sexta-feira, 30 de março de 2018

Ideologia, democracia e outros saberes escusos

Tomo a liberdade de revisitar certos conceitos, apenas para refletir: o que está em jogo nas eleições deste ano no Brasil? Não vou me restringir a definições acadêmicas, e nem me submeter aos crivos dos ideólogos da Política, pois o que pretendo com esse debate é, pura e simplesmente, discutir os destinos de nossa Nação depois de 2018. Vivemos tempos estranhos, na opinião de um ministro do STF, na medida em que conceitos políticos tradicionais já não cabem na situação esdrúxula em que se meteu o Brasil. Ainda assim, tentarei ser didático, embora sem me ater a definições convencionais.

Apenas para contextualizar meu pensamento, quero recordar nossa herança de exploração dos escravos, de dizimação das populações nativas, de ditaduras sanguinárias e golpes palacianos, de conchavos políticos obscuros e corrupção dos valores éticos, sempre vinculados ao processo civilizatório que nos trouxe ao século XXI. O Brasil, antes de se tornar uma nação, já contribuía, ainda que à revelia, para o enriquecimento da Europa, através de saques, tráfico de escravos, extração de madeira, cacau, ouro e pedras preciosas, e do genocídio sistemático das populações indígenas, que dizimaram mais de 90% das etnias que aqui habitavam antes da chegada da esquadra de Cabral.

Entramos no século XX (abreviando a História, pois esse não é o escopo desse artigo), com já quase 90% de nossas florestas tropicais devastadas. A Amazônia ainda se mantinha relativamente preservada graças às dificuldades de acesso e à vastidão de seu território. A escravidão havia se acabado, mas os povos negros, mestiços e índios continuavam sendo tratados como rejeitos desprezíveis dessa sociedade elitista, que comandava a política e a economia dessa nova nação brasileira. A Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Vargas acirraram ainda mais os preconceitos étnicos, enquanto o Brasil capengava na categoria de país terceiro-mundista, expressão forjada pelos Estados Unidos da América do Norte durante a "guerra fria", os verdadeiros vencedores dessas batalhas que envolveram toda a Europa, Ásia e parte do continente africano e península arábica.

O Capitalismo ressurgia na Europa que sobrevivera da guerra, sob o poder dessa nova potência emergente (EUA), embora seu conceito como doutrina econômica provenha da Revolução (Política) Francesa e da Revolução Industrial (Inglesa), aquela quanto aos conceitos estruturantes da sociedade em sua relação com os meandros da política interna, esta como responsável pela grande transformação provinda do processo de industrialização das atividades produtivas. Se Marx vivesse hoje, talvez não tivesse construído sua teoria econômica e política, não teria havido socialismo nem marxismo, e o mundo viveria, em sua plenitude, o sonho americano do Welfare State. Pura abstração!

É curioso observar que os rótulos forjados sobrevivem mais do que os conceitos a eles atribuídos. Não fora assim e hoje não atribuiríamos ao socialismo a denominação estranha de "Esquerda", da mesma forma que não chamaríamos de "Direita" àqueles que defendem o Capital como valor primordial de qualquer sociedade democrata. Observando a sociedade contemporânea, pouco resta a exigir das reivindicações trabalhistas que levaram à constituição do sistema socialista dos países do Leste Europeu, da China, de Cuba e de outros países que se alinhavam, até 1988, à antiga União Soviética. Seria a Democracia condicionada apenas ao sistema de livre mercado? Onde estaria, pois, a Ideologia, se o ideal humano sempre foi a liberdade ampla e irrestrita de pensamento?

Fato é que persistem na Inglaterra contemporânea a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes, denominações estas cunhadas no início do século XVIII. De modo análogo, a "direita" simbolizava os simpatizantes de Napoleão Bonaparte (e se sentavam à sua direita), enquanto à esquerda se colocavam os simpatizantes da Revolução Francesa. É, portanto, um anacronismo atribuir as expressões esquerda-direita às correntes ideológicas marxismo-capitalismo, até por que, nos dias atuais, todos os regimes se confundem nas práticas do capitalismo global. Esquerda e direita se tornaram símbolos de oposição política na Europa monarquista e em dias atuais.

