sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Carta Aberta ao Ministro da Justiça

Brasília, 09 de dezembro de 2016

Excelentíssimo Senhor Ministro da Justiça
Dr. Alexandre de Morais

Prezado Senhor

Na qualidade de cidadão brasileiro, servidor público federal e indigenista, venho a declarar meus sentimentos acerca de informações que circulam pelos meios sociais, pela imprensa e pelos corredores da Fundação Nacional do Índio, onde, com muito orgulho, trabalho desde 2010 como agente em indigenismo.

Nesses pouco mais de seis anos de dedicação exclusiva à causa indígena, já fui Coordenador Regional do Alto Rio Negro, por um ano, especialista em geoprocessamento, por quatro anos, e servidor da Coordenação Regional do Sul da Bahia. Participei da extrusão de invasores de terras indígenas no Mato Grosso (Marãiwatsédé, etnia Xavante) e no Maranhão (AWA, etnia Awa-Guaja)). Também participei de diversas ações de fiscalização, Gestão Ambiental e Ccapacitação indígenas nas terras Trincheira Bacajá, etnia Mebengokrê, mais conhecida como Kayapó (Pará), Arariboia, etnia Guajajara (Maranhão), Waimiri-Atroari, etnia Kinja (Amazonas) e Povos Isolados da terra indígena Massaco (Rondônia).

Posso, desta feita, afirmar que, apesar de meus poucos anos de vivência com populações indígenas, tenho um envolvimento absoluto com suas tradições, suas crenças e sua identidade cultural, indissoluvelmente mesclada à cultura e civilização da Nação Brasileira. Impossível se pensar o Brasil sem as suas mais de 300 etnias, mais de 600 terras indígenas, mais de 200 línguas e variações, sua riqueza étnica e cultural sem paralelo no mundo!

A FUNAI, Fundação Nacional do Índio foi fundada em 5 de dezembro de 1967, portanto há quase meio século! Sucedeu ao SPI, Serviço de Proteção ao Índio, criado em 20 de junho de 1910, portanto, há 106 anos! Ambas as instituições, com todas as suas falhas e mazelas, foram as escolas do Indigenismo Brasileiro, e dentro de seus quadros teve o orgulho de possuir grandes e valorosos sertanistas, indigenistas e servidores que deram até mesmo suas vidas para defender esses povos naturais da Terra Brasiliensis.

Hoje, diante dessa História de lutas e de sofrimentos desse povo, massacrado pelas sucessivas ondas de preconceitos e ambições desmesuradas, vemos ameaçada a sua existência, por uma decisão inaceitável, inadmissível, injustificável! O Patrimônio Indígena não pode ser dissociado da existência da FUNAI. Os povos indígenas, extremamente vulneráveis em sua situação de isolamento, principalmente na Amazônia, mas também dentro de nossa sociedade, não pode prescindir da nossa instituição para resistir à ação predatória do entorno e do interior de suas terras: extração de madeira, caça de animais selvagens, garimpo, incêndios criminosos, tráfico de drogas, inclusive bebida alcoólica, prostituição, aliciamento ao crime organizado, entre tantas outras ameaças constantes.

Diante do exposto, solicito que tal decisão, se de fato existe, seja mais debatida com a Sociedade, com os especialistas em povos indígenas, com os servidores da FUNAI, com as ONG´s e associações indígenas e com todos aqueles que sabem, mais do que ninguém, a importância, o valor e a riqueza que representam, para a Nação Brasileira, os nossos Povos Indígenas! Caso a FUNAI seja mutilada e esfacelada, sua existência estará profundamente ameaçada, como nunca foi até hoje, apesar de todos os processos de matança e de genocídio a que foram submetidos durante os mais de 500 anos de formação do Brasil.

Na expectativa de que o Bom Senso e a Justiça prevaleçam, subscrevo-me, respeitosamente,

João Carlos Figueiredo
Agente em Indigenismo (SIAPE Nº 1818218)
Fundação Nacional do Índio
(61) 99812-5193 – (61) 3247-7041

Protocolo na Ouvidoria do Ministério da Justiça: 122160

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

OS EQUÍVOCOS DA ESQUERDA BRASILEIRA

Desde a transição democrática de 1985, quando os generais deixaram o Palácio do Planalto, as esquerdas lutaram para conquistar o poder, fazendo crer à Nação que eles tinham um projeto de governo. Foram várias tentativas, que só terminaram por dar certo porque o neoliberalismo de Fernando Henrique sepultou de vez a ideia de que era possível unir a intelectualidade nacional em torno de um nome respeitável. FHC traiu o pensamento socialista! Mas também só deu certo porque Sarney, Collor e Itamar fizeram tamanha confusão no país que o povo até acreditou que um sindicalista poderia cuidar da Nação com mais competência.

Os planos econômicos que tentaram colocar nossa Economia nos eixos foram um tremendo desastre! Uma sucessão de projetos mirabolantes que acabaram por derrubar o presidente Collor, envolvido até o pescoço em denúncias de corrupção, e até um episódio de conspiração capitaneado pelo seu superministro PC Farias, que acabou sendo assassinado ao lado de sua amante. Parece enredo de romance policial, mas é a pura realidade tupiniquim! FHC teve a sorte de entrar quando todas as tentativas esdrúxulas já tinham sido tentadas e... fracassado! Até Zélia Cardoso de Mello (parece que todos eram de Mello...) pisou na bola e sequestrou a poupança e o faturamento de todas as empresas. Supermercado e posto de gasolina viraram agência bancária pela falta de liquidez dos ativos financeiros...

FHC cometeu muitos erros, mas teve o bom-senso de cuidar da Economia da mesma maneira que cuidamos de nosso orçamento doméstico, ou seja, promulgando uma lei onde só se podia gastar o que se tivesse arrecadado. Lei óbvia, mas funcionou! E ficou sendo conhecida como a Lei de Responsabilidade Fiscal que, depois, os governos do PeTê cuidaram de desmoralizar e tudo voltou a ser como antes no quartel de Abrantes! Passou-se a gastar irresponsavelmente, até que o Brasil implodiu! As "belas" políticas públicas que tornaram o partido idolatrado, salve salve!, mostraram que eram apenas bolhas assassinas, prestes a explodir, como o fizeram depois da reeleição da gerentona do PAC, na maior fraude eleitoral de nossa História! Sim, porque, "nunca, na história desse país", ninguém roubou tanto, e tão descaradamente como o PeTê e sua gang de malfeitores!

Mas eles venderam bem o seu peixe, e durante anos conseguiram ludibriar não apenas o rebanho de cordeirinhos beneficiados pelo Bolsa Família, mas também boa parte do empresariado, iludido por medidas protecionistas voltadas a disfarçar a tremenda crise econômica, social e política que se avizinhava! O que não se esperava é que houvesse uma rebelião sendo engendrada nos calabouços do próprio governo: a turma da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal estava planejando uma enorme operação que marcaria para sempre a História do Brasil depois de Cabral: a Operação Lava Jato! De repente, um bando de delatores entregou o ouro, a prata e todos os tesouros guardados a sete chaves no Palácio da Alvorada! E o Brasil, finalmente, despertou!

