sexta-feira, 29 de junho de 2012

Após Rio +20, fazendeiros ameaçam Xavante

Fonte: GREENPEACE - Postado por Bernardo Camara
Grupo de Xavantes sobe a bordo do navio Rainbow Warrior para denunciar a invasão de suas terras no Mato Grosso. (©Greenpeace/Marizilda Cruppe/EVE) 
Há 20 anos esperando que invasores sejam retirados de seu território, os índios Xavante foram à Rio +20 para cobrar a promessa feita pelo governo. Durante a conferência, 12 guerreiros da Terra Indígena Marãiwatsédé, do Mato Grosso, fizeram um ato a bordo do navio do Greenpeace, participaram da Marcha dos Povos e conseguiram entregar sua reivindicação nas mãos do governo. O ministro Gilberto Carvalho, braço-direito de Dilma Rousseff, e a presidente da Funai, Marta Azevedo, receberam a carta-denúncia e prometeram agir.

Quem agiu primeiro, porém, foram os fazendeiros que, há anos, ocupam a Marãiwatsédé. Ao retornar para suas terras, os Xavante se depararam com uma série manifestações e ameaças pelo caminho. Segundo matéria do Repórter Brasil, desde o último sábado, a terra indígena “está ocupada por manifestantes que bloquearam o acesso à cidade de São Félix do Araguaia. Eles cavaram uma trincheira na estrada e queimaram pontes em outras vias de acesso à região em ato desesperado diante da sua iminente desintrusão”.

De acordo com fontes locais, não há efetivo suficiente do governo federal para garantir a segurança dos cerca de 900 Xavante de Marãiwatsédé que se protegem em sua aldeia. As manifestações se desencadearam com o retorno dos indígenas da Rio +20. Mas também na esteira da sentença que saiu em 18 de maio deste ano, quando o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) autorizou a retirada imediata dos invasores de Marãiwatsédé.

sábado, 23 de junho de 2012

DECLARAÇÃO FINAL CÚPULA DOS POVOS NA RIO+20


POR JUSTIÇA SOCIAL E AMBIENTAL, EM DEFESA DOS BENS COMUNS, CONTRA A MERCANTILIZAÇÃO DA VIDA
Movimentos sociais e populares, sindicatos, povos e organizações da sociedade civil de todo o mundo presentes na Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, vivenciaram nos acampamentos, nas mobilizações massivas, nos debates, a construção das convergências e alternativas, conscientes de que somos sujeitos de uma outra relação entre humanos e humanas e entre a humanidade e a natureza, assumindo o desafio urgente de frear a nova fase de recomposição do capitalismo e de construir, através de nossas lutas, novos paradigmas de sociedade.

A Cúpula dos Povos é o momento simbólico de um novo ciclo na trajetória de lutas globais que produz novas convergências entre movimentos de mulheres, indígenas, negros, juventudes, agricultores/as familiares e camponeses, trabalhadores, povos e comunidades tradicionais, quilombolas, lutadores pelo direito a cidade, e religiões de todo o mundo. As assembleias, mobilizações e a grande Marcha dos Povos foram os momentos de expressão máxima destas convergências.

As instituições financeiras multilaterais, as coalizões a serviço do sistema financeiro, como o G8/G20, a captura corporativa da ONU e a maioria dos governos demonstraram irresponsabilidade com o futuro da humanidade e do planeta e promoveram os interesses das corporações na conferência oficial. Em contraste a isso, a vitalidade e a força das mobilizações e dos debates na Cúpula dos Povos fortaleceram a nossa convicção de que só o povo organizado e mobilizado pode libertar o mundo do controle das corporações e do capital financeiro.

Há vinte anos o Fórum Global, também realizado no Aterro do Flamengo, denunciou os riscos que a humanidade e a natureza corriam com a privatização e o neoliberalismo. Hoje afirmamos que, além de confirmar nossa análise, ocorreram retrocessos significativos em relação aos direitos humanos já reconhecidos. A Rio+20 repete o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global. À medida que essa crise se aprofunda, mais as corporações avançam contra os direitos dos povos, a democracia e a natureza, sequestrando os bens comuns da humanidade para salvar o sistema econômico-financeiro. 

As múltiplas vozes e forças que convergem em torno da Cúpula dos Povos denunciam a verdadeira causa estrutural da crise global: o sistema capitalista associado ao patriarcado, ao racismo e à etnofobia. 

As corporações transnacionais continuam cometendo seus crimes com a sistemática violação dos direitos dos povos e da natureza com total impunidade. Da mesma forma, avançam seus interesses através da militarização, da criminalização dos modos de vida dos povos e dos movimentos sociais promovendo a desterritorialização no campo e na cidade.

Avança sobre os territórios e os ombros dos trabalhadores/as do sul e do norte. Existe uma dívida ambiental histórica que afeta majoritariamente os povos do sul do mundo que deve ser assumida pelos países altamente industrializados que causaram a atual crise do planeta.

O capitalismo também leva à perda do controle social, democrático e comunitário sobre os recursos naturais e serviços estratégicos, que continuam sendo privatizados, convertendo direitos em mercadorias e limitando o acesso dos povos aos bens e serviços necessários à sobrevivência.

A atual fase financeira do capitalismo se expressa através da chamada economia verde e de velhos e novos mecanismos, tais como o aprofundamento do endividamento público-privado, o super-estímulo ao consumo, a apropriação e concentração das novas tecnologias, os mercados de carbono e biodiversidade, a grilagem e estrangeirização de terras e as parcerias público-privadas, entre outros.  As alternativas estão em nossos povos, nossa história, nossos costumes, conhecimentos, práticas e sistemas produtivos, que devemos manter, revalorizar e ganhar escala como projeto contra-hegemônico e transformador.

A defesa dos espaços públicos nas cidades, com gestão democrática e participação popular, a economia cooperativa e solidária, a soberania alimentar, um novo paradigma de produção, distribuição e consumo, a mudança da matriz energética, são exemplos de alternativas reais frente ao atual sistema agro-urbano-industrial.

