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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O agronegócio brasileiro na década 2009-2019

Fonte: ANDEF - Associação Nacional de Defesa Vegetal


O agronegócio brasileiro tem grande potencial de crescimento. O mercado interno é expressivo para todos os produtos analisados, e o mercado internacional tem apresentado acentuado crescimento do consumo. Este é o resultado do estudo Projeções do Agronegócio - 2008/09 a 2018/19, elaborado pela Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). A seguir, o resumo do estudo:

Recursos naturais

Países superpopulosos terão dificuldades de atender às demandas devido ao esgotamento de suas áreas agricultáveis. As dificuldades de reposição de estoques mundiais; o acentuado aumento do consumo, especialmente de grãos como milho, soja e trigo; o processo de urbanização em curso no mundo, criam condições favoráveis aos países como o Brasil, que têm imenso potencial de produção e tecnologia disponível. A disponibilidade de recursos naturais no Brasil é fator de competitividade.

Principais produtos

Os produtos mais dinâmicos do agronegócio brasileiro deverão ser a soja, milho, trigo, carnes, etanol, farelo de soja, óleo de soja e leite. Esses produtos indicam elevado potencial de crescimento para os próximos anos.

A produção de grãos (soja, milho, trigo, arroz e feijão) deverá passar de 139,7 milhões de toneladas em 2007/08 para 180 milhões em 2018/19. Isso indica um acréscimo de 40 milhões de toneladas à produção atual do Brasil. A produção de carnes (bovina, suína e aves) deverá aumentar em 12,6 milhões de toneladas. Isso representa um acréscimo de 51% em relação à produção de carnes de 2008. Três outros produtos com elevado crescimento previsto, são açúcar, mais 14,5 milhões de toneladas, o etanol, 37 bilhões de litros, e o leite, 9 bilhões de litros.

Tecnologia e produtividade

O crescimento da produção agrícola deve dar–se com base na produtividade, impulsionado pelo uso de tecnologias e manejos recomendados pela pesquisa. Deverá ser mantido forte crescimento da produtividade total dos fatores como trabalhos recentes têm mostrado. Os resultados revelam maior acréscimo da produção agropecuária que os acréscimos de área.

As previsões realizadas até 2018/19 são de que a área de soja deve crescer 5,2 milhões de hectares em relação a 2007/08; a área de milho, 1,75 milhão de hectares; a área de cana deve crescer 6 milhões de hectares; as áreas de arroz e trigo devem aumentar e o café deve sofrer redução de área. No total das lavouras analisadas, o Brasil deverá ter um acréscimo de área da ordem de 15,5 milhões de hectares nos próximos anos.

O Brasil e o mercado mundial

Haverá expressiva mudança de posição do Brasil no mercado mundial. A relação entre exportações brasileiras e o comércio mundial mostra que em 2018/19, as exportações de carne bovina brasileira representarão 60,6% do comércio mundial; a carne suína, representará 21% do comércio, e a carne de frango deverá representar 89,7% do comércio mundial. Esses resultados indicam que o Brasil continuará a manter sua posição de primeiro exportador mundial de carne bovina e de carne de frango.

Apesar de o Brasil apresentar nos próximos anos forte aumento das exportações, o mercado interno será um forte fator de crescimento. Do aumento previsto nos próximos onze anos na produção de soja e milho, 52% deverão ser destinados ao consumo interno, distribuídos da seguinte forma: 57,9% do aumento da produção de milho devem ir para o mercado interno em 2018/19, e 44,9% do aumento da produção de soja deverá ir para o consumo interno. Haverá, assim, uma dupla pressão sobre o aumento da produção nacional, o crescimento do mercado interno e as exportações do país. 

Nas carnes, também haverá forte pressão do mercado interno. Do aumento previsto na produção de carnes, de 12,6 milhões de toneladas, entre 2007/08 e 2018/19, 50,0% deverão ser destinados ao consumo interno e o restante dirigido às exportações.


Também com relação a outros produtos o Brasil deve melhorar sua posição no comércio mundial, dada pela relação entre quantidade de exportação e comércio mundial. Para a soja, essa relação deverá passar de 36%, em 2008, para 40%, em 2018/19; para o óleo de soja, de 63% para 73,5%; para o milho, de 13% para 21,4%, e para o açúcar, de 58,4% para 74,3%.


Incertezas

As principais incertezas no cenário nessa década, segundo o estudo do MAPA, são: aumento do grau de protecionismo nos países importadores; recessão mundial; e mudanças climáticas severas.

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Minhas Considerações

Apesar de declarar as incertezas relacionadas com "mudanças climáticas severas", o MAPA, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento não demonstra nenhum pudor em fazer tais projeções catastróficas para os ecossistemas brasileiros. Ou será que a expansão das fronteiras agrícolas projetadas em 15,5 milhões de hectares (155.000 km²) e equivalentes a  mais do que o tamanho da Inglaterra (130.000 km²) não será também decorrência do desmatamento e da devastação da Amazônia e do Cerrado brasileiros?

