farelo de soja, óleo de soja e leite. Esses produtos indicam elevado potencial de crescimento para os próximos anos.

A produção de grãos (soja, milho, trigo, arroz e feijão) deverá passar de 139,7 milhões de toneladas em 2007/08 para 180 milhões em 2018/19. Isso indica um acréscimo de 40 milhões de toneladas à produção atual do Brasil. A produção de carnes (bovina, suína e aves) deverá aumentar em 12,6 milhões de toneladas. Isso representa um acréscimo de 51% em relação à produção de carnes de 2008. Três outros produtos com elevado crescimento previsto, são açúcar, mais 14,5 milhões de toneladas, o etanol, 37 bilhões de litros, e o leite, 9 bilhões de litros.

Tecnologia e produtividade

O crescimento da produção agrícola deve dar–se com base na produtividade, impulsionado pelo uso de tecnologias e manejos recomendados pela pesquisa. Deverá ser mantido forte crescimento da produtividade total dos fatores como trabalhos recentes têm mostrado. Os resultados revelam maior acréscimo da produção agropecuária que os acréscimos de área.

As previsões realizadas até 2018/19 são de que a área de soja deve crescer 5,2 milhões de hectares em relação a 2007/08; a área de milho, 1,75 milhão de hectares; a área de cana deve crescer 6 milhões de hectares; as áreas de arroz e trigo devem aumentar e o café deve sofrer redução de área. No total das lavouras analisadas, o Brasil deverá ter um acréscimo de área da ordem de 15,5 milhões de hectares nos próximos anos.

O Brasil e o mercado mundial

Haverá expressiva mudança de posição do Brasil no mercado mundial. A relação entre exportações brasileiras e o comércio mundial mostra que em 2018/19, as exportações de carne bovina brasileira representarão 60,6% do comércio mundial; a carne suína, representará 21% do comércio, e a carne de frango deverá representar 89,7% do comércio mundial. Esses resultados indicam que o Brasil continuará a manter sua posição de primeiro exportador mundial de carne bovina e de carne de frango.

Apesar de o Brasil apresentar nos próximos anos forte aumento das exportações, o mercado interno será um forte fator de crescimento. Do aumento previsto nos próximos onze anos na produção de soja e milho, 52% deverão ser destinados ao consumo interno, distribuídos da seguinte forma: 57,9% do aumento da produção de milho devem ir para o mercado interno em 2018/19, e 44,9% do aumento da produção de soja deverá ir para o consumo interno. Haverá, assim, uma dupla pressão sobre o aumento da produção nacional, o crescimento do mercado interno e as exportações do país. 

Nas carnes, também haverá forte pressão do mercado interno. Do aumento previsto na produção de carnes, de 12,6 milhões de toneladas, entre 2007/08 e 2018/19, 50,0% deverão ser destinados ao consumo interno e o restante dirigido às exportações.


Também com relação a outros produtos o Brasil deve melhorar sua posição no comércio mundial, dada pela relação entre quantidade de exportação e comércio mundial. Para a soja, essa relação deverá passar de 36%, em 2008, para 40%, em 2018/19; para o óleo de soja, de 63% para 73,5%; para o milho, de 13% para 21,4%, e para o açúcar, de 58,4% para 74,3%.


Incertezas

As principais incertezas no cenário nessa década, segundo o estudo do MAPA, são: aumento do grau de protecionismo nos países importadores; recessão mundial; e mudanças climáticas severas.

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Minhas Considerações

Apesar de declarar as incertezas relacionadas com "mudanças climáticas severas", o MAPA, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento não demonstra nenhum pudor em fazer tais projeções catastróficas para os ecossistemas brasileiros. Ou será que a expansão das fronteiras agrícolas projetadas em 15,5 milhões de hectares (155.000 km²) e equivalentes a  mais do que o tamanho da Inglaterra (130.000 km²) não será também decorrência do desmatamento e da devastação da Amazônia e do Cerrado brasileiros?

Atentem para os valores de participação atual do Brasil no mercado mundial de soja e gado: 50% para exportação e 50% para o mercado interno! Considere-se que 50% da soja produzida deve ser utilizada para produção de ração animal para o gado! E são cerca de 200 milhões de cabeças de gado, um boi para cada brasileiro, ruminando, produzindo gás metano e pisoteando a terra até esgotar nascentes e veredas de nossas áreas, antes verdadeiros santuários da vida selvagem, e hoje apenas pasto e intermináveis monoculturas... futuros desertos sem nenhuma serventia, seja para a agropecuária, seja para a Natureza.