A defesa dos bens comuns passa pela garantia de uma série de direitos humanos e da natureza, pela solidariedade e respeito às cosmovisões e crenças dos diferentes povos, como, por exemplo, a defesa do “Bem Viver” como forma de existir em harmonia com a natureza, o que pressupõe uma transição justa a ser construída com os trabalhadores/as e povos. A construção da transição justa supõe a liberdade de organização e o direito a contratação coletiva e políticas públicas que garantam formas de empregos decentes.Reafirmamos a urgência da distribuição de riqueza e da renda, do combate ao racismo e ao etnocídio, da garantia do direito a terra e território, do direito à cidade, ao meio ambiente e à água, à educação, a cultura, a liberdade de expressão e democratização dos meios de comunicação, e à saúde sexual e reprodutiva das mulheres.

O fortalecimento de diversas economias locais e dos direitos territoriais garantem a construção comunitária de economias mais vibrantes. Estas economias locais proporcionam meios de vida sustentáveis locais, a solidariedade comunitária, componentes vitais da resiliência dos ecossistemas. A maior riqueza é a diversidade da natureza e sua diversidade cultural associada e as que estão intimamente relacionadas.

Os povos querem determinar para que e para quem se destinam os bens comuns e energéticos, além de assumir o controle popular e democrático de sua produção. Um novo modelo enérgico está baseado em energias renováveis descentralizadas e que garanta energia para a população e não para corporações.

A transformação social exige convergências de ações, articulações e agendas comuns a partir das resistências e proposições necessárias que estamos disputando em todos os cantos do planeta. A Cúpula dos Povos na Rio+20 nos encoraja para seguir em frente nas nossas lutas.  

Rio de Janeiro, 15 a 22 de junho de 2012.
Comitê Facilitador da Sociedade Civil na Rio+20 - Cúpula dos Povos

sexta-feira, 22 de junho de 2012

RIO + 20: um evento a se esquecer e lamentar?

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, se reúne com representantes da Cúpula dos Povos, e recebe documento preliminar com demandas das organizações da sociedade civil no evento paralelo à Conferência das Nações Unidas, Rio+20. (©Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr) 
Termina hoje a Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, com a publicação do documento intitulado: "O Futuro que Queremos". Na prática, foram três eventos paralelos: a conferência em si, com representantes diplomáticos e líderes mundiais, a Cúpula dos Povos, constituída de organizações não governamentais e movimentos populares de todo o planeta, e o Fórum de Ciência, Tecnologia e Inovação para um  Desenvolvimento Sustentável, que para cá vieram na expectativa de um despertar de consciência, enquanto o mundo em que vivemos ainda tem possibilidade de se recuperar da devastação cometida contra ele nos últimos duzentos anos, principalmente.

A Ciência já denomina nossa era como um novo período geológico, o "Antropoceno", caracterizado pela intervenção humana nos processos naturais, modificando os sistemas interligados dos oceanos e do ciclo das águas, das florestas e da vida animal, exceto o próprio homem. Já poderíamos até repensar a espécie humana, não como descendente do Homo Sapiens, mas de um ser predatório, que nem sequer respeita a própria possibilidade de sobrevivência de sua espécie, como o fazem todos os seres vivos desse planeta.

A Rio + 20 foi um tremendo fiasco, se considerarmos apenas a participação dos diplomatas e  dos dirigentes mundiais que para cá vieram apenas como signatários de um documento de conteúdo frágil e sem significado relevante para a preservação da Natureza. No entanto, foram meses de preparação e de diálogo da Sociedade Civil, de Cientistas e de Diplomatas, foram quase duas semanas de discussões e manifestações populares, compreendendo não apenas o Meio Ambiente, mas também a questão crucial de um modelo de produção e de consumo mais sustentáveis, além dos aspectos sociais da pobreza, da fome, da discriminação racial e social, das minorias étnicas...

Mais do que um simples documento formal, foi o espaço político quem dominou a cena e determinou a transformação do pensamento nesse período de intensas interações de mentes e ideologias distintas e, muitas vezes, conflitantes. Durante muito tempo essas sementes evoluirão, podendo dar origem a um novo Pensamento Político mundial. Isso depende, exclusivamente, da Sociedade Civil e de suas organizações políticas não atreladas a partidos, a regimes, a governos. Serão essas correntes de pensamento que poderão, não apenas salvar a Humanidade, mas também produzir a mais impressionante revolução cultural de que se tem notícia! O engajamento dessas pessoas que determinará o sucesso da Rio + 20, e não os seus participantes formais, que respondem apenas às ordens do poder.

Chegou o momento de uma Rebelião Civil que possa rechaçar a política tradicional, corrupta e comprometida, definitivamente! Chegou o momento de bloquear os sistemas econômicos tradicionais, forçando a construção de uma nova era de prosperidade, mas não baseada no consumismo e no desperdício. Já não bastam os modelos políticos, econômicos, burocráticos, industriais, alimentícios, energéticos, financeiros, agrícolas, comerciais!  Estes mostraram-se falidos, assim como esse Capitalismo Globalizado e hipocritamente "Liberal"!

O despertar para uma nova Era de Paz e de Prosperidade pode se dar em dois momentos: agora, no calor desta batalha sem vencedores, com a mobilização das pessoas do Bem, ou depois de um grande desastre ecológico, econômico e social, quando a tragédia for de proporções tais que não haverá alternativa de manutenção desse modelo fracassado. Caberá a nós decidir quando queremos buscar a saída, olhando para o futuro, ou lamentando o passado. Seja qual for a decisão, é necessário despojar do poder as pessoas do Mal, aquelas que só pensam em si mesmas e que são capazes de sacrificar seus próprios filhos para preservar os privilégios imorais que conseguiram à custa do sofrimento de tantas vidas.

A Rio + 20 terá sido em vão se nada disso acontecer, e a Humanidade continuar a agredir o Meio Ambiente, a desprezar os pobres, a desperdiçar o tempo que resta para a tomada de decisão. Se os políticos podem esperar porque sua vida acontece em turnos eleitorais e em períodos de corrupção e safadeza, a Terra não terá a mesma complacência com seus habitantes mais mesquinhos: haverá um momento de deflexão, um ponto de mutação que, transpassado, não concederá a possibilidade de retorno... 

...e você, o que fará daqui para a frente?