À parte esses termos obsoletos, consideremos, então, os valores atribuídos a essas duas correntes do pensamento político no século XXI. Aqueles valores pregados por Karl Marx já não se aplicam ao mundo contemporâneo. Já não existem as minas de carvão e os sistemas escravagistas de produção nos moldes dos séculos XVIII e XIX. Muitas conquistas foram feitas pelos trabalhadores, reduzindo o desequilíbrio nas relações trabalhistas entre patrões (cada vez um conceito mais difuso e superado) e empregados (agora empoderados por complexas legislações que regulam essas relações).

Países tradicionalmente socialistas, como a Rússia, a China, os países da "Cortina de Ferro" na antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) extinta em 1988, o Vietnam, a Coréia do Norte e Cuba se adaptaram à economia de mercado para sobreviverem. A estatização da Economia mostrou-se um equívoco insustentável, assim como a estrutura burocratizante dos países socialistas soviéticos. Hoje, na China, existem filiais de símbolos do Capitalismo, como a rede de lanchonetes Mc Donalds, bem como diversas fábricas de procedência americana, japonesa e europeia, que se aproveitam dos baixos custos de mão-de-obra dos países socialistas, onde existes fortes subsídios para os trabalhadores, talvez a última herança dos regimes fechados do comunismo internacional, para reduzirem seus custos e aumentarem sua participação no mercado internacional.

No entanto, apesar dessa "customização" dos regimes socialistas, restam sobreviventes desse "ancient règime" as nações contemporâneas que insistem em afirmar sua divergência ideológica com as nações do ocidente, mais bem-sucedidas que aquelas cuja herança socialista se preservou no mundo oriental, como a Rússia (em permanente crise econômica), China (que, embora tenha se capitalizado, ainda preserva seu sistema de governo centralizador totalitário) e Coreia do Norte (igualmente uma tirania), que sobrevive de subsídios da China e da Rússia, que ainda teimam em afirmar seu regime herdado da Teoria Marxista-leninista. Lamentavelmente, as experiências socialistas dos últimos dois séculos se tornaram ditaduras violentas, conforme o conceito de "ditadura do proletariado", termo cunhado por Joseph Weydemeyer, e adotado por Marx e Engels. No entanto, essa ditadura nunca foi conduzida pelo proletariado, mas pela nova aristocracia dominante.

E como caracterizar diferentes correntes ideológicas do mundo contemporâneo, se a dicotomia esquerda-direita, socialismo-capitalismo, ou estado revolucionário versus democracia social fracassou? É preciso refletir sobre o tema sem paixão e sem radicalismos. A atitude revolucionária de transformar a sociedade em busca de sistemas igualitários permanece válida e atual. No entanto, é difícil dissociá-la das ideologias antigas, uma vez que os partidos de esquerda sempre reivindicam a pluralidade ideológica enquanto lutam pelo poder, mas imediatamente a rejeitam, ao assumi-lo.

O Socialismo Soviético apoia governos totalitários como o da Síria, fomentando a guerra fratricida, conforme sua práxis totalitária. Da mesma forma, a propalada "Democracia Americana" serve de cortina de fumaça para ocultar interesses escusos, negociações inconfessáveis e venda de armas e munições a países em conflito nas inúmeras guerras regionais que persistem no mundo atual, principalmente no Oriente Médio. Nessas relações contraditórias, prevalecem os interesses econômicos às razões humanitárias. Não existe solidariedade nem ideologia quando se trata de exercer o poder para se obter vantagens econômicas e militares neste xadrez político das nações.

As grandes potências mundiais, capitaneadas pelas coalizões Rússia-China (e seus "satélites" do Sudeste Asiático) versus Estados Unidos-Europa (principalmente França, Inglaterra e Alemanha), têm como força motriz de sua hegemonia hemisférica os interesses meramente econômicos e militares, esquecendo-se que o mundo carece de paz para sobreviver às grandes transformações climáticas e de escassez crescente de recursos naturais, agravada pelo crescimento populacional. Nessa guerra não declarada, os argumentos ideológicos deixam de ter significado, prevalecendo o poder econômico e militar sobre as questões humanitárias e de sobrevivência do ser humano na Terra. Nesse contexto de conflitos generalizados e não-ideológicos, quem perde é apenas a humanidade.