É evidente que estamos destruindo nossas maiores riquezas e comprometendo o futuro de nosso próprio povo para optar por um modelo econômico de produção predatório e de funestas consequências futuras! O próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sabe e declara que teremos "mudanças climáticas severas"! De onde provêm essas mudanças climáticas, senão da perda de áreas florestais, da redução dos volumes de água doce dos rios e de seus afluentes, da alteração drástica no ciclo das águas na Natureza? Será que esse sistema de produção predatório nos assegurará um lugar dentre as economias mais avançadas do mundo? E o que fazemos da alta tecnologia, da produção intelectual que levou Estados Unidos, Japão e Alemanha à situação de nações mais evoluídas do mundo? Relegamos o conhecimento intelectual a segundo plano, ignorando o óbvio: que apenas isso nos diferencia dos animais ditos "irracionais"! Será que essa irracionalidade não nos aproxima do destino daqueles que hoje destruímos?

É evidente que estamos nos iludindo e enganando nosso povo, pois além de tudo esse modelo econômico de produção enriquece apenas uma minoria de latifundiários, com baixíssima utilização de mão de obra, ou seja, de geração de empregos, e nenhuma distribuição de riquezas. Se esse minúsculo grupo de latifundiários domina a política nacional através da famigerada, arrogante e desgraçada Bancada Ruralista é porque o povo vota nesses "representantes" desqualificados e dá um tiro no próprio pé!

Não existe futuro para a humanidade e para a nossa Nação com este modelo elitista de produção e de consumo, que privilegia uns poucos e "escraviza" a grande maioria da população, induzindo-a a comprar e consumir o que não precisa, intimidando a população a não poupar para garantir os índices de "desenvolvimento" e do PIB Nacional em detrimento de suas próprias vidas! Hoje, o grande sonho de consumo dos brasileiros (acalentado e incentivado pelo próprio governo federal, através de incentivo publicitário e de renúncia fiscal) é trocar de automóvel todos os anos, comprometendo ainda mais o já precário sistema viário brasileiro, e onerando o Meio Ambiente com um consumo desproporcional de combustíveis fósseis, em vez de buscar novas fontes alternativas de energia renovável e limpa!

Estamos destruindo, em ritmo acelerado, nossos recursos naturais, apenas para prover o mercado mundial das matérias primas necessárias às indústrias de alta tecnologia que não temos aqui, criando uma subserviência devastadora para os brasileiros: seremos eternamente tratados como nação de segunda categoria, provedora de carne de gado, soja, minérios, madeira... tudo arrancado da Natureza, através de um processo perverso de destruição de florestas, rios, matas de galeria e de imensas montanhas que são transformadas em matéria-prima para os países de primeiro mundo, dos quais nunca faremos parte!

terça-feira, 12 de junho de 2012

ECO Cartoons: homenagem ao Meio Ambiente e à Rio + 20

Fonte: ECO Cartoon
Já somos 7 bilhões de habitantes, dos quais 2 bilhões não têm acesso à água potável
A água vai se tornando um produto proibitivo às populações menos favorecidas
Estamos esgotando nossos recursos naturais, destruindo rios e florestas 
Enquanto alguns poucos se beneficiam das riquezas e esbanjam esses recursos,
a maioria vive apenas para garantir a esses privilegiados o luxo a que nunca terão acesso
Muito em breve nem pedras preciosas farão brilhar os olhos dos homens
A água é um recurso finito e perecível; sua falta acarretará fome e miséria
Na ampulheta do tempo finito, os dias estão se acabando, e a água se transforma em areia
Nem o petróleo se rivalizará com a água em valor e necessidade, quando esta se esgotar!
Aqueles que hoje destroem o Meio Ambiente também não se safarão das
consequências inevitáveis do imenso deserto em que a Terra se transformará
O homem se esquece que a água que ele polui retorna para ser a fonte de sua própria vida
As imensas barragens escondem em sua fortaleza o tremendo mal que causa
às populações que dos rios dependem para sua sobrevivência
O  desenvolvimento a qualquer preço será a desgraça para os pobres e as minorias 
que vivem à margem da sociedade capitalista, e à sombra dos "privilégios" 
das metrópoles; dia virá, porém (e será breve), em que essa situação 
se reverterá para a desgraça de todo ser humano!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Do Código Florestal para o Código da Biodiversidade

Exposição de Aziz Ab'Saber no Fórum Agenda21
Em face do gigantismo do território e da situação real em que se encontram os seus macro biomas – Amazônia Brasileira, Brasil Tropical Atlântico, Cerrados do Brasil Central, Planalto das Araucárias, e Pradarias Mistas do Brasil Subtropical – e de seus numerosos mini-biomas, faixas de transição e relictos de ecossistemas, qualquer tentativa de mudança no “Código Florestal” tem que ser conduzido por pessoas competentes e bio-eticamente sensíveis.