Da esperança ao desespero


Por Kumi Naidoo, diretor-executivo do Greenpeace Internacional
O futuro que queremos não está em nenhum lugar do texto que foi aprovado na Rio+20, que agora os líderes globais tentam usar como peça de propaganda. A retórica teve início ao mesmo tempo em que mais de 20 mil pessoas marchavam nas ruas do Rio, em protesto, com um ar de desespero, mas buscando a esperança.
A retórica da presidente Dilma Rousseff não poderia estar mais distante da realidade: a trágica oportunidade perdida de um acordo fraco sendo aprovado no Rio. Os adjetivos que ela usou para descrever o resultado, que teria sido feito com “coragem”, “ambição”, “responsabilidade” e “urgência”, são totalmente desconectados com a real falta de compromisso, objetivos e dinheiro vista aqui.
As duas cúpulas de desenvolvimento sustentável no Rio agora não poderiam ser mais diferentes. A Cúpula dos Povos está cheia de esperança e soluções, enquanto a 40 quilômetros dali, do outro lado da cidade, a Rio+20 estava sufocada em desespero e problemas.
Nas tendas da Cúpula dos Povos, ideias e oportunidades são compartilhadas sobre como resolver as crises ambientais, de igualdade entre os povos e ecológicas. Especialistas ali explicam que temos nas mãos as soluções energéticas para promover uma revolução energética, evitando a mudança climática catastrófica e fornecendo energia para 1,6 bilhão de pessoas que hoje estão no escuro: uma revolução energética que forneceria milhões de empregos decentes e ajudaria a recuperar economias em problemas. Em vez de resgatar bancos e bancar a indústria do combustível fóssil, como aconteceu na reunião do G20 no México, as pessoas pediam aos líderes para financiar economias verdes.
A Cúpula dos Povos é, em grande parte, destituída de paroxismos e interesses nacionalistas. Essa visão transnacional, global, pode ser observada em cada desafio tratado ali: direitos indígenas, geração de empregos decentes e verdes, igualdade entre os gêneros, proteção das florestas, defesa dos oceanos e muito mais.
Já na cúpula “oficial”, o que se vê é exatamente o oposto. A maioria dos países colocou sua ideia de interesse nacional em primeiro lugar, os interesses regionais em segundo e a preocupação global em terceiro. A menos que os governos caiam em si de que certos problemas, como as mudanças climáticas e uma economia inclusiva global, são tratados de uma forma genuinamente global, e sigam o que diz a maior parte da sociedade civil, não temos motivos para sermos otimistas.
O Greenpeace continua a coletar assinaturas em sua campanha pelo desmatamento zero no Brasil. Os planos para acabar com a exploração sem regra nenhuma das águas internacionais e para promover uma agricultura sustentável para acabar com a fome foram lançados.
Cerca de 10 mil pessoas visitaram o navio Rainbow Warrior, do Greenpeace, no Rio. É nossa prova do que a tecnologia disponível hoje pode ajudar a salvar o mundo amanhã. Sua alegria e a empolgação dos jovens voluntários brasileiros são um fabuloso antídoto para a frustração causada pela atmosfera cinza da reunião dos governos.
Se os líderes mundiais tirassem esse período apenas para ouvir, talvez eles teriam sido inspirados - como eu fui - pela energia de um mundo que pode ser construído em conjunto. Enquanto muito poderia ter sido feito em três dias da conferência do Rio para colocar o mundo no caminho do desenvolvimento sustentável, o que não aconteceu, decisões reais são tomadas todos os dias em cada capital e conselhos empresariais ao redor do mundo.
Nós ainda precisamos de um acordo global. Precisamos de governança global para apoiar e impulsionar uma transição em que a igualdade, a economia e a ecologia não estão em competição, mas em harmonia com o desenvolvimento sustentável.
Mas, pegando emprestado do discurso de abertura da conferência proferido pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, ontem, nós devemos “seguir na Rio+20 com compromisso e ações. Agora é a hora da ação”. Ele está certo. As pessoas devem se afastar da derrota no Rio e unir-se na defesa do planeta e das necessidades de nossas crianças.
A não ser que a gente construa um movimento no presente como nenhum outro que o mundo viu até hoje, o futuro que queremos será apenas um sonho que ficou para trás.

Falta de foco marca documento final da RIO+20


22/06/2012 - Por Fábio de Castro


Agência FAPESP – O resultado final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+20), que se encerra no Rio de Janeiro nesta sexta-feira (22/06), será um documento sem foco, que não atende à urgência dos problemas enfrentados pelo mundo, segundo análise de Celso Lafer, presidente da FAPESP.

Ainda assim, segundo Lafer, a conferência poderá contribuir com uma atmosfera que estimule no futuro, em um contexto político mais favorável, a tomada de medidas concretas para a sustentabilidade global.

“O documento final é difuso, não tem foco e se baseia em um mínimo denominador comum. Na melhor das hipóteses, coloca em andamento processos que serão mais ou menos bem-sucedidos no futuro”, disse Lafer à Agência FAPESP.

A falta de foco do documento, segundo Lafer, é o preço que se pagou para que fosse possível chegar a um consenso durante a conferência. De acordo com Lafer, o documento não deverá mais ser modificado pelos chefes de Estado que participam da cúpula.

“Compreendo o que levou a esse documento. O país sede não desejava que a conferência se encerrasse sem um consenso, por isso os negociadores brasileiros chegaram a esse mínimo denominador comum”, afirmou.


Na prática, o documento não é capaz de lidar com as urgências do presente e ficou muito aquém das expectativas. “O governo vai dizer que conseguiu um consenso que abre processos e preserva as conquistas feitas até agora. É possível de fato que o documento tenha o mérito de manter em evidência as questões que serão retomadas em um contexto político mais favorável no futuro. Mas, se olharmos as urgências que estão em jogo, vamos ver que o documento está aquém das expectativas e das necessidades da humanidade”, disse Lafer.

Na avaliação do presidente da FAPESP, as principais explicações para as limitações da RIO+20 são o contexto internacional negativo e a demora do governo brasileiro em priorizar a temática da conferência.

“Além da crise econômica e política mundial, temos essa nova multipolaridade no cenário da política internacional que até agora não foi capaz de levar a uma ordem global mais estável. A reformulação do sistema financeiro não está resolvida, as negociações comerciais de Doha estão estagnadas, há tensões consideráveis no Oriente Médio. Por outro lado, temos um país que dedicou à RIO+20 uma prioridade muito menor do que a que foi dada à RIO-92. O governo só passou a se dedicar recentemente à conferência”, afirmou.

