sexta-feira, 23 de julho de 2010

Desigualdade social e crescimento econômico

Quando a ONU divulgou o seu relatório sobre a situação mundial das desigualdades sociais e o Brasil se apresentava em uma posição tão degradante, talvez poucos em nosso próprio país tenham se conscientizado da gravidade dessa situação que se arrasta por séculos, e tem sempre a mesma causa e origem: a concentração brutal do poder econômico.

Aqui, em nossas terras, vivem populações inteiras percebendo uma renda irrisória de menos de R$2,00 (dois reais) por dia! Ao mesmo tempo, uma pequena "elite" de privilegiados desperdiça milhares de reais em refeições nababescas, pouco se importando que a fome e a miséria arrastam crianças para a morte, desprovidas dos recursos mínimos para sua sobrevivência.

Riqueza e ostentação narcotizam a mente das pessoas. Quem possui vários carros de luxo em suas garagens, viaja regularmente para o exterior, manda seus filhos para as escolas mais tradicionais e caras do país, possui casa de campo e de praia, milhares de cabeças de gado em terras que parecem não ter fim, televisores e computadores pessoais importados, anda de jet ski em praias sofisticadas... essas pessoas não têm tempo para pensar na miséria que mora nas favelas vizinhas das periferias, ou nas comunidades indígenas e quilombolas às margens de rios e em áreas distantes da civilização!

Civilização? Como podemos nos chamar de "civilizados" quando seres humanos como nossos filhos padecem da miséria das doenças provocadas pela inanição? Como podemos ir a um espetáculo teatral ou a um restaurante sofisticado que nos custa mais do que uma família inteira tem de recursos para sobreviver um ano inteiro? Como colocar a cabeça no travesseiro e dormir placidamente em plumas de ganso e lençóis de seda enquanto não há perspectivas ou políticas públicas para tirar metade de nosso povo da pobreza extrema em que tentam sobreviver?

Pois é... ninguém se importou com os dados do relatório das Nações Unidas... também, pudera! Quanta besteira tínhamos para falar nos Twitter, Orkut, Facebook em nossas horas de ócio e preguiça! Afinal, vivemos estressados com o trânsito, com os bandidos que rondam nossas famílias abastadas, querendo roubar nossas fortunas herdadas de nossos pais...

Ontem os canais da Globo começaram a circular a exposição de um filme tipicamernte americano, onde uma família de doze filhos "sofre" com a mudança de seus pais de uma cidade no interior, onde viviam em um belo rancho, e vão morar em uma mansão de Chicago! Deve ser muito duro para elas, não é mesmo? Deixar para trás seus amigos, namorados...

As novelas da TV também costumam retratar com frequência a riqueza como se fosse um mérito, um privilégio dos "melhores", dos eleitos por algum poder sobrenatural, que premia os "bons" (falsos arianos) e pune os "maus" (negros, caboclos, índios...). Por que será que os protagonistas sempre são bonitos e os vilões feios? Seria essa a tendência na(rci)zista dos homens?

A sensação que tenho é que, para nossa burguesia colonial, que gerou as castas mais abastadas de nossa sociedade, um relatório que expõe a miséria em seus números mais cruéis, deve lhes parecer estranho e irreal como os livros de ficção mais absurdos! Algo como "Alice no País das Maravilhas", só que às avessas! Ou então o nosso "Arquipélago Gulag"!

Mas não poderemos fechar nossos olhos por muito tempo, pois a população do mundo (e também a do Brasil) cresce muito mais nas camadas mais pobres. Por isso eles se tornam cada vez mais numerosos, e logo nos incomodarão mais e mais, até que não seja mais possível escondê-los nas favelas, nas várzeas, nos morros e nas comunidades esquecidas por Deus.

Esquecemos que somos mestiços, que não temos sangue azul, que nosso futuro está nessas crianças mestiças e miseráveis que relegamos à marginalidade. Até quando vamos ignorar essa verdade óbvia e nos iludir acreditando que esse Brasil desgraçado não é o nosso país?
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