Atentem para os valores de participação atual do Brasil no mercado mundial de soja e gado: 50% para exportação e 50% para o mercado interno! Considere-se que 50% da soja produzida deve ser utilizada para produção de ração animal para o gado! E são cerca de 200 milhões de cabeças de gado, um boi para cada brasileiro, ruminando, produzindo gás metano e pisoteando a terra até esgotar nascentes e veredas de nossas áreas, antes verdadeiros santuários da vida selvagem, e hoje apenas pasto e intermináveis monoculturas... futuros desertos sem nenhuma serventia, seja para a agropecuária, seja para a Natureza.

É evidente que estamos destruindo nossas maiores riquezas e comprometendo o futuro de nosso próprio povo para optar por um modelo econômico de produção predatório e de funestas consequências futuras! O próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sabe e declara que teremos "mudanças climáticas severas"! De onde provêm essas mudanças climáticas, senão da perda de áreas florestais, da redução dos volumes de água doce dos rios e de seus afluentes, da alteração drástica no ciclo das águas na Natureza? Será que esse sistema de produção predatório nos assegurará um lugar dentre as economias mais avançadas do mundo? E o que fazemos da alta tecnologia, da produção intelectual que levou Estados Unidos, Japão e Alemanha à situação de nações mais evoluídas do mundo? Relegamos o conhecimento intelectual a segundo plano, ignorando o óbvio: que apenas isso nos diferencia dos animais ditos "irracionais"! Será que essa irracionalidade não nos aproxima do destino daqueles que hoje destruímos?

É evidente que estamos nos iludindo e enganando nosso povo, pois além de tudo esse modelo econômico de produção enriquece apenas uma minoria de latifundiários, com baixíssima utilização de mão de obra, ou seja, de geração de empregos, e nenhuma distribuição de riquezas. Se esse minúsculo grupo de latifundiários domina a política nacional através da famigerada, arrogante e desgraçada Bancada Ruralista é porque o povo vota nesses "representantes" desqualificados e dá um tiro no próprio pé!

Não existe futuro para a humanidade e para a nossa Nação com este modelo elitista de produção e de consumo, que privilegia uns poucos e "escraviza" a grande maioria da população, induzindo-a a comprar e consumir o que não precisa, intimidando a população a não poupar para garantir os índices de "desenvolvimento" e do PIB Nacional em detrimento de suas próprias vidas! Hoje, o grande sonho de consumo dos brasileiros (acalentado e incentivado pelo próprio governo federal, através de incentivo publicitário e de renúncia fiscal) é trocar de automóvel todos os anos, comprometendo ainda mais o já precário sistema viário brasileiro, e onerando o Meio Ambiente com um consumo desproporcional de combustíveis fósseis, em vez de buscar novas fontes alternativas de energia renovável e limpa!

Estamos destruindo, em ritmo acelerado, nossos recursos naturais, apenas para prover o mercado mundial das matérias primas necessárias às indústrias de alta tecnologia que não temos aqui, criando uma subserviência devastadora para os brasileiros: seremos eternamente tratados como nação de segunda categoria, provedora de carne de gado, soja, minérios, madeira... tudo arrancado da Natureza, através de um processo perverso de destruição de florestas, rios, matas de galeria e de imensas montanhas que são transformadas em matéria-prima para os países de primeiro mundo, dos quais nunca faremos parte!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Agrotóxicos no Brasil: um guia para ação em defesa da vida

Leiam o livro em PDF no final da página deste blog!

Autora: Flavia Londres

Vejam a apresentação:



O livro Agrotóxicos no Brasil – um guia para ação em defesa da vida é uma produção revestida de caráter histórico. Leitura essencial para quem luta na defesa da vida e por um modelo de desenvolvimento alternativo para o campo.

O primeiro motivo dessas afirmações se deve ao fato da quase ausência de material educativo produzido pelo setor público informando a população sobre os riscos do uso dos agrotóxicos no Brasil. Esse campo é hegemonizado por quem produz os agrotóxicos, preconizadores de seu uso seguro, mito, analisado e desconstruído nesse importante livro, escrito com muita competência por Flavia Londres.

Outro aspecto merecedor de destaque nessa obra, trata-se da visão dos movimentos sociais liderados pela Articulação Nacional de Agroecologia e Rede Brasileira de Justiça Ambiental sobre esse processo, olhar muitas vezes desqualificado pelos grandes grupos econômicos ou mesmo por alguns cientistas.

Podemos afirmar que os textos apresentados guardam um minucioso cuidado com as fontes e referências, se baseando em pareceres de pesquisas e documentos oficiais. O leitor tem em mãos um livro com abordagem interdisciplinar inovadora.

Sua forma de guia propicia um próspero dialogo entre a saúde, o meio ambiente e a agricultura sem perder a perspectiva da ação, ou seja, de construir uma práxis. A saúde, no contexto apresentado, é um verdadeiro termômetro do atual modelo de desenvolvimento no campo. Apesar da precariedade da ação pública em todas as etapas da cadeia produtiva dos agrotóxicos, é na sub-notificação das intoxicações, na invisibilidade do problema para a nossa sociedade que esse guia vem desnudar de uma forma clara e pedagógica a necessidade de transformarmos o atual quadro de descontrole e contaminação associado ao uso de agrotóxicos no Brasil.