Diretamente envolvido com a organização da RIO-92, como então ministro das Relações Exteriores , Lafer afirma que a conferência se beneficiou de um contexto internacional e um contexto interno favoráveis à sua realização.

“No plano internacional, o contexto era o do fim da Guerra Fria. Foi a primeira conferência que não se organizou em termos dos temas Norte-Sul e Ocidente-Oriente, mas sim em termos do desafio da cooperação de uma razão abrangente da humanidade. O clima era favorável”, disse.

No plano interno, o sentimento público de valorização do tema ambiental, que havia sido incluído na Constituição Federal de 1988, uniu-se à prioridade absoluta dada à RIO-92 pelo governo de Fernando Collor de Mello, que buscava elevar o patamar da presença internacional do Brasil.

“O governo organizou muito bem a preparação da conferência, mostrou interesse no meio ambiente, indicando José Lutzenberger para a secretaria do Meio Ambiente, instruiu o Itamaraty e organizou um comitê interministerial para tratar do assunto. Quando assumi o ministério, ficou claro que o tema teria prioridade total. Na RIO-92, cabia ao Brasil catalisar os consensos e ter uma visão proativa. Criamos oito grupos negociadores, com grandes quadros da diplomacia”, disse Lafer.

A organização, segundo Lafer, permitiu resultados concretos para a RIO-92, como a criação da Convenção do Clima e da Convenção da Biodiversidade. “Além do pilar ambiental, chegamos a bom termo também quanto à abrangência do conceito de desenvolvimento sustentável, com a Agenda 21. A Declaração do Rio, documento final da conferência, tem muitos méritos, entre eles explicitar que o meio ambiente tem que ser internalizado no processo decisório”, afirmou Lafer.

A conferência conseguiu, segundo ele, imensa mobilização da opinião publica, envolvendo ativistas, organizações não governamentais e cientistas, colocando os temas do meio ambiente de forma duradoura na pauta internacional.

“Talvez o ponto em que a RIO+20 mais se aproximou da RIO-92 seja essa participação da sociedade nos eventos paralelos, incluindo a dimensão da ciência, que teve participação da FAPESP”, disse Lafer, referindo-se ao “Forum on Science, Technology and Innovation for Sustainable Development”, realizado entre os dias 11 e 15 de junho no Rio de Janeiro.

As negociações que envolvem o problema socioambiental, segundo Lafer, são intrinsecamente complexas, tanto do ponto de vista técnico e científico como na perspectiva diplomática. “Alguns dos maiores avanços nesse tipo de negociação ao longo da história tiveram contribuição decisiva da ciência”, disse.

O tema do meio ambiente, segundo ele, passa por um conhecimento especializado. A Convenção do Clima, por exemplo, assinada na RIO-92, não seria possível sem o lastro do trabalho realizado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que detectou fenômenos como o efeito estufa.

“Talvez o ponto de partida dessa relação entre conhecimento e negociações diplomáticas tenha sido a percepção científica sobre o que estava acontecendo com a camada de ozônio, no fim da década de 1980. Essa percepção levou à Convenção de Basileia, que entrou em vigor em 1992”, disse Lafer.

A Conferência de Estocolmo, em 1972 – a primeira cúpula a tratar de temas ambientais –, também foi influenciada no plano das ideias por um relatório sobre os limites do crescimento econômico patrocinado pelo Clube de Roma. “O mérito daquela conferência foi realçar a fragilidade dos ecossistemas dentro dos quais estamos todos inseridos”, disse.

Já a RIO-92, segundo Lafer, beneficiou-se do Relatório Brundtland. O documento publicado em 1987 estabeleceu o conceito abrangente de "desenvolvimento sustentável". Seu desdobramento levou à percepção global de que a questão se apoia não só sobre um pilar ambiental, mas também sobre os pilares econômico e social.

No entanto, devido à complexidade das negociações diplomáticas na área ambiental, não é nada trivial fazer com que o conhecimento científico se consolide como fundamento dos acordos internacionais.

“Em épocas de crise, os países se confrontam com contingências e urgências políticas de curto prazo. O desenvolvimento sustentável, por outro lado, incorpora uma noção de sustentabilidade para as gerações futuras, por isso é sempre um problema em longo prazo. O tempo da pesquisa também é um tempo mais longo, assim como o tempo diplomático, que requer consensos. Por isso é compreensível que as negociações tenham essas grandes dificuldades”, disse Lafer. 

Antropoceno entra em cena

O presidente do Conselho Internacional de Ciência (ICSU, na sigla em inglês), Yuan-Tseh Lee, defendeu que é preciso estabelecer um novo contrato entre a ciência e a sociedade para que seja possível avançar rumo à sustentabilidade global.

O discurso realizado por Lee na quarta-feira (20/06), primeiro dia da cúpula de alto nível da RIO+20 – que se encerra nesta sexta-feira (22/06) –, sintetizou o resultado dos debates realizados pela comunidade científica internacional no “Forum on Science, Technology and Innovation for Sustainable Development”, organizado pelo ICSU – que é considerado o representante oficial da comunidade científica pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo Lee, a entrada no Antropoceno – era na qual as atividades da sociedade humana dominam o planeta – representa um desafio sem precedentes, envolvendo mudanças climáticas, perda de biodiversidade e poluição generalizada.

“Em nome das sociedades de ciência e tecnologia, conclamamos os líderes mundiais a agir imediatamente. Do contrário, haverá um aumento do risco de mudanças irreversíveis na biosfera, que solapará a sustentabilidade da vida sobre a Terra”, disse.

As pesquisas, segundo Lee, mostram que a resposta aos desafios do Antropoceno exige uma transformação sistêmica que deve ter apoio no conhecimento e da inovação.

“Uma pesquisa mais integrada irá gerar o conhecimento que a sociedade precisa para aperfeiçoar a interface entre ciência e política nos processos decisórios. Faço um apelo por um novo contrato entre ciência e sociedade . Não há tempo a perder, temos que agir conjuntamente”, disse.

