sexta-feira, 30 de março de 2018

Ideologia, democracia e outros saberes escusos

Tomo a liberdade de revisitar certos conceitos, apenas para refletir: o que está em jogo nas eleições deste ano no Brasil? Não vou me restringir a definições acadêmicas, e nem me submeter aos crivos dos ideólogos da Política, pois o que pretendo com esse debate é, pura e simplesmente, discutir os destinos de nossa Nação depois de 2018. Vivemos tempos estranhos, na opinião de um ministro do STF, na medida em que conceitos políticos tradicionais já não cabem na situação esdrúxula em que se meteu o Brasil. Ainda assim, tentarei ser didático, embora sem me ater a definições convencionais.

Apenas para contextualizar meu pensamento, quero recordar nossa herança de exploração dos escravos, de dizimação das populações nativas, de ditaduras sanguinárias e golpes palacianos, de conchavos políticos obscuros e corrupção dos valores éticos, sempre vinculados ao processo civilizatório que nos trouxe ao século XXI. O Brasil, antes de se tornar uma nação, já contribuía, ainda que à revelia, para o enriquecimento da Europa, através de saques, tráfico de escravos, extração de madeira, cacau, ouro e pedras preciosas, e do genocídio sistemático das populações indígenas, que dizimaram mais de 90% das etnias que aqui habitavam antes da chegada da esquadra de Cabral.

Entramos no século XX (abreviando a História, pois esse não é o escopo desse artigo), com já quase 90% de nossas florestas tropicais devastadas. A Amazônia ainda se mantinha relativamente preservada graças às dificuldades de acesso e à vastidão de seu território. A escravidão havia se acabado, mas os povos negros, mestiços e índios continuavam sendo tratados como rejeitos desprezíveis dessa sociedade elitista, que comandava a política e a economia dessa nova nação brasileira. A Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Vargas acirraram ainda mais os preconceitos étnicos, enquanto o Brasil capengava na categoria de país terceiro-mundista, expressão forjada pelos Estados Unidos da América do Norte durante a "guerra fria", os verdadeiros vencedores dessas batalhas que envolveram toda a Europa, Ásia e parte do continente africano e península arábica.

O Capitalismo ressurgia na Europa que sobrevivera da guerra, sob o poder dessa nova potência emergente (EUA), embora seu conceito como doutrina econômica provenha da Revolução (Política) Francesa e da Revolução Industrial (Inglesa), aquela quanto aos conceitos estruturantes da sociedade em sua relação com os meandros da política interna, esta como responsável pela grande transformação provinda do processo de industrialização das atividades produtivas. Se Marx vivesse hoje, talvez não tivesse construído sua teoria econômica e política, não teria havido socialismo nem marxismo, e o mundo viveria, em sua plenitude, o sonho americano do Welfare State. Pura abstração!

É curioso observar que os rótulos forjados sobrevivem mais do que os conceitos a eles atribuídos. Não fora assim e hoje não atribuiríamos ao socialismo a denominação estranha de "Esquerda", da mesma forma que não chamaríamos de "Direita" àqueles que defendem o Capital como valor primordial de qualquer sociedade democrata. Observando a sociedade contemporânea, pouco resta a exigir das reivindicações trabalhistas que levaram à constituição do sistema socialista dos países do Leste Europeu, da China, de Cuba e de outros países que se alinhavam, até 1988, à antiga União Soviética. Seria a Democracia condicionada apenas ao sistema de livre mercado? Onde estaria, pois, a Ideologia, se o ideal humano sempre foi a liberdade ampla e irrestrita de pensamento?

Fato é que persistem na Inglaterra contemporânea a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes, denominações estas cunhadas no início do século XVIII. De modo análogo, a "direita" simbolizava os simpatizantes de Napoleão Bonaparte (e se sentavam à sua direita), enquanto à esquerda se colocavam os simpatizantes da Revolução Francesa. É, portanto, um anacronismo atribuir as expressões esquerda-direita às correntes ideológicas marxismo-capitalismo, até por que, nos dias atuais, todos os regimes se confundem nas práticas do capitalismo global. Esquerda e direita se tornaram símbolos de oposição política na Europa monarquista e em dias atuais.