Diante do exposto, falar de Ideologia em um mundo imerso em disputas mesquinhas é fingir que qualquer das partes tem razão, enquanto o "outro" é sempre o culpado de todas as mazelas humanas. Enquanto isso, o relógio biológico da Terra se aproxima do instante fatal em que a escassez de água e de alimentos nos forçará a um sacrifício que todos temem imaginar: a população da Terra precisará se reduzir aos níveis de 1900 para poder capitalizar os benefícios do desenvolvimento científico e tecnológico e salvar o planeta. Haverá paz no mundo antes da hecatombe mundial? Teremos condições de ocupar novos planetas habitáveis antes que a Terra entre em colapso? Estaremos preparados para viver em paz e encontrar soluções para a superpopulação e a perda da biodiversidade de nosso mundo antes do minuto fatal? Certamente, a resposta a essa indagações é, pura e simplesmente, "Não!". A Terra não sobreviverá a tamanhos desperdícios e devastação!...

domingo, 11 de março de 2018

O CAOS E A PERFEIÇÃO



O que me encanta é o CAOS, não a Perfeição!

É no Caos que se manifesta a Perfeição do Universo, e sua Beleza inquestionável!!

A Desordem universal é que nos leva a acreditar na perenidade do Infinito!

O contraponto do Caos não é a Perfeição, mas a uniformidade monótona da criação humana… a linha reta, o círculo, o monocromático das paredes, as monoculturas e os jardins dos palácios imperiais, onde a Harmonia quebra a complexidade do Caos…

O que me assusta é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é o Imponderável, o Imprevisível, o Inesperado, o Desconhecido!

A vida sem o Caos é o oposto do Ser Criador: são as regras, as normas, a rotina dos escritórios, os horários determinados pelo relógio, o previsível e o uniforme…

O que me motiva é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Surpresa, o Despertar, a Descoberta, a Invenção, a Inovação permanente!

O mundo sem o Caos é uma sucessão de fatos corriqueiros, cotidianos, um arrastar do tempo sem a beleza incontestável da descoberta, um mundo monótono, inútil e vazio, onde predominam as regras e as leis humanas, em detrimento da desordem do Caos…

O que me apavora é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Escuridão, o Passo no Vazio, a Busca da Perfeição sem jamais atingi-la!

O homem sem o Caos é um ser amorfo, desprovido de sensibilidade, incapaz de discernir entre o Eterno e o trivial, entre a matéria e o Espírito, entre o Bem e o mal…

O que me move é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Mola Propulsora da Humanidade, a Força Interior de todo Ser Vivente!

Sem o Caos, o mundo permaneceria na Idade das Trevas! Mas, talvez essa teria sido a Maçã de Adão e Eva, o momento em que o Homem se diferenciou dos animais e se tornou Dono do Universo… talvez, nesse momento de inflexão, o Mundo tenha começado a definhar, a se acabar, a se autodestruir… e a Perfeição do Universo, transfigurada pelo Caos, tenha deixado de existir, nos impelindo a colocar Ordem na Natureza… talvez a verdadeira Ordem seja o Império do Caos, e o permanente desequilíbrio de forças no Universo seja sua Lei Maior que o mantém vivo e eterno…

quinta-feira, 8 de março de 2018

A EXISTÊNCIA DE DEUS

De onde viria a necessidade e o conceito de divindades dentre os homens? Por que precisamos de um Deus? Quais revelações ou reflexões filosóficas sustentariam a hipótese de uma existência após a morte apenas para os humanos da Terra? Para onde iríamos depois dessa vida terrena, tão generosa para poucos e tão injusta para a grande maioria dos seres viventes? Enfim, por que acreditar em DEUS, se nada nos permite comprovar a sua inútil existência? À expressão Cristã "DEUS CRIOU OS HOMENS À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA" eu contraponho a minha: "OS HOMENS CRIARAM SEUS DEUSES À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA"!