Ciência + sociedade

Em visita à FAPESP, também no dia 20, o conselheiro-chefe para Assuntos Científicos do Gabinete de Ciência e Tecnologia do Reino Unido, Sir John Beddington, afirmou que a comunidade científica chegou à RIO+20 com uma mensagem clara e bem consolidada.

“Com exceção das incertezas pontuais que sempre caracterizam os temas científicos, quase não há dissensos na comunidade internacional de cientistas sobre questões-chave como segurança alimentar, segurança hídrica, biodiversidade, serviços ecossistêmicos ou a própria mudança climática. Esse consenso universal foi bem apresentado na RIO+20”, disse.

No entanto, segundo Beddington, para que possa influenciar a agenda mundial após a conferência, a comunidade científica precisará trabalhar em conjunto com outros setores da sociedade e contar com a vontade política dos tomadores de decisão.

“Acho que o consenso científico influenciará muito na agenda mundial, mas não agirá sozinha e sim em conjunto com a sociedade civil e os governos. Essa é a verdadeira importância do evento. Uma conferência internacional com tantos países e delegados de diversos segmentos participando é uma razão para ter esperanças”, disse.

A tarefa, entretanto, é extremamente difícil, envolvendo questões profundamente complicadas e ao mesmo tempo urgentes, como grande crescimento da população e da urbanização, escassez de recursos e crise energética e ambiental.

“Será preciso contar com muita vontade política. Não podemos garantir que a conferência tenha um sucesso concreto, mas nosso papel é aconselhar. O governo britânico certamente vê nessas questões-chave uma enorme importância para o futuro do mundo”, afirmou Beddington.

Presidente Dilma: garanta a devloução de Marãiwatsédé aos Xavante!

SIGN THIS PETITION / ASSINE ESTA PETIÇÃO



(scroll down for English)
Vinte anos. Isso marca não somente o tempo entre a Eco 92 e a Rio+20. É também o tempo da promessa feita ao povo Xavante para retornar à sua terra tradicional, Marãiwatsédé. Em 1992, a Agip, a empresa de petrólo italiana que até então estava em posse da área, se comprometeu publicamente a devolvê-la aos seus verdadeiros e legítimos donos, retirados à força pelo governo militar brasileiro em 1966.

Vinte anos se passaram e, deste então, os Xavante não conseguiram ainda reocupar totalmente Marãiwatsédé. Assim que a Agip fez a doação, funcionários da empresa, políticos e fazendeiros locais se aproveitaram da situação e invadiram a terra, se recusando a sair. Agora, o Cacique Damião quer aproveitar a oportunidade para, diante de autoridades e de diversos representantes da sociedade civil presentes à Rio+20, voltar para sua aldeia com a segurança de que esta promessa de 20 anos seja cumprida.

Os Xavante tentaram todos os meios legais para resgatar a sua terra, mas infelizmente o sistema judiciário brasileiro é lento e raramente favorece grupos indígenas e pequenos agricultores sobre grandes fazendeiros e pecuaristas. Depois de duas décadas esperando e lutando para sobreviver, o Cacique Damião e o seu povo querem chamar a atenção do governo e da sociedade para finalmente garantir que o plano de desintrusão, já autorizado pela justiça federal, seja finalmente implementado.

De 20 a 22 de junho, governos, jornalistas e organizações de todo o mundo estarão olhando para o Rio de Janeiro e os Xavante preparam um ato emocionante para que o governo finalmente os ouça. Vamos mostrar que os brasileiros os apoiam na sua luta para resgatar a sua terra, assine a petição do Cacique Damião. Vamos mostrar que os brasileiros os apoiam na sua luta para resgatar a sua terra, assine a petição do Cacique Damião.

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Twenty years. This marks not only the time between Eco 92 and Rio+20, but also the time that the Xavante people- an indigenous group in Brazil- have been waiting to reclaim their traditional land, Maraiwatsede. At the time, in 1992, leader Cacique Damião Paridzané publicly accepted the donation by Agip, the Italian gas company who then had legal ownership of the land, and who was pressured by environmentalists to give it back to the Xavante.

Twenty years have passed and since then, the Xavante have not yet been able to spend a single day in that land. As soon as Agip handed over its ownership, illegal cattle ranchers took advantage of the situation, quickly settling and refusing to leave. Now, Cacique Paridzané wants to take the opportunity of the Rio+20 Earth Summit where heads of state of dozens of countries will gather, to make sure this 20 year-old promise is kept.

The Xavante people have tried every legal channel to try to reclaim their land, but unfortunately the Brazilian judicial system is too slow and rarely favor indigenous people and small farmers over big land owners and cattle ranchers. After two decades and tired of waiting, Cacique Paridzané and his people decided to take action, knowing that Rio+20 is their one and only opportunity to draw attention from government officials and public opinion to finally make sure that the unitrusion plan is finally implemented.

From June 20th to the 22nd, governments, journalists and civil society from all over the world will turn to Rio de Janeiro for the Earth Summit and the Xavante leaders are preparing an exciting action to draw attention to their cause and demand that the Brazilian government finally listens to them. Let's show them that the Brazilian people (and citizens from around the world) support them in their struggle to reclaim their land, sign Cacique Paridzané's petition.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Áreas inteiras de Mata Atlântica são liberadas para desmatamento em MG

Nos últimos dois anos, região desmatou cerca de 3 mil hectares de mata. Apenas 7% da área nativa desse bioma ainda sobrevive à ação do homem.