Os escândalos da Petrobrás eram apenas a ponta do iceberg do que havia sob aquela superfície onírica da esquerda brasileira, encantada consigo mesma, imaginando-se invencível e acreditando que o Brasil, enfim, se tornara a Pátria Livre do Comunismo Tupiniquim! Aqueles que estavam por trás de Lula, e que fizeram crer a todos que Lula era, de fato, um gênio que governava apenas com sua cabeça e com suas ideias magistrais, de repente viram que o feiticeiro dera o golpe nas esquerdas e colocara uma tresloucada no poder, capaz de bagunçar todo o esquema montado para captar propinas e financiar o partido dos trabalhadores.

Dilma caiu por incompetência própria, mas teve o mérito de desvendar o mistério que envolvia o poder do caudilho Lula: ela derrotou seu próprio criador, e abriu caminho para o "golpe" do impeachment! Sim, devemos a Dilma e seu séquito de brancaleones a estupidez de "quebrar o encanto" da "intelectualidade socialista" do Brasil! Não fosse ela e o poder ainda seria deles, articulando teorias conspiratórias contra a infeliz direita, que nem líderes competentes o suficiente possui para afrontar a fúria dos sindicatos pelegos e a verborragia dos teóricos dos partidos comunistas travestidos em "democratas"!

Onde foi que o PeTê errou? Em que momento o partido se esfacelou e deixou que o segredo, guardado a sete chaves, fosse desvendado e tornado público para a população estarrecida? De repente, por um simples passe de mágica, o espelho se quebrou e revelou a verdadeira face de Dorian Gray: o partido envelhecera e fora incapaz de admitir sua caquética figura! Os planos de governo mostraram-se falsos, as políticas públicas "socialistas" evidenciaram sua pior face de neo-capitalistas atrelados às oligarquias centenárias do agronegócio! A realidade se desnudou na frente do espelho, mas este era transparente e o rei estava exposto à opinião pública! Suas "vergonhas" foram, afinal, apresentadas ao povo enrubescido pela vergonha!

E o que restou de verdadeiro desses 14 anos de história?

Os movimentos sociais foram, de fato, empoderados! Uma nova classe de lideranças populares aprendeu a reivindicar seus direitos, enfrentando a aristocracia neo-colonial. Os indicadores sociais melhoraram, estimulados pela oportunidade que se abrira na Economia mundial. O emprego cresceu durante 12 anos, assim como a renda média do brasileiro. O Brasil avançou entre os países dos BRICS, tornando-se uma respeitável liderança no contexto internacional. Porém, bastaram dois anos de completa desorganização política, econômica e social para se perderem todas essas conquistas, "vitórias de Pirro" desmascaradas pela insensatez de uma única governante! O "golpe" estava preparado! De um Congresso corrupto e desmoralizado surgiram os arautos da "revolução desarmada"! Um líder sem caráter conduziu esse processo, tornando-se vítima de sua própria arrogância...

Hoje podemos dizer que não houve vencedores. Quem ficou com a coroa também está "marcado para morrer", denunciado pelos mesmos crimes que cometeram os antigos "donos do poder"! Agora, esses esfarrapados "vencedores" se arrastam pelos corredores do Congresso, tentando articular uma trégua imoral como aquela dos "inocentes" dos mesmos pecados, pelos quais condenaram o PeTê: corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influências, formação de quadrilhas, enriquecimento ilícito e abuso de poder!

Mas a questão que se oferece à análise é outra: existiu de fato uma "esquerda" no poder? Quem foram os ideólogos que sacrificaram o líder sindical em nome de uma revolução cultural à brasileira? O que queriam esses conspiradores? Ainda podemos tratar a Política, em sua mais "nobre" acepção, como um dualismo esquerda-direita, como era compartilhado o poder na Revolução Francesa do século XVIII? Faz sentido essa dicotomia, ou estamos apenas lidando com uma figura de linguagem, sem ressonância ou embasamento teórico em um mundo em transformação, em que a dualidade é pobre e desprovida de inteligência?

A Ideologia, afinal, acabou?

A dinâmica social, a diversidade e a complexidade das forças políticas que interagem nessa arena do século XXI ainda permitiriam se lidar com o poder na forma que este se apresenta para o mundo dito "civilizado"? Quais seriam as principais demandas da população mundial, ameaçada pela fome, pela seca, pela exaustão dos seus recursos naturais e por um fenômeno ainda controverso chamado simplesmente de "Mudanças Climáticas"? Faz sentido lutar por um poder central quando o mundo se dispersa na diversidade de produtos, conceitos, utopias, realismos fantásticos e tecnologia avassaladora que nos comprime contra as dobras do tempo?

O mundo enfrenta, provavelmente, sua crise mais radical: a superpopulação versus a escassez de recursos. Hordas de migrantes percorrem a Europa, fugindo de uma guerra que ninguém quer, mas todos alimentam, por ódio, por vaidade, por poder, por vingança não se sabe contra o que, ou contra quem, tornando a vida, no Velho Continente, insuportável e contraditória... mata-se por nada, morre-se sem saber por que, vive-se pela simples necessidade de sobrevivência, justamente na porção mais intelectualizada e mais rica de conhecimentos que a civilização humana já produziu. O terrorismo tomou feições incontroláveis...

E ainda temos a audácia de discutir IDEOLOGIAS?

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

REIS DO AGRONEGÓCIO


Encontrei, finalmente, alguém que representa a minha voz e a minha ideologia! Sim, porque aquilo em que eu acredito é na VIDA! na NATUREZA! na JUSTIÇA! na HUMANIDADE (mas não essa, do #agronegócio)! Precisamos parar os #latifundiários antes que eles acabem com o mundo! Chico César diz, em sua mensagem lírica, aquilo que eu apregoo há tantos anos, falando no deserto, para surdos, para pessoas que não são capazes de refletir antes de aprovar! Que batem palmas para a #REDEGLOBO e suas mentiras! Se o mundo caminha para o caos, para a fome e a sede, se a humanidade segue pelos pés dos retirantes das secas e das guerras, a culpa é, certamente, daqueles que se apropriam do que é do mundo, sem piedade pelos exilados do extremo oriente e da África... Lamentavelmente, o povo, essa horda de acéfalos paralíticos, somente se aperceberá da realidade quando já não mais houver saída.

ESTE SERÁ, DORAVANTE, O MEU HINO!


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Produção do livro "Meu Velho Chico"



Crowdfunding é uma iniciativa fantástica, democrática e justa de se viabilizar um projeto sem ter que depender de um governo ou de grandes empresas. Quem financia o projeto são nossos amigos e familiares, que conhecem o nosso trabalho e o compromisso que temos com as causas que defendemos.

Como vocês sabem, minhas causas são o AMBIENTALISMO e os POVOS INDÍGENAS! E nada mais coerente e compatível com essas causas do que a EXPEDIÇÃO que realizei em 2009 pelo rio SÃO FRANCISCO!

Meu livro relata justamente os problemas que esse fantástico rio enfrenta diante da devastação cada vez mais intensa, provocada pela exploração descontrolada de nossos recursos naturais, seja pelo desmatamento de suas margens, pelas hidrelétricas mal planejadas, e agora pela transposição de suas águas, irresponsavelmente construída numa das piores crises hídricas que o Velho Chico está sofrendo. Mas o livro fala também de um povo encantador, hospitaleiro e simples, que me acolheu em suas casas, generosamente, sem sequer me conhecer! Jamais me esquecerei dessa gente humilde e pura!

