sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Eleições no mundo de Disney

Como tudo o que acontece nos EUA, as eleições também têm uma sensação de "fake", de farsa ou de mentira... quem me conhece dirá que sou suspeito para falar dos norte-americanos, pois sou radicalmente contrário às nefastas influências que aquele país exerce no mundo desde a Segunda Guerra Mundial. De fato, a ascensão dos "gringos" praticamente neutralizou o desenvolvimento de quase todos os países sob sua influência, principalmente na América Latina. E, paradoxalmente, esse país exerce tamanho fascínio aos subdesenvolvidos que chega a causar cegueira e paralisia permanente nos cérebros-pensantes desses pobres iludidos!

Quem não sonha em visitar Miami, a Disney World em Orlando, New York, San Francisco, Washington, New Orleans, Las Vegas, Hollywood,  Chicago, Boston, Dallas, Gran Canyon, Yosemite, Niagara Falls, Yellowstone ou as possessões compradas ou conquistadas como troféus de guerra, como o Hawaii e o Alaska? Não há jovem no mundo que não cobice, pelo menos uma vez na vida, estar nesse país!

Eles souberam criar frases de efeito como nenhum outro povo no mundo; expressões como "Welfare State" ou "American Way of Life", transmitindo a imagem de que aquele país seria o paraíso na Terra, a manifestação plena da Democracia, do Orgulho, do Patriotismo, da Competência e da Eficiência a toda prova. O país dos Prêmio Nobel, da Coca-Cola, da Tecnologia e do Consumismo desenfreado.


Super-Heróis concebidos e construídos durante o período de pós-guerra também contribuíram para enaltecer a superioridade (norte) americana perante os outros povos: Capitão América, Super-Homem, Batman, Flash Gordon, Tio Sam, Mulher Maravilha, Hulk, Conan e tantos outros que nos fazem acreditar que o Homo Americanus é uma espécie evoluída do ser humano comum.

Até mesmo as datas (norte) americanas passaram a ter mais importância do que nossas próprias comemorações: Independence Day, Thanks Giving, Vallentine´s Day, Halloween, Christmass Day "and so forth". Às vezes chegamos a nos esquecer que somos independentes, que temos um país maravilhoso e uma gente verdadeiramente humana, e sonhamos em viver nos Estados Unidos, conseguir o Green Card, morar numa mansão Neo-Vitoriana às margens do Mississipi, e coisas assim...

A expressão extrema dessa subserviência intelectual é a aceitação plena e universal da língua inglesa como a manifestação maior da inteligência humana. A dependência é tamanha que parece impossível um profissional sênior, um pesquisador, um intelectual que não domine essa língua até mais do que a própria língua! No entanto, temos uma das línguas mais ricas do mundo, de uma expressividade e sonoridade somente comparável à nossa irmã espanhola... e nem percebemos isso!

O que levou o mundo a abdicar de sua auto-estima e amar outro povo que não a si mesmo, pela simples razão de pensar que essa farsa, esse "FAKE" é real? Vejam o programa "Manhattan Connection", que não é (norte) americano, por incrível que pareça! Passa na Globo News, que também não é um canal (norte) americano, e as personagens são tupiniquins travestidos de aristocratas decadentes ou Yuppies deslumbrados! Chegam a ser patéticos, com aquela impostação de voz típica dos filmes westerns de 1950-60, tentando parecer sábios, cultos e muito mais bem informados do que qualquer um de nós, brasileiros mortais. Um programa de fofoca vulgar, simplesmente...

Mas voltemos às eleições nas terras de Tio Sam...


Eles têm apenas dois partidos: Democrata e Republicano. Para eles isso basta, pois o norte-americano típico não tem o menor interesse pela Cultura eclética, cosmopolita ou universal. A eles, seu mundo basta e se completa em si mesmo! Por isso, desde a proclamação da Independência e do fim da Guerra de Secessão esses dois partidos se alternam no poder. Existem outros? Sim, dezenas deles! Mas nenhum consegue colocar um número percentual antes da vírgula em nenhuma eleição!

Percebemos, principalmente nas décadas posteriores à 2ª Guerra Mundial, figuras pitorescas determinando os destinos do mundo, interferindo na vida de outros países através da CIA e de seus exércitos, com um poder absurdo em suas mãos, capazes de, no apertar de um botão, extinguir a vida na face da Terra! Durante décadas o mundo viveu, apavorado, a perspectiva iminente de uma hecatombe  nuclear, enquanto as duas superpotências acumulavam mísseis intercontinentais com ogivas atômicas apontadas para o mundo!