À parte esses termos obsoletos, consideremos, então, os valores atribuídos a essas duas correntes do pensamento político no século XXI. Aqueles valores pregados por Karl Marx já não se aplicam ao mundo contemporâneo. Já não existem as minas de carvão e os sistemas escravagistas de produção nos moldes dos séculos XVIII e XIX. Muitas conquistas foram feitas pelos trabalhadores, reduzindo o desequilíbrio nas relações trabalhistas entre patrões (cada vez um conceito mais difuso e superado) e empregados (agora empoderados por complexas legislações que regulam essas relações).

Países tradicionalmente socialistas, como a Rússia, a China, os países da "Cortina de Ferro" na antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) extinta em 1988, o Vietnam, a Coréia do Norte e Cuba se adaptaram à economia de mercado para sobreviverem. A estatização da Economia mostrou-se um equívoco insustentável, assim como a estrutura burocratizante dos países socialistas soviéticos. Hoje, na China, existem filiais de símbolos do Capitalismo, como a rede de lanchonetes Mc Donalds, bem como diversas fábricas de procedência americana, japonesa e europeia, que se aproveitam dos baixos custos de mão-de-obra dos países socialistas, onde existes fortes subsídios para os trabalhadores, talvez a última herança dos regimes fechados do comunismo internacional, para reduzirem seus custos e aumentarem sua participação no mercado internacional.

No entanto, apesar dessa "customização" dos regimes socialistas, restam sobreviventes desse "ancient règime" as nações contemporâneas que insistem em afirmar sua divergência ideológica com as nações do ocidente, mais bem-sucedidas que aquelas cuja herança socialista se preservou no mundo oriental, como a Rússia (em permanente crise econômica), China (que, embora tenha se capitalizado, ainda preserva seu sistema de governo centralizador totalitário) e Coreia do Norte (igualmente uma tirania), que sobrevive de subsídios da China e da Rússia, que ainda teimam em afirmar seu regime herdado da Teoria Marxista-leninista. Lamentavelmente, as experiências socialistas dos últimos dois séculos se tornaram ditaduras violentas, conforme o conceito de "ditadura do proletariado", termo cunhado por Joseph Weydemeyer, e adotado por Marx e Engels. No entanto, essa ditadura nunca foi conduzida pelo proletariado, mas pela nova aristocracia dominante.

E como caracterizar diferentes correntes ideológicas do mundo contemporâneo, se a dicotomia esquerda-direita, socialismo-capitalismo, ou estado revolucionário versus democracia social fracassou? É preciso refletir sobre o tema sem paixão e sem radicalismos. A atitude revolucionária de transformar a sociedade em busca de sistemas igualitários permanece válida e atual. No entanto, é difícil dissociá-la das ideologias antigas, uma vez que os partidos de esquerda sempre reivindicam a pluralidade ideológica enquanto lutam pelo poder, mas imediatamente a rejeitam, ao assumi-lo.

O Socialismo Soviético apoia governos totalitários como o da Síria, fomentando a guerra fratricida, conforme sua práxis totalitária. Da mesma forma, a propalada "Democracia Americana" serve de cortina de fumaça para ocultar interesses escusos, negociações inconfessáveis e venda de armas e munições a países em conflito nas inúmeras guerras regionais que persistem no mundo atual, principalmente no Oriente Médio. Nessas relações contraditórias, prevalecem os interesses econômicos às razões humanitárias. Não existe solidariedade nem ideologia quando se trata de exercer o poder para se obter vantagens econômicas e militares neste xadrez político das nações.

As grandes potências mundiais, capitaneadas pelas coalizões Rússia-China (e seus "satélites" do Sudeste Asiático) versus Estados Unidos-Europa (principalmente França, Inglaterra e Alemanha), têm como força motriz de sua hegemonia hemisférica os interesses meramente econômicos e militares, esquecendo-se que o mundo carece de paz para sobreviver às grandes transformações climáticas e de escassez crescente de recursos naturais, agravada pelo crescimento populacional. Nessa guerra não declarada, os argumentos ideológicos deixam de ter significado, prevalecendo o poder econômico e militar sobre as questões humanitárias e de sobrevivência do ser humano na Terra. Nesse contexto de conflitos generalizados e não-ideológicos, quem perde é apenas a humanidade.