Pressionar por uma liberação ampla dos processos de desmatamento significa desconhecer a progressividade de cenários bióticos, a diferentes espaços de tempo futuro, favorecendo de modo simplório e ignorante os desejos patrimoniais de classes sociais que só pensam em seus interesses pessoais, no contexto de um país dotado de grandes desigualdades sociais. Cidadãos de classe social privilegiada, que nada entendem de previsão de impactos. Não tem qualquer ética com a natureza. Não buscam encontrar modelos técnico-cientificos adequados para a recuperação de áreas degradadas, seja na Amazônia, seja no Brasil Tropical Atlântico, ou alhures. Pessoas para as quais exigir a adoção de atividades agrárias “ecologicamente auto-sustentadas” é uma mania de cientistas irrealistas.

Por muitas razoes, se houvesse um movimento para aprimorar o atual Código Florestal, teria que envolver o sentido mais amplo de um Código de Biodiversidades, levando em conta o complexo mosaico vegetacional de nosso território. Remetemos essa idéia para Brasília, e recebemos em resposta que essa era uma idéia boa mas complexa e inoportuna (...). Entrementes, agora outras personalidades trabalham por mudanças estapafúrdias e arrasadoras no chamado Código Florestal. Razão pela qual ousamos criticar aqueles que insistem em argumentos genéricos e perigosos para o futuro do país. Sendo necessário, mais do que nunca, evitar que gente de outras terras sobretudo de países hegemônicos venha a dizer que fica comprovado que o Brasil não tem competência para dirigir a Amazônia (...). Ou seja, os revisores do atual Código Florestal não teriam competência para dirigir o seu todo territorial do Brasil. Que tristeza, gente minha. 

O primeiro grande erro dos que no momento lideram a revisão do Código Florestal brasileiro – a favor de classes sociais privilegiadas – diz respeito à chamada estadualização dos fatos ecológicos de seu território especifico. Sem lembrar que as delicadíssimas questões referentes à progressividade do desmatamento exigem ações conjuntas dos órgãos federais específicos, em conjunto com órgãos estaduais similares, uma Policia Federal rural, e o Exercito Brasileiro. Tudo conectado ainda com autoridades municipais, que tem muito a aprender com um Código novo que envolve todos os macro-biomas do pais, e os mini-biomas que os pontilham, com especial atenção para as faixas litorâneas, faixas de contato entre as áreas nucleares de cada domínio morfoclimatico e fitogeográfico do território. Para pessoas inteligentes, capazes de prever impactos, a diferentes tempos do futuro, fica claro que ao invés da “estadualização”, é absolutamente necessário focar para o zoneamento físico e ecológico de todos os domínios de natureza dos pais. A saber, as duas principais faixas de Florestas Tropicais Brasileiras: a zonal amazônica e a azonal das matas atlânticas o domínio dos cerrados, cerradoes e campestres: a complexa região semi-árida dos sertões nordestinos: os planaltos de araucárias e as pradarias mistas do Rio Grande do Sul, alem de nosso litoral e o Pantanal Mato-grossense.

Seria preciso lembrar ao "honrado" relator Aldo Rebelo, que a meu ver é bastante neófito em matéria de questões ecológicas, espaciais e em futurologia – que atualmente na Amazônia Brasileira predomina um verdadeiro exercito paralelo de fazendeiros que em sua área de atuação tem mais força do que governadores e prefeitos. O que se viu em Marabá, com a passagem das tropas de fazendeiros, passando pela Avenida da Transamazônica, deveria ser conhecido pelos congressistas de Brasília, e diferentes membros do executivo. De cada uma das fazendas regionais passava um grupo de cinqüenta a sessenta camaradas, tendo a frente em cavalos nobres, o dono da fazenda e sua esposa, e os filhos em cavalos lindos. E,os grupos iam passando separados entre si, por alguns minutos. E, alguém a pé, como se fosse um comandante, controlava a passagem da cavalgada dos fazendeiros. Ninguém da boa e importante cidade de Marabá saiu para observar a coluna amedrontadora dos fazendeiros. Somente dois bicicletistas meninos, deixaram as bicicletas na beira da calçada olhando silentes a passagem das tropas. Nenhum jornal do Pará, ou alhures, noticiou a ocorrência amedrontadora. Alguns de nós não pudemos atravessar a ponte para participar de um evento cultural.

