segunda-feira, 25 de março de 2013

Blairo Maggi assume Meio Ambiente no Senado

Senador Blairo Maggi é um dos maiores produtores
de soja do país | Foto: Antonio Cruz/ABr
Empresa do ex-governador do Mato Grosso possui mais de
200 mil hectares plantados | Foto: José Cruz/ABr
Autor: Samir Oliveira
Fonte: SUL21

No dia 27 de fevereiro, Blairo Maggi (PR-MT) foi eleito por aclamação para a presidência da Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA) do Senado. O ex-governador do Mato Grosso é um dos maiores produtores de soja do Brasil, correspondendo a 5% de toda a produção nacional. O grupo André Maggi – que leva o nome do seu pai – possui 203 mil hectares de terras plantadas. O senador Blairo detém 2.348 hectares em seu nome e seu primo, Eraí Maggi, possui 380 mil hectares plantados. Somados esses números, a porção do território brasileiro sob domínio da família Maggi equivale à toda a área do Distrito Federal.

A condução de Blairo Maggi à presidência da CMA gerou protestos e indignação por parte de ambientalistas e ativistas contrários à bancada ruralista no Congresso Nacional. Mas, também, há quem diga que o senador não representa as posições mais extremas dos ruralistas e que, após enfrentar muitos protestos e críticas, ele teria passado a compreender o papel da preservação ambiental na produção agrícola.

O histórico do senador é controverso. Ele chegou a receber o prêmio “Motosserra de Ouro” do Greenpeace, em 2004, quando era governador do Mato Grosso. Mas também é destacado por ter colocado em prática uma política de combate ao desmatamento no estado e de regularização ambiental de imóveis rurais.

Apesar de seu mandato não ser reconhecido por atuações ambientalistas no Senado, Blairo possui alguns projetos de lei sobre o tema, como o PLS 750/2011, sobre a política de gestão e proteção do bioma Pantanal. É, também, autor da PEC 76/2011, que altera artigos da Constituição para assegurar aos índios participação nos resultados do aproveitamento de recursos hídricos em terras indígenas. Essas medidas e a moderação do discurso fazem com que alguns ambientalistas interpretem que teria havido um reposicionamento de Blairo Maggi em relação ao meio ambiente.

Entretanto, atitudes e declarações de Blairo Maggi no passado colocam seu alegado compromisso ambiental em cheque. Em 2003, o senador declarou ao jornal norte-americano New York Times: “Para mim, um aumento de 40% no desflorestamento não significa nada. Não sinto a mínima culpa pelo que estamos fazendo aqui. Estamos falando de uma área maior que a Europa que não foi tocada ainda. Não há nada com o que se preocupar”.

Quando assumiu o governo do Mato Grosso, Blairo disse que seu objetivo seria “triplicar a produção agrícola do estado em 10 anos”. E, em dezembro de 2010, o senador assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso para corrigir irregularidades ambientais em uma de suas fazendas, em Rondonópolis.

Em resposta a um pedido de entrevista da reportagem do Sul21, a assessoria de imprensa do senador informou que Blairo Maggi optou por “não participar” desta vez.

Blairo no comando da CMA favorece governo federal, diz jornalista
Alceu Castilho pesquisou bens rurais de políticos
durante três anos | Foto: Diego Jock / Divulgação
O jornalista Alceu Castilho, autor do livro “Partido da Terra”, no qual detalha a quantidade de propriedades rurais nas mãos de políticos no país, observa que a posse de Blairo Maggi na presidência da CMA é vista com bons olhos pelo governo Dilma Rousseff (PT). O senador já se declarou um aliado da presidente.

“Podemos falar de uma coalizão governista que vem desde o governo Lula, mas que possui mais adesão aos projetos ruralistas agora. No governo Lula, o agronegócio tinha muita força, mas existia ainda alguma tensão, algum conflito. Dilma não tem dores na consciência ao aderir a este projeto e a nomeação do Blairo por aclamação para a presidência da CMA confirma isso”, entende.

Para o jornalista, a indignação gerada com a posse do senador na comissão não pode se direcionar somente para a sua figura. “Não podemos minimizar essa notícia. Isso é grave e o Brasil precisa ficar alerta e chocado. Mas o que a Comissão de Meio Ambiente do Senado decidiu de tão relevante nos últimos anos? Os principais debates do país ocorrem na Câmara. Não podemos achar que o Blairo na presidência da CMA é algo normal, mas existe um histórico de conflitos de interesses em situações até mais importantes do que esta comissão”, defende.