Diante do exposto, falar de Ideologia em um mundo imerso em disputas mesquinhas é fingir que qualquer das partes tem razão, enquanto o "outro" é sempre o culpado de todas as mazelas humanas. Enquanto isso, o relógio biológico da Terra se aproxima do instante fatal em que a escassez de água e de alimentos nos forçará a um sacrifício que todos temem imaginar: a população da Terra precisará se reduzir aos níveis de 1900 para poder capitalizar os benefícios do desenvolvimento científico e tecnológico e salvar o planeta. Haverá paz no mundo antes da hecatombe mundial? Teremos condições de ocupar novos planetas habitáveis antes que a Terra entre em colapso? Estaremos preparados para viver em paz e encontrar soluções para a superpopulação e a perda da biodiversidade de nosso mundo antes do minuto fatal? Certamente, a resposta a essa indagações é, pura e simplesmente, "Não!". A Terra não sobreviverá a tamanhos desperdícios e devastação!...

domingo, 11 de março de 2018

O CAOS E A PERFEIÇÃO



O que me encanta é o CAOS, não a Perfeição!

É no Caos que se manifesta a Perfeição do Universo, e sua Beleza inquestionável!!

A Desordem universal é que nos leva a acreditar na perenidade do Infinito!

O contraponto do Caos não é a Perfeição, mas a uniformidade monótona da criação humana… a linha reta, o círculo, o monocromático das paredes, as monoculturas e os jardins dos palácios imperiais, onde a Harmonia quebra a complexidade do Caos…

O que me assusta é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é o Imponderável, o Imprevisível, o Inesperado, o Desconhecido!

A vida sem o Caos é o oposto do Ser Criador: são as regras, as normas, a rotina dos escritórios, os horários determinados pelo relógio, o previsível e o uniforme…

O que me motiva é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Surpresa, o Despertar, a Descoberta, a Invenção, a Inovação permanente!

O mundo sem o Caos é uma sucessão de fatos corriqueiros, cotidianos, um arrastar do tempo sem a beleza incontestável da descoberta, um mundo monótono, inútil e vazio, onde predominam as regras e as leis humanas, em detrimento da desordem do Caos…

O que me apavora é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Escuridão, o Passo no Vazio, a Busca da Perfeição sem jamais atingi-la!

O homem sem o Caos é um ser amorfo, desprovido de sensibilidade, incapaz de discernir entre o Eterno e o trivial, entre a matéria e o Espírito, entre o Bem e o mal…

O que me move é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Mola Propulsora da Humanidade, a Força Interior de todo Ser Vivente!

Sem o Caos, o mundo permaneceria na Idade das Trevas! Mas, talvez essa teria sido a Maçã de Adão e Eva, o momento em que o Homem se diferenciou dos animais e se tornou Dono do Universo… talvez, nesse momento de inflexão, o Mundo tenha começado a definhar, a se acabar, a se autodestruir… e a Perfeição do Universo, transfigurada pelo Caos, tenha deixado de existir, nos impelindo a colocar Ordem na Natureza… talvez a verdadeira Ordem seja o Império do Caos, e o permanente desequilíbrio de forças no Universo seja sua Lei Maior que o mantém vivo e eterno…

quinta-feira, 8 de março de 2018

A EXISTÊNCIA DE DEUS

De onde viria a necessidade e o conceito de divindades dentre os homens? Por que precisamos de um Deus? Quais revelações ou reflexões filosóficas sustentariam a hipótese de uma existência após a morte apenas para os humanos da Terra? Para onde iríamos depois dessa vida terrena, tão generosa para poucos e tão injusta para a grande maioria dos seres viventes? Enfim, por que acreditar em DEUS, se nada nos permite comprovar a sua inútil existência? À expressão Cristã "DEUS CRIOU OS HOMENS À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA" eu contraponho a minha: "OS HOMENS CRIARAM SEUS DEUSES À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA"!