E é a essa generosidade que eu agora recorro, a vocês que me acompanham aqui, em minhas manifestações, sinceras e emocionadas, para viabilizar o meu projeto! A cada doação acima de 100 reais, sendo publicado o livro, enviarei um exemplar autografado como retribuição. Para que isso seja possível, ao efetuar a doação, não se esqueçam de preencher todos os dados de identificação, principalmente seu nome, telefone e endereço completo.

Hoje é o segundo dia de campanha. Eu e Armando Gonçalves Junior fomos os únicos canoeiros a percorrer toda extensão do rio São Francisco, da nascente até a foz, um percurso de 2.700 quilômetros. Mas não é apenas o aspecto de aventura que nos motivou, embora tenha sido a maior aventura de minha vida. Foi a grandiosidade do rio, a diversidade cultural dos povos ribeirinhos, a gravidade dos conflitos fundiários e a tristeza de ver esse gigante agonizando diante da falta de ações governamentais efetivas para sua revitalização!

Hoje, o que me motiva a perseverar na publicação do meu livro é saber que precisamos mobilizar a opinião pública, conscientizando a todos sobre a necessidade inadiável de preservação da natureza. No livro, eu relato minha visão desse rio mágico e inesquecível e sua população generosa e carente de atenção do Estado brasileiro... A novela "Velho Chico" mostra essa realidade de forma romanceada, mas eu estive lá! Vivi cem dias remando em suas águas! Convivi com os ribeirinhos! Dormi em suas casas e me alimentei de sua comida e de suas histórias! Senti na pele e na carne os seus problemas!

É disso que falo em meu livro! É para tornar público o meu relato que peço a ajuda de vocês! Colaborem com meu projeto doando qualquer quantia, pois tenho certeza que é para uma causa nobre. Não quero ganhar dinheiro com a publicação do livro, mas apenas levar adiante a palavra de um povo sofrido e oprimido por grandes latifundiários e pelas obras irresponsáveis de tantos governos corruptos que se aproveitam da miséria dessa gente para se enriquecer desonestamente!

É meu compromisso doar cada centavo que eventualmente ganhar com o livro para as populações ribeirinhas! Ao término dessa jornada levarei pessoalmente três exemplares para cada comunidade que me acolheu! Entregarei a cada um minha mensagem de esperança, que terá sido construída com a ajuda de todos vocês! Serei grato a todos que colaborarem com essa missão!


Para fazer sua doação, clique aqui: 
Expedição "Meu Velho Chico" - campanha para publicação do livro
  

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O Ocaso das Esquerdas e do PT

O Partido dos Trabalhadores (PT) é um partido político brasileiro, fundado em 1980, e integra um dos maiores e mais importantes movimentos de esquerda da América Latina. No início de 2015, o partido contava com 1,59 milhão de filiados, sendo o segundo maior partido político do Brasil, depois do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), com 2,35 milhão filiados. É o maior partido na Câmara dos Deputados. [fonte: Wikipedia]

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Quando surgiu, em 1980, o PT representava a Mudança de Paradigma pela qual toda juventude socialista brasileira se mobilizava, tanto sob o ponto de vista ideológico, como político e ético. Estávamos em plena ditadura militar, já em processo de dissolução, abalada pelos próprios métodos de combate aos movimentos de esquerda, sobreviventes da forte repressão política dos anos 1964-1975, denominados "Anos de Chumbo" devido às torturas e assassinatos promovidos pelas forças militares, que acreditavam ser donas de toda verdade que existia nesse mundo, dentro e fora das casernas.
Muitas foram as lutas e os debates que cercaram a formação desse partido emergente, ora sem uma ideologia declarada, ora de extrema esquerda, o que se evidenciou, com o tempo, nas diferentes correntes ideológicas que se formaram em seu interior, caracterizando a "democracia" do partido em todas as suas fases posteriores. Na verdade, o PT nunca participou da luta armada contra a ditadura militar, e nem mesmo Lula teve uma posição ideológica definida durante sua vida política como líder sindical. Poderíamos dizer que a ideologia se infiltrou no PT para ganhar as eleições.
A esquerda brasileira se desintegrou ao longo desse processo, formando diversos partidos políticos, como o PCB de Luiz Carlos Prestes, o PCdoB de João Amazonas, o PSTU, o PCO e o PSOL. Outros se alinharam ao modelo europeu da Social Democracia, porém sem que a ideologia socialista fosse determinante em sua ação político-partidária, como é o caso do PSB, do PDT, do PPS e do PSDB, cujas lideranças surgiram à esquerda, mas migraram para o centro ao longo de sua história.
O Brasil nunca foi socialista, nem mesmo durante o auge dos governos petistas recentes. Isso se deve ao fato de a consciência político-ideológica do povo brasileiro ser fraca e desprovida de fundamentos teóricos. O apoio conquistado pelo PT no primeiro governo Lula foi decorrente de sua característica populista, sua linguagem simplória e os programas assistencialistas consolidados em sua primeira gestão de 2003-2006, o que lhe rendeu projeção mundial.
Ocorre que esses programas de "distribuição de renda" não modificaram o status da população miserável do país, pois não eram estruturantes e não permitiram a ascensão dessas pessoas "beneficiadas" para classes sociais auto-sustentáveis e estabilizadas como mão de obra produtiva. Eram apenas "bolsas de misericórdia", na medida em que distribuíam "benefícios" em troca de coisa nenhuma, nem mesmo a obrigatoriedade de capacitação para o trabalho.
Ao final de seu segundo mandato, no entanto, Lula, entusiasmado com a fama adquirida no Brasil e no mundo, acreditou ter se tornado imbatível e insubstituível no cenário político nacional. Lançou dois candidatos sucessivos e conceitualmente "improváveis": Dilma, à presidência da república, e Haddad à prefeitura de São Paulo. Ambos venceram as eleições, não por mérito próprio, pois se tratavam de figuras desconhecidas e despreparadas para o poder, mas por terem surgido à sombra do "grande líder populista" que era Lula! Ambos cometeram os piores erros administrativos atuando no poder.
Dilma, porém, não aceitou viver na sombra de seu criador, e tentou formar imagem própria como dirigente máximo do país. No entanto, as "marolas" da grande crise econômica mundial logo se tornaram "tsunamis" nas praias brasileiras, inundando os porões da nossa Economia. Ao invés dos instrumentos tradicionais de proteção, embasados nos fundamentos econômicos, Dilma e seu ministro Mantega decidiram inovar, seguindo o "mestre" Lula, e acreditando que o consumo interno garantiria a indústria nacional. Para estimular a produção e o consumo interno, Dilma reduziu juros, concedeu subsídios, baixou tarifas e impostos, desorganizando definitivamente o equilíbrio fiscal e as contas públicas.
O resto da história é de domínio público. O que não se discute, no entanto, é onde estaria a ideologia marxista nessa história toda, pois ela não existe! As bases ideológicas dos governos petistas não estavam na estatização da Economia, na Infraestrutura ou na Superestrutura, conforme concebidos por Marx e Engels, mas sim no populismo fanático de seus seguidores, no aparelhamento do Estado através dos movimentos sindicais e de seu peleguismo histórico. Esse aparelhamento compreendeu o inchaço da máquina administrativa através de sucessivos concursos públicos e da contratação de mais de cem mil funcionários em cargos de confiança (DAS - Direção e Assessoramento Superior), desprezando os servidores concursados, que não tiveram acesso a cargos de chefia.
O custo da máquina pública cresceu exponencialmente, enquanto a arrecadação de impostos despencava e a indústria desabava pela competição desigual com produtos importados. O Brasil entrava em processo de entropia, não por incapacidade da iniciativa privada, mas por incompetência do Estado em gerir as constas públicas e em estimular a Economia. Os seis anos seguintes de Dilma no poder foram catastróficos. Se tudo isso não bastasse, a imagem do PT como partido "Ético" se desfazia nos escândalos da corrupção. Inicialmente, o Mensalão expôs as entranhas de um partido que se sustentava nas propinas extorquidas de empresários igualmente corruptos. Depois, muito mais avassalador, veio o Petrolão e seus desdobramentos em quase todas as obras públicas de vulto em construção no pais, como as Usinas Hidrelétricas, as Refinarias de Petróleo, a Transposição do Rio São Francisco, tudo isso em meio à maior crise do petróleo em escala mundial, que levou a Petrobras à bancarrota e à humilhação internacional.
As eleições de 2014 se mostraram a maior farsa eleitoral de nossa história, colocando antigas práticas eleitoreiras em nível infantil se comparadas aos absurdos da manipulação da consciência coletiva perpetrados pelo PT e seus aliados. Na verdade, por trás de um falso idealismo, havia um poderoso esquema de corrupção e enriquecimento ilícito de todas as lideranças políticas e empresariais do Brasil, centradas no PT, no PP e no PMDB, mas irradiando-se pelas demais legendas.
Hoje, podemos afirmar que nenhum político pode ser considerado "inocente" nesse escândalo que ainda está em processo de levantamento da extensão dos danos que causou ao país. Ninguém se atreve a especular, sequer, onde terminará a "Operação Lava Jato", pelo simples fato de nem mesmo a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça Federal saberem onde vai dar esse poço de lama e podridão! E onde está a IDEOLOGIA? Por que, então, esses partidos ditos de ESQUERDA, capitaneados pelo PT e pelo PCdoB, afirmam ser GOLPE o IMPEACHMENT que se anuncia, inevitavelmente?
Muito além da ideologia, o que move esses marionetes da política nacional é a necessidade de sobrevivência e a tentativa de barrar as investigações antes que seja tarde demais. Esse é o VERDADEIRO GOLPE que está sendo praticado contra as instituições brasileiras! Até porque não faz sentido se falar mais em IDEOLOGIA nos tempos modernos. O conceito anacrônico de ESQUERDA e DIREITA não cabe mais no entendimento político-ideológico! O que seria, afinal, a esquerda? Com relação a que se poderia chamar "esquerda" ou "direita" a posição ideológica de cada parlamentar? Não estamos nas cortes do século XVIII, antes da Revolução Francesa! Não temos a Câmara dos Lordes e dos Comuns em nosso Parlamento!
A Humanidade precisa repensar suas ideologias para o momento atual, contemporâneo, sem os vícios e preconceitos dos Impérios, dos Burgos medievais, das Cortes Reais europeias! Estamos no Brasil, não temos as tradições imperiais nem vivemos o feudalismo, embora tenhamos herdado suas piores "habilidades"! É preciso reconstruir conceitos e estruturas de poder para que, daqui a vinte anos ou mais, uma nova Nação se recomponha dos escândalos da contemporaneidade...


