segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Servidor da FUNAI preso e torturado em Colíder pelos Kayapós



Analisando as repercussões na imprensa a respeito dos Kayapós e do caso de maus-tratos do Manoel, resolvi tecer algumas considerações que considero relevantes. Essa análise se faz necessária, uma vez que o caso reacendeu uma velha e preconceituosa disputa, eu diria, territorial e política entre indígenas e a população que se considera "branca"! O branco, segundo a física, é a ausência de cor, uma vez que todas as cores deixam de existir para, juntas,  formarem a percepção primária de luz. Isso deveria ser inspirador, pois cada cor, individualmente, abre mão de sua presença para se misturar no cadinho da iluminação!

Por que os "brancos" se sentem prejudicados pela ocupação da Amazônia pelos indígenas, se cada território resgatado dos índios acaba por se transformar em plantações de soja, de milho, da algodão, de cana de açúcar, ou de brachiaria, comida para o gado criado extensivamente no que antes era uma bela, diversificada e equilibrada floresta? Observe-se que a ocupação "branca" da Amazônia começou no período militar, quando eles (os generais) julgaram que deixar a floresta intocada seria entregá-la a qualquer nação que a invadisse, o que não deixa de ser possível. Por isso, aceleraram a construção da Transamazônica, talvez o marco mais expressivo da destruição das florestas brasileiras.

Mas esse, certamente, não foi o começo, ao menos para os indígenas. Já com a chegada dos portugueses, cuja missão era criar uma colônia produtiva, a escassez de mão de obra os levou a perseguir os nativos e escravizá-los, seja para trabalhos domésticos, seja para a lavoura; mas esse escravismo não se deu sem lutas e sem mortes. Foram muitas, dezenas de milhares, depois centenas, decorrentes da reação própria dos escravizados, lutando por seu legítimo direito à liberdade, ou em função dos efeitos de contaminação de populações inteiras, dizimadas pelas doenças trazidas pelos "civilizados". 

Não satisfeitos com a violência física, trouxeram também a doença moral, espiritual da fé cristã, que deveria ser imposta aos nativos, em detrimento de suas próprias crenças, de sua própria religiosidade; as crianças eram "evangelizadas", enquanto que os adultos eram proibidos de cultuar suas próprias divindades e antepassados. Essa violência intelectual causou, talvez, maiores danos aos nativos do que a violência física, contra a qual, ainda que em situação de inferioridade, poderiam lutar; e o fizeram, à custa de muitas mortes.

Mas os índios não foram vistos apenas como tração animal: eram um potencial mercado consumidor para um invasor que transformava seus territórios em plantações de cana de açúcar e traziam especiarias e quinquilharias que se tornavam instrumentos de barganha por trabalhos realizados pelos índios. Estes também podiam ser seus fornecedores de produtos agrícolas, como a mandioca e o próprio milho, ou de caça e pesca, muito apreciada pelos dominadores "brancos". De onde surgiu a afirmação de que os indígenas eram "vermelhos"? Talvez de conceitos importados da América do Norte, talvez do pigmento vermelho que cobria sua pele em festas folclóricas, em rituais e na preparação para a guerra.

Durante cinco séculos os "brancos" avançaram sobre as terras indígenas, deixando-os cada vez mais acuados e empobrecidos. Sim, porque quem vive da coleta, da caça, da pesca e de pequenas roças cultivadas não pode se dar ao "luxo" de pertencer à terra e dela não se desfazer nunca, como o fazem os "brancos". Os indígenas eram essencialmente nômades, e com a perda de territórios, a caça, a pesca e a coleta de frutos e sementes se tornava cada vez mais difícil, o que os levou à pobreza, situação que nunca viveram antes da colonização.