Zeus, o deus supremo do Olimpo, o céu dos gregos

Percorrendo os passos da evolução da Humanidade ao longo dos séculos, desde que nos diferenciamos de nossos semelhantes, os macacos, percebemos que o conceito de Deus está associado ao desconhecido, àquilo que não pode ser provado, às lacunas do nosso conhecimento que nos faziam sentir pavor dos elementos naturais nos primórdios da civilização, dos poderosos felinos, anfíbios e mamutes, na formação da sociedade humana, e dos espíritos dos mortos ao longo de toda nossa história terrena. As divindades eram concebidas conforme essas crendices, associando-as a seres híbridos de animas e humanos, como na Grécia, no Egito e na Índia, nos séculos que antecederam a vinda dos avatares, profetas e santos.



"Ganesha, deusa hindu, misto de elefante e mulher"



Thot, deus egipcio do Sol



Apolo, o deus da beleza, e suas ninfas apaixonadas

Porém, já no século XVI, período das "Grandes Navegações", com cerca de um milhão de anos da existência do "homo erectus", ainda vemos nossos antepassados acreditarem nos mares povoados de seres mitológicos, muito semelhantes àqueles das civilizações precoces, mistos de serpentes e pássaros, capazes de afundar toda uma frota de galeões e devorar seus marinheiros. Com sua imaginação povoada de seres fantásticos, não é de se estranhar que esses povos criassem suas divindades com poderes malévolos e espírito vingativo e cruel. Pois foi dessa herança fantasiosa que nossa civilização se formou, e as religiões se constituíram e prosperaram.



Monstros marinhos, seres fantásticos da mitologia europeia no final da Idade Média

Os indígenas, habitantes desse território chamado Brasil, assim como os povos da pré-história, construíram sua cosmogonia com base em fenômenos e entidades naturais, como o trovão (Tupã), a cobra-canoa (dos índios do alto rio Negro), os espíritos da floresta, como o Xapiripë dos Yanomami, que eram invocados através da inalação de um pó alucinógeno, produzido com yãkoãna, resina de casca de árvores, enquanto os Ashaninka, índios do Acre, usam o Ayahuásca, também alucinógeno, mistura da erva "chacrona" e do cipó "jagube", em suas cerimônias espirituais... vê-se nesses resíduos de civilizações tradicionais, que o arcabouço de crendices, mitos e lendas persistiu a cinco séculos de dominação e extermínio. Hoje, grande parte dos remanescentes das populações indígenas do continente se apegou a seitas evangélicas, que fazem de seu livro "sagrado" a literatura essencial para suas crendices e o alimento para seu espírito desconsolado.

Voltando à nossa indagação inicial, por que precisamos de um Deus, seja ele qual for, que tenha poderes inimagináveis, conhecimento absoluto do passado e do futuro, onipresença e domínio sobre todas as coisas, vivas ou inertes, existentes no Universo? Por que haveria um INÍCIO para esse tempo/espaço infinito? E, sendo infinito, por que haveria de ter início e FIM? De onde surgiu tal conceito de infinitude das coisas e relatividade do espaço-tempo? E por que nossos espíritos/almas deveriam ir para algum lugar depois da morte, onde só existiria bondade e compaixão, se na Terra onde vivemos o mal prevalece sobre as virtudes humanas, sempre favorecendo àqueles que só se valeram do mal para usufruir dos privilégios desse mundo pleno de injustiças? Por que esse DEUS, ao criar o Universo, não o povoou apenas com criaturas do bem, vivendo com a fartura desse Universo, sem sofrimento, dor, ambição ou pavor? O que foi feito do nosso Paraíso Perdido, do nosso "Shangrilá"?

Certamente, essa discussão é tão interminável quanto inútil... porém meus argumentos me são suficientes para acreditar que todas as vidas terão um fim inexorável, que o espírito humano é apenas ficção e se esvanecerá na eternidade do tempo, a dialética teológica não sobreviverá à curta existência do ser, e as palavras proferidas pelos homens se tornarão tão insignificantes quanto o imenso vazio que predomina nos espaços entre as infinitas estrelas que cintilam no Universo...

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Eleições 2018 - Forças antagônicas em disputa pela Presidência


Talvez os candidatos não sejam exatamente esses que se apresentam na imagem acima. Lula será, provavelmente, banido pela Lei da Ficha Limpa. Dória talvez não resista ao poder dos caciques do PSDB e não queira medir forças em outra agremiação partidária. Alckmin poderá não captar a simpatia das forças de direita e tenha que se conformar com a busca pelo Senado. Marina poderá dividir seu eleitorado com outro candidato, em uma chapa que a coloque como vice, por falta de apoio popular às suas causas ambientalistas. E o temível Centrão ainda poderá surpreender, trazendo Michel Temer como um assombro inusitado, ou ainda o inexpressivo Rodrigo Maia como candidato da maioria do Congresso atual.