Harry Truman e Dwight Eisenhower foram apenas sucessores da política belicista dos EUA. Com a herança e o poderio militar herdados do conflito mundial, sua influência política se limitou a recompor os cacos do mosaico de destruição deixado pela guerra. Para os EUA, o prejuízo se limitou às vidas humanas e ao enorme investimento em armas e tecnologia militar. O Plano Marshall foi concebido pela "Doutrina Truman" com o propósito de recuperar a economia europeia e japonesa, esta última em função da vergonha causada pela morte desnecessária de mais de 100.000 pessoas inocentes, em Hiroshima e Nagasaki,  e muitas mais comprometidas eternamente pelo contágio cancerígeno e deformidades causadas pela irradiação nuclear.

Jonh Kennedy, Democrata, além de ter iniciado o processo de militarização do Vietnam, enfrentou a ameaça dos mísseis russos em Cuba e amargou o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, também em Cuba. Envolveu-se em escândalos amorosos com Marilyn Monroe e foi assassinado durante um desfile em carro aberto, ao lado de sua mulher, Jacqueline Kennedy, que depois se tornou a Senhora Onassis, casando-se com um dos maiores milionários do mundo. Apesar dos escândalos e erros, Kennedy ficou na história como um símbolo do heroi americano, super-homem das Américas, o soldado que, comandando um barquinho na segunda guerra, se transformou no exemplo e modelo a ser incensado e guindado ao cargo máximo dos EUA.


Lyndon Johnson, também Democrata, era vice de Kennedy; herdou e levou às últimas consequências a guerra do Vietnam, que causou mais de 5 milhões de mortes entre os povos do Vietnam, do Cambodja e do Laos, além de 50 mil soldados (norte) americanos; muitos dos que retornaram, voltaram para casa mutilados, drogados e viciados em heroína nessa guerra sem sentido. Os americanos levaram a tragédia das drogas e da prostituição para as mulheres vietnamitas e a humilhação e a desonra para os homens daquelas nações, divididas pelo ódio e pela guerra fratricida. Mais de dois milhões de norte-americanos serviram no Vietnam, onde jogaram bombas incendiárias de Napalm, de destruição em massa, e utilizaram armas químicas, biológicas e bacteriológicas contra o povo vietnamita, cambodjano e laociano, assassinando, indiscriminadamente, guerrilheiros vietcong, mulheres, idosos e crianças.

Richard Nixon, Republicano, ficou conhecido pelas trapalhadas de seu comitê de campanha, que se envolveu em um escândalo denominado Watergate, nome de um prédio onde ocorreu um triste episódio de espionagem política que o levou a renunciar à presidência, ainda na metade de seu segundo mandato. Sucedeu-o Gerald Ford, único presidente não eleito da história americana, de quem nos lembramos apenas pelo modesto desempenho e pela constrangida retirada dos soldados do Vietnam.

Jimmy Carter, Democrata, foi consequência do trauma causado pelo escândalo de seu antecessor; mas ficou mais famoso depois de terminar seu mandato e alistar-se a movimentos pacifistas ao redor do mundo. Pela sua política pacifista e diplomacia da negociação, foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 2002.

Ronald Reagan, o "cow-boy" Republicano, chegou a atuar no cinema, em far-west´s de segunda categoria, os chamados filmes-B. Sem refinamento ou gosto para a política, indispôs-se com líderes soviéticos e cubanos, mas acabou por ter a sorte de viver o período da queda do regime soviético e do desmantelamento das nações socialistas da assim chamada "cortina de ferro". Embora em nada tenha contribuído para isso, mas por sua atuação anti-comunista e McCarthysta, ao estilo da sociedade conservadora norte-americana, teve forte aprovação ao final de seu governo.


George Bush, o pai, Republicano, ficou conhecido pelas guerras que promoveu contra o regime muçulmano de Saddam Hussein, também chamada de Guerra do Golfo, que deixou um rastro de destruição e morte nos desertos do Oriente Médio. É evidente o interesse (norte) americano por essa guerra, por duas razões essenciais: o domínio do petróleo em uma das regiões mais ricas do mundo, e o consumo do arsenal bélico de seu país, atendendo às exigências do militares que precisavam de uma forte justificativa para substituir seu enorme acervo de armamentos convencionais. É claro que essas razões nunca foram declaradas!

Bill Clinton, Democrata, ficou mais conhecido pelas suas relações extra-conjugais e pelo escândalo sexual com a estudante Monica Lewinsky do que pelos seus resultados como mandatário da mais poderosa nação do mundo. Apesar disso, foi um período de paz e excelentes e promissores resultados econômicos. Sua mulher, a Primeira Dama Hillary, reagiu com elegância e fleugma à divulgação das escandalosas relações de Bill com Lewinsky, e tornou-se importante peça na articulação política para a eleição posterior de Obama.