Os textos confirmam a importância da realização dos diálogos de saberes. Temos um grande desafio para produzir conhecimento voltado para a construção de um sistema de vigilância da saúde que proteja a vida e contribua na implantação de sistemas produtivos mais saudáveis. Existe uma experiência acumulada dos povos que vivem nos campos e nas florestas, e essas vozes precisam ser mais ouvidas.

A informação aqui contida poderá ser um grande instrumento para militantes sociais, estudantes, professores, ambientalistas, profissionais de saúde, extensionistas rurais e agricultores na luta por um campo mais saudável.

Esse guia é um grande passo para novos diálogos e convergências na articulação das redes de agroecologia, justiça e saúde ambiental, soberania alimentar e economia solidária na construção de um outro modelo de desenvolvimento para o campo no Brasil: sustentável, saudável e justo.

Fernando Ferreira Carneiro
Doutor em Epidemiologia pela Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais, Professor Adjunto da Universidade de Brasília-UnB, Faculdade de Ciências da Saúde, Departamento de Saúde Coletiva e Pesquisador do Núcleo de Estudos de Saúde Pública da UnB. Membro do GT de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva - ABRASCO



Vejam trechos do Livro:
"Mas foi na última década que o uso de agrotóxicos no Brasil assumiu as proporções mais assustadoras. Entre 2001 e 2008 a venda de venenos agrícolas no país saltou de pouco mais de US$ 2 bilhões para mais US$ 7 bilhões, quando alcançamos a triste posição de maior consumidor mundial de venenos. Foram 986,5 mil toneladas de agrotóxicos aplicados. Em 2009 ampliamos ainda mais o consumo e ultrapassamos a marca de 1 milhão de toneladas – o que representa nada menos que 5,2 kg de veneno por habitante! Os dados são do próprio Sindag (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola), o sindicato das indústrias de veneno. Devido à repercussão negativa que o aumento do uso de venenos começou a causar nos meios de comunicação, a organização não divulgou o volume de agrotóxicos comercializado em 2010, mas apenas o faturamento do setor: US$ 7,2 bilhões (9% a mais que o ano anterior)." (O Brasil é o destino de agrotóxicos banidos no exterior) 'Levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag), ambos de 2009, apresentam o crescimento de 4,59% da área cultivada no período entre 2004 e 2008. Por outro lado, as quantidades vendidas de agrotóxicos, no mesmo período, subiram aproximadamente 44,6%. E os números não levam em conta a enorme quantidade de agrotóxico contrabandeado para o país.' (Carneiro, F. e Soares, V., 2010). Ou seja, o aumento recente do envenenamento dos campos é gritante."
"O uso seguro de agrotóxicos é possível?"
"O debate acerca dos agrotóxicos e suas implicações sobre o ambiente e a saúde humana tem sido majoritariamente encaminhado, desde o começo da Revolução Verde, para a possibilidade e a necessidade de aceitar o uso deles e estabelecer regras que garantiriam a proteção das diferentes formas de vida expostas a biocidas – seria o paradigma do uso seguro, também aplicável a outros agentes nocivos, como o amianto.
Mas a pergunta que se faz é: no contexto em que vivemos hoje, é possível fazer valer o uso seguro dos agrotóxicos? Em primeiro lugar, é preciso considerar a magnitude do uso de agrotóxicos no país: o Brasil é o país que mais consumiu estes produtos no mundo em 2008, ultrapassando sua própria marca em 2009. No último ano para os quais se tem dados, foram consumidas mais de 1 milhão de toneladas, o que corresponde a mais de 22 kg por hectare de lavoura, ou ainda cerca de 5,2 quilos de agrotóxicos por habitante (e transferiu US$ 6,62 bilhões para a indústria química)1.
Em segundo lugar, é preciso avaliar a extensão do universo em que o uso seguro dos agrotóxicos teria que ser garantido: segundo dados do IBGE oriundos do Censo de 2006, são 5,2 milhões de estabelecimentos agropecuários, espalhados por todo o país, ocupando área correspondente a 36,75% do território nacional. O setor envolve 16.567.544 pessoas ocupadas (incluindo produtores, seus familiares e empregados temporários ou permanentes), que correspondem a quase 20% da população ocupada no país. Haveria que incluir aqui ainda, entre a população exposta, os trabalhadores das fábricas e do comércio destes produtos, os moradores do entorno desta indústria,
os expostos em usos não-agrícolas (as dedetizadoras, por exemplo) e, afinal, todos nós consumidores de alimentos contaminados – nossa dose diária de venenos...
Em terceiro lugar, estariam as condições institucionais para o Estado fazer valer as regras do jogo em toda esta extensão: aqui vão pesar as deficiências das políticas públicas, feridas pelo peso do neoliberalismo sobre a composição dos quadros de pessoal e a infraestrutura para execução das políticas, inclusive da fiscalização e vigilância. "