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A Formação do Ser Humano

O grande desafio da contemporaneidade talvez seja construir o ser humano em dias tão conturbados e desprovidos de parâmetros orientadores. Em passado não muito distante, valores, princípios e moral eram critérios adequados para se construir a personalidade de um indivíduo. Hoje, talvez, nem mesmo o sentido dessas palavras seja conhecido.

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Educar é uma tarefa para poucos, mas em uma sociedade de sete bilhões de seres, não se pode pensar em individualismos. No entanto, não se constrói uma personalidade coletivamente. Cada pessoa é moldada por exemplos, oportunidades criadas e metodologia pedagógica. Talvez por isso o fracasso das novas gerações seja tão amplo e evidente. O mundo, tal como o vemos hoje, não seria um bom exemplo de sucesso coletivo para se espelhar pelas gerações futuras.
Mas o que digo? Que fracassamos? Que o mundo contemporâneo não é bom? Sim, exatamente isso. Os exemplos são fartos e abrangentes. Nunca o ser humano, vivendo em grupos, foi tão solitário. Conceitos de família perderam, de certo modo, o sentido, uma vez que os laços que aproximam as pessoas não são estabelecidos pelas necessidades de procriação e de formação de vínculos permanentes. Homens e mulheres interagem por sexo, não por amor.
Os recursos tecnológicos criaram barreiras quase intransponíveis entre pessoas, mesmo dentro de um núcleo "familiar". Os horários de aproximação já não fazem sentido, e o contato humano perdeu significado. Falamos e nos relacionamos por meio da tecnologia, e a afetividade derivou para outros "objetos" do mundo sensível, como animais de estimação. Isso, de certo modo, explica que o relacionamento entre "casais" se tornou sexual, sensorial, até mesmo "bestial".
Uma criança é coberta de atenções, como no passado. Mas seus interesses mudaram muito, assim como suas exigências. Não existe mais o afeto e o respeito entre adultos e crianças, que se tornaram símbolos de prepotência e dominação. Por isso, as crianças não aceitam mais a supremacia do adulto, e rejeitam sua autoridade. E isso ocorre no interior das "famílias", nas salas de aula e até mesmo no trabalho, tornando o processo de educar e formar muito mais complexo.
Os pais e as mães já não são mais a fonte do conhecimento, da sabedoria, da orientação pedagógica. Foram substituídos pelos meios de comunicação, sem censuras, e pelos recursos tecnológicos, que dominam o ambiente doméstico. Já nem se pode falar em "conflitos de geração", pois não se trata disso, pelo menos como o conhecíamos meio século atrás. Trata-se da "liberdade de aprender" sem o auxílio de um "mestre", de se educar em lugar de ser educado.
No entanto, essa liberdade extrema criou lacunas no aprendizado, pois a vontade de aprender já não motiva os jovens. Tudo está no "Oráculo tecnológico"! Não existem mais enciclopédias, os livros se tornaram obsoletos, a sabedoria dos adultos virou assunto sem importância, assim como os próprios idosos se tornaram incômodos dentro das famílias. A "educação", em seu sentido de respeito, desapareceu completamente, assim como a hierarquia.
O que virá depois disso ainda não se sabe, pois os próprios processos didático-pedagógicos estão sendo questionados pela sociedade, da mesma forma que os parâmetros curriculares. Uma espécie de estado anárquico tomou conta do processo educativo, restringindo o papel do professor, assim como a função dos pais se tornou questionável. Crianças de dois anos já afrontam a autoridade materna e paterna, exigindo que seus "direitos" sejam respeitados.
Ocorre que todas as sociedades humanas, animais, vegetais, são regidas por padrões de comportamento, por regras, por leis, por conformidades com aquilo que se padronizou chamar de "contrato social", os padrões tolerados por uma comunidade, seja ela qual for, para que os conflitos fossem solucionados de maneira pacífica e ordenada. Sem essas normas, não há convivência possível e, pior, não há desenvolvimento viável...
Para onde caminha a Humanidade? Qual será seu destino diante de tais transformações? A cada dia novas regras são abolidas em nome da "liberdade de expressão e de vivência". A cada dia se torna mais difícil a convivência entre pessoas, seja elas familiares, sejam vizinhanças, sejam no trabalho ou mesmo nas ruas. A violência urbana é fruto dessa "tolerância máxima", pois cada um pode se expressar como quer, sem risco de represálias.
A Formação do Ser Humano, assim como a dos animais e das plantas, obedece a um processo natural, lógico, racional, coerente, que deve seguir um curso onde a liberdade se concede aos poucos pelos que educam. Todas as sociedades que se permitiram a luxúria de conceder a liberdade plena antes que seus membros estivessem preparados, feneceram, pereceram, definharam, entraram em um processo de entropia, como as grandes civilizações do passado.
Educar não é dar a liberdade prematura para os jovens. Educar é soltar aos poucos as amarras até que cada um saiba suas próprias limitações e aprenda a sobreviver em um mundo complexo e em permanente ebulição. Quando essas amarras se soltam antes que o discípulo esteja preparado, ocorre o desastre, o acidente fatal, a desgraça. Por isso, educar não é tarefa para qualquer um, é para poucos. Por isso, também, a sociedade não é perfeita...
Rigor excessivo, assim como liberdade plena, não podem gerar bons frutos. O comedimento, a sabedoria de soltar os freios sem perder o controle da situação é o fator determinante do sucesso na educação dos seres humanos. A sabedoria da Natureza deveria ser nosso grande Mestre e instrutor. Lá, no mundo natural, estão todos os exemplos de que necessitamos para acertar sempre, de buscar o conhecimento e de responder às questões fundamentais...