Mas ainda poderá haver novas revelações, como as inacreditáveis candidaturas de Collor, de Joaquim Barbosa ou de outro "Salvador da Pátria", um general, talvez, para destronar o troglodita Bolsonaro de sua posição de defensor da Pátria. Essas incógnitas se resolverão nas próximas semanas, colocando um fim nas especulações que circulam pelas redes sociais, sempre famintas de furos de reportagem, e a mídia cada vez mais interativa das redes de televisão do país. De qualquer modo, ainda são prematuras as expectativas e sondagens que alvoroçam o meio político em busca de candidatos "bons de urna".

Mas qual será a balança política que determinará os destinos da Nação brasileira nos próximos quatro ou oito anos? Seria um viés ideológico, como aquele que levou o PT de Lula ao poder em 2002? Seria um sentimento de ufanismo patriótico anacrônico, como aquele que levou os militares a se aventurarem na pior "performance" de sua história no golpe de 1964? Seria o imaginário popular, agigantado pelo poder midiático da Rede Globo a criar um novo Sassá Mutema collorido, prometendo a caça aos novos marajás da república recauchutada pelo petismo inconsequente das últimas três décadas? Seria, enfim, o renascimento de um poder popular nascido das massas trabalhadoras, a resgatar o lulismo dos movimentos sociais, massacrados pelas denúncias de corrupção e safadeza?

Cabe-nos a missão de tentar interpretar esse momento político de forma mais especulativa, na falta de certezas daqueles que sobreviverão ao crivo das negociações nada republicanas, que antecedem todas as campanhas eleitorais nesse país das bananas. Por isso, partiremos das candidaturas agora reveladas, não nos esquecendo que algumas perecerão no caminho das urnas, assim como as tartaruguinhas são devoradas nas areias das praias antes de chegar à segurança das ondas do mar. Não sem um posicionamento ideológico, mas com a possível "isenção" de quem deseja um país mais digno, ético e competente, farei minhas considerações acerca do significado de cada um dos candidatos.

Partindo de Lula, provavelmente banido da cena política pelos próximos dez anos, pela condenação e pelos processos que advirão no decorrer deste ano, o que lhe resta é interferir na escolha de um nome que o represente nas eleições de 2018. Haddad ou Wagner, pouco importa, nenhum líder consegue transmitir seu carisma ao sucessor. A alguns já surgem as figuras de Hugo Chávez e Maduro, querendo contestar minha afirmação. Porém, Maduro jamais resistiria à comparação, não fosse a pressão das armas a mantê-lo no poder. Da mesma forma, Lula não passará seus votos para o candidato do PT, que sofrerá mais uma amarga derrota nas urnas, trazendo-o de volta ao patamar de 10 a 15% do eleitorado da década de 1980. Portanto, o PT não emplacará a Presidência.

Vamos ao execrável Boslsonaro. Sua candidatura terá o mérito de nos revelar o tamanho da súcia de adeptos que têm no Brasil os armamentistas anacrônicos, que tentam fazer desse país uma cópia miniaturizada do desprezível modelo norte-americano. Esse capitão aposentado não conseguirá superar o primeiro turno, mas nos dirá qual o tamanho da extrema direita no Brasil. Será uma informação importante para análises e ações futuras daqueles que desejam fazer, de nosso país, uma Nação verdadeira. Portanto, olhos abertos, atitudes firmes de combate à farsa desse candidato, e argumentos sólidos!

Vamos analisar a dupla João Dória e Alckmin, pois o destino de ambos depende de decisões que se manifestarão nos próximos 30 dias. Alckmin representa a Velha República. É um estilo de governar, um modelo de fazer política que se superou pela evolução dos tempos, ficando no passado. Não acredito que sua retórica e seus discursos inflamem as massas a ponto de levá-lo ao Planalto. Portanto, o PSDB terá que fazer o inusitado, que é DECIDIR. Esse partido vem se notabilizando pela inércia na tomada de decisões, e continuará assim. Mas Dória não é pessoa de se conformar com a mesmice, e procurará outras siglas para sustentá-lo, caso se concretize a posição fracassada de Alckmin na disputa pela Presidência. Não faltarão partidos interessados em sua candidatura.