Zeus, o deus supremo do Olimpo, o céu dos gregos

Percorrendo os passos da evolução da Humanidade ao longo dos séculos, desde que nos diferenciamos de nossos semelhantes, os macacos, percebemos que o conceito de Deus está associado ao desconhecido, àquilo que não pode ser provado, às lacunas do nosso conhecimento que nos faziam sentir pavor dos elementos naturais nos primórdios da civilização, dos poderosos felinos, anfíbios e mamutes, na formação da sociedade humana, e dos espíritos dos mortos ao longo de toda nossa história terrena. As divindades eram concebidas conforme essas crendices, associando-as a seres híbridos de animas e humanos, como na Grécia, no Egito e na Índia, nos séculos que antecederam a vinda dos avatares, profetas e santos.



"Ganesha, deusa hindu, misto de elefante e mulher"



Thot, deus egipcio do Sol



Apolo, o deus da beleza, e suas ninfas apaixonadas

Porém, já no século XVI, período das "Grandes Navegações", com cerca de um milhão de anos da existência do "homo erectus", ainda vemos nossos antepassados acreditarem nos mares povoados de seres mitológicos, muito semelhantes àqueles das civilizações precoces, mistos de serpentes e pássaros, capazes de afundar toda uma frota de galeões e devorar seus marinheiros. Com sua imaginação povoada de seres fantásticos, não é de se estranhar que esses povos criassem suas divindades com poderes malévolos e espírito vingativo e cruel. Pois foi dessa herança fantasiosa que nossa civilização se formou, e as religiões se constituíram e prosperaram.



Monstros marinhos, seres fantásticos da mitologia europeia no final da Idade Média

Os indígenas, habitantes desse território chamado Brasil, assim como os povos da pré-história, construíram sua cosmogonia com base em fenômenos e entidades naturais, como o trovão (Tupã), a cobra-canoa (dos índios do alto rio Negro), os espíritos da floresta, como o Xapiripë dos Yanomami, que eram invocados através da inalação de um pó alucinógeno, produzido com yãkoãna, resina de casca de árvores, enquanto os Ashaninka, índios do Acre, usam o Ayahuásca, também alucinógeno, mistura da erva "chacrona" e do cipó "jagube", em suas cerimônias espirituais... vê-se nesses resíduos de civilizações tradicionais, que o arcabouço de crendices, mitos e lendas persistiu a cinco séculos de dominação e extermínio. Hoje, grande parte dos remanescentes das populações indígenas do continente se apegou a seitas evangélicas, que fazem de seu livro "sagrado" a literatura essencial para suas crendices e o alimento para seu espírito desconsolado.

Voltando à nossa indagação inicial, por que precisamos de um Deus, seja ele qual for, que tenha poderes inimagináveis, conhecimento absoluto do passado e do futuro, onipresença e domínio sobre todas as coisas, vivas ou inertes, existentes no Universo? Por que haveria um INÍCIO para esse tempo/espaço infinito? E, sendo infinito, por que haveria de ter início e FIM? De onde surgiu tal conceito de infinitude das coisas e relatividade do espaço-tempo? E por que nossos espíritos/almas deveriam ir para algum lugar depois da morte, onde só existiria bondade e compaixão, se na Terra onde vivemos o mal prevalece sobre as virtudes humanas, sempre favorecendo àqueles que só se valeram do mal para usufruir dos privilégios desse mundo pleno de injustiças? Por que esse DEUS, ao criar o Universo, não o povoou apenas com criaturas do bem, vivendo com a fartura desse Universo, sem sofrimento, dor, ambição ou pavor? O que foi feito do nosso Paraíso Perdido, do nosso "Shangrilá"?

Certamente, essa discussão é tão interminável quanto inútil... porém meus argumentos me são suficientes para acreditar que todas as vidas terão um fim inexorável, que o espírito humano é apenas ficção e se esvanecerá na eternidade do tempo, a dialética teológica não sobreviverá à curta existência do ser, e as palavras proferidas pelos homens se tornarão tão insignificantes quanto o imenso vazio que predomina nos espaços entre as infinitas estrelas que cintilam no Universo...