Carvoaria clandestina na região do Vale do Jequitinhonha: produção destinada às grandes mineradoras
Na mata fechada é possível encontrar clareiras e fornos de carvão ainda acesos. No norte de Minas Gerais, o chamado Triângulo do Desmatamento é considerado pela ONG SOS Mata Atlântica como a região que mais destruiu esse tipo de bioma no país.
O triângulo é formado pelos municípios de Jequitinhonha, Ponto dos Volantes e Águas Vermelhas. Nos últimos dois anos, a região desmatou cerca de 3 mil hectares de Mata Atlântica.
Na entrada do município a placa indica que Águas Vermelhas respeita o meio ambiente, mas o município foi responsável por quase 20% de todo o desmatamento em Minas Gerais entre 2010 e 2011.
A ONG usou imagens de satélite e fez sobrevoos. Márcia Hirota é diretora da SOS Mata Atlântica. As imagens servem de documento no relatório preparado pela fundação.
Parte de uma área no município de Águas Vermelhas, no norte de Minas Gerais, que há menos de um ano era ocupada por mata nativa já tem o plantio de eucalipto.
A lei 11.428, de 2006, deixa expresso que o corte de vegetação primária no Bioma Mata Atlântica só pode ser autorizado em caráter excepcional para obras de utilidade pública, pesquisa científica e práticas preservacionistas. No caso de matas em outros estágios de regeneração, caberá ao órgão estadual competente conceder a licença ambiental.
Não é difícil encontrar tratores derrubando e arrumando toras recém-cortadas. Trabalhadores de uma carvoaria que colocavam toras nos fornos confirmaram que retiraram a madeira de uma área de mata nativa. No local fica a fazenda Paty, que pertence ao fazendeiro Paulo Daniel Antunes Sposito, conhecido como Seu Dadá, que mora em Vitória da Conquista, na Bahia.
O fazendeiro Paulo Daniel Antunes Sposito não quis dar entrevista, mas por meio de nota informou que a propriedade foi o primeiro imóvel da região a conseguir autorização para a supressão da cobertura vegetal nativa com destoca para a produção de carvão vegetal nativo e o cultivo de eucalipto. Ele enviou ainda cópia dos documentos emitidos pela Secretária de Estado de Meio Ambiente de Minas Gerais. Um dos documentos, que vence em janeiro de 2014, permite a supressão de 50 hectares de mata nativa e outro para 90 hectares, que vence em agosto deste ano.
Em Minas Gerais, muitos fazendeiros têm licença para o desmate. Desde 2011, é a Supram, Superintendência Regional de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, o órgão que concede as licenças no estado. O escritório regional do Alto Jequitinhonha, responsável pela atuação na região, fica em Diamantina, distante quase 500 quilômetros de Águas Vermelhas. Segundo a superintendente Eliana Piedade Machado, as autorizações são aprovadas por uma comissão formada por vários órgãos ambientais. De 2008 para cá, foram conseguidas 180 licenças de desmate na região, num total de 18 mil hectares.
“É uma região que tem um desenvolvimento socioeconômico muito precário. A gente tem que pensar também na realização de atividades econômicas. Por muitos anos, a economia local se baseou na cadeia produtiva do carvão. Hoje, a gente tem a citricultura chegando fortemente na região. É uma atividade econômica. A região precisa também se desenvolver. O grande desafio é conciliar esse desenvolvimento com a preservação ambiental”, justifica Eliana.
As autorizações concedidas no município de Águas Vermelhas se basearam na avaliação que as áreas são de Mata Atlântica Secundária, em estágio inicial de regeneração. Por isso, é exploração que pode ser permitida. Para caracterizar o estado de uma vegetação são analisados fatores como o porte das árvores, a densidade das matas e a existência de espécies vegetais protegidas por lei.

FONTE: G1 NATUREZA
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Nossas considerações

O Vale do Jequitinhonha é uma das regiões mais pobres de Minas Gerais. No entanto, essa situação de penúria e abandono não justifica a destruição do meio ambiente, principalmente de um bioma tão degradado como a Mata Atlântica, do qual só restam cerca de 7% de sua floresta original. É evidente que a perda dos recursos naturais apenas irá agravar ainda mais essa situação de pobreza e falta de oportunidades no futuro! Afinal, os recursos naturais são a fonte de todas as ações humanas, e a garantia de sua sobrevivência.

Esse comportamento, seja do fazendeiro que promove a destruição, seja das grandes mineradoras, usuárias do carvão ilegal, seja da Secretaria do Meio Ambiente que justifica e "legaliza" a extração da madeira, apenas evidencia a falência das políticas públicas brasileiras no que tange à proteção de nossos biomas, e demonstra a hipocrisia do Governo Federal, nas manifestações da presidente Dilma Rousseff e de sua Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, que tentam "vender" a imagem de que o Brasil seria um "exemplo de políticas sustentáveis"! Só se essa "sustentabilidade" se referir ao enriquecimento ilícito dos latifundiários e das grandes mineradoras de nosso triste país...

Fatos como este demonstram que apenas por termos leis efetivas de proteção do Meio Ambiente não asseguramos a preservação de nossos recursos naturais. Pelo Código Florestal em vigor desde 15 de setembro de 1.965 a ocupação e destruição de áreas de preservação ambiental se constitui em crime passível de multas e de prisão dos responsáveis; no entanto, 47 anos depois, o que vemos é um bando de latifundiários dominar o Congresso Nacional (que deveria representar a população brasileira, e não uma minoria de bandidos) e impor sua vontade à revelia da Sociedade; o que constatamos é a devastação de extensas áreas do Cerrado, reduzindo-o à metade de sua extensão; o que vemos é a ocupação ilegal de matas de galerias, comprometendo a existência dos rios brasileiros; o que vemos é o uso indiscriminado de agrotóxicos, contaminando nossos aquíferos e comprometendo a existência das futuras gerações de brasileiros!

Minas Gerais não é exceção: é REGRA! Regra de corrupção, de safadezas, de domínio do poder econômico de forma desonesta e desleal! Regra de insanidade dos governantes e juristas, que sequer conseguem fazer cumprir as leis! Neste país de "Cachoeiras" (não as verdadeiras, mas de bicheiros criminosos e contraventores), a voz do povo não é a voz da democracia, que não existe; é a voz dos oprimidos e submetidos a todo tipo de desrespeito e submissão aos interesses mesquinhos e suspeitos das classes abastadas, que exibem suas fortunas, surrupiadas nas catacumbas do poder, sob os olhares indiferentes do Poder Judiciário, que apenas faz "cumprir a lei", ou seja, o rito processual escrito pelos poderosos e que só a eles favorece.

Agora, no apagar das luzes da Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável, até o Secretário Geral da ONU se submete aos interesses dos poderosos, afirmando que "houve um grande progresso nas negociações e o documento produzido será de relevante importância para a preservação de nosso mundo futuro"... MENTIRA! Esse documento não serve sequer para limpar a sujeira produzida por esse bando de hipócritas que se perfilou diante do público para dizer asneiras, palavras vazias de conteúdo, sem qualquer comprometimento com os objetivos fundamentais desse gigantesco, inútil e dispendioso encontro! Se foi para dizer tão pouco, então para que vieram?