Da mesma forma, analisaremos a dupla Marina Silva e Ciro Gomes. Ambos têm pouca coisa em comum, mas padecem do mesmo mal: não têm eleitorado suficiente para levá-los ao segundo turno. O partido de Marina é fraco de representatividade, e só poderá mantê-la candidata se conseguir novas alianças que não comprometam sua plataforma de governo. Marina talvez seja a única candidata a apresentar uma verdadeira plataforma eleitoral, pautada por novos paradigmas políticos, econômicos e sociais. O resto é apenas "mais do mesmo". Porém, Ambientalismo não repercute nas mídias oficiais e não consolida apoios do eleitorado capitalista. Portanto, Marina não passará para o segundo turno, a não ser que emplaque uma chapa com um candidato a vice-presidente com apoio empresarial. É aí que entra o velho Ciro Gomes, conhecido Desenvolvimentista sempre à procura de uma oportunidade para chegar à Presidência da República. Sozinho não representa nada, mas com Marina Silva talvez consiga postular até a Presidência. Essa negociação poderá mudar o destino do país e consolidar uma dupla capaz de motivar o eleitorado. A conferir.

O Centrão é a grande incógnita. Representado por miríades de políticos fisiológicos, capazes de vender sua própria alma ao Diabo para se manterem próximos ao poder, esses nanicos têm em sua coalizão a força de capitalizar votos, ainda que pelos meios mais sórdidos, como têm sido as eleições e o exercício do poder no Brasil da Nova República, desde que se desvencilhou dos grilhões da Ditadura Militar. O Centrão não gosta de candidaturas à Presidência. Assim como o MDB, prefere atrelar-se a presidentes depois de eleitos, para garantir maiorias nas votações do Congresso Nacional. Porém, isso mudou com Temer. Ninguém imaginaria que um político soturno, acostumado a agir nas sombras e nas catacumbas do poder em Brasília, Temer ressurge das cinzas (ou do caixão de Drácula) para se tornar presidente, justamente traindo sua parceira Dilma Rousseff para chegar ao Planalto. Com isso, "driblou toda zaga, e fez gol de letra" no impeachment de 2016.

É nesse "golpe de mestre" que se situa a incógnita das eleições: Temer conseguiu escapar (não ileso, tampouco ferido mortalmente) das armadilhas de Janot, postergando suas condenações para depois de entregar o poder. Daí inferir-se que Temer ambiciona continuar como inquilino do Jaburu e do Planalto, pois enquanto Presidente, terá as regalias do poder e a proteção da Lei para afastá-lo das grades da Papuda. E seu trunfo é a Intervenção Federal no governo do Rio de janeiro. Espertamente, envolveu as Forças Armadas em seu plano de poder, pois o fracasso da intervenção será a humilhação dos militares. Mas o sucesso da mesma será a pavimentação de seu caminho de volta ao poder. Portanto, cooptou para si o brio e o orgulho das forças militares!

E nas urnas, como se comportaria esse arremedo de vampiro? Ele teria, a priori, o apoio incondicional das populações massacradas pelos crimes de tráfico de drogas e armas da antiga capital federal. Quem não o apoiaria se vencesse a pior guerra do tráfico que o Brasil já enfrentou? Quem não reconheceria seu mérito se liquidasse com o crime organizado do Comando Vermelho se seus líderes fossem mortos ou trancafiados nas prisões federais? Quem não lhe estenderia o tapete vermelho dos votos para levá-lo de volta ao Palácio depois de tamanha façanha de acabar com a pior criminalidade do país? Certamente, Temer é um candidato possível, até provável, caso se saia bem dessa empreitada! Ele quebraria o atual equilíbrio de forças na disputa eleitoral, apenas com essa jogada magistral, e nenhum outro candidato sobreviveria na contenda de 2018.