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sexta-feira, 6 de maio de 2016

POBRE DEMOCRACIA BRASILEIRA...


Ainda nem terminou o processo de impeachment da presidente Dilma, e já sabemos que a equipe de Michel Temer terá quase o mesmo número de ministérios e será composta do mesmo perfil de colaboradores que caracterizou os TREZE anos do PT no poder: políticos em postos técnicos, onde se exigiriam especialistas, em troca de apoio nas casas legislativas do Congresso Nacional...



Isso nos leva a pensar se nosso povo seria tão pobre em nomes dignos e competentes para exercer funções públicas, e se teria valido a pena a mobilização nacional em defesa da Democracia e da Ética nas atividades púbicas... o que estaríamos ganhando nessa troca traumática de governantes? Qual teria sido, realmente, o custo político e econômico desse processo de impeachment?

Para se ter nomes como Romero Jucá ou Leonardo Picciani como ministros, não se observa nenhum ganho que possa justificar tamanho esforço da Nação brasileira. Para manter 28 ministérios em lugar dos 33 de Dilma, não se compreende por que trocar de presidente. Para humilhar um partido político e fazer o mesmo que ele fazia no poder, não é possível entender o enorme sacrifício exigido do povo brasileiro.

Ainda é prematuro para julgar a competência (ou não) de Temer para a imensa tarefa a que ele se propõe, mas o começo já terá sido lastimável e desanimador... não foi para isso que nos mobilizamos, colocando em risco as instituições, e causando tamanho desgaste entre os Três Poderes da República! Os próximos meses serão decisivos, mas sua equipe já começa na retranca e acuada por uma nova oposição devastadora! O PT na oposição, associado ao PCdoB, são adversários terríveis, avassaladores, capazes de arregimentar trabalhadores desempregados em uma luta sem tréguas, sem Ética e sem Princípios, em busca de mais uma "vitória de Pirro"!

A proposta não era essa. O próprio Temer chegou a afirmar que seu ministério seria composto de notáveis, e teria, no máximo, 15 ministros, sendo que três deles, os superministros, formariam o tripé da frente de combate: Economia, Infraestrutura e Projetos Sociais! O que foi feito dessa ideia, se o número de ministérios dobrou e, em lugar de nomes ilustres, teremos políticos comprometidos com o passado e com a corrupção, estando alguns deles até em processo de investigação criminosa pela Operação Lava Jato? Como pode dar certo uma equipe que já chega sob suspeita de envolvimento nas mesmas falcatruas do grupo que acabamos de alijar do poder? Como acreditar que essa nova "frente de combate" não estaria contaminada pelo vírus que devastou a classe política brasileira, antes mesmo que seus efeitos deletérios tenham sido completamente diagnosticados e combatidos?

O pior é que essa equipe já começa com a pecha de transitória, uma vez que nem sabemos se a equipe anterior irá voltar! E se, para ironia do destino, o grupo de Dilma retornasse e substituísse novamente todos os ministros, secretários, diretores de empresas públicas e autarquias, e os mais de 100.000 cargos comissionados entregues a afiliados dos partidos da "base aliada"? E se esse "presidencialismo de coalizão" retornasse com toda força e todo ódio característico do Partido dos Trabalhadores, destruindo definitivamente os alicerces de nossa frágil Democracia?

Como não pensar nessa possibilidade, se esse governo que começa a se estruturar já se assenta em bases tão insólitas e duvidosas? Como acreditar que o que restou dessa base parlamentar, mesmo contaminada pela corrupção, conseguirá levar adiante as reformas políticas, previdenciárias, fiscais e sociais, indispensáveis para que o país volte aos trilhos e ao caminho do desenvolvimento econômico e social?

Poucas são nossas expectativas hoje, depois da divulgação dos primeiros nomes de um ministério que já nasce e se instala sob a suspeição de incompetência, do casuísmo político e dos vícios da velha república que eles pretendem sepultar. Que novidade haveria em ter Blairo Maggi, o "Rei da Soja", no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento? Mais provável é que esse "novo" governo se arraste pelos próximos dois anos que restam de mandato, levando ladeira abaixo a nossa Democracia e a nossa Economia que já se encontram em frangalhos.

POBRE DEMOCRACIA BRASILEIRA...

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quinta-feira, 10 de março de 2016

TRATAMENTO DE CHOQUE


Restam-me as memórias e as fotos desse passado que, se não foi glorioso como imaginara, teve momentos alucinantes de energia, vibração, emoções e prazer.




Meu corpo estava estendido na maca, no meio de um salão, cercado de aparelhos e pessoas estranhas, discutindo meu estado de saúde precário. De alguma forma, eu olhava aquele corpo se contorcendo de dor e não me reconhecia nele. O que acontecera? Por que eu estaria lá? Onde estariam meus amigos? A dor era insuportável... uma prensa esmagava os músculos de meu coração e quase me impedia de respirar. Não conseguia, sequer, pedir ajuda, saber o que houvera...