Alceu Castilho considera que é preciso reverter a artilharia da indignação contra Blairo Maggi para o poder representado pelos ruralistas no país. Em seu livro, o jornalista argumenta que o ruralismo não se restringe a uma bancada no Congresso Nacional, mas, sim, a um “sistema político”.

“Nos últimos anos, há um poder crescente da bancada ruralista, que contou e conta com o aval de governos de distintas siglas, com contornos de conformismo que não havia na época da Constituinte, quando existia confronto”, recorda. Ele afirma que “não adianta demonizar apenas o Blairo” e sustenta que “há contextos políticos, partidários e de força de bancadas por trás disso”.

O jornalista não acredita que Blairo Maggi tenha se convertido, nos últimos anos, em um defensor do meio ambiente. “Nenhum ambientalista desprovido de ingenuidade considerará que ele mudou da água para o vinho em tão pouco tempo. Ele percebeu que havia um confronto que não é benéfico para sua imagem e para os seus negócios. Para mudar essa imagem, ele adere a um pacto que possui algumas blindagens e anteparos”, define.

Alceu Castilho considera que é mais fácil, para o senador, abaixar o nível da retórica ruralista com o apoio do governo federal. “É fácil para ele compor com um governo que não é apaixonado pela defesa do meio ambiente. Assim ele passa uma imagem mais palatável.”

Para o jornalista, Blairo Maggi “é um pouco mais esperto do que a média dos ruralistas, principalmente da linhagem de pecuaristas, onde a média cultural é muito baixa e o nível de argumentos é muito raso”.

“Retrocesso não é o Blairo, é o Brasil”, diz ambientalista
Mario Mantovani diz que há possibilidade de diálogo com Blairo Maggi | Foto: Arquivo Pessoal

Diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani foi um dos ativistas que entregou o prêmio Motosserra de Ouro a Blairo Maggi em 2004. Atualmente, ele acredita que o senador “percebeu que tinha que mudar” e que “não é um ambientalista, mas também não é um trogolodita”.

Para Mantovani, há espaço de diálogo e interlocução com Blairo Maggi – o que não ocorreria com integrantes mais radicais da bancada ruralista. “É um sujeito que sabe argumentar. Com ele, vamos jogar o jogo certo: ele é de um segmento e nós, de outro”, define.

O diretor da SOS Mata Atlântica entende que os ambientalistas devem voltar suas críticas ao governo federal. “O retrocesso não é o Blairo, é o Brasil. Temos um governo como um ministério do Meio Ambiente enfraquecido. A agenda de Dilma não é ambiental, ela acha que meio ambiente atrapalha o desenvolvimento. O Brasil, hoje, possui a mesma agenda desenvolvimentista dos anos 1970”, conclui.

“Soja é desastrosa para o Brasil”, condena biólogo

Professor do Departamento de Botânica da UFRGS e integrante da Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (APEDEMA), o biólogo Paulo Brack condena fortemente o setor agrário ao qual está vinculado o senador Blairo Maggi, presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado.

“A sustentabilidade ambiental pressupõe a redução do peso econômico de monopólios e oligopólios do agronegócio. O grupo empresarial do Blairo Maggi possui um poder imenso. A soja é desastrosa para o Brasil, são grãos de exportação que servem para alimentar gado na China e na Europa”, critica.
Paulo Brack diz que financiadores de Blairo Maggi o desvinculam do meio ambiente | Ramiro Furquim/Sul21
Paulo Brack observa que o senador “vem sendo mais moderado de uns tempos para cá”, mas acredita que isso não se traduza em um compromisso efetivo com a preservação ambiental. “É um político muito esperto. Essa linguagem moderada, diferente do tom dos ruralistas mais truculentos, é uma cortina de fumaça”, qualifica.

Observando as doações para a campanha de Blairo Maggi ao Senado, o biólogo aponta que ele está comprometido com setores pouco interessados no meo ambiente. “Ele recebeu R$ 5,6 milhões em 2010 de grandes empresas do agronegócio, de construtoras, de usinas do álcool, de empresas de máquinas agrícolas. O compromisso dele é com esses setores, não com o meio ambiente”, argumenta.
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