George Bush, o filho, Republicano, sem os talentos do pai, foi alimentado pelo ódio causado pela tragédia de 11 de setembro de 2011, do qual ele se aproveitou, capitalizando a indignação do mundo em uma luta fanática contra a organização terrorista Al Qaeda e seu líder máximo, Osama Bin Laden. Conseguiu capturar Saddam Hussein, que foi julgado sumariamente, condenado e morto em seu país, mas não conseguiu prender Bin Laden. Além de reacender a Guerra contra o Iraque, atacou simultaneamente o Afeganistão, tentando exterminar a organização política do Taleban, que dominava o país.

Esses são, resumidamente, os antecedentes das eleições presidenciais  (norte) americanas que pretendo analisar. Sucedendo a Bush, foi eleito Barack Obama, que herdou um país devastado, não pela guerra, mas por uma crise econômica sem precedentes, que contaminou as economias de todo o mundo, ocidental e oriental, derrubando bancos e nações até então consideradas inexpugnáveis, como a França, a Espanha, a Itália e a Inglaterra, além do próprio Estados Unidos, cujos resultados econômicos desde 2008 têm sido medíocres.

Por que as eleições nas terras de Disney nos chamam tanto a atenção, se a economia mundial, hoje, está muito mais nas mãos dos países emergentes, principalmente a China, que vem sustentando, há mais de uma década, um crescimento econômico de dois dígitos, assegurando mercado consumidor para países exportadores, entre eles o Brasil?

A razão é singular, mas não óbvia: com a decadência socialista, o mundo experimentou um período relativamente longo de estabilidade militar entre as grandes potências, mas isso não contribuiu para um equivalente desenvolvimento de soluções inteligentes para um mundo que caminha, a passos largos, para o esgotamento dos recursos naturais não renováveis, principalmente o petróleo, os minérios e a água.

Essa interrupção nos conflitos ideológicos, ao contrário do que esperavam os analistas políticos, enfraqueceu os vínculos entre os povos, não pela iminência de uma guerra, mas pela falta de discussão e entendimento de problemas relevantes aos destinos do mundo, acostumado a lidar com conflitos, mas incapaz de vislumbrar os enormes riscos a que estaremos expostos nas próximas décadas: o crescimento demográfico, a exaustão dos combustíveis fósseis, a aniquilação de grandes áreas de florestas tropicais, a predominância das monoculturas e da criação extensiva de gado, o uso cada vez mais intensivo de agrotóxicos, contaminando as águas subterrâneas e de superfície, e a consequente eclosão da pior crise de abastecimento mundial, provocada pelos desequilíbrios ecológicos, principalmente a escassez de água, a deterioração do solo pelo uso não sustentável e o aumento da temperatura média do planeta. A miopia do mundo é tamanha que nenhuma decisão importante foi tomada no maior evento de defesa da Biodiversidade e de Sustentabilidade da História Humana. Nem mesmo uma declaração contundente...

Pois bem, agora nessas eleições (norte) americanas o que está em jogo é, justamente, a política de sustentabilidade e a possibilidade de acordos que ainda possam evitar a catástrofe iminente. Embora Obama não tenha assinado nenhum acordo ambientalista, e nem tenha comparecido pessoalmente à Rio + 20, ao menos tenta evitar as pressões dos capitalistas de seu país, que querem um retrocesso insuportável para as ações predatórias que sempre caracterizaram a política republicana.

Obama seria, assim, o mal menor em um país cujas tradições ortodoxas e conservadoras poderiam arrastar o mundo mais rapidamente para o consumismo desenfreado, em nome da preservação de um regime político e econômico fracassado e imoral. Que o Capitalismo faliu junto com a globalização, não é segredo para nenhum analista bem informado. O problema é que não existem novas fórmulas para serem testadas porque desapareceram os grandes filósofos! A Inteligência mundial está à mercê da mediocridade, da mesmice e do marasmo mental.

Mas existe uma esperança, e esta tem sido mostrada pelo Brasil, pelas políticas públicas assistencialistas visando a erradicação da miséria e, principalmente, pelos movimentos sociais: o auto-governo, o planejamento participativo e a presença determinante das associações comunitárias e organizações não governamentais nas decisões dos destinos de nossa sociedade. Ainda é preciso neutralizar as forças reacionárias, representadas pelo poder econômico e pelas doutrinas fundamentalistas das camadas menos favorecidas e mais vulneráveis, intelectualmente. Mas já se mostra evidente que será este o caminho a ser seguido para que tenhamos uma verdadeira democracia e um poder exercido pela vontade popular.

Se as eleições no mundo de Disney não nos trazem conforto e esperança, ao menos sabemos que é possível reverter as tragédias nacionais da destruição ambiental, desde que evangélicos, latifundiários, mineradoras, madeireiras e banqueiros sejam neutralizados pelas forças populares cada vez mais organizadas, mais presentes e mais confiantes em si e em seu papel decisivo nos destinos da Nação!
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