Veio-me à memória uma correria infernal, eu dentro de um carro, percorrendo a orla da praia no banco de trás de um carro, com uma pessoa pressionando meu peito em um vai-e-vem alucinado e desesperado para me manter respirando e forçando meu coração a bater, apesar da dor. Alguém batia na lataria do carro, enquanto o motorista buzinava energicamente, pedindo passagem. De repente alguém falou, desconsolado: "ele apagou... parou de respirar..." e os movimentos de ressuscitamento se tornaram mais frenéticos... eu estava consciente, ou pelo menos ouvia essas palavras. Para meu desespero, agora eram esses esforços para me manter vivo que estavam me sufocando.

Chegamos a um pronto socorro e fui retirado do carro e colocado em uma maca. Alguns paramédicos cercaram meu leito e disseram que eu deveria ser levado para um hospital. Colocaram-me em uma ambulância e logo começaram a raspar meu peito para a colocação dos eletrodos. Mas a lâmina estava cega e me pareceu enferrujada! Logo, o sangue escorria pela minha pele ferida, diante da indiferença de três paramédicos, que conversavam animadamente sobre assuntos fúteis. Mas eles não conseguiam fazer o eletrocardiograma e a ambulância não saía para o hospital.

No meio de meu sofrimento lembrei-me de uma cena de um filme de guerra de Robert Altmann, chamado "Mash", uma paródia em que a equipe médica operava um soldado, indiferente à dor daquele moribundo, enquanto conversavam animadamente, debatendo as "qualidades físicas" de uma bela enfermeira. Senti-me diante da mesma indiferença. Finalmente desistiram do exame e seguiram para o hospital. Eu continuava sem reações... fui colocado em um grande salão onde meia dúzia de enfermos agonizavam em seus próprios leitos. O hospital não tinha UTI, que fora interditada por contaminação e infecções, comuns nesses estabelecimentos brasileiros... A noite se arrastava naquele salão de hospital, sem as mínimas condições de atender a um infartado. No som ritmado das gotas de soro escoando pelas minhas veias eu não tinha mais noção da hora, nem do que acontecera naquele dia fatídico. Aos poucos, porém, a dor se abrandou e meu pensamento vasculhou aquele dia interminável em busca de um entendimento do que se passara.

Eu acordara muito cedo naquele dia, pois teria que levar um indígena para efetuar um levantamento fundiário de um terreno à beira-mar, em Trancoso. Como de hábito, tomei café da manhã, peguei minha bicicleta e pedalei por 10 km até a sede da Funai em Porto Seguro. Chegando lá, o índio já me esperava, impaciente pelo trabalho que iríamos realizar. Montei na caminhonete e seguimos por horas numa estrada de terra. Atravessamos uma porteira e seguimos por entre árvores e chácaras até que, em dado momento, a estrada se transformou em um areal branco e interminável. Havia trechos em que eu pensei em desistir, pois o veículo serpenteava quase atolado na areia fina e profunda. Com muito esforço chegamos no local. Durante algumas horas percorremos o terreno com meu GPS, registrando o que seria o limite da propriedade. Passamos à beira-mar por uma praia lindíssima e deserta. Tive vontade de tirar a roupa e mergulhar naquele mar tranquilo e limpo, mas o dever me impediu de fazê-lo. Voltamos à Funai, devolvi o carro e peguei minha bicicleta. Mais dez quilômetros, e cheguei em casa, exausto, mas feliz de meu dever cumprido.

Subi as escadas e, ao chegar ao lado da cama, uma intensa dor no peito me atingiu como um forte soco. O peito parecia não poder conter meu coração, e este se espremia, querendo explodir. Nunca sentira tamanha dor! Logo percebi que estava sofrendo um infarto, mas não me apavorei de imediato. Acomodei-me na cama, sentado e apoiado nos travesseiros, procurando me acalmar e respirar compassadamente. Mas a dor aumentava e minha respiração se tornava difícil. Lentamente, me arrastei para fora da cama, vasculhei a mochila e peguei meu celular. Com grande dificuldade tentei encontrar o telefone de um colega que pudesse me socorrer. Não conseguindo falar, mandei uma mensagem: "Acho que estou tendo um infarto. Preciso de ajuda"! Durante uma hora me contorci na cama, mas nenhuma posição aliviava aquela dor imensa, insuportável. Porém ninguém me socorreu.

Lembrei-me do síndico do condomínio. Não poderia gritar, que a voz não saía do meu peito. Mas tinha o telefone dele e mandei a mesma mensagem. Em menos de três minutos ouvi o barulho de chave na porta e alguém entrou, subiu as escadas, verificou minha situação e saiu correndo. Voltou em poucos minutos, que pareciam horas, acompanhado de três vizinhos. Fui levado escada abaixo e colocado em um carro. Eu não enxergava as pessoas, não conseguia falar nenhuma frase inteligível, e estava quase desmaiando. O carro saiu em desabalada carreira morro abaixo.

Pela manhã, ainda no hospital, o médico me disse que eu estava estabilizado e necessitava ser removido para outra cidade, para um hospital especializado em cirurgia cardíaca. Ele se foi e eu fui transferido para um quarto, acompanhado da minha colega, que havia chegado ao hospital no meio da noite. Enquanto eu esperava por uma transferência, um plano de remoção se arquitetava entre minha colega, minha mulher e minhas filhas, a 1.300 km dali. O dia transcorreu lentamente... nada acontecia ao meu redor. Embora a dor tivesse desaparecido, sentia que minha situação era gravíssima e eu estava perdendo horas decisivas para ser socorrido e tratado adequadamente. Mas nada poderia fazer. Tudo dependia dessas providências. Tratava-se de uma operação logística complexa e onerosa. A noite chegou, e, com ela, a notícia de que eu seria transportado por uma UTI aérea.

Minha filha chegou e já me encontrou na pista do aeroporto, para onde eu fora levado por outra ambulância, desta vez sem as cenas de horror que eu protagonizara na noite anterior. Vinte e quatro horas em que minha vida estivera por um fio, desperdiçada em um local cuja beleza se esvaíra diante de meu drama pessoal. Colocaram-me na aeronave, onde um médico e um enfermeiro me aguardavam. Fui acomodado da maneira que foi possível naquele mini-avião. Levantamos voo e a viagem transcorreu para mim como um hiato no tempo de minha existência. Não dormi nem um instante. Meus pensamentos se sucediam sem uma ordem razoável e coerente, mesclando o passado de aventuras e um futuro incerto ou improvável, com limitações que eu sempre temera delas me tornar vítima e escravo.

Mas o amor e o carinho dessa família maravilhosa me permitiram superar esses fatos inenarráveis e sinalizar para uma nova vida que, se não teria as emoções intensas das montanhas, das florestas, dos rios e dos mares que conquistei, teria o tempo de reflexão de que necessitava para colocar ordem nas coisas que vivi. E assim permaneço presente nesse planeta, sem nenhum brilho pessoal, mas com a eternidade do tempo que me resta para encerrar minha missão. Sou grato, é claro, por todos aqueles que me querem bem, que me têm carinho, que a mim dedicam um amor que nunca tivera tão presente nos intensos anos que passei afrontando inimigos inexistentes e me defrontando com meus próprios demônios que julguei ter conquistado. Restam-me as memórias e as fotos desse passado que, se não foi glorioso como imaginara, teve momentos alucinantes de energia, vibração, emoções e prazer.