Hoje, mesmo com vasto território demarcado, os indígenas sofrem de desnutrição provocada pela alimentação pobre em nutrientes, principalmente proteína animal, e suas terras são florestas, que tradicionalmente eram intocadas, por serem a morada dos espíritos de antepassados, e por serem seus preferenciais locais de caça e coleta. Mas isso não é toda história, pois as igrejas continuaram a violentar a moral indígenas, criando a "culpa" pelos "pecados" que cometiam ao fornicar com suas mulheres diante de crianças e de outras famílias. Foi assim que a igreja acabou com um dos pilares da sociedade indígena: a moradia coletiva, em alguns lugares conhecida como "maloca", representação maior de suas crenças e de seu universo onírico, alimentada por plantas alucinógenas.

Quando uma reação agressiva como essa, a um servidor da FUNAI, atinge a mídia, ninguém traz uma explicação plausível à nossa lógica cartesiana, das causas da revolta "irracional". Em nossa fúria vingativa, despertamos nossos sentimentos mais sórdidos de preconceitos raciais e disparamos nossa metralhadora verbal, acusando-os de facínoras, de primitivos, de animais (como se os animais fossem detestáveis!) e, esquecendo-nos de toda herança de maus-tratos, ainda dizemos que eles são preguiçosos e hipócritas pois, ao mesmo tempo em que pleiteiam grandes territórios, cada vez mais se aproximam de nosso modo de produção e de consumo capitalista. Essa é uma visão pobre e insustentável, pois não podemos, neste momento da cultura indígena, equipará-los à nossa "civilização".

Mas, pior do que isso, é nossa fraca memória quanto à própria história da "civilização branca e ocidental". Vale lembrar que quando Colombo chegava ao continente americano, seguido de perto por Cabral, a Europa havia recém-saído do período mais negro de sua história, marcado pelas guerras de formação dos estados independentes, pela "Santa Inquisição", pelas Cruzadas  e pelas guerras de conquista que expandiram as fronteiras dos reinos à custa de milhares de mortes; também nesse momento histórico mal acabara o pior surto de pestes e epidemias na Europa, causadas pela falta de higiene e pelos hábitos nada santificados desses fundadores da "Civilização Ocidental"!

Se não bastar a lembrança histórica, vale trazer à memória fatos mais próximos a nós, como a dos "jovens assassinos", filhos de pessoas da "elite social" de Brasília, que mataram, incendiado, um indígena que dormia no centro da cidade; sem motivo algum! Basta acompanhar o noticiário local, nacional, internacional e ver que nossa tão cultuada civilização não possui parâmetros para julgar os índios, não possui moral para avaliar seus atos!

Vejamos algumas das manchetes de hoje nos jornais:

Atirador em escola dos EUA deixa 1 morto e 4 feridos
Mãe de Eloá diz que não perdoa Lindemberg
Polícia investiga motociclista com 100 mil pontos na CNH em SP
Menino tenta separar briga do pai e é morto
Estou chateada, diz mãe de vítima de jet ski
Dois serão indiciados pela morte de casal asfixiado em chalé
Morre morador de rua que teve 63% do corpo queimado enquanto dormia

Será que nossa sociedade tem "moral" para criticar um ato de agressão desses indígenas? Eu tenho minhas dúvidas... mesmo condenando essa violência, prefiro contextualizar a atitude dos indígenas como um comportamento de desespero diante de situações que os órgãos responsáveis deveriam enfrentar e resolver, e nada fazem. A FUNAI e seu antecessor, o Serviço de Proteção aos Índios, já têm 100 anos de existência e até hoje não existe uma política estabilizada para lidar com os índios. Isso pela simples razão de que não se pode tratar todos os indígenas de todas as etnias de todas as terras indígenas do país como se fossem iguais, como se tivessem as mesmas demandas, as mesmas crenças...

Antes de julgar os nossos povos tradicionais precisamos compreendê-los, respeitar seus costumes e suas tradições, e extirpar as nossas crenças a eles impostas durante tantos séculos! Enquanto houver tribos (ou aldeias) abandonadas pela política indigenista estaremos falhando em nossa missão de preservar essas culturas milenares que muito têm a nos ensinar sobre convívio humano e de preservação do meio ambiente...
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