Diante desse quadro provisório, só nos resta analisar as plataformas dos presidenciáveis. Afinal, especulações servem para posicionar candidatos, mas não se aplicam na decisão de cada um para escolher aquele que o represente na luta pelo poder. Voltemos, pois, aos competidores. Primeiramente, olhemos para Alckmin, certamente o mais experiente gestor público do Brasil, pela sua longa trajetória política em cargos executivos do Estado de São Paulo. Ele tem, como currículo, um estado bem administrado, com estradas de primeiro mundo, escolas bem equipadas e com bons professores, economia equilibrada, grandes investimentos em infraestrutura e a criminalidade com índices em evolução regressiva.

Dória é um paradoxo. Suas ações na curta gestão da maior cidade da América do Sul tem sdio pautada por ações espetaculosas, midiáticas e contraditórias. Porém, seu público o admira justamente pelo inusitado de seus atos, não pela sua eficiência. Dória vende a imagem de um novo estilo de governar, o que não significa ser um gestor competente. Porém, como aquilo que agrada não precisa ser aquilo que deveria ser feito, ele tem um bom desempenho nas urnas e poderia incomodar, pelo menos no primeiro turno. Dependendo do seu concorrente, no segundo turno poderá ser imbatível.

Bolsonaro é um candidato apenas de termômetro para entendermos melhor a dimensão política da extrema direita no Brasil. Porém, a fragmentação das candidaturas poderia levá-lo ao segundo turno e tornar a disputa um plebiscito entre as forças antagônicas dos extremos ideológicos do Brasil, com grandes possibilidades de vitória. Seria um risco imenso levá-lo para a decisão final. Assim como Trump, o psicopata norte-americano, Bolsonaro poderia levar o Brasil para um novo período de ditadura militar, de consequências imprevisíveis. Seja como for, esse indivíduo não teria a menor competência para governar.

Marina Silva precisa ser analisada sob dois enfoques: como presidente e como parceira de Ciro Gomes. A proposta de governo de Marina, ainda que incompleta e não divulgada pela imprensa, leva-nos a refletir acerca dos rumos de nossa Economia sob o atual modelo capitalista de produção intensiva de commodities. Esse modelo tem conduzido o país a uma armadilha do tempo. Durante muitos anos o resultado da balança comercial do Brasil tem sido sustentado pelo Agronegócio, e isso é inegável. Porém, o custo ambiental dessa opção econômica levará à escassez de recursos naturais em poucas décadas. O Brasil se posiciona, descaradamente, como o "celeiro do mundo", expressão cunhada nos tempos de Getúlio Vargas, e incensada pelos militares durante a ditadura de 1964-1985.

Ocorre que esse sucesso momentâneo tem um altíssimo preço, que será drasticamente cobrado da população brasileira e do resto do mundo. Outros países, como a China, a Indonésia e os Estados Unidos já trilharam esse mesmo caminho, e os resultados foram similares: perda de biodiversidade, empobrecimento do solo, uso indiscriminado de agrotóxicos para manter a produção e hegemonia econômica em detrimento de outras nações. A Indonésia nem usufruiu desse suposto "benefício", e submeteu seu próprio povo à escravidão para satisfazer a grandes multinacionais da indústria química e farmacêutica.

A proposta ambientalista está fundamentada em outros paradigmas, de uma economia sustentável e de boas práticas que não comprometem a vida no planeta. Poucos sabem disso, pois não interessa a ninguém proteger a Natureza. Porém, o destino da Humanidade está condicionado a mudanças nos modelos de produção, que nada têm a ver com capitalismo versus comunismo. A produção familiar, agroflorestal, sintrópica depende apenas de reduzir a ambição dos latifundiários e distribuir com justiça e igualdade as riquezas desse mundo. Embora se pareça com as propostas socialistas, nada tem a ver com aquilo que pregam os ideólogos marxistas, que veem na industrialização de base  o Grande Salto para o Futuro das novas civilizações socialistas. Isso existiu nos século XIX, quando Marx, Engels e outros filósofos conceberam seus modelos de sociedade.