Afinal, não é apenas para isso que vivemos? Portanto, como disse o poeta, "confesso que vivi"!

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O mosquito que salvou Dilma

Uma nação em pânico, estimulada por uma imprensa voraz, e uma epidemia de dengue e zika ofuscam os planos de impeachment de Dilma e afastam as possibilidades de uma recuperação econômica no atual governo, desorientado e sem rumo. O que esperar dos próximos três anos, se as mais variadas crises atormentam nossa população desencantada? Quando, em 2018, um novo presidente eleito por um povo despreparado e inculto, chegar ao poder, não terá muitas expectativas de realizar um grande governo. No máximo, conseguirá restaurar os fundamentos da Economia e estancar a hemorragia produzida pelo PT.


Quando, em 2008, Lula falava das marolas que farfalhavam nas praias da Economia brasileira, enquanto o mundo se afundava na pior crise mundial depois de 1930, o PT chegava ao Paraíso e comemorava a vitória da revolução socialista tupiniquim, estimulado pelos programas sociais que teriam tirado da miséria 40 milhões de pessoas. O Mensalão seria enterrado logo a seguir, com um bode expiatório condenado a 40 anos de prisão e alguns líderes petistas presos, mas o partido estaria, aparentemente, preservado.

Lula chegou ao fim de seu mandato com as glórias do Salvador da Pátria, e como o grande chefe que, durante oito anos, segurou as rédeas do partido e da nação, usando seu carisma e sua lábia para ocultar o envolvimento de quase toda cúpula dirigente do PT nos crimes de corrupção. O ciclo revolucionário não terminara, e a meta de permanecer vinte anos no poder parecia cada vez mais próxima de ser alcançada. Mudanças estruturais de base haviam sido feitas, os movimentos sociais, as ong's e os sindicatos estavam fortalecidos, e a máquina estatal tinha sido aparelhada e dominada por políticos petistas, empenhados em assegurar que nenhuma força contrária impediria os avanços políticos e sociais.

O que Brizola e Jango não conseguiram realizar até 1964, Lula entregava ao país, sem que as forças militares se manifestassem em contrário, e sem que a nação percebesse o que estava acontecendo. Comissões de sindicalistas e funcionários públicos debatiam livremente propostas socialistas, implantavam planos quinquenais que deixavam os projetos comunistas do século passado parecendo brincadeiras de crianças. Aparentemente, as mudanças estruturais pareciam consolidadas e irreversíveis diante da perplexidade de uma oposição tímida e desarticulada. Caminhávamos a passos largos para o Socialismo de Estado.

No entanto, quando Lula impôs a candidatura de Dilma a seu partido e à Nação, realizando um feito que parecia impossível diante da total ausência de carisma e de competência dela para administrar o país, Dilma se elege presidente da república e garante, teoricamente, mais quatro anos para o PT finalizar a sua obra. Durante seu novo mandato, no entanto, Dilma mostrou-se incapaz de preservar a unidade da bancada dos partidos aliados no Congresso, criando constrangimentos cada vez maiores à convivência política entre os dois poderes. O Planalto e o Congresso já não se entendiam e a bancada se esfacelava diante dos olhos estupefatos de uma oposição fraca e igualmente incompetente. A Economia se desgarrava dos seus fundamentos teóricos e a inflação e o desemprego ameaçavam derrubar o castelo de cartas dos planos petistas. A marola de Lula mostrava-se, afinal, um tsunami!

Dilma chegou ao final de seu mandato desmoralizada, mas, graças às artimanhas e mentiras de uma campanha política suja e desonesta, venceu as eleições e derrubou dois candidatos que pareciam imbatíveis: primeiro, Marina Silva foi eliminada por manobras infantis de um marqueteiro sem ética e por seu pudor em não revidar as agressões sofridas pela campanha petista; depois, Aécio Neves enredou-se nos equívocos de sua campanha mal construída, pela visão política distorcida do PSDB e pela vulnerabilidade ao passado político de seu candidato. Dilma estava reeleita.

Porém, quis o destino que tantos erros de todas as partes permitissem ocultar um processo fulminante, desencadeado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e por um Juiz de Direito honesto e determinado que, juntos, estarreceriam o país com a maior devassa já havida na nossa história: a Operação Lava-Jato, que deixaria expostas as entranhas do poder e da gigante do petróleo do Brasil, a Petrobras. Aos poucos, a superestrutura construída pelo PT se desmoronava e contaminava ainda mais a Economia. Indicadores que surpreenderam o mundo durante dez anos, agora desabavam, desmontando o projeto de governo petista e ameaçando fulminar suas pretensões políticas de longo prazo.

Em meio a tudo isso, os índices de aprovação de Dilma, que já não eram satisfatórios desde as manifestações populares de junho de 2013, despencaram definitivamente, e um movimento de impeachment se desenvolvia nos protestos e no Congresso, ameaçando, inclusive, a interrupção do seu mandato e o sepultamento das pretensões de Lula de retornar ao Palácio do Planalto em 2018. O PT se atrapalhava no Congresso e alternava apoio e oposição às tentativas de Dilma em aprovar mudanças que salvassem nossa Economia em crise.

No final de 2015, a iminência da aprovação do impeachment se delineava no horizonte político, enquanto manobras espúrias expunham a escória da classe política, trocando socos e tapas em sessões repletas de golpes e trapaças de ambas as partes, oposição e governo. Os dois líderes do Senado e da Câmara, ambos envolvidos nos escândalos do Lava-Jato, se desentendiam quanto à posição de seu partido governista no apoio ou na oposição a Dilma. No apagar das luzes de 2015, no entanto, uma manobra regimental e jurídica transferiu ao Supremo Tribunal Federal a competência para definir os procedimentos internos do Congresso no processo de impeachment. O STF derrubou a estratégia de Eduardo Cunha e encerrou o ano Judiciário. A decisão final ficava para depois do carnaval, confirmando uma tradição política brasileira: não sabendo como fazer para lidar com a crise, o melhor é adiá-la e deixar que o acaso a decida por si.

Pois, justamente nesse interregno político, a imprensa, por falta de assunto e de inteligência, trouxe o Aedes Aegypti para os noticiários nobres da TV, desencadeando a maior campanha já vista no país contra a epidemia de dengue. No auge do pânico, um novo vírus do mesmo vetor aparecia, roubando a cena: o Zika e a suspeita de que essa praga também provocava microcefalia nos bebês nascidos de mães contaminadas! O pânico se alastrou pelo mundo, provocando manifestações não apenas das autoridades sanitárias e da Organização Mundial de Saúde, como também do presidente norte-americano, que se solidarizava com o Brasil.

Pois não é que o Aedes Aegypti salvou Dilma? Já não se ouvia mais falar de impeachment, e os escândalos da Lava-Jato se espalhavam por outras vertentes ainda mais escabrosas, chegando à família de Luiz Inácio Lula da Silva e dona Marisa Silva, tornando-os suspeitos de receberem propinas e bondades das construtoras Odebrech e OAS, como apartamento triplex no Guarujá, sítio na Serra da Cantareira e propinas da Friboi para o filho Lulinha. Milhões de reais corriam às mãos do ex-presidente e sua família.