Será certamente, apoiados por fatos como esse, que alguns proprietários de terras amazônicas deram sua mensagem, nos termos de que “a propriedade é minha e eu faço com ela o que eu quiser, como quiser e quando quiser”. Mas ninguém esclarece como conquistaram seus imensos espaços inicialmente florestados. Sendo que, alguns outros, vivendo em diferentes áreas do cetro-sul brasileiro, quando perguntados sobre como enriqueceram tanto, esclarecem que foi com os “seus negócios na Amazônia” (...). Ou sejam, através de loteamentos ilegais, venda de glebas para incautos em locais de difícil acesso, os quais ao fim de um certo tempo, são libertados para madeireiros contumazes. E o fato mais infeliz é que ninguém procura novos conhecimentos para re-utilizar terras degradadas. Ou exigir dos governantes tecnologias adequadas para revitalizar os solos que perderam nutrientes e argilas, tornando-se dominadas por areias finas (siltizaçao).

Entre os muitos aspectos caóticos, derivados de alguns argumentos dos revisores do Código, destaca-se a frase que diz que se deve proteger a vegetação até sete metros e meio do rio. Uma redução de um fato que por si já estava muito errado, porém agora esta reduzido genericamente a quase nada em relação aos grandes rios do pais. Imagine-se que para o rio Amazonas, a exigência protetora fosse apenas sete metros, enquanto para a grande maioria dos ribeirões e córregos também fosse aplicada a mesma exigência. Trata-se de desconhecimento entristecedor sobre a ordem de grandeza das redes hidrográficas do território intertropical brasileiro. Na linguagem amazônica tradicional, o próprio povo já reconheceu fatos referentes à tipologia dos rios regionais. Para eles, ali existem, em ordem crescente: igarapés, riozinhos, rios e parás. Uma última divisão lógica e pragmática, que é aceita por todos os que conhecem a realidade da rede fluvial amazônica.

Por desconhecer tais fatos os relatores da revisão aplicam o espaço de sete metros da beira de todos os cursos d’água fluviais sem mesmo ter ido lá para conhecer o fantástico mosaico de rios do território regional.

Mas o pior é que as novas exigências do Código Florestal proposto têm um caráter de liberação excessiva e abusiva. Fala-se em sete metros e meio das florestas beiradeiras (ripario-biomas)  e, depois, em preservação da vegetação de eventuais e distantes cimeiras, não podendo imaginar quanto espaço fica liberado para qualquer tipo de ocupação do espaço. Lamentável em termos de planejamento regional, de espaços rurais e silvestres. Lamentável em termos de generalizações forçadas por grupos de interesse (ruralistas) .

Já se poderia prever que um dia os interessados em terras amazônicas iriam pressionar de novo pela modificação do percentual a ser preservado em cada uma das propriedades de terras na Amazônia. O argumento simplista merece uma critica decisiva e radical. Para eles, se em regiões do centro-sul brasileiro a taxa de proteção interna da vegetação florestal é de 20%, porque na Amazônia a lei exige 80%? Mas ninguém tem a coragem de analisar o que aconteceu nos espaços ecológicos de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, e Minas Gerais com o percentual de 20%. Nos planaltos interiores de São Paulo a somatória dos desmatamentos atingiu cenários de generalizada derruição. Nessas importantes áreas, dominadas por florestas e redutos de cerrados e campestres, somente o tombamento integrado da Serra do Mar, envolvendo as matas atlânticas, os solos e as aguadas da notável escarpa, foi capaz de resguardar os ecossistemas orográficos da acidentada região. O restante, nos “mares de morros”, colinas e várzeas do Médio Paraíba e do Planalto Paulistano, e pró-parte da Serra da Mantiqueira, sofreram uma derruição deplorável. É o que alguém no Brasil – falando de gente inteligente e bioética – não quer que se repita na Amazônia Brasileira, em um espaço de 4.200.000 km².