Pois bem, Marina Silva tem uma proposta baseada na proteção do Meio Ambiente e das populações tradicionais. Sua visão de Sustentabilidade está marcada pelos paradigmas propostos nas reuniões mundiais de discussão das Mudanças Climáticas havidas durante as últimas quatro décadas, e suportadas por pesquisadores do clima e de todas as especialidades que dependem dos recursos naturais para sobreviver. Em anos subsequentes, novas discussões e reuniões trouxeram à baila o assunto de desenvolvimento sustentável, cada vez mais embasado por pesquisadores que admitiam que as transformações climáticas eram consequência das ações antrópicas.

Cito abaixo quatro marcos fundamentais para reversão das mudanças climáticas:

1992 - Conferencia sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, UNCED, Rio/92 - Criação da Agenda 21. Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis

2002 - Em dezembro, a Assembléia Geral das Nações Unidas, durante sua 57ª sessão, estabeleceu a Resolução nº 254, declarando 2005 como o início da Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável, depositando na Unesco a responsabilidade pela implementação da iniciativa.

2007 - Protocolo de Kyoto: Países se comprometeram a reduzir emissão de gases. O Protocolo de Kyoto é um acordo internacional entre os países integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU), firmado com o objetivo de se reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa e o consequente aquecimento global. (22 de mai de 2007)

2012 - Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, foi realizada de 13 a 22 de junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro

Curiosamente, o Brasil se engajou nesses projetos, mas, justamente em 2012, durante a Conferência Rio + 20, Dilma Rousseff assinou o decreto que homologava as mudanças do Código Florestal que colocavam em risco de morte os Biomas Brasileiros. Depois dessa mudança jurídica, a devastação da Amazônia, do Cerrado e demais biomas se tornaram cada vez mais dramáticas e devastadoras, dando total respaldo ao agronegócio e aos latifundiários para acabar de vez com nossas florestas, cursos d´água e vida animal, não apenas em áreas ainda não exploradas, mas também dentro de reservas indígenas e em unidades de conservação federais e estaduais. Foi o início do fim dos biomas brasileiros.

Cito mais um quinto acordo, mais recente (de 2015), de fundamental importância para a redução das emissões de carbono na Natureza: o Acordo de Paris. Na 21ª Conferência das Partes (COP21) da UNFCCC, em Paris, foi adotado um novo acordo com o objetivo central de fortalecer a resposta global à ameaça da mudança do clima e de reforçar a capacidade dos países para lidar com os impactos decorrentes dessas mudanças.

O Acordo de Paris foi aprovado pelos 195 países Parte da UNFCCC para reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) no contexto do desenvolvimento sustentável. O compromisso ocorre no sentido de manter o aumento da temperatura média global em bem menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais e de envidar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

Para que comece a vigorar, necessita da ratificação de pelo menos 55 países responsáveis por 55% das emissões de GEE. O secretário-geral da ONU, numa cerimônia em Nova York, no dia 22 de abril de 2016, abriu o período para assinatura oficial do acordo, pelos países signatários. Este período se encerrou em 21 de abril de 2017.

Infelizmente, com a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, esse acordo se tornou seriamente ameaçado, comprometendo quase uma década de negociações e reformulações durante os dois governos de Barack Obama.

Nenhum outro candidato à Presidência do Brasil, além de Marina Silva, defende esses princípios e esses valores fundamentais para a sustentabilidade sócio-econômico-ambiental. Por que será? A quem mais interessa a destruição de nossas riquezas naturais? Por que privilegiar os grandes latifúndios senão para aumentar a concentração de rendas e riquezas nas mãos de tão poucos empresários? Por que a Rede Globo e outras grandes redes de comunicação apoiam esse processo de devastação nacional?

Espero que minhas considerações colaborem com a reflexão a respeito das alternativas de poder que, certamente, determinarão o futuro de nossa Nação e da própria Humanidade. O Brasil detém cerca de 12% de toda biodiversidade do planeta. Toda política que ameace esses ecossistemas estará ameaçando a própria existência humana na Terra. Portanto, as escolhas feitas nesta e nas próximas eleições terão consequências imprevisíveis para a sobrevivência do ser humano e das próximas gerações. Infelizmente, tenho pregado inutilmente... "pérolas aos porcos", como dizia o Profeta. Nada mais posso fazer senão proferir meus discursos para aqueles que têm "ouvidos moucos" para a Verdade...

Caberá a cada um dos brasileiros, nas urnas e em sua consciência, tomar a decisão final.