Economia verde em xeque


Pesquisadores debatem o conceito e a viabilidade da compatibilização do crescimento econômico com o meio ambiente (Pnuma)
Por Washington Castilhos
Agência FAPESP – “Economia verde” costuma ser usada para descrever a compatibilização do crescimento econômico com o meio ambiente, um dos blocos do crescimento sustentável. Segundo a Green Economy Initiative, iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançada em 2008, a economia verde resulta em melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, enquanto reduz os riscos ambientais e a escassez ecológica.
Apesar de ser usada há mais de 20 anos, a expressão “economia verde” ainda é controversa, assim como seu próprio conceito. Enquanto para alguns é perfeitamente possível, para os mais críticos ela seria uma tentativa de viabilizar a sociedade de consumo e adiar mudanças estruturais.
Essa foi a tônica de um painel que reuniu cientistas de diversos países no Rio de Janeiro durante as discussões para a RIO+20. No encontro, os pesquisadores debateram as possibilidades de uma economia verde, se esse modelo requer uma mudança de paradigma nos padrões econômicos ou se é compatível com os mercados competitivos, com a mercantilização de recursos e com a expansão do consumo.
A economista Elizabeth Stanton, do Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo, Suécia, pontuou que é preciso analisar para quem os benefícios desse novo paradigma econômico seriam distribuídos. “A tendência é fazer os pobres ficarem mais ricos ou os ricos ainda mais ricos?”, questionou.
Tim Jackson, professor de desenvolvimento sustentável da Universidade de Surrey, na Inglaterra, e autor do livro Prosperity without growth (“Prosperidade sem crescimento”), defendeu uma mudança de valores, com menos consumismo e individualismos.
“O crescimento econômico tem distribuído seus benefícios de maneira desigual. Longe de elevar o padrão de vida dos pobres, o crescimento piorou a situação de boa parte da população mundial. A riqueza favoreceu uma minoria”, disse.
“À medida que a economia se expande, crescem as implicações nos recursos naturais envolvidos, com impactos globais que já são insustentáveis. No último meio século, enquanto a economia global crescia, 60% dos ecossistemas mundiais foram degradados. Uma escassez de recursos naturais básicos – como o petróleo – pode estar a menos de uma década de nós”, afirmou Jackson.
“A economia verde é uma forma de negar evidências como a de que a concentração de dióxido de carbono está crescendo a 2 partes por milhão (ppm) ao ano”, disse o espanhol Joan Martinez Alier, da Universidade de Barcelona, à Agência FAPESP.
Segundo o economista catalão, a base do acordo deveria ser o hemisfério Norte global renunciar ao crescimento econômico em favor do crescimento do Sul.
“Creio que o Norte deveria ter economias sem crescimento e o Sul deveria reduzir suas extrações naturais para a metade e passar a exportar menos seus produtos. O que o Sul também poderia fazer era aumentar os impostos sobre a exportação. No caso brasileiro, por exemplo, quem pagaria por um possível acidente ecológico na extração do petróleo do fundo do mar, com o pré-sal?”, disse.
Para Alier, a proposta de sustentabilidade mundial baseada em ajudas financeiras multilaterais não é o caminho. “Emprestar dinheiro, como historicamente se tem feito, não é a saída, pois preservar o meio ambiente não é uma questão de milhões, mas sim de controlar a mudança climática e manter a biodiversidade”, disse.
“Em relação aos países do hemisfério Sul, há um pensamento de que eles são demasiados pobres para serem ecológicos. Mas do que morreram pessoas como Chico Mendes se não para defender a ecologia? Ecologia não é um luxo, é uma necessidade para todos”, afirmou Alier.
Recursos naturais
Lidia Brito, diretora da divisão de Políticas Científicas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), rejeita a expressão “economia verde”.
“Para ser honesta, na Unesco não falamos em economia verde. Falamos de sociedade verde. Penso que o ceticismo dos investigadores vem daí: a discussão não é sobre economia. O que temos certeza é que não é possível falar apenas de um dos blocos do desenvolvimento sustentável”, disse.
“A economia não pode ser discutida sem as questões sociais, culturais e ambientais. Elas estão interligadas e não podem ser tratadas de forma independente. Fico satisfeita com os cientistas brasileiros, que não querem falar apenas em economia. Temos que falar em sociedade verde, para destacar essa força de mudança”, disse Brito.
Na opinião de Ronaldo Seroa da Motta, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor de Economia Ambiental do Ibmec no Rio de Janeiro, não há outra saída a não ser tentar uma economia que seja restritiva no uso de recursos naturais.
“Sou a favor da precificação dos recursos naturais. Enquanto tivermos água barata, por exemplo, vamos consumir mais. Devemos nos preocupar com o produto líquido, quer dizer, o quanto que de capital natural perdemos para gerar uma determinada produção. Era isso que deveríamos estar medindo”, disse.
“Se aumentarmos o preço dos serviços ambientais, teremos uma perda de crescimento econômico em curto prazo, mas depois isso será revertido. Um exemplo: devido ao alto índice de desmatamento das florestas, o cerceamento à extração de madeiras fez com que passássemos a usar derivados de petróleo, e hoje vemos muitos produtos de plástico e quase nada de madeira. Mas se tivermos uma política agressiva na área ambiental, a primeira coisa a ser feita é reflorestar, opção mais barata e urgente”, afirmou.
Segundo Motta, ex-diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), é preciso reflorestar 10% da superfície do planeta para capturar carbono. “Isso impulsionaria enormemente o setor produtivo da madeira, uma vez que vamos extrair madeira e mobilizá-la em artigos como móveis, para poder fazer a madeira crescer novamente e continuar capturando carbono”, disse.
“Então, daqui a 30 anos, por exemplo, o fato de colocarmos o preço do carbono alto e todo mundo ter que plantar para poder continuar a produzi-lo, implicará em crescimento econômico impulsionado pelo setor produtivo da madeira, mais competitivo, sem degradação do meio ambiente”, disse.
De acordo com Motta, a saída não é aumentar o preço do que não é sustentável por meio de impostos, mas sim incentivar iniciativas sustentáveis cujos produtos sejam mais baratos. 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O futuro que queremos e a fantasia de Dilma

Na abertura da Rio+20, discurso de Dilma mostra divórcio com a realidade


Fonte: GREENPEACE BRASIL

Presidente Dilma Rousseff discursa na abertura da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável. (©Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)
O discurso que a presidente Dilma Rousseff fez hoje na Rio+20 reflete uma visão divorciada da realidade. Enquanto ela falava sobre “coragem”, “ambição”, “responsabilidade” e “urgência”, o documento aprovado ontem pelos mais de 190 países representados na conferência está vazio de metas, compromissos e ações.