Falar de impeachment? Só para dizer que os dois arqui-inimigos Eduardo Cunha e Renan Calheiros, além de Michel Temer, se entenderam para salvar dedos e anéis e preservar suas possibilidades de permanecer em liberdade, ainda que improvável. O Escândalo da Lava-Jato exauriu o entusiasmo das massas, assim como esfriou a suja luta política entre os três poderes, todos contaminados por interesses escusos ou corrupção. E foi assim que Dilma se salvou do impeachment, graças a um mosquitinho impertinente chamado Aedes Aegypti! E o Brasil? Ah, bem, o Brasil vai muito bem, obrigado! Afinal, agora é Carnaval!

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O atentado de Paris e o êxodo contemporâneo

A humanidade se perdeu em algum momento, e as principais causas são, justamente, seu maior orgulho e prazer: o desenvolvimento tecnológico alcançado e a liberdade de expressão, sem regras e sem limites. A primeira estimula o consumo desenfreado, o descontrole sobre o desperdício e a exaustão dos recursos naturais do planeta. A segunda, a irreverência, quebra a cadeia de comando do ser humano, tornando frágeis todas as suas estruturas e instituições sociais, sem colocar nada em seu lugar, senão o vazio da inconsciência. Quanto durará esse processo, e se ele determinará a extinção da raça humana somente o tempo nos responderá, mas talvez já seja tarde demais para reverter esses processos e recuperar tudo o que foi perdido..



Em meio à revolta e à consternação causadas pelas notícias que circularam nas mídias internacionais, uma questão se destaca, inevitavelmente: "até que ponto os refugiados da guerra civil da Síria facilitaram a penetração de terroristas em território europeu, contribuindo ainda mais para a rejeição dessas populações, cada vez mais hostilizadas pelos franceses e outras nações ocidentais"?
Circulam, pelas mídias sociais, manifestações preconceituosas, aproveitando-se do clima de medo e incertezas, afirmando que o islamismo está ameaçando a sobrevivência da cultura europeia, fazendo exigências para que as instituições religiosas, de ensino e sociais adotem as leis do Islã. É compreensível que a população, que desconhece a História, extrapole seus limites de perplexidade.
Cabe, porém, outra análise sobre tais acontecimentos. E a questão é a intolerância religiosa, não importa o local, o povo, a época. Há séculos, as religiões alimentam mais o ódio que o amor; mais as guerras que a Paz; mais a segregação que a união entre os povos; mais a violência que a harmonia.
Entre os séculos XI a XIV, os cristãos, que eram únicos, radicalizaram seus preceitos, criando as Cruzadas, em busca de resgatar a Terra Santa, curiosamente no Oriente Médio, palco da origem dos atuais acontecimentos. E as disputas eram as mesmas, entre muçulmanos, cristãos e judeus. Enquanto isso, no continente europeu, uma violenta perseguição aos "infiéis" (dessa vez, os cristãos eram as vítimas de sua própria igreja), através de uma instituição denominada de Santa Inquisição, milhares de pessoas inocentes, foram queimadas vivas em praça pública, enquanto os "Exércitos de Deus" seguiam ao seu destino, em busca do solo onde Cristo nasceu e pregou seu evangelho.
Muitas foram as "guerras santas", mas poucas tão violentas como a que ocorre agora, entre judeus, cristãos e muçulmanos. Os mesmos personagens, cada vez mais inimigos, cada vez mais poderosos, belicosos e intolerantes. E sempre a crueldade se pratica "em nome de Deus"! Teríamos mesmo um deus tão cruel e vingativo, apartando os homens de si mesmos em nome de falsos dogmas?
Há cerca de dois anos, o êxodo de sírios, libaneses, palestinos e africanos (estes, vítimas de outra organização cruel: o Boka Haram) se expandiu e criou uma nova situação a agravar ainda mais a crise econômica da Europa pós-recessão. Milhares de homens, mulheres, crianças e idosos se arriscam diariamente na travessia do Mediterrâneo em busca de água, paz, dignidade e alimentos.
Mas por onde passaria a ponte que une esses dois acontecimentos, senão pela causa comum de um grupo de fanáticos pretendendo estabelecer um Estado Islâmico radical, onde as regras são interpretadas de forma crua e implacável, principalmente contra as mulheres, os homossexuais e os incrédulos?
Não é difícil concluir que essa migração descontrolada facilitaria o ingresso, em grande número, de terroristas nos países europeus. Também nos parece evidente que este e outros atentados estariam relacionados fortemente com o êxodo para o ocidente europeu. Mas por que a França? Da primeira vez, a óbvia relação foi declarada pelas suas vítimas, cartunistas irreverentes, lidando, justamente, com o mais precioso sentimento de idolatria e adoração a Maomé! Mas, e agora, que atinge jovens, estudantes, classe média, potencialmente aqueles que poderiam se sensibilizar com as "causas islâmicas"?
Para aqueles que ultrapassaram as barreiras do convívio social, dos valores individuais e coletivos, das estruturas familiares, de uma sociedade democrática e de outras regras da existência em grupo e da tolerância das ideias divergentes, é muito difícil encontrar limites para o terror que alimenta suas ações. Sem esses liames que sustentam a vida, basta fazer crer a seus adeptos que seu deus, seja ele quem for, quer ver a consecução de seus planos, e não interessam os meios.
Se essa violência é maior ou mais cruel do que em tempos medievais, é difícil avaliar. Cada tempo e cada povo, na medida de sua própria existência, estabelece os limites da (in-)tolerância que determinarão sua conduta. Para nós, hoje, nos parece que atingimos o apogeu da violência e da crueldade. Mas não é verdade; sempre é possível superar o mal, o ódio e o desespero.
Nosso mundo humano caminha para a destruição. E esse não é um vaticínio baseado em atos terroristas, mas uma constatação de que não mais respeitamos convenções, não conhecemos mais a Ética, desacreditamos da Justiça, seja ela humana ou divina, e até matamos nossos deuses, substituindo-os por ícones e textos, supostamente sagrados, que, ao invés de pregar a Paz e a Compaixão, alimentam o ódio entre os seres humanos e o desprezo pela Natureza. É um caminho equivocado e sem retorno, que, infelizmente, não terá um final feliz.
Desses fatos, que se repetem com mais frequência do que gostaríamos de observar, se depreende que a humanidade se perdeu em algum momento, e as principais causas são, justamente, seu maior orgulho e prazer: o desenvolvimento tecnológico alcançado e a liberdade de expressão, sem regras e sem limites. A primeira estimula o consumo desenfreado, o descontrole sobre o desperdício e a exaustão dos recursos naturais do planeta. A segunda, a irreverência, quebra a cadeia de comando do ser humano, tornando frágeis todas as suas estruturas e instituições sociais, sem colocar nada em seu lugar, senão o vazio da inconsciência. Quanto durará esse processo, e se ele determinará a extinção da "raça humana" somente o tempo nos responderá, mas talvez já seja tarde demais para reverter esses processos e recuperar tudo o que foi perdido..


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