sábado, 2 de julho de 2011

Antropologia, Administração Pública e Hipocrisia

Existe uma visão romântica, por parte dos antropólogos, de que é possível o desenvolvimento das populações indígenas, preservando suas tradições e, ao mesmo tempo, dando-lhes condições para o desenvolvimento econômico e social nos moldes ocidentais capitalistas. Acreditam eles na capacidade das lideranças indígenas de gerir seu próprio destino, mantendo, contudo, sua visão de mundo, sua cosmogonia, e sendo "empoderados" (empowerment" não tem tradução em português, mas é assim que eles caracterizam a transmissão do poder branco para os índios) pelas instituições que cuidam dos interesses dessas populações, como a FUNAI, o ISA, a igreja católica, as seitas evangélicas...

É um grave equívoco pois, na sua simplicidade de entendimento do Universo, os indígenas ainda se mantêm fiéis a seus xamãs, mas assistem novelas, participam das redes sociais e ouvem músicas populares, fazendo suas escolhas conforme seu estágio intelectual permite. É essa contradição que coloca em risco essas populações pois, incapazes de selecionar o bem e o mal de nossas sociedades, escolhem o primitivo mau gosto que permeia esses canais de comunicação contemporâneos. Da mesma forma, incapazes de compreender a complexidade de nossos mundos políticos e sociais, tentam adaptar suas formas primitivas de associação à sua atuação como líderes, tornando toscas e ridículas (em nossa visão complexa) suas iniciativas primárias.

Não existe atalho para o desenvolvimento intelectual.

A FUNAI, hoje administrada por um intelectual, um antropólogo, profundo conhecedor dos saberes indígenas, segundo sua própria interpretação desses saberes traduzidos para os trabalhos acadêmicos e para o entendimento ocidental, essa instituição regida por esse maestro não percebe o estrago que produz nas sociedades primitivas desses indígenas travestidos de povos civilizados. Não há preconceito no que afirmo; apenas a constatação de nossa incapacidade de transportar essas visões de mundo para a realidade intensamente urbana de nossas próprias populações.

Disse-me um dirigente de uma ONG que atua no Rio Negro que esse "empowerment" das lideranças indígenas terá que ser feito, ainda que à custa de enormes quantias desperdiçadas de recursos públicos e de anos de investimento em lideranças, hoje incapazes de entender o arcabouço da Administração Pública. Prova disso é o fracasso da gestão pública municipal em São Gabriel da Cachoeira e a própria gestão pública da FUNAI Rio Negro por um indígena. Essas populações foram enganadas pelos acadêmicos, que incutiram neles a necessidade de gerir seus próprios destinos, e ao mesmo tempo preservar suas culturas tradicionais.

Em primeiro lugar, há que se perguntar "a que culturas e a que tradições" eles se referem pois, salvo raríssimas exceções, a maior parte dessas populações foram, ao longo de cinco séculos, adaptadas a crenças impostas pela igreja católica, que os privou de seus saberes ancestrais, considerados profanos, equivocados e satânicos pelos religiosos. Hoje, as seitas evangélicas concorrem nesse mister de acabar com as tradições xamânicas dos povos indígenas. Essas populações que viviam em pequenas aldeias, em um único teto (as malocas das "tribos" do Alto Rio Negro e os xaponos dos Yanomami), obtendo seu sustento das águas dos rios, das matas da floresta e das roças de mandioca, hoje vivem na dependência dos produtos industrializados, da caça com rifles, da pesca com tarrafas e redes, da exploração sem controle dos recursos naturais, inclusive do garimpo, da extração de madeira, da venda de peixes ornamentais e do "aviamento", mecanismo perverso de comercialização de cipós e palhas extraídas da Natureza.

Não são mais autônomos: dependem dos brancos para sobreviver! E pior do que isso, recebem como pagamento as migalhas da civilização ocidental e, o que era um modo simples de viver, hoje é miséria! Para deleite dos antropólogos, essas populações pensam que preservam suas tradições, tomando caxiri com cachaça, vestindo calças jeans e tocando flutas PAN. No entanto, os antigos Tuchauas agora são Capitães, escolhidos nos moldes das eleições sindicalistas, em assembléia, que eles assimilaram como se fossem as tradicionais reuniões dos idosos, dos anciões das aldeias que já não existem mais. Se viviam em pequenos grupos de cinco a dez famílias, hoje possuem pequenas cidades de até três mil indivíduos, e as brigas, a bebedeira, e as "virtudes" de nossa civilização tomam conta de seus costumes: o Caxiri foi transformado pela Cachaça; as drogas, a prostituição, a violência passaram a fazer parte de seu cotidiano, mas esses mesmos intelectuais debitam isso aos comerciantes brancos e sem caráter. Não é verdade, são eles, esses mesmos intelectuais que pactuaram com a preservação do que já não existe e cobram dos indígenas posturas e crenças que ficaram no passado. Hoje eles estão em toda parte: na política, na corrupção e nos descaminhos da vida.

Se acreditamos que esse é o modelo de civilização que os indígenas querem para seu povo, nós é que estaremos sendo hipócritas, surrupiando-lhes aquilo que é mais sagrado: o seu direito à autodeterminação, que não se constrói com políticas públicas corruptas, nem com conselhos intelectualóides e traiçoeiros de quem nada tem a perder com o destino cruel que está sendo construído para esses povos. Agora querem abandoná-los à própria sorte, colocando um ser despreparado intelectualmente para gerir a máquina pública, sob a batuta de um TUTOR constituído pelos conselhos das ONG´s ou pelos dirigentes supremos da FUNAI, que se julgam melhores do que seu próprio corpo de profissionais.
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