Ela encerrou seu discurso dizendo que “as futuras gerações aguardam nossas decisões”. Após esta conferência, elas terão provavelmente de esperar ainda mais. Esse processo foi criado para uma nova negociação começar em 2015 – e o planeta, que já vive consequências das mudanças climáticas, ameaça à biodiversidade e sob desigualdade crescente entre os povos, não pode esperar mais.

Ela celebrou a redução do desmatamento que a lei brasileira permite, esquecendo que o novo Código Florestal – aprovado em sua administração - promove anistia a criminosos ambientais e a destruição de nossas florestas. Ela exaltou a matriz energética limpa do Brasil, enquanto o Plano Decenal de Energia direciona investimentos do setor para o pré-sal, carvão, nuclear e megahidrelétricas na Amazônia – a despeito do enorme potencial de vento e Sol disponível no país.
O divórcio entre a visão de Dilma e o que aconteceu na conferência se refletiu inclusive na fala do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon. Ele abriu seu discurso reconhecendo que os esforcos dos países não responderam aos principais desafios da Rio+20.

Quando aquela que deveria indicar a direção para o futuro que queremos admite, em sua fala, que considera como grande vitória da Rio+20 não retroceder as decisões tomadas 20 anos atrás, ela está olhando para o passado, e não para o futuro. Como disse Ban Ki-Moon, estamos correndo contra o tempo.

A dois dias do fim da conferência, não é hora de discursos vazios. Se ela deseja tornar seu discurso verdadeiro, é hora de agir com responsabilidade, urgência, coragem e ambição.

Posição do Greenpeace sobre o estado das negociações da Rio+20

Durante a madrugada desta terça-feira - e depois de extenso debate sobre o parágrafo de oceanos – ficou pronto o Rascunho Zero, texto que o Brasil apresentará para ser debatido e aprovado pelo chefes de estado presentes na Rio+20.
terça-feira, 19 de junho de 2012

O Greenpeace acredita que não há mais chances de se conseguir progressos, ainda que pequenos. A única questão que ainda poderia oferecer uma esperança de avanço, o texto sobre oceanos, foi atacada.
Segue a declaração de Kumi Naidoo, diretor-executivo do Greenpeace Internacional a respeito do Rascunho Zero:
"A Rio+20 se transformou em um fracasso épico. A conferência falhou em termos de equidade, de ecologia e de economia. Prometeram-nos 'o futuro que queremos', mas agora seremos unicamente uma máquina poluidora que vai cozinhar o planeta, esvaziar os oceanos e destruir as florestas tropicais.
Este não é um alicerce sobre o qual faremos economias cresceram ou com o qual conseguimos retirar pessoas da pobreza. É a última vontade e testemunho do modelo de desenvolvimento destrutivo do século 20.
A única coisa sensata que estava na mesa de negociações até ontem à noite foi o lançamento de um Plano de Resgate dos Oceanos para as águas em alto mar. Mas isso também foi derrubado pelos Estados Unidos, Canadá, Rússia e Venezuela, que querem explorar os mares visando o lucro privado, apoiados na impunidade e na extinção dos recursos que pertencem a toda a humanidade.”
Os líderes mundiais começam a chegar ao Rio hoje e precisamos perguntar o por quê. Nos prometeram uma economia verde, o futuro que queremos, mas tudo o que vislumbramos são três dias mais de Greenwash.
Do G20 à Rio+20, esta não é uma boa semana para o planeta. Enquanto bilhões são gastos para salvar os bancos e outros bilhões mais para subsidiar a indústria dos combustíveis fosseis, está claro qual é a agenda que nossos líderes estão seguindo, a dos negócios das companhias poluidoras.”

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Vinte anos depois, marchando para trás



Postado por Leonardo Medeiros - GREENPEACE BRASIL
Vinte anos depois da Eco-92, a histórica conferência de meio ambiente da ONU (Organização das Nações Unidas), a constatação é que a atual agenda política brasileira vai na marcha ré.
Esta foi a opinião expressa por ambientalistas reunidos na manhã deste sábado na tenda do IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade) na Cúpula dos Povos – conferência paralela à Rio+20, organizada pela sociedade civil ao longo do aterro do Flamengo, na capital fluminense.
Contando com a participação, entre outros, do Greenpeace, do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Imazon e ISA (Instituto Socioambiental), os participantes concordaram que o novo Código Florestal foi apenas o início do retrocesso que setores conservadores do Congresso querem implementar – tudo com a chancela do governo.
“O governo brasileiro não apenas está se omitindo do debate para aprimorar a legislação ambiental e a governança, mas houve uma regressão”, avalia João Paulo Capobianco, do IDS. Para exemplificar seu argumento, além do massacre do Código Florestal, ele cita a Lei Complementar 140, que esvaziou as atribuições do Conama (Conselho Nacional de Meio Ambiente) e reduziu o poder de fiscalização do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis). “Infelizmente, esse grave retrocesso está apenas começando.”
Esse movimento anti-ambiental, entretanto, se choca com os desejos da sociedade civil. “Oitenta por cento da população foi contrária ao novo Código Florestal, mas 80% do Congresso Nacional votou favorável”, disse Osvaldo Stella, do Ipam. “Existe uma ruptura entre o que o Congresso faz e o que a sociedade espera.”
Segundo Nilo D’Ávila, coordenador de  políticas públicas do Greenpeace, a  solução possível para este impasse é o fortalecimento da sociedade civil.
“Na conferência da Rio+20, o Greenpeace abandonou o diálogo com o governo porque este governo não dialoga”, disse D’Ávila. Pedimos que as ONGs façam o mesmo e venham para a Cúpula dos Povos. O verdadeiro diálogo está aqui."