Os relatores do Código Florestal, falam que as áreas muito desmatadas e degradadas poderiam ficar sujeitas a “(re) florestamento” por espécies homogêneas pensando em eucalipto e pinus. Uma prova de sua grande ignorância, pois não sabem a menor diferença entre reflorestamento e florestramento. Esse último, pretendido por eles, é um fato exclusivamente de interesse econômico empresarial, que infelizmente não pretende preservar biodiversidades. Sendo que eles procuram desconhecer que para áreas muito degradadas, foi feito um plano de (re) organização dos espaços remanescentes, sob o enfoque de revigorar a economia de pequenos e médios proprietários: Projeto FLORAM. Os eucaliptologos perdem éticos quando alugam espaços por trinta anos, de incautos proprietários, preferindo áreas dotadas ainda de solos tropicais férteis, do tipo dos oxissolos, e evitando as áreas degradadas de morros pelados reduzidas a trilhas de pisoteio, hipsométricas, semelhantes ao protótipo existente no Planalto do Alto Paraíba, em São Paulo. Ao arrendar terras de bisonhos proprietários, para uso em 30 anos, e sabendo que os donos da terra podem morrer quando se completar o prazo, fato que cria um grande problema judicial para os herdeiros, sendo que, ao fim de uma negociação, as empresas cortam todas as árvores de eucaliptos ou pinos, deixando miríades de troncos no chão do espaço terrestre. Um cenário que impede a posterior reutilização das terras para atividades agrárias. Tudo isso deveria ser conhecido por aqueles que defendem ferozmente um Código Florestal liberalizante.

Por todas as razões somos obrigados a criticar a persistente e repetitiva argumentação do deputado Aldo Rebelo,que conhecemos ha muito tempo, e de quem sempre esperávamos o melhor, no momento somos obrigados a lembrar a ele que cada um de nós tem que pensar na sua biografia e, sendo político, tem que honrar a historia de seus partidos. Mormente,em relação aos partidos que se dizem de esquerda e jamais poderiam fazer projetos totalmente dirigidos para os interesses pessoais de latifundiários.

Insistimos que em qualquer revisão do Código Florestal vigente, deve-se enfocar as diretrizes através das grandes regiões naturais do Brasil, sobretudo domínios de natureza muito diferentes entre si, tais como a Amazônia, e suas extensíssimas florestas tropicais, e o Nordeste Seco, com seus diferentes tipos de caatingas. Tratam-se de duas regiões opósitas em relação à fisionomia e à ecologia, assim como em face das suas condições socioambientais. Ao tomar partido pelos grandes domínios administrados técnica e cientificamente por órgãos do executivo federal, teríamos que conectar instituições específicas do governo brasileiro com instituições estaduais similares. Existem regiões como a Amazônia que envolve conexões com nove estados do Norte Brasileiro. Em relação ao Brasil Tropical Atlântico os órgãos do Governo Federal – IBAMA, IPHAN, FUNAI e INCRA – teriam que manter conexões com os diversos setores similares dos governos estaduais de norte a sul do Brasil. E assim por diante.

Enquanto o mundo inteiro repugna para a diminuição radical de emissão de CO2, o projeto de reforma proposto na Câmara Federal de revisão do Código Florestal defende um processo que significará uma onda de desmatamento e emissões incontroláveis de gás carbônico, fato observado por muitos críticos em diversos trabalhos e entrevistas.

Parece ser muito difícil para pessoas não iniciadas em cenários cartográficos perceber os efeitos de um desmatamento na Amazônia de até 80% das propriedades rurais silvestres. Em qualquer espaço do território amazônico, que vem sendo estabelecidas glebas com desmate de até 80%,haverá um mosaico caótico de áreas desmatadas e faixas inter-propriedades estreitas e mal preservadas. Nesse caso, as bordas dos restos de florestas, inter-glebas ficarao à mercê de corte de arvores dotadas de madeiras nobres. E além disso, a biodiversidade animal certamente será profundamente afetada.

Seria necessário que os pretensos reformuladores do Código Florestal lançassem sobre o papel os limites de glebas de 500 a milhares de quilômetros quadrados, e dentro de cada parcela das glebas colocasse indicações de 20% correspondente às florestas ditas preservadas. E, observando o resultado desse mapeamento simulado, poderiam perceber que o caminho da devastação lenta e progressiva iria criar alguns quadros de devastação similares ao que já aconteceu nos confins das longas estradas e seus ramais, em áreas de quarteirões implantados para venda de lotes de 50 a 100 hectares, onde o arrasamento de florestas no interior de cada quarteirão foi total e inconseqüente.

Aziz Nacib Ab’Sáber
São Paulo, 